Living Louder

Um bate-papo com as mentes criativas do power trio Living Louder, um dos melhores nomes do bom e velho rock’n’roll (vintage) feito no Brasil

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Living Louder

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

O revival do rock’n’roll dos anos 70 ganhou força nos últimos anos, e um sem-número de bandas vem fazendo a alegria daqueles que cresceram sob o som do classic rock e, mais do que isso, dando a uma nova geração a oportunidade de descobrir os grandes nomes do passado – e de continuar ouvindo música de alto nível. Mas a nova turma responsável por trazer à tona aquela sonoridade não está concentrada apenas nos Estados Unidos e, principalmente, na Europa. Tem coisa muito boa sendo feita aqui no Brasil, e um dos expoentes desse resgate em território nacional é o Living Louder. Formado em 2016 por Ricardo Cagliari (guitarra e vocal), Eduardo Assef (baixo) e Gustavo Gomes (bateria), o power trio já colocou dois discos na praça: o de estreia, homônimo, em 2017, e o mais recente, Corsair, em 2018 – este, diga-se, é um dos trabalhos lançados ano passado que você tem a obrigação de conferir (clique aqui para ler a resenha). Para falar sobre o novo álbum, a trajetória até aqui e outras coisas mais, conversei com os três músicos, então abra a cerveja, coloque o som para rolar (os CDs estão disponíveis nas plataformas de streaming) e curta o papo!

O Living Louder é uma banda ainda bem jovem, que vai completar o terceiro ano de vida em maio deste ano, então podemos começar falando sobre o que uniu vocês três para montar a banda. E como foi…
Ricardo Caglieri: Acabamos nos unindo por intermédio do Franco Mattos, um amigo em comum, também músico, com quem cada um de nós conviveu em diferentes épocas de nossas vidas. A afinidade foi instantânea, tanto pessoal quanto musical. Resolvemos nos reunir e fazer uns sons para sentir como seria a química, então vimos que não poderia ser melhor. Imediatamente passamos a compor o material que, alguns meses depois, viria a fazer parte do nosso primeiro disco.
Gustavo Gomes: Foi tudo, de fato, muito espontâneo e empolgante, e é esse entusiasmo genuíno que buscamos transmitir ao ouvinte. É importante dizer que, embora a banda seja nova, somos todos músicos experientes, cada um com pelo menos três décadas na música, então são muitas influências depuradas e plasmadas neste som original, que vem sendo muito bem recebido mundo afora.
Eduardo Assef: É tudo realmente recente, e os resultados são muito positivos, felizmente, impulsionados pelo objetivo comum de fazer algo muito próximo daquilo que crescemos ouvindo.

E tem o nome da banda. Em inglês e mesmo traduzido para o português, ele tem um sentimento bem rock’n’roll, afinal, é assim que se deve viver e ouvir a música. Mas qual o significado para vocês?
Ricardo: Exatamente o que você mencionou! O recado da banda é esse: ‘play it loud!’ Toque no talo, escute no talo e viva no talo! O morno nos faz vomitar.
Gustavo: Batizar é a parte mais difícil de formar uma banda, não? (risos). Mas você captou perfeitamente a ideia, pois queríamos um nome forte e sonoro, que passasse a sensação de rock’n’roll tocado alto e vivido 24 horas por dia. Afinal, para que procurar definir um estilo em termos de gênero e subgênero se no fundo, como bem resumia o saudoso Lemmy, ‘we play rock’n’roll’?
Eduardo: E é tocar como se cada ‘gig’ fosse a última, fazer um rock’n’roll sincero, sem pasteurização ou artifícios tecnológicos. Tudo no melhor estilo ‘plug & play’.


Há outra coisa que acredito tenha sido bem pensada logo na fase embrionária, o fato de o Living Louder ser um power trio. É isso mesmo?
Ricardo: Aí há três questões envolvidas. Primeiramente, a conexão entre nós três foi tão rápida e produtiva que nem sentimos necessidade de mais um integrante. Segundo, é melhor em termos pragmáticos, mais simples de administrar ideias e obter resoluções a respeito de todas as questões artísticas e empresariais. E isso, no nosso caso, acontece sempre em consenso. Por fim, temos um especial carinho por power trios, como Cream, Motörhead e Gov’t Mule do inicio da carreira.
Gustavo: Foi realmente um misto de coincidência com gosto pessoal, pois nos reunimos fortuitamente, e com a capacidade do Ricardo de também cantar, além de tocar guitarra, a banda estava completa. Isso foi ao encontro do nosso gosto por formações compactas e poderosas, a exemplo de ídolos como Jimi Hendrix, Cream, Rush e tantos outros dos anos 60 e 70, nas quais há espaço para o músico desenvolver sua expressividade e buscar preencher as lacunas. O trabalho é dobrado e desafiador, mas o resultado compensa.
Eduardo: Como bem apontado pelo Ricardo, a coisa fluiu tão bem que não sentimos necessidade de incorporar mais integrantes à banda. Além disso, como mencionado pelo Gustavo, esse formato nos remete a grandes ídolos como Cream e Rush.

A sonoridade do Living Louder é calcada naquele heavy rock clássico, mas o mais interessante é que se trata de uma união de diferentes influências pessoais, certo?
Ricardo: Sem dúvida. Há tantas influências que eu nem conseguiria elencar. Eu e Gustavo sempre fomos, desde garotos, mais ligados ao metal, mas também apreciamos bastante diversos outros gêneros musicais. O Edu já é um cara que tem toda a sua formação diretamente calcada no soul, no jazz e no blues, embora também curta rock. Os artistas que nos informam e nos inspiram, dentro de cada um desses gêneros, são inúmeros.
Gustavo: Temos backgrounds distintos, mas todos estudamos música e somos bastante ecléticos, ouvindo desde música clássica até jazz e muito blues. No entanto, acabou sendo no terreno das bandas clássicas dos anos 70, como Allman Brothers Band, Lynyrd Skynyrd, Black Sabbath, Deep Purple, Motörhead et cetera, que se deu a liga de nossas composições. E de maneira bem espontânea, unindo o southern rock americano ao heavy rock britânico. Foi, portanto, com grata surpresa que algum tempo depois notamos que se tornou uma verdadeira onda mundial o revival desse estilo visceral e cru, mas energético e extremamente bem tocado, daquela década, como comprovam bandas como Blues Pills, Vintage Caravan, Graveyard, Lucifer, Kadavar, Willow Child e muitas outras. É um estilo “orgânico”, como dizem hoje em dia.
Eduardo: Exatamente. Penso que esse seja um dos nossos principais ingredientes e um grande diferencial. Cada um de nós tem as suas bandas de cabeceira, mas há um ponto de convergência bastante claro, que é a paixão pela sonoridade dos anos 70 das grandes bandas de heavy rock. Talvez por esse motivo tenhamos optado pelo formato trio que você mencionou na pergunta anterior.


Eu fico imaginando o quão interessante deve ser para vocês três se juntar para compor. Como cada um absorve a influência do outro? Até mesmo em termos de aprendizado, de expandir os horizontes musicais…
Ricardo: Influenciamo-nos mutuamente muito mais do que se possa imaginar. Moramos em cidades diferentes, porque Edu e Gustavo estão em São Paulo, e eu, em Londrina, mas nos falamos diariamente, varias vezes ao dia, e na maior parte das vezes nem é diretamente sobre o Living Louder. Trocamos ideias sobre bandas, músicas, literatura e artes em geral. Um sempre aponta para o outro alguma obra, musical ou não, que acha muito bacana e que merece ser apreciada com carinho. E sempre somos muito francos sobre como gostaríamos de moldar nosso som. Nessa dinâmica, invariavelmente os gostos de cada um acabam influenciando os demais, e isso se reflete imediatamente no processo de composição, no qual as preferências pessoais de cada um são respeitadas e levadas em conta, sendo ajustadas à natureza do som que queremos tocar, obviamente.
Gustavo: Toda a experiência de criação é extremamente prazerosa para nós, é o que mais nos motiva. Mas, por incrível que pareça, nosso processo de composição se dá a distância, porque moramos em cidades diferentes e, sobretudo em razão de nossos diversos compromissos, é difícil nos encontrarmos pessoalmente com grande frequência. A tecnologia, definitivamente, é uma grande aliada, com a troca de arquivos que resultam, sempre com grande rapidez, em novas músicas. Mas é importante frisar que nunca deixamos a facilidade da tecnologia matar a vitalidade e a espontaneidade das nossas criações. O mais importante é que a música tem de ser cativante, boa para colocar alto no som do carro e conduzir o ouvinte a territórios antes inexplorados.

Vamos falar um pouco de Corsair, e gostaria de começar pela ótima produção. É um dos pontos mais fortes da evolução da banda, principalmente levando em consideração que o novo álbum saiu um ano depois do trabalho de estreia.
Ricardo: De fato, foi algo completamente diferente do que tivemos no primeiro disco. Gostamos da produção de Living Louder, e o Thiago Bianchi, responsável pelo trabalho, dispensa qualquer tipo de apresentação. Mas tínhamos muito bem definido em nossas cabeças como deveria soar um álbum do Living Louder, e esse foi um ponto importantíssimo. Saber onde se quer chegar é fundamental. Sabíamos que o que queríamos seria muito difícil de obter com alguém fora da banda nos produzindo, seja em razão dos custos altíssimos envolvidos, seja porque provavelmente não conseguiríamos nos fazer entender quanto ao que tínhamos em mente. Decidimos, então, encarar a épica tarefa por nós mesmos. Gustavo, que é um grande curioso e estudioso de engenharia de som, ficou naturalmente encarregado do assunto. Era seu primeiro trabalho nessa condição, e isso sem dúvida gerou muita pressão nele. Por outro lado, usufruímos de uma liberdade sem igual para podermos refazer as coisas quantas vezes fossem necessárias até que tudo ficasse do nosso gosto. Gastamos o fim de 2017 e quase 2018 inteiro envolvidos nesse processo, mas o resultado final não poderia ter sido mais satisfatório para nós. Gustavo fez um trabalho fantástico dando ao álbum uma sonoridade extremamente fiel à que levamos ao vivo.
Gustavo: Fico particularmente feliz com essas generosas palavras, porque, de fato, tomei as rédeas da produção em Corsair, pois sabíamos exatamente o que queríamos, tanto em termos de clima, composição e sonoridade como até de visual. O Ricardo assina também os desenhos do encarte, e eu, o design gráfico, valendo destacar que a arte da capa foi elaborada a partir de trecho de uma magnífica pintura a óleo do artista Ricardo Colombera. Tudo deveria se encaixar e transmitir, com unidade, a sonoridade crua, vintage e, ao mesmo tempo, as composições mais refinadas da banda nesta fase. Elas são repletas de dobros, slides, coros, solos, efeitos e arranjos bastante pensados, fruto de muita pesquisa sonora por parte do Ricardo e do Edu. Pela excelente repercussão, acho que conseguimos. Estamos muito felizes com o resultado.
Eduardo: Como já tivemos oportunidade de expressar em alguns veículos, não poderíamos estar mais satisfeitos com o resultado da produção de Corsair. Gustavo fez um trabalho primoroso tanto com as baquetas quanto como encarregando da produção do álbum. Essa experiência de ter a produção do disco capitaneada por um dos membros da banda foi determinante para alcançarmos o resultado que tínhamos em nossas cabeças.


Aliás, permitam-me dizer: aquela sonoridade orgânica ficaria ainda melhor vinil, caso exista a chance de trabalhar no formato analógico. Até a capa seria enriquecida no tamanho do LP. Estou soando com um velho aqui, apesar de não ser tanto assim, mas há planos para isso?
Ricardo: Sem dúvida nenhuma! E para ser bem sincero, toda a concepção artística do álbum, musical e gráfica, foi feita pensando no formato vinil.
Gustavo: Você tem toda razão! E pensamos mesmo em tudo como se estivéssemos literalmente gravando um disco nos anos 70, destinado ao vinil. É por ora um sonho, mas temos planos nesse sentido. Pena que hoje em dia se consome música majoritariamente no formato digital, péssimo em qualidade sonora e visual, e até mesmo o CD está sofrendo. Imagine, então, viabilizar uma tiragem mínima de algumas centenas de vinis, com custo unitário muitas vezes elevado para o consumidor final, que talvez nem tenha o toca-discos em casa. Mas o vinil está voltando e ganhando tração, assim como o som dos anos 70, e temos inclusive recebido muito incentivo dos fãs para lançar o disco nesse formato, então estamos estudando neste momento a possibilidade de lançar o Corsair também em vinil num futuro próximo.
Eduardo: E não há nada de velho nessa sua observação. Essa sempre foi a nossa vontade, mas os custos para lançarmos em vinil são um tanto elevados. Talvez esse sonho se concretize mais adiante.

E não foi apenas a produção uma agradável novidade. O básico do bom e velho rock’n’roll continua presente, como os riffs de guitarra bem construídos, por exemplo, mas as músicas ganharam muito groove, o que ressaltou o trabalho de baixo e bateria. Como foi essa virada de chave de um disco para o outro?
Ricardo: Nosso primeiro disco foi composto e gravado com extrema rapidez, porque sentíamos a necessidade de nos inserirmos no circuito o quanto antes. Embora gostemos muito das primeiras composições, estávamos cientes de que poderíamos avançar ainda mais em termos de arranjo. Quando se iniciou o processo de composição das novas músicas, pudemos nos debruçar com mais calma sobre cada uma delas de modo a dar-lhes a exata feição que queríamos. Acrescentamos groove, melodia e agressividade necessários para que sentíssemos vontade de ouvi-las muitas e muitas vezes depois de prontas. E nosso objetivo, de fato, é fazer com que a cada audição você bata o pé acompanhando o ritmo de cada compasso, que faça cara de quem acabou de dar o primeiro gole de uísque depois de um dia de trabalho duro.
Gustavo: Como temos dito no release do Corsair, ele representa a banda com muito mais “groove e fúria”. Trata-se de um amadurecimento natural da banda e da forma de compor dos integrantes, algo bem espontâneo, mas muito consciente. Desta vez, a produção permitiu salientar mais o baixo, por exemplo, um destaque não muito comum em bandas de rock, principalmente as mainstream. A qualidade das linhas de baixo do Edu e os timbres refinados que ele extrai do instrumento, isso tudo associado a uma divisão bastante incomum e um suingue próprio que sempre procuro incorporar nas minhas partes de bateria, sobretudo neste álbum, se mostraram realmente um ponto de inflexão em relação ao primeiro disco. Isso compôs um todo bem harmonioso com as guitarras sempre fortes e sofisticadas do Ricardo, assim como os vocais, muito mais encorpados e harmonizados agora.
Eduardo: É outro ganho da produção do Gustavo. Neste álbum, talvez tivemos a oportunidade de expressar ainda mais as nossas inclinações como músicos. As composições de Corsair abriram mais espaço para um trabalho de baixo e bateria com muito mais groove e liberdade, algo que sempre deixa o pessoal da cozinha muito feliz.

Particularmente, esse groove realmente me pegou, porque é algo muito presente numa das minhas bandas favoritas, o Grand Funk. Vocês chegaram a buscar alguma inspiração específica para canções como An Ace Up My Sleeve, Raw Meat e Shoot to Kill Me?
Ricardo: Grand Funk é mais uma de nossas influências. Mas eu diria que, para An Ace Up My Sleeve e Raw Meat, a inspiração mais direta veio de Gov’t Mule e Allman Brothers. Shoot to Kill Me acaba sendo um apanhado de influências da New Wave of British Heavy Metal e também do Motörhead, bastante evidente nas partes mais rápidas.

Gustavo Gomes, Eduardo Assef e Ricardo Cagliari


A propósito, An Ace Up My Sleeve e Raw Meat nasceram para ser tocadas ao vivo, porque têm espaço ideal para jams em cima do palco. A primeira com uma extensão do duelo entre guitarra e baixo, e fico imaginando a segunda com um solo mais longo enquanto a cozinha enlouquece e sai aprontando…
Ricardo: Exatamente! Nao é à toa que a grande inspiração para elas foram os primeiros trabalhos do Gov’t Mule, uma das melhores ‘jam bands’ do planeta. Mais uma vez você captou com precisão o espírito de nossa música!
Eduardo: Sugestão anotada para extensão do duelo entre guitarra e baixo ao vivo! Diversão garantida.

Apesar de o ouvido às vezes pregar peças, eu tenho mania de ficar buscando referências nas músicas, e não pejorativamente. Assim, gostaria de colocar algumas que estão na resenha do CD para vocês comentarem e, se for o caso, cornetarem mesmo. A começar por Corsair, que tem algo de Led Zeppelin.
Ricardo: Led Zeppelin, Tower of Power e até Rage Against the Machine! Essa música ganhou um groove e uma linha de riffs bem marcantes para que ficasse agressiva e surpreendente na medida certa. Feita para ferver o sangue, é a trilha sonora perfeita da própria letra.
Gustavo: Para mim, em termos rítmicos, o início de Corsair soa como algo cajun vindo direto dos pântanos da Louisiana. Temos o comecinho suingado à la The Meters, que vai encorpando e deixando a música pesada até culminar, mais para o fim, num um groove de dois bumbos de inspiração meio math metal de bandas como Meshuggah. Tudo adaptado, claro, ao contexto mais grooveado e rock’n’roll que a música pedia.

Em seguida, cito Deliver Us from Evil, por causa do Black Sabbath.
Ricardo: A música fala de alguém que vive em crime de sangue, mas sem abrir mão da fachada de bom moço. A aura sabática vem principalmente na segunda metade e, sem dúvida, foi a grande referência para que pudéssemos pintar todo o drama da letra com as cores mais berrantes possíveis.
Gustavo: Esta é uma das minhas preferidas. De fato, e você sacou bem!, o começo meio arrastado e o fim mais cavalgado e pesado evocam muito a sonoridade do Black Sabbath, que, aliás, é minha banda preferida de todos os tempos.

A penúltima é My Private Wallontown, porque ou eu imaginei coisas ou ela tem um pouco de Na Na Hey Hey Kiss Him Goodbye, do Steam, e Layla, do Derek and the Dominos, logo no início.
Ricardo: Eric Clapton é, sem dúvida, uma de minhas maiores influências, especialmente na época do Cream. De minha parte, acho que essa música tem um ar meio anos 90, me lembra de algo do Alice in Chains. Realmente não foi intencional, simplesmente acabou soando assim ao término da gravação, ao menos para meus ouvidos. Provavelmente em razão da afinação bem baixa e do refrão.


Para terminar, Running Errands With Mr. D, uma das minhas favoritas. Na verdade, a minha canção favorita do Living Louder, porque o instrumental, o groove, as melodias vocais, especialmente a final… O casamento musical é perfeito, e talvez eu tenha dado mais corda à imaginação ao ouvir algo de Primus e Metallica.
Ricardo: Também é a minha favorita. Outro apanhado de influências, incluindo essas que você citou, e neste caso eu incluo o Helmet, uma de minhas bandas favoritas. Page Hamilton explora acordes que sempre me soaram muito expressivos. Essa música começou a ser desenhada antes do nosso primeiro disco. Edu apareceu com uma letra fantástica e com esse título misterioso, sugerindo que pensássemos em algo mais declamado do que cantado. Foi um desafio criar algo exótico o suficiente para casar com esses conceitos, mas no fim acho que conseguimos. Há até uma pitada meio thrash no fim, para dar o necessário toque de ecletismo e brutalidade que o som pedia.
Gustavo: Que bom que você a curtiu tanto quanto nós! Essa também é uma das prediletas da banda, e nem sempre o ouvinte tem todas essas referências, então pode estranhar num primeiro momento, pois ela realmente bebe em todas as influências da banda, compondo um arco musical que vai desde o classic rock, o funk, o prog, o hard e o heavy até o thrash metal no fim. Então, sim, você captou muito bem as referências, e as bandas que você citou definitivamente estão dentro do contexto.

Com pouco mais de dois anos de estrada, o Living Louder já lançou dois discos. Ambos independentes, mas num esquema bastante profissional que também vai das redes sociais a videoclipes bem produzidos. A internet proporciona essa facilidade, mas quais as vantagens e desvantagens de controlar tudo isso vocês mesmos?
Ricardo: A vantagem, sem dúvida, é ter o controle absoluto do processo criativo e do produto final sem qualquer tipo de influencia externa, facilitando ao máximo nossa satisfação plena. A desvantagem, obviamente, fica por conta da necessidade de você ser obrigado a carregar o piano sozinho, e isso, num pais onde a cultura é precária, pode ser um fardo por vezes insuportável. Mas, como você bem frisou, a banda ainda é nova, então quem sabe o que o futuro nos reserva?
Gustavo: A grande vantagem é mesmo a liberdade criativa e a possibilidade de entregar, ao público final, algo que esteja o mais próximo possível do objetivo expressivo do artista, coisa que antes era uma quimera, quando as gravadoras controlavam todo o processo produtivo de um disco e de sua divulgação. Por outro lado, isso é extremamente cansativo e oneroso, correndo pela banda todos os esforços e despesas. Por essa razão, não descartamos no futuro, se a liberdade for mantida e a proposta for interessante, lançar discos por meio de um selo, sobretudo para expandir a distribuição física de nosso material. Porque a digital já é de âmbito mundial.
Eduardo: É um esquema muito mais trabalhoso, sem dúvida. Pensando no lado das vantagens, certamente a maior delas é a liberdade artística que possuímos, o que nos deixa cada vez mais autocríticos.

O site do grupo, por exemplo, é preciso nas informações para quem quer conhecer o trabalho, e há também uma louvável preocupação com o mercado internacional, com um público em potencial que pode descobrir o Living Louder. Quais os resultados até o momento?
Gustavo: Muito obrigado pela sua avaliação. De fato, nos preocupamos muito com a comunicação da banda e em atender os fãs com informações precisas, atuais e, sobretudo, bacanas. O mesmo se dá com o material gráfico e audiovisual. O resultado desse esforço já é bastante visível, tanto em termos da divulgação da banda na mídia impressa e virtual quanto na extensiva veiculação de nossas músicas e videoclipes em rádios, webradios, blogs, sites e canais de rock e metal de todo o mundo, como por exemplo dos EUA, Alemanha, Portugal e Inglaterra.
Eduardo: Há muita preocupação com o mercado internacional, pois há países em que o rock ainda tem bom espaço. Nossas músicas chegaram a ser tocadas em rádios na Alemanha e nos EUA, e temos recebido bastante contato de fãs de países como Polônia, França e Espanha. Isso nos deixa extremamente satisfeitos!

Eduardo Assef, Gustavo Gomes e Ricardo Cagliari


Dito tudo isso, é muito claro que há talento e potencial de sobra. Então, o que falta para o Living Louder romper a barreira especializada no Brasil? Porque sabemos como isso é difícil num país onde existe uma aversão explícita, de grande público e grande mídia, a artistas direta ou indiretamente ligados ao som mais pesado…
Ricardo: Muito obrigado! Penso que ainda falta o despertar da curiosidade das pessoas. Não há duvida de que, para isso acontecer, sua música deve ser absolutamente surpreendente, e sua imagem e marca devem se tornar mais conhecidas possíveis. Realizar esses dois feitos, todavia, acaba sendo tarefa para poucos, em especial por conta das adversidades que você citou, mas sou convicto de que temos os elementos certos para isso, bastando-nos muito trabalho e paciência.
Gustavo: Nós todos, que batalhamos pela música de qualidade, sofremos com a banalização da vulgaridade neste país, de norte a sul, de leste a oeste. É preciso ter repertório, bagagem intelectual para compreender um som que não é aquele que toca no Faustão, não aparece na Veja e tampouco toca em micareta ou baile funk. Mas a boa música, principalmente no que tange ao rock e ao metal, sempre foi em alguma medida underground. Mesmo o jazz sempre foi de nicho e sempre sobreviveu de alguma forma, principalmente com o apoio fundamental de jornalistas e curadores experientes, como você no Resenhando e de veículos perseverantes como a Roadie Crew. Como já ouvi de um grande produtor, ganhador de Grammy, o rock vai voltar com tudo, e já estão as camisetas do Slayer nos peitos das Kardashians aí para provar! (risos) Por mais bizarro que seja, isso mostra a força icônica que a música pesada carrega, com todo o seu impacto cultural. “Prestigiem as bandas, vá aos shows!” é o mantra que falta ser entoado com mais vigor.

Para terminar, duas perguntas em uma: a viagem mal começou, mas como tem sido até agora? E quais os próximos passos do Living Louder?
Gustavo: ‘What a ride’! Não há nada melhor do que compor músicas poderosas, nas quais acreditamos, e ser reconhecido por isso. Tudo tem sido ótimo, e o melhor está por vir! Estamos na fase de divulgação do Corsair, com shows em diversas cidades, mas em muito breve já voltaremos a compor, pois o estoque de riffs já está explodindo a gaveta! (risos)
Eduardo: O famoso ‘so far so good’ se aplica em nossa trajetória. Ainda temos muito chão pela frente e muita lenha para queimar.

Obrigado pela entrevista, e o espaço final é todo de vocês.
Ricardo: Nós agradecemos muito esse imenso apoio! Estamos em todas as plataformas digitais, portanto, ouçam-nos urgentemente! E também comprem nossos CDs! Estão à venda na Die Hard, então é só entrar no site e buscar! Por fim, acompanhem-nos nas redes sociais e fiquem ligados em nossa agenda de shows. Vocês não vão se arrepender de conferir a energia da banda ao vivo!
Gustavo: Muitíssimo obrigado a você! Suas análises detalhadas e considerações certeiras sobre a nossa banda e todas as demais, sempre excelentes, que recheiam o Resenhando têm sido um bálsamo para nós como músicos e consumidores de boa música. Parabéns. Sentimo-nos muito honrados. E muito obrigado também aos leitores e ouvintes, porque sem eles não somos nada. Entrem na nossa página no Facebook para saber mais e curtir um material sonoro e visual bacana. Grande abraço e até breve!
Eduardo: Muito obrigado, Daniel! Além das excelentes perguntas, nos deixa muito feliz o fato de você ter sacado muito bem a essência do nosso som! ‘The road goes on forever’!

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