Living Colour

Por Daniel Dutra | Fotos: Daniel Croce e Márcio Carreiro

A resenha do retorno do Living Colour ao Rio de Janeiro (e ao Circo Voador) poderia ser resumida em uma frase: a banda deveria tocar na cidade uma vez por mês. Exagero? Não para uma banda sem igual, que consegue fazer em cima do palco algo muito melhor do que já faz nos discos – são apenas sete trabalhos de estúdio em mais de 30 anos de carreira, todos acima da média, alguns que são verdadeiras obras-primas. E uma dessas joias foi a razão de o quarteto voltar à cidade outrora maravilhosa depois de uma década: Vivid, o álbum de estreia, lançado em 1988 – e sim, são dez anos, uma vez que, sejamos sinceros, o Rock in Rio de 2013 não conta. Lembre-se: um dos melhores e mais importantes grupos da história do rock foi (muito mal) escalado no Palco Sunset num dia de Ivete Sangalo, David Guetta e seu pendrive e Beyoncé.

Enfim, no entanto, Corey Glover (vocal), Vernon Reid (guitarra), Doug Wimbish (baixo) e Will Calhoun (bateria) levaram para os fãs carioca a Vivid 30th Anniversary Tour, com uma diferença em relação à turnê que começou no fim do ano passado, na Austrália: o disco foi realmente tocado da primeira à última faixa, o que Calhoun havia confirmado em entrevista realizada antes do giro pela América do Sul (clique aqui para ler o bate-papo com o batera). Mas foi com duas canções do disco mais recentes, Shade (2017), que os quatro iniciaram o espetáculo – e sem estardalhaço, diga-se: nada de introduções sonoras ou alguma bombástica entrada. Apenas os quatro chegando ao palco, um a um, para começar a despejar música da melhor qualidade. Curiosamente, foram dois dos três covers presentes no trabalho, o que ajudou a fortalecer o clima de contemplação da grande maioria que ajudou a lotar a famosa lona na Lapa. Preachin’ Blues, de Robert Johnson, foi anunciada pelos acordes de Reid antes de virar um ótimo (e obviamente mais pesado) blues elétrico, enquanto Who Shot Ya? mostrou uma forte e sempre presente faceta da banda.

Living Colour
Corey Glover em noite inspirada e irretocável no Rio de Janeiro


“Gostaria de dedicar essa música a Evaldo dos Santos Rosa e Marielle Franco”, disse o guitarrista, referindo-se ao músico negro fuzilado com mais de 80 tiros pelo Exército, que confundiu seu carro com um veículo usado por assaltantes, e à vereadora executada por milicianos em março de 2018 – os dois casos ocorridos no Rio de Janeiro. E fez todo sentido. Nas mãos do Living Colour, a visceral versão da controversa canção do rapper Notorious B.I.G., assassinado em 1997, aos 24 anos, virou um hino contra a política armamentista e a violência policial. Mas o show não foi panfletário, e nem precisaria. Quem acompanha o Living Colour além da música, prestando um mínimo atenção nas letras de mensagens nada subliminares, sabe muito bem que o grupo está do lado certo. Por isso mesmo, boa parte do público, ao fim da apresentação, lembrou-se com “carinho” do protofascista que (ainda) está presidente da República.

Mas aquela noite de quinta-feira era, no geral, uma celebração ao disco que colocou o Living Colour no mapa, então Cult of Personality começou a festa logo em seguida, incendiando de verdade pista e arquibancada. Foi lindo de ver a pista com os fãs cantando “I am the cult of” no fim, todos com os braços para cima acompanhando cada palavra da frase. O suficiente para arrancar um largo sorriso de Glover e Reid, que muitas vezes tinham de instigar a plateia, mas não aqueles que se mostraram fãs com as músicas na ponta da língua, uma vez que a participação era completamente voluntária. Foi o caso de I Want to Know, que, arrisco dizer, foi testemunhada ao vivo pela primeira vez por todos os presentes. Ou seja, um daqueles momentos em que saber o que viria pela frente não atrapalhou a empolgação.

Living Colour
Vernon Reid e Corey Glover: química e musicalidade acima de toda prova


Mas a verdade é que não importa quantas vezes você saiba que a música seguinte é Middle Man ou Desperate People, porque: (i) a performance de Glover na primeira é sempre especial (pesquise a razão da letra), assim como Calhoun brinca de tocar bateria; e (ii) você pode usar a segunda para exemplificar a genial musicalidade da banda. Aliás, musicalidade que faz de Open Letter (To a Landord) uma das coisas mais maravilhosas que você pode presenciar ao vivo, e a razão atende por Corey Glover, que sempre dá aula de técnica e, principalmente, feeling ao improvisar naquele início – e faça-se o registro: o vocalista esteve impecável durante todo o show. Improviso. Palavra-chave para descrever o arrasa-quarteirão que foi Funny Vibe, especialmente o começo, e o desfecho de tirar o fôlego em Memories Can’t Wait, cover do Talking Heads.

Se a belíssima Broken Hearts, que mostrou toda a elegância de Wimbish ao tocar as linhas de Muzz Skillings (e que som de baixo lindão!), causou quase o mesmo impacto de I Want to Know, Glamour Boys se juntou a Cult of Personality no quesito grande empolgação do público. Previsível, mas ainda assim bom demais soltar a voz em “I’m fierce” e acompanhar Glover e Reid na, digamos assim, coreografia que se seguiu à frase principal do refrão – fora o “Trinta anos! Trinta anos! Trinta anos e nosso crédito ainda não é bom”, zoação do vocalista no lugar da original “Whaddya mean my credit’s no good?”. Soltar a voz com vontade foi o que aconteceu ao responder a pergunta de What’s Your Favorite Color? (Theme Song), emendada de primeira com a avassaladora Which Way to America?. Acabava aí a comemoração dos 30 anos de uma das obras-primas do Living Colour, e como se fosse necessário um tempo para recuperar o fôlego, Calhoun mandou ver em momento solo.

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Ao fim do show, reverência do palco para a plateia. E vice-versa


Bom, é fato que, por mais extraordinário que seja o batera (e ele é mesmo um dos melhores do mundo), o solo poderia ter dado lugar a uma ou duas músicas. Ainda assim, tirando a meia dúzia de pessoas que talvez desconheçam a inquietude musical e percussiva de Calhoun, a tônica do momento foi de respeito e reverência (bom, o que ele fez foi impressionante, então…). Com todo mundo de volta ao palco, o coro da plateia foi por Elvis is Dead, mas o que veio a seguir foi Love Rears its Ugly Head, numa versão tão espetacular que não deu para acompanhar Glover, uma vez que o vocalista jogou fora a melodia vocal original e improvisou lindamente.

E sabe quando um show tem clímax? Pois bem, rolou Elvis is Dead numa performance tão matadora que colocou Reid pulando e fazendo luxuosos vocais de apoio – sem contar a inserção de Hound Dog, imortalizada pelo próprio Rei do Rock, com uma interpretação que mereceu até Glover imitando seus trejeitos rebolativos. A sequência? Type, claro, e com a quinta marcha engatada para passar por cima de cada alma presente no Circo Voador. Simplesmente demolidora, com um encerramento destruidor que fez a banda ser ovacionada pela casa, a ponto de Glover, com enorme sorriso no rosto, ficar olhando para os companheiros com aquela cara de “vamos tocar mais!”. Tinha Time’s Up, Wall, Ignorance is Bliss, Leave it Alone e um sem-número de outras pérolas, mas o show ficou por aí mesmo. Quer dizer, ficou nas 16 músicas executadas de maneira única num espetáculo irretocável e irresistível. Um espetáculo que não pode levar outros dez anos para acontecer no maltratado Rio de Janeiro.


Setlist
1. Preachin’ Blues
2. Who Shot Ya?
3. Cult of Personality
4. I Want to Know
5. Middle Man
6. Desperate People
7. Open Letter (To a Landlord)
8. Funny Vibe
9. Memories Can’t Wait
10. Broken Hearts
11. Glamour Boys
12. What’s Your Favorite Color? (Theme Song)
13. Which Way to America?
14. Will Calhoun Drum Solo
15. Love Rears its Ugly Head
16. Elvis is Dead
17. Type

Living Colour

Trinta (e um) anos depois do lançamento do primeiro álbum, Vivid, o Living Colour continua uma força sem igual. Durante todo esse tempo, o trabalho de Corey Glover (vocal), Vernon Reid (guitarra), Doug Wimbish (baixo) e Will Calhoun (bateria) continuou incomparável e intocável. São todos músicos extraordinários, sem dúvida, mas é a obra sem barreiras, num horizonte artístico ilimitado, que mantém a banda relevante num cenário que muda de humor a todo instante. Rumo ao Brasil pela oitava vez, pouco mais de um ano depois da última passagem, quando fez um solitário show em São Paulo, o Living Colour volta à capital paulista (dia 14 de junho), mas incluiu no roteiro o retorno ao Rio de Janeiro depois de dez anos. Um verdadeiro presente para os fãs cariocas, que receberão o grupo nova-iorquino mais uma vez no Circo Voador, dia 13 – vamos combinar que a apresentação no Palco Sunset do Rock in Rio em 2013 não conta, afinal, a banda foi muito mal escalada no mesmo dia de Ivete Sangalo, David Guetta e Beyoncé. E se a música do quarteto é única e formidável nos discos, em cima do palco ela ganha proporções ainda melhores. Para falar disso e mais um pouco, conversamos com Calhoun, então coloque o Vivid para rodar – sim, eles vão tocá-lo na íntegra! –, aproveite o papo e se prepare para os espetáculos.

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Vamos começar falando dos próximos shows no Brasil. O Living Colour esteve no país em 2018 para uma única apresentação em São Paulo, e agora há uma data no Rio de Janeiro, onde a banda não toca desde 2009… Quais são as expectativas?
Will Calhoun: Deixe-me começar agradecendo a você pela oportunidade de fazer essa entrevista. Amamos o Brasil e estivemos aí no ano passado, é verdade, mas estamos ansiosos por esses novos shows, para agradecer a todos os nossos fãs pelo apoio durante todos esses anos. É o trigésimo aniversário do Vivid, então montamos uma combinação interessante de músicas para essas apresentações.


É o que eu iria perguntar, porque andei olhando os setlists de shows recentes da Vivid 30th Anniversary Tour, mas a banda não está tocando o álbum na íntegra…
Will:
Mas agora planejamos tocar algumas canções de discos variados e também o Vivid da primeira à última faixa. Queremos dar aos brasileiros um show de aniversário realmente fantástico, com músicas variadas (N.R.: o Living Colour realmente tocou as 11 faixas do disco de estreia na primeira noite da turnê sul-americana, em Santiago, no Chile).

A primeira vez do Living Colour no Brasil foi em 1992, como headliner do Hollywood Rock. Doug Wimbish havia acabado de substituir Muzz Skillings, mas ainda não era integrante fixo, e a banda foi eleita por público e crítica como o melhor show do festival. Quais são suas lembranças?
Will: Aqueles shows foram incríveis! Não esperávamos ser tão bem recebidos no Brasil, até porque era nossa primeira vez. Particularmente, eu estava ansioso para visitar seu país porque o meu filme favorito na infância era “Orfeu Negro” (N.R.: também conhecido como “Orfeu do Carnaval”, produção ítalo-franco-brasileira do cineasta francês Marcel Camus, o longa foi lançado em 1959). Depois de assistir àquele filme, eu queria desesperadamente conhecer o Brasil, por isso fiquei aí por um mês depois daquelas apresentações. Aluguei um carro e fui com um amigo brasileiro de São Paulo para a Bahia, e essa viagem mudou a minha vida. Tive a oportunidade de visitar escolas de samba, conhecer e me divertir com Carlinhos Brown e os músicos da Timbalada. Fui apresentado a Lenine e Marcos Suzano, a uma comida maravilhosa, ao ritmo do maracatu e a tantas outras coisas maravilhosas da cultura brasileira.

E vocês não demoraram a voltar. Já no ano seguinte, em 1993, mas para um único e incrível show em São Paulo. O local estava eletrificado, e lembro-me do Corey Glover se jogando três vezes na plateia…
Will: Toda a turnê do Stain em 1993 foi mágica, mas o público naquele show foi inacreditável, então nós ficamos ainda mais empolgados para tocar no Brasil novamente.


Mas aí a banda encerrou as atividades ou, como eu costumo dizer, entrou num hiato de 1995 a 2000. Como foi para você?
Will: Aquele foi um período muito desafiador… Eu tive de me adaptar a não estar mais numa banda, mas o tempo livre permitiu a mim a maravilhosa oportunidade de viajar para pesquisar sobre música. Voltei ao Brasil e fiquei aí durante três meses, desta vez no Recife. Visitei um incrível escola chamada Centro de Educação e Cultura Daruê Malungo, fundada e gerida por um grande amigo e músico, o Mestre Meia-Noite (N.R.: como é conhecido o capoeirista, bailarino e educador Gilson Santana). Ele e sua adorável família tomam conta da escola, e eu fiquei impressionado em como os jovens aprendiam no local a focar na própria cultura. Fiquei impressionado com todas aquelas belas crianças criando fantasias, aprendendo danças tradicionais e se reconectando com sua ascendência angolana. Aliás, fiz um pequeno documentário sobre essa viagem e o lançarei no próximo ano. Também viajei e estudei no Marrocos, Mali, Senegal, Belize, China e partes limitadas do Caribe, e o que fez com que nos reuníssemos foi o tempo. Ao retomarmos a banda, todos trouxemos experiências musicais muito especiais que colocamos na mesa para criar um novo capítulo musical para o Living Colour.

Collideøscope foi lançado em 2003, e no ano seguinte a banda voltou ao Brasil (confira aqui como foi o show no Rio de Janeiro). Vocês esperavam ser tão bem recebidos depois de tanto tempo?
Will: Não! Nós apenas torcemos para que fosse incrível como havia sido nas vezes anteriores, e foi!

E continua sendo. Falando especificamente sobre a cidade onde moro, o Rio de Janeiro, o último show completo na cidade ficou marcado por uma noite em que vocês tocaram por três horas.
Will: Sim! Todos as nossas apresentações no Rio foram maravilhosas, mas não tínhamos planejado tocar por três horas naquele dia (N.R.: 16 de outubro, terceira das quatro datas da perna brasileira da turnê do The Chair in the Doorway). Acontece que vocês foram tão espetaculares que não queríamos sair do palco (risos).


Vamos falar um pouco do álbum mais recente, Shade (2017). Oito anos o separaram de The Chair in the Doorway, e isso é muito tempo. O que houve que deixou o processo tão demorado?
Will: E não levamos oito anos para gravá-lo, porque em boa parte desse tempo nós não trabalhamos no Shade. Foram apenas três anos em cima do disco. Gravamos muitas músicas, usamos vários estúdios, experimentamos diferentes produtores e engenheiros de som. Esse processo acabou expandindo o tempo de gravação, mas também trocamos de empresário, de agentes e de advogados durante esse período, além de termos estudado oportunidades em outras gravadoras. No fim das contas, estávamos tentando criar a melhor situação possível para lançar o álbum.

E foram sete estúdios diferentes, incluindo até mesmo um no Reino Unido. Como foi essa experiência?
Will: Interessante e longa… No entanto, ter opções demais às vezes pode causar problemas.

Shade tem 13 músicas, sendo que no EP Who Shot Ya? (2016) há duas que poderiam facilmente ter entrado nele, “Regrets” e uma versão fabulosa de This Place Hotel (N.R.: composição de Michael Jackson em sua época no The Jacksons). Quantas vezes vocês mudaram o track list?
Will:
(rindo) Foram muitas mudanças, em minha opinião, porque nós continuamos compondo mesmo durante as gravações de Shade. De certa forma, não estávamos satisfeitos com todas as canções que tínhamos, então ficamos compondo e gravando sem parar.

A propósito, Who Shot Ya? saiu apenas no formato digital. Alguma chance de o EP ser lançado em CD?
Will: (empolgado) Absolutamente!


Ótimo! Como citei This Place Hotel anteriormente, gostaria de falar dos outros covers. Who Shot Ya? (N.R.: The Notorious B.I.G.) é autoexplicativa, mas como surgiu a ideia de regravar Preachin’ Blues (N.R.: Robert Johnson) e, especialmente, Inner City Blues (N.R.: Marvin Gaye), que ficou fantástica?
Will: Obrigado! Decidimos gravar Preachin Blues porque havíamos tocado essa música durante a comemoração do aniversário de cem anos do Robert Johnson, no Apollo Theater, em Nova York, num evento com vários outros grandes artistas (N.R.: batizada de “Robert Johnson at 100”, a celebração aconteceu no dia 6 de março de 2012). Acontece que fomos aplaudidos de pé, então vimos ali que iríamos fazer uma versão de estúdio. Gostamos tanto dessa música que ela precisava entrar no Shade, enquanto Inner City Blues foi uma decisão do Vernon Reid e do produtor Andre Betts.

Bom, tem uma faixa que chamou minha atenção, Program, porque é interessante que seja uma canção composta pelo produtor e outros dois coautores fora da banda. Qual a história por trás dela?
Will: Nunca gostamos dessa música por completo, então tentamos várias coisas diferentes. Usamos vocalistas de apoio, cordas, metais, teclados, loops e até mudamos a letra, então decidimos eventualmente pela versão que está no disco.

Eu poderia falar sobre todo o álbum, mas o que você pode dizer da belíssima Two Sides?
Will: Ela simplesmente lida com problemas… Há apenas dois lados, a verdade e a mentira, e as pessoas escolhem um deles conforme afeta particularmente seu resultado.

Mencionei Who Shot Ya? anteriormente, e é triste como ela ainda é atual (N.R.: gravada em 1995 pelo rapper Notorious B.I.G., assassinado dois anos depois, ela foi usada pelo Living Colour como uma canção contra as armas e a violência policial). Inclusive no Brasil, onde um caso recente ilustra um dos problemas que vivemos: o do músico negro Evaldo Rosa dos Santos, fuzilado com mais de 80 tiros pelo Exército enquanto ia com a família a um chá de bebê. Isso porque seu carro foi confundido com um usado por assaltantes…
Will:
Eu li sobre esse terrível incidente e sinto muito, mesmo. É algo que está acontecendo no mundo todo, não é uma situação nova. O mundo está mudando rapidamente… É como o meu grupo favorito de rap, o Public Enemy, declarou de maneira clara e inteligente no disco Fear of a Black Planet, de 1990: essas mudanças são uma grande ameaça a muitas políticas estabelecidas. A estrutura de poder conservadora está e sempre continuará tentando barrar qualquer mudança positiva que ameace o seu controle colonial.


Para terminar, depois de mais de 30 anos de Living Colour, o que você pode dizer sobre cada disco da banda? Quero dizer, o que eles representaram à época e o que significam hoje para você. Suas lembranças, e começamos com Vivid.
Will: Nosso primeiro álbum. Ensaiávamos cinco ou seis dias por semana e tocávamos constantemente em casas locais, então a banda estava muito entrosada quando fez Vivid, que representa o mundo para mim! Foi ele que trouxe atenção internacional para o Living Colour. De Mick Jagger e Rolling Stones a ser empossado no Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana, em Washington D.C., incluindo a oportunidade de fazer música honesta e de verdade num nível supremo, com um produtor fantástico, Ed Stasium. E a turnê do Vivid foi um desafio, pois estávamos desbravando novos territórios para nós mesmos e definido um movimento… Com ajuda do Bad Brains e do Fishbone. Foram precisos alguns shows para as pessoas entenderem nossas reais intenções, mas éramos e ainda somos uma banda muito poderosa em cima do palco. Nossa música ao vivo é mais progressiva do que nos discos.

E o segundo álbum, Time’s Up (1990)?
Will: A banda havia acabado uma turnê com o Rolling Stones e terminado uma turnê própria sem tempo para respirar. Começamos a gravar o disco em Los Angeles, que não é a minha cidade favorita para ficar num estúdio depois de meses na estrada. Prefiro Nova York, então levou um tempo para eu me ajustar a um novo ambiente e sistema. Mas assim que começamos a finalizar as músicas, as gravações ganharam forma e caráter próprios. Estávamos um pouco exaustos das turnês, por isso nossos humores estavam ainda mais afiados para criar arte, e foi um período interessante na indústria musical. Eu adorava o Time’s Up quando o fizemos e gosto ainda mais dele agora, e a sua turnê foi ótima. Fomos convidados para o primeiro Lolapalooza.

E chegamos ao Biscuits (1991).
Will: Foi um EP para colocarmos algum material novo sem que fosse preciso lançar um disco completo. Tínhamos muitas músicas ao vivo e faixas de estúdio inacabadas para escolher, e as canções de estúdio foram finalizadas em apenas um dia.

Stain (1993).
Will: Doug Wimbish, nosso baixista, se juntou oficialmente à banda. Nosso som havia mudado, então mudamos de produtor, usando o Ron St. Germain. Estávamos entrando numa cena cujo som era mais pesado. Tínhamos uma sala de ensaios só nossa para trabalhar no Stain, então passamos muito tempo compondo e ouvindo nossos próprios conceitos. Eu amo esse disco, e as turnês foram fenomenais. A produção, a iluminação e a equipe técnica eram apenas nossas, o que nos permitiu dar aos fãs uma experiência mais pessoal do que era o Living Colour ao vivo. Pessoalmente, estava lidando com o fato de o meu irmão mais velho lutar contra o vício em drogas, e foi isso que me inspirou a compor Nothingness.


Collideøscope (2003).
Will: Foi um álbum muito difícil de fazer. Havíamos voltado depois de quase seis anos separados, então ainda lutávamos para nos libertar de vários problemas. Não é o meu disco favorito da banda, mas é um que tivemos de fazer… Foi quase como uma terapia. Gosto das músicas, mas a produção não é tão forte como a dos três primeiros trabalhos. Excursionar para promover Collideøscope foi muito desafiador, porque não estávamos todos de acordo com o direcionamento musical do Living Colour àquela época.

The Chair in the Doorway (2009).
Will: Grande parte do disco foi feita em Praga (N.R.: capital da República Tcheca), e foi mais uma vez estranho gravar fora de Nova York. Desafiador, mas não tão ruim quanto em Collideøscope. Ainda não estávamos todos na mesma página, mas as coisas estavam melhorando. A produção é boa, mas não ótima, e gosto das músicas. No entanto, eu preferia mesmo que tivéssemos gravado em Nova York. Mas tivemos grande ajuda do Pierre de Beauport, um querido amigo e técnico de guitarra do Keith Richards. Usamos seu estúdio (N.R.: The Library, em Greenfield, Massachusetts) para finalizar algumas músicas. Uma delas é Not Tomorrow.

Por último, Shade (2017).
Will: Comecei a sentir que estávamos voltando a um grande som e a uma grande produção. Querido amigo da banda, Andre Betts, que é do Bronx como eu, fez um trabalho formidável em Shade. Foram três duros anos para completar esse disco, por causa das muitas mudanças no nosso time… Empresário, gravadora, advogados, produtores, estúdios e engenheiros de mixagem. Nós também interrompemos os trabalhos algumas vezes para sair em turnê, na maioria das vezes na Europa, e gravamos tantas músicas que tivemos um demorado processo de eliminação até decidirmos quais eram as que precisavam estar no CD. Mas assim que começamos a turnê, vimos que tínhamos a seleção perfeita de canções para antigos e novos fãs. Além disso, muitas das letras fazem referência ao nosso atual clima político.

E espero que o sucessor de Shade não leve oito anos para ser lançado. Vocês já pensam no próximo disco?
Will: Sim! Já estamos planejando o novo álbum. Na verdade, já começamos o processo.

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Mötley Crüe

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

A essa altura, a chance de você já ter assistido a “The Dirt” é muito grande, mesmo que na casa de um amigo que tenha Netflix, plataforma de streaming onde a cinebiografia do Mötley Crüe estreou no dia 22 de março. Ou pelo menos foi de alguma maneira envolvido pelo longa, porque o barulho não foi pequeno. A história de Vince Neil (vocal), Mick Mars (guitarra), Nikki Sixx (baixo) e Tommy Lee (bateria) para as telonas – baseada no best-seller “The Dirt: Confessions of the World’s Most Notorious Rock Band”, lançado em 2001 – rendeu até mesmo um especial com destaque de capa na ed. #243 da Roadie Crew. Faltava falarmos com algum integrante para fechar o pacote, e foi o que aconteceu: conversamos com Neil para saber suas impressões sobre o filme e as músicas inéditas que compõem a trilha sonora e, principalmente, colocaram o quarteto junto num estúdio depois de mais de quatro anos – a última canção gravada pela banda havia sido All Bad Things, em 2015. Infelizmente, no entanto, o vocalista pôde responder apenas seis das 26 perguntas que estavam na pauta – e que levariam o papo muito mais a fundo na carreira do Mötley Crüe e, diga-se, do próprio Neil. Mas como alguma coisa é melhor do que nada, confira o que ele teve a dizer.


Qual foi a sua reação ao assistir à versão final de “The Dirt” pela primeira vez?
Vince Neil: Fiquei surpreso com o quão bom é o filme! Quando comecei a assistir, pensei que passaria o tempo todo criticando, tipo ‘Isso não aconteceu dessa maneira’ ou qualquer coisa parecida, mas bastaram os primeiros 15 minutos para eu esquecer até mesmo que era sobre nós. No fim, percebi que se trata de um ótimo filme, simples assim, porque eu havia mesmo assistido a um ótimo filme de rock’n’roll! Fiquei realmente impressionado com os atores (N.R.: Daniel Webber interpretou Neil, enquanto Douglas Booth fez o papel de Nikki Sixx; Iwan Rheon, de Mick Mars; e Colson “Machine Gun Kelly” Baker, de Tommy Lee) e com a maneira como a nossa história foi contada, uma vez que “The Dirt” ficou de fato preso ao livro. Obviamente, é muito difícil colocar dez anos de loucura em apenas duas horas, mas todos fizeram um grande trabalho ao escolher e trabalhar as coisas certas para o roteiro.

Especificamente sobre Daniel Webber, você deu a ele alguma orientação? Alguma cena e interpretação dele o fizeram ficar arrepiado?
Vince: Não tive uma chance sequer de aparecer para assistir às gravações, mas pude conversar algumas vezes por telefone com Daniel, que fez o dever de casa direitinho ao me estudar, incluindo meus movimentos e minha personalidade. Ele deve ter visto muitas, mas muitas filmagens e entrevistas minhas! (risos) Todas as cenas me deixaram arrepiado, porque ficaram perfeitas. Por exemplo, sabe a cena do primeiro show, quando eles começam a tocar? Os movimentos que ele fez no palco são absolutamente iguais aos meus! Até mesmo o meu comportamento na cena do primeiro ensaio, quando entrei para a banda, foi exatamente daquela maneira. Foi impossível não ficar arrepiado vendo aquele cara me interpretar.


Vamos falar das novas músicas, mas começando por uma questão mais abrangente: as pessoas podem achar que foi óbvio ou até mesmo obrigatório registrar material novo para a trilha sonora, mas me parece que o processo foi bem orgânico.
Vince: A verdade é que nós não nos separamos, apenas paramos de fazer turnês. Ainda somos uma banda, ainda somos quatro caras que têm uma empresa muito legal chamada Mötley Crüe. A ideia de compor novas músicas começou a nos rondar assim que nos reunimos para discutir o filme, então vocês sempre estarão ouvindo falar de nós. De uma maneira ou de outra.

A respeito de The Dirt (Est. 1981), a participação de Machine Gun Kelly deu um sabor diferente à música. Apesar de ele interpretar o Tommy Lee, acredito que foi ideia deste convidá-lo… Você sabe, por causa do lance hip hop.
Vince: Nós procuramos o MGK, para que ele acrescentasse suas partes, quando estávamos trabalhando na versão final da música, mas algo me diz que ele e Tommy queriam fazer algo juntos já havia um tempo (risos). De qualquer maneira, funcionou perfeitamente.

Ride With the Devil, com um groove e refrão ótimos, é a minha favorita, até porque me remeteu ao Mötley Crüe dos anos 80. O que você acha disso?
Vince: No geral, acredito que todas as músicas ficaram muito, muito legais. Bom, com Bob Rock no comando não tinha como ficarem ruins, porque se trata de um ótimo produtor. Ele sabe extrair o melhor de cada um de nós (N.R.: Rock havia trabalhado com o Mötley Crüe nos álbuns Dr. Feelgood, de 1989, e Mötley Crüe, de 1994, além das faixas inéditas da coletânea Decade of Decadence, de 1991).

Por último, Crash and Burn soa para mim como uma evolução natural de Saints of Los Angeles (2008).
Vince: Não acho que exista uma correlação direta entre ela e Saints of Los Angeles, mas nós definitivamente queríamos que as novas músicas passassem aquele sentimento de serem canções orgânicas do Mötley Crüe. Além disso, procuramos que elas refletissem tanto o filme quanto o livro.

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Grave Digger

Por Daniel Dutra | Fotos: Daniel Croce

Não fazia tanto tempo assim, pois o Grave Digger havia pisado em solo carioca pela última vez no dia 6 de maio de 2015, no mesmo Teatro Odisseia, mas tempo suficiente para jogar por terra a desculpa “Ah, eu vi da última vez que a banda esteva aqui, há um ou dois anos” – como se isso fosse razão para deixar passar show de banda que você curte, diga-se. No entanto, o que explica a casa abarrotada há quase quatro anos e cheia de lugar vazio agora? E olha que estamos falando de um local pequeno, cuja capacidade oficial é de 398 pessoas… Enfim, cabem aqui várias teorias, e uma delas é completamente plausível: a crise econômica com altíssima taxa de desemprego no Brasil (e no Estado do Rio de Janeiro, onde tudo parece estar pior). No entanto, não dá para escapar de um fato: a cidade vem se transformando, nos últimos dois ou três, num cemitério para o rock pesado.

Mas enquanto algumas produtoras ainda fazem um trabalho heroico, vamos ao que interessa: a apresentação de Chris Boltendahl (vocal), Axel Ritt (guitarra), Jens Becker (baixo) e Marcus Kniep (bateria), que tocaram como se estivessem à frente de uma multidão – o que se espera de profissionais e, claro, de um grupo com quase quatro décadas de história. Com a figura do Ceifador no palco – óbvio, não? –, o quarteto abriu os serviços com Fear of the Living Dead, uma das três faixas extraídas do álbum mais recente, The Living Dead (2018), e por isso mesmo não deixou de ser uma agradável surpresa ver os fãs presentes com o refrão e o coro na ponta da língua. O que aconteceu também em Blade of the Immortal, a quinta música do set, mesmo que num grau menor de empolgação.

E se um show tem pouco público, fica a certeza de que os que saíram de casa são realmente fãs da banda. Assim, as vozes presentes continuaram soltas em Tattooed Rider e… Bom, os refrãos cantados com vontade tiveram a companhia de um “Olê, olê, olê! Digger! Digger” entre boa parte das músicas. O tradicional e já manjado coro começou antes de The Clans Will Rise Again; entrou por Lionheart; arrancou um sorrisão de Boltendahl momentos antes de The Dark of the Sun, e por isso mesmo o público aumentou o volume; começou a ficar chato ao anteceder Call for War; felizmente perdeu força nos anúncios de Circle of Witches e Rebellion (The Clans Are Marching)”; e voltou com força total depois de Healed By Metal, primeira canção do bis.

Não dá para dizer, então, que o pouco público não fez barulho. Fez, e fez muito, facilitando a retribuição que vinha do palco. “É um prazer voltar a essa bela cidade, e vamos dar muito metal germânico para vocês”, disse o vocalista antes de anunciar The Clans Will Rise Again, na qual pediu o coro de “rise”no refrão e foi prontamente atendido. O clima era tão bom que Boltendahl se divertiu até mesmo ao precisar anunciar Lawbreaker duas vezes, uma vez que Becker ainda tentava resolver um problema no baixo – apesar disso, faça-se o registro: o som estava muito, muito bom –, sem esfriar os ânimos do público, que vibrou com The Bruce (The Lion King) logo a seguir.


Vestindo um casaco jeans repleto de patches de bandas (mais old school, impossível), Boltendahl fazia muito bem o papel de regente enquanto a banda dava o suporte musical necessário, apesar da discrição de Becker, que tira um som bonitão do seu baixo Fender, e do apenas correto Kniep – e vamos dar um desconto, afinal, de 2014 até 2018, quando substituiu Stefan Arnold, o cara era o tecladista do Grave Digger. Além do The Reaper, é claro. Assim, sobra para Ritt a responsabilidade de preencher os espaços que o vocalista não consegue, e o guitarrista não decepciona. Tem uma presença de palco empolgante e, apesar de deixar a desejar nos solos, brinda os fãs com uma mão direita de respeito. Suficiente para fazer jus ao trabalho rítmico de gente melhor do que ele, como Manni Schmidt e Uwe Lulis – e com o perdão da sinceridade, o riff funkeado de Lionheart ficou ainda melhor com Ritt.

De volta a Boltendahl, o mestre de cerimônias mostrava no contato com a plateia por que é o coração e a alma do Grave Digger. “Essa é uma das minhas favoritas”, disse ele antes de The Curse of Jacques, que colocou os fãs para “cantar” o dedilhado inicial. “Vocês gostam de metal germânico? Então essa é uma música bem rápida”, mandou na lata ao anunciar War God, que até abriu uma rodinha na pista. “Vocês querem mais força e poder? Mais metal germânico? A próxima é um clássico, uma canção muito mística”, avisou o vocalista, cujo orgulho de suas origens metálicas foi traduzida na reação dos fãs, que sabiam se tratar de Excalibur e enfiaram novo sorriso no rosto de Boltendahl com uma participação marcante.

E o veterano frontman mal sabia que aquele não seria o grande momento da noite. Isso ficou reservado para Rebellion (The Clans Are Marching). “É a última da noite, mas é uma música especial, sobre liberdade. Sobre lutar pela liberdade”, lembrou Boltendahl, que não escondeu a expressão de felicidade ao testemunhar os fãs cantando sozinhos o início do clássico, no momento mais legal da noite, tanto que o vocalista pediu bis. Ah, sim: ainda teve o Ceifador – ou The Reaper, como queiram – no palco empunhando uma gaita de fole. E não foi a última da noite, obviamente, uma vez que os fãs ainda tinham pela frente o protocolar bis. Ainda assim, o Grave Digger não poupou munição: voltou ao palco para mais quatro canções. Enquanto Healed By Metal, com seu refrão verdadeiramente bacana, se mostrou uma das favoritas do público, The Last Supper deu uma leve baixada no clima.

Curiosamente, diga-se, porque ela veio na sequência da ótima Zombie Dance, que Boltendahl, numa entrevista ao autor desta resenha, na manhã do show, disse ter sido motivo de criticas à banda. Bom, ao anunciá-la, presente em The Living Dead, o vocalista deu a deixa para entender por que alguns fãs reagiram negativamente: “Vamos tocar uma música na qual misturamos dois estilos. Vocês querem dançar?”. Pronto. Dançar. Sacou? Felizmente, parte da plateia mostrou não ser conservadora e entrou na brincadeira, fazendo até coreografia no “Step to the right / Step to the left” e “Jump to the right / Jump to the left” do refrão. Uma descontração mais do que necessária para o óbvio encerramento com o hino Heavy Metal Breakdown, que, aí sim, levou todos os fãs ao delírio – ao ponto de um subir no palco e arrancar o único semblante de irritação de Boltendahl em toda a noite –, num encerramento de festa que, vamos relembrar, merecia mais pessoas presentes. Quantos fãs cariocas do Grave Digger ficaram em casa?

Setlist
1. Fear of the Living Dead
2. Tattooed Rider
3. The Clans Will Rise Again
4. Lionheart
5. Blade of the Immortal
6. Lawbreaker
7. The Bruce (The Lion King)
8. The Dark of the Sun
9. Call for War
10. The Curse of Jacques
11. War God
12. Season of the Witch
13. Highland Farewell
14. Circle of Witches
15. Excalibur
16. Rebellion (The Clans Are Marching)
Bis
17. Healed By Metal
18. Zombie Dance
19. The Last Supper
20. Heavy Metal Breakdown

Nuclear Assault

Por Daniel Dutra | Fotos: Alexandre Cavalcanti

Duas décadas depois da antológica estreia no Brasil, com dois shows no Dama Xoc, em São Paulo, tendo o Sepultura como banda de abertura, o Nuclear Assault voltou ao país para uma série de seis apresentações, incluindo o Rio de Janeiro, onde a banda esteve pela primeira vez quatro anos antes, no mesmo Teatro Odisseia – as outras datas foram no Recife, em Vila Velha e em São Paulo, sendo duas na capital e uma em Limeira. Pronto. Introdução histórica feita, vamos ao que mais interessa: John Connelly (vocal e guitarra), Dan Lilker (baixo), Eric Burke (guitarra) e Nick Barker (bateria) foram responsáveis por um massacre na tradicional e acanhada casa de shows na Lapa – e sim: Glenn Evans não veio, mas, como bem disse Lilker em algum momento da noite, quem estava comandando as baquetas era “Nick fucking Barker!”. O ex-Cradle of Filth, Dimmu Borgir, Lock Up e Testamente vem ajudando o grupo desde 2016, quando Evans sofreu uma lesão num dos braços.

Escorados por um ótimo som, o quarteto entrou arregaçando com a trinca que abre Survive (1988), segundo álbum (e quarto trabalho na discografia) do Nuclear Assault. Rise from the Ashes acabou servindo de cartão de visitas para Barker e seu show particular; e para Connelly, cuja voz peculiar e sensacional resistiu muito bem à idade do professor – literalmente, uma vez que o guitarrista e vocalista é hoje um tiozinho que leciona História no ensino médio americano. Na sequência, a maravilhosa Brainwashed e seu refrão matador ajudaram a formar uma bela roda na pista, mantida pela porradaria de F#. “Um minuto, porque temos um pequeno problema técnico”, pediu Lilker, referindo-se à guitarra de Burke, para depois perguntar, em bom português, “Onde está maconha?”, arrancando gargalhadas dos presentes. Problema sanado, Vengeance foi mais uma pancadaria das boas.

Com uma garrada de 600 ml de cerveja artesanal, um contraste com a tulipa de chope que Lilker empunhava, Connelly deu a deixa para After the Holocaust: “Nós somos o Nuclear Assault, de algum lugar dos Estados Unidos, e vamos tocar muito thrash metal fodido para vocês”. Foi a mais pura verdade, porque em seguida vieram as lindezas New Song e Critical Mass, sem sair de cima. Duas provas de que a obra-prima Handle With Care, que completa três décadas de vida no dia 23 de novembro deste ano, é a obra favorita dos fãs. Foi um momento simplesmente espetacular. A instrumental Game Over foi enriquecida com o coro da plateia, atingida na sequência por Butt Fuck, com os vocais Connelly e Lilker se encontrando e dando gosto de ouvir.


Os clássicos fizeram um apressadinho pedir por Hang the Pope, e Lilker deu o recado: “Ela vem depois. Paciência”. Stranded in Hell e Sin, duas das oito faixas do álbum de estreia, Game Over (1986), tocadas naquela noite, continuaram acelerando o rolo compressor, enquanto Betrayal e os gritos de Connelly soaram lindamente. “Nick quer marijuana, e eu também”, avisou Lilker em sua busca pela erva, antes de puxar o celular para tirar foto do público, e rapidamente a banda mandou a punk rock Analogue Man in a Digital World, única do mais recente trabalho da banda, o EP Pounder (2015). “Agora vamos para um set de soft jazz”, bradou o inspirado baixista. “Ok, agora vamos lá”, e aí sim F# (Wake Up) iniciou mais uma dobradinha de Handle With Care, abrindo caminho para a espetacular When Freedom Dies.

Honestamente, poderia ter acabado aí que todos voltariam felizes da vida para casa, mas os caras emendaram de uma vez só My America, Hang the Pope e Lesbians, numa estupidez musical completada com Trail of Tears, outra pérola de Handle With Care – e mais uma vez veio a memória, assim como no momento de Critical Mass, do videoclipe passando na MTV quando a MTV valia a pena. Fim do show, Connelly, Lilker, Burke e Barker desceram para tirar fotos, autografar encartes, distribuir palhetas e bater papo com os fãs que compareceram ao Odisseia naquela noite de terça-feira. E foram poucos, infelizmente, numa demonstração de como fazer eventos de metal no Rio de Janeiro tem se tornado uma tarefa heroica para os produtores menores e independentes, que não contam com patrocínio algum que não seja o ingresso comprado pelo fã. A continuar nesse ritmo, aquele headbanger carioca que fica em casa assistindo a DVDs vai ter que comprar mais DVDs, porque não demora muito e os shows serão mesmo apenas na TV.

E se havia um número abaixo da média para ver o grupo principal, os de abertura tocaram quase como se fosse um ensaio – claro, quem é quer chegar mais cedo para ver e privilegiar as atrações nacionais? Nem todo mundo, obviamente, e o Savant, que inaugurou os serviços, foi quem mais sofreu. “Isso aqui não é um pocket show. Está todo mundo parado, mas estamos filmando”, reclamou o guitarrista e vocalista Antonio Vargas, lembrando que imagens do show estavam sendo registradas para um videoclipe – o quarteto é completado por Daniel Escobar (guitarra), Frederico Moshilão (baixo) e Felipe Saboia (bateria).

E olha que o som da banda é propício para bater cabeça, ainda assim o apelo não surtiu muito efeito. Suicidal Premonition, por exemplo, teve provavelmente o ‘wall of death’ mais inofensivo da história do thrash metal. Uma pena, pois a banda merecia mais empolgação vinda da pista, mesmo que com pouca gente. Ainda assim, músicas como Religion Misunderstood, Third Antichrist, Colonizer – “Sobre os maiores serial killers da história”, explicou Vargas – e No Hope, que fez a lição de casa com muito Slayer e Kreator, passaram muito bem o recado do Savant, que está na estrada desde 1999 e já soltou quatro trabalhos: os EPs Portrait of Reality (1999) e Evidence Elimination (2004); e os CDs No Hope (2007) e Serial Killers’ Tales (2017).

“É melhor aqui do que lá fora, bebendo suco de milho gelado no litrão”, mandou na lata o guitarrista e vocalista do Vorgok, Edu Lopez, antes de Hell’s Portrait, referindo-se exatamente ao apoio do público aos brasileiros. Ou à falta de apoio, no caso, porque estamos falando de bandas locais de uma cidade que foi precursora no metal nacional, mas que hoje conta com um cenário desolador. E o mais curioso é que foi exatamente naquela canção que Erik Burke, o guitarrista do Nuclear Assault, foi visto pelos fãs na pista, curtindo o show. Ainda assim, o quarteto – que ainda conta com Bruno Tavares (guitarra), João Wilson (baixo) e Mike Nill (bateria) – não se fez de rogado e despejou seu thrash metal em quem quisesse ouvir.


O set contou com duas músicas novas, At Home in Hell e Kleptocracy, que estarão no segundo CD – segundo Lopez, o sucessor de Assorted Evils (2016) deve ser lançado “se tudo der certo, se não acontecer nenhuma merda, até o fim de ano” –, e outras que não escondem forte influência de Sepultura antigo: Kill Them Dead tem um quê de Dead Embryonic Cells, e Man Wolf to Man, de Beneath the Remains. A referência musical, no entanto, até empalidece quando Lopez anuncia Headless Children como uma canção que fala da “educação das crianças no terceiro mundo”, mostrando uma consciência social tão importante e necessária nos dias sombrios que estamos vivendo num Brasil de menosprezo à educação e ao pensamento e de culto à ignorância. E foi por isso mesmo que rolou um bate-papo online com o guitarrista e vocalista, que explicou o conteúdo.

“Muitas das letras do álbum foram escritas com bases em pesquisas que fiz em relatórios de organismos da Organização das Nações Unidas (ONU). Pesquisei relatórios da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), e Headless Children trata das causas da evasão escolar, das barreiras ao acesso à educação e das consequências nefastas disso tudo nas regiões mais pobres e conflagradas do planeta”, contou Lopez, que ainda comentou uma coincidência de título. “Tem uma história engraçada. Pensei em ‘Headless Children’ porque as pessoas imaginam logo crianças decapitadas, mas, como você viu, refiro-me, na verdade, a crianças com a capacidade intelectual reduzida pela falta de estudo. Quando pensei no nome, salvei a demo que tinha gravado no meu estúdio caseiro. Dias depois, fui trabalhar nela e não a encontrava de jeito nenhum no PC. Estava tenso, até que notei um ícone do W.A.S.P. na minha tela inicial. Eu, que nunca fui fã da banda, me perguntei ‘Que porra é essa?!’. Cliquei e estava lá. O computador gerou o ícone automaticamente, e foi assim que descobri que o W.A.S.P. tem não apenas uma música com o mesmo nome, mas um álbum! Só que eu tinha gostado tanto da ideia que mantive o nome.”

Setlist Nuclear Assault
1. Rise from the Ashes
2. Brainwashed
3. F#
4. Vengeance
5. After the Holocaust
6. New Song
7. Critical Mass
8. Game Over
9. Butt Fuck
10. Stranded in Hell
11. Sin
12. Betrayal
13. Analogue Man in a Digital World
14. F# (Wake Up)
15. When Freedom Dies
16. My America/Hang the Pope/Lesbians
17. Trail of Tears

Setlist Vorgok
1. Mass Funeral at Sea (Intro)
2. Deception in Disguise
3. Hunger
4. At Home in Hell
5. Kill Them Dead
6. Hell’s Portrait
7. Headless Children
8. Man Wolf to Man
9. Kleptocracy

Setlist Savant
1. Eyes of Butcher
2. Religion Misunderstood
3. Third Antichrist
4. Evidence Elimination
5. The Gray Man
6. Colonizer
7. No Hope
8. Suicidal Premonition
9. Pleasure of Pain

Greta Van Fleet

Por Daniel Dutra | Fotos: Daniel Croce

Led Zeppelin. Para o bem ou para o mal, a banda de Robert Plant, Jimmy Page, John Paul Jones e John Bonham é sempre a primeira coisa que vem à cabeça – e sai da boca – quando o assunto é o Greta Van Fleet. E as reações costumam ser maniqueístas, apesar de ser possível encontrar um meio-termo, mesmo nesse hype que envolve os irmãos Josh (vocal), Jake (guitarra) e Sam Kiszka (baixo) e o baterista Danny Wagner. Por exemplo, dá para achar que Anthem of the Peaceful Army (2018) é um baita disco de rock’n’roll, mas ainda assim não listá-lo entre os melhores lançamentos do ano porque, bem, tudo que está ali foi feito cinco ou quatro décadas atrás por Plant, Page, Jones e Bonham. Mas aí os garotos, que este ano levaram o Grammy de melhor álbum por From the Fires (2017), vêm ao Brasil e mostram que são mesmo para valer.

Não que isso vá mudar a opinião daqueles que escolheram 8 em vez de 80, mas numa Fundição Progresso lotada – cuja capacidade oficial é de 5.000 pessoas, então olha a que ponto chegou o hype do Greta Van Fleet no Rio de Janeiro… –, o quarteto fez um show para deixar muita gente grande com vergonha. Com um palco que privilegiava apenas uma ótima iluminação, ou seja, nada de pirotecnia, efeitos ou mesmo algum pano de fundo, a banda entrou mandando ver com The Cold Wind e logo mostrou uma elogiável faceta: uma performance inquieta, principalmente a de Jake, que parece ter se preparado com várias latinhas de algum energético. Resumindo, eles se divertem tocando, e isso naturalmente passa para a plateia. E se os fãs e, principalmente, curiosos curtiram a canção que abriu a noite sem precisar abrir a boca para cantar, o mesmo não aconteceu em seguida.

A ótima Safari Song fez o público colocar a garganta para trabalhar, e Black Smoke Rising completou o serviço com seu refrão grudento. Antes da terceira música do set, aliás, Wagner fez a alegria de quem vibra com qualquer virada de bateria – basicamente, os mesmos que iam ao delírio a cada nota alta alcançada por Josh – ou daqueles que ainda acham legal solo individual nos dias de hoje. Ainda assim, não deixou de ser uma satisfação ver tanta gente cantando as músicas de uma banda jovem que resolveu tocar rock’n’roll de verdade (a declaração é um spoiler das considerações finais). “Essa é a primeira vez que tocamos no Rio. Na verdade, não apenas na cidade, porque é o nosso primeiro show no Brasil”, disse Josh antes de Flower Power, na qual Sam, tal qual John Paul Jones, largou o baixo e foi para o teclado.


Watch Me, de Labi Siffre, e a curta The Music is You, de John Denver (ele mesmo, o artista country que se juntou a Frank Zappa e Dee Snider contra o PMRC nos anos 80), serviram para esquentar o clima para a bela You’re the One, outra cujo refrão foi bem recebido pelo público. Ao fim, as vozes vindas da pista e das frisas aportuguesaram a pronúncia da primeira das três palavras que formam o nome da banda no tradicional corinho de “Olê, olê, olê!”, cujo ritmo foi acompanhado por Wagner, e receberam de volta um agradecimento de Josh: “Obrigado por nos manter no tempo certo.” Mesmo brincando, o vocalista acertou, porque o que os quatro fizeram a seguir foi de arrepiar e, fácil, o melhor momento do show: a dobradinha Black Flag Exposition e Watching Over, ambas com uma iluminação bem particular, com tons de azul e vermelho saindo do fundo do palco e deixando a frente na penumbra.

Um ótimo efeito para a parte musical: Black Flag Exposition foi um longo desbunde instrumental, com destaque para o longo e sensacional solo de Jake, que esbanjou feeling num improviso muito bem ensaiado, digamos assim, e Watching Over veio na cola, sem deixar a plateia respirar, para mais um show particular do guitarrista (e se você ouviu algumas notas do solo de Stairway to Heaven, eu diria que não foi mera coincidência). Curiosamente, o set regular foi encerrado com mais holofotes para Jake em Edge of Darkness, e foi aqui que o garoto mostrou de vez que só não é mais Jimmy Page porque usa uma Gibson SG (de apenas um braço) em vez de uma Les Paul. Afinal, além de tocar com a guitarra nas costas, ainda meteu aquelas notas na trave que só Page faz com tanta maestria. Mas o pupilo aprendeu direitinho a lição. Hora do bis, e o Greta Van Fleet, que costuma alterar a ordem do setlist de um show para o outro, apelou com dois de seus hits – sim, porque o grupo já tem hits, no plural. When the Curtain Falls estava na boca do público, mas foi Highway Tune que terminou de deixar a casa em ebulição depois de 80 minutos de um ótimo show de rock’n’roll, principalmente para quem vê o copo metade cheio.

Para quem vê o copo meio vazio, vale lembrar que não será num show do The Strokes que veremos tanta gente usando camisas do AC/DC, KISS, Black Sabbath, Iron Maiden e, claro, Led Zeppelin. Da mesma maneira, não será o The Vaccines que fará a garotada olhar para trás para descobrir as raízes dessa música que tanto gostamos, e que esses quatro garotos do Greta Van Fleet fazem de maneira orgânica, com instrumentos de verdade, o que já é um passo para começar a construir uma identidade própria. Lembre-se: verão sim, verão também, a grande mídia – aquela moderna, que venera artistas indie, saca? – tem a necessidade de criar um salvador do rock, como se o gênero precisasse de salvação. Então, se a nova geração tem que ser bombardeada com música, que seja uma de qualidade acima da média e de boas referências, mesmo que a fonte seja o maior grupo de rock da história (o desempate com os Beatles é no photochart). Afinal, se o próprio Robert Plant deu a bênção a Josh, Jake, Sam e Wagner, quem somos nós para discordar?

Setlist
The Cold Wind
Safari Song
Black Smoke Rising
Flower Power
Watch Me
The Music is You
You’re the One
Black Flag Exposition
Watching Over
Edge of Darkness
Bis
When the Curtain Falls
Highway Tune

Black Label Society

Por Daniel Dutra | Fotos: Daniel Croce

Oito vezes em 11 anos. Não está ruim para o headbanger carioca acompanhar as aventuras de Zakk Wylde em cima do palco – além do Black Label Society, a matemática inclui o Zakk Sabbath e as duas apresentações ao lado de Ozzy Osbourne. Mais do que isso, o guitarrista comprovou o status de queridinho do público ao encher o Circo Voador pela terceira vez seguida, então não será surpresa se em breve voltar à cidade com seu projeto que revisita a primeira fase do Black Sabbath, afinal, o Madman reagendou todas as datas deste ano de sua No More Tours 2 para 2020. Só que o sonho e/ou o desejo ficam para depois, porque a realidade foi a quinta parada do BLS em sua turnê de sete datas pelo Brasil – a banda tocou em Porto Alegre, Curitiba, Brasília e Manaus antes do Rio de Janeiro, de onde seguiu para São Paulo e Belo Horizonte.

Mas a noite de sexta-feira começou com o anfitrião Syren, que agarrou a oportunidade com unhas e dentes. Em 30 minutos, Luiz Syren (vocal), Pedro Soriano (guitarra), Thiago Velasquez (baixo) e Julio Martins (bateria) mostraram o que a banda, em suas diferentes formações, sempre fez de melhor: heavy metal em estado bruto e sem firulas, daqueles contagiantes e recheados de riffs, melodias e refrãos bacanas. Com dois discos nas costas, Heavy Metal (2011) – viu só? – e Motordevil (2015), o quarteto equilibrou o curto set entre o antigo e o novo. Do álbum mais recente, My Shadown, My Dear Friend foi o cartão de visita, e a ótima Eyes of Anger veio a seguir para mostrar o carisma de Syren, que não se fez de rogado ao pedir gritos mais altos de “boa noite” e colocou a plateia para entoar o coro da música. E quem já estava na pista e nas arquibancadas comprou o barulho, cantando o refrão da faixa-título do trabalho de estreia – feito sob medida exatamente para isso, diga-se.


O novo single, Salvation, cujo ‘lyric video’ já está no YouTube, premiou dois fãs que, da pista, acertaram o nome da música – cada um levou para casa um CD do grupo – e mostrou que o direcionamento continua firme e forte, mas com um detalhe agradável: de forma consciente ou não, o refrão tem um bem-vindo toque de Nevermore. Hora de apresentar os integrantes, de agradecer à produtora do evento pela justa oportunidade e, principalmente, soltar uma verdade: “Fazer heavy metal no Rio é coisa de herói”, disse Syren, batalhador de longa data no cenário no carioca e um dos principais vocalistas do estilo no Brasil, ainda que, talvez por ser radicado numa cidade outrora maravilhosa, não tem o reconhecimento que merece. Mais uma do primeiro disco, Die in Paradise – que dá nome à cerveja da banda – encerrou um show enxuto e que manteve o nível lá em cima o tempo todo. Mais uma vez, heavy metal puro e feito por quem e para quem cresceu ouvindo as melhores referências do estilo.

Aquecimento feito, então era hora de a cortina com a caveira e o logo do Black Label Society – aqueles da capa internacional de Sonic Brew (1999), o álbum de estreia – cobrir o palco para anunciar que a partir dali Zakk Wylde, Dario Lorina (guitarra), John DeServio (baixo) e Jeff Fabb (bateria) tomariam conta da festa. Depois de Whole Lotta Sabbath, o mashup de War Pigs com Whole Lotta Love criado pelo australiano Tom Compagnoni, rolar no PA, a cortina caiu para o quarteto começar o massacre com Genocides Junkies, e nem mesmo a breve falha na guitarra de Wylde poderia diminuir a previsível empolgação – mas é bom ressaltar que o som estava muito, muito bom. Em seguida, Funeral Bell inaugurou o primeiro pula-pula da noite, colocando os fãs também para cantar o refrão, e Suffering Overdue injetou a primeira dose mais forte de fritação do chefão do BLS. E foi assim, com uma sequência de três cruzados no queixo, que os fãs foram vencidos.

Exatamente, foram três sem sair de cima até a primeira das trocas de guitarra ao longo da apresentação – não para mostrar a vasta coleção de Wylde, porque isso ele faz nas redes sociais, mas por causa das diferentes afinações –, e Bleed for Me manteve o clima quente. Até porque Fabb resolveu brincar no andamento mais reto da canção e enfiou uns licks para tornar as coisas mais interessantes. Com um groove incomum para o BLS, Heart of Darkness antecedeu o que foi, de fato, o primeiro grande momento da noite, porque Suicide Messiah foi matadora! Teve um efeito bem legal com canhões de fumaça (ou gelo seco, vá saber…), roadie com o megafone para cantar o nome da música no refrão e, melhor de tudo, um Circo Voador em uníssono fazendo o mesmo no encerramento. Um momento tão legal que arrancou palmas e um baita sorriso de Wylde. Sim, deu até para ver os dentes no meio da barba e da cabeleira que o deixam parecido com o primo Coisa, de A Família Addams. E tem foto para provar.


Como o álbum mais recente do BLS, Grimmest Hits (2018), ainda tem cheiro de novo, a banda – cuja formação é a mesma desde 2014 – felizmente mostrou algumas de suas faixas (clique aqui para ler a resenha do CD). E três vieram em sequência: Trampled Down Below teve direito a Lorina com arco à la Jimmy Page; All That Once Shined levou Wylde a abandonar a tradicional (e encenada) pose de marrento para brincar com o público, que começou um coro com a melodia da canção; e Room of Nightmares soou sensacional com seu refrão simples e eficiente. Até então, o peso estava dominando a famosa casa na Lapa, mas sempre tem aquele momento de calmaria, sabe? Uma trilogia de sensibilidade, aliás. Começou com Bridge to Cross, tendo Lorina no teclado (com som de teclado mesmo), e terminou com Spoke in the Wheel e a indefectível In This River, ambas com Wylde no teclado (agora com som de piano). E a última foi, claro, o destaque. Não pelas brincadeiras de Wylde, que ainda mostrou seu lado de pianista virtuoso, mas por causa das bandeiras de Dimebag Darrell, à esquerda do palco, e Vinnie Paul, à direita. Desnecessário dizer qual foi a reação dos fãs ao ver as imagens dos saudosos irmãos.

Com o pé novamente no acelerador, o BLS matou a pau com The Blessed Hellride e resgatou mais uma do novo disco, a ótima A Love Unreal, mas foi Fire it Up que levou a lona ao delírio. Tivemos mais efeitos com os canhões de fumaça, as várias bolas jogadas para a plateia – simulando a bola 8 da sinuca, como na capa de Shot to Hell (2006), apesar de a canção ser de Mafia (2005) – e um desfecho com muita debulhação, incluindo Wylde tocando com os dentes, com a guitarra nas costas e duelando com Lorina, e uma menção a Smoke on the Water, do Deep Purple. Era tanta felicidade que os fãs mandaram um trenzinho na canção seguinte, Concrete Jungle, e tome mais uma leva de solos, agora com um duelo estendido entre Wylde e Lorina, que se revezavam na plataforma usada pelo vocalista e guitarrista, além de nova menção a um clássico no fim: Black Sabbath, a música.

Os fãs adoraram, ou talvez seja isso mesmo que a grande maioria espera, mas é um tempo perdido se considerarmos que nada de Order of the Black (2010) foi tocado – honestamente, Overlord, Parade of the Dead e Godspeed Hellbound são melhores do que ficar vendo o que todos já sabemos, ou seja, que Wylde é um dos grandes guitarristas do heavy metal. Mas teve Stillborn, um hino, para reconduzir o show ao seu devido lugar, com Fabb enlouquecido atrás da bateria, como se estivesse tomado pela energia que era emanada para o palco – sejamos justos: DeServio, braço-direito de Wylde, tem uma baita presença de palco, e o conjunto da obra acaba compensando a relativa timidez de Lorina. Mas o que dizer de um show que acaba sob efusivos aplausos de uma casa cheia? Ora, foi bom para caramba, e os fãs ainda ganharam camisas oficiais do Black Label Society. Digo, aqueles que se dispuseram a se estapear para disputar os mimos que foram jogados pela banda.

Setlist Black Label Society
Genocide Junkies
Funeral Bell
Suffering Overdue
Bleed for Me
Heart of Darkness
Suicide Messiah
Trampled Down Below
All That Once Shined
Room of Nightmares
Bridge to Cross
Spoke in the Wheel
In This River
The Blessed Hellride
A Love Unreal
Fire it Up
Concrete Jungle
Stillborn

Setlist Syren
My Shadown, My Dear Friend
Eyes of Anger
Heavy Metal
Salvation
Die in Paradise

Kip Winger

Por Daniel Dutra | Fotos: Daniel Croce

“Preciso que meu violão funcione, mas posso apenas cantar”, disse Kip Winger ao responsável pelo som da casa. E enquanto o problema não era resolvido, o jeito era jogar conversa fora. No bom sentido. “É muito bom estar de volta ao Rio de Janeiro, e em algum momento isso vai funcionar”, garantiu o músico, observando o técnico mexendo no equipamento. “É tudo que tenho a dizer, porque o que quero mesmo é cantar algumas músicas. Bom, posso fazer o moonwalk.” A segunda vez de Kip com seu show acústico na cidade já estava virando comédia stand-up – ele ameaçou o passo de dança, arrancando risadas do público – quando tudo parecia finalmente solucionado. “Estou até com medo de me mexer. Alguém tem uma fita? Ok, dane-se!”, brincou Kip antes de o som sumir mais uma vez. “Bom, garanto a vocês que vai ser incrível assim que acertamos isso.” E foi.

Acompanhado apenas do ótimo percussionista Robby Rothschild, que participou de três de seus discos solo de estúdio – This Conversation Seems Like a Dream (1997), Songs from the Ocean Floor (2000) e From the Moon to the Sun (2008) –, Kip fez um show realmente incrível. O início com Cross, de Songs from the Ocean Floor, foi o aquecimento para a primeira enxurrada de joias do Winger. Easy Come Easy Go ganhou os vocais de apoio voluntários dos fãs que compareceram em número razoável ao Teatro Odisseia, mas em quantidade suficiente para arrancar um “Fucking awesome! Obrigado”, dito com um enorme sorriso pela estrela da noite. Em Who’s the One foi a vez de o microfone falhar, então a parada para o conserto foi aproveitada com apertos de mão e autógrafos para a turma que estava colada no palco – a casa, aliás, estava com uma inédita configuração de mesa e cadeiras, mas ninguém ficou sentado.

Can’t Get Enough foi outra muito bem recebida, mas o negócio esquentou em Hungry. Não porque o público cantou junto, mas porque Kip deixou todo mundo de queixo caído. É simplesmente absurdo o que esse cara canta, e a resposta da plateia foi com um coro com seu nome, prontamente devolvido pelo músico com um “Rio! Rio! Rio” – em tempo: sim, músico. Melhor ainda, multi-instrumentista, porque estamos falando de um artista que é muito mais do que o baixista e vocalista do Winger. “Nosso último disco, Better Days Comin’, é de 2014, então eu e Reb vamos nos juntar em agosto para começarmos a compor o novo álbum”, anunciou Kip, arrancando óbvios aplausos entusiasmados dos fãs. Estava mesmo na hora.


E foi de Better Days Comin’ a música seguinte, a belíssima Ever Wonder, com destaque, nas palavras de Kip, para “esse badass motherfucker, o percussionista Robbie”. Rainbow in the Rose, por sua vez, ficou fabulosa no formato acústico – na verdade, foi a comprovação in loco do que está no obrigatório Down Incognito (1998). Mesmo sem o instrumental que a deixa especialmente intrincada (salve Rod Morgenstein), a complexidade ainda se fez presente na canção que é uma das grandes obras-primas da história do hard rock. Em seguida, Kip perguntou se alguém da pista gostaria de subir ao palco para cantar nada menos que o maior hit do Winger, e entre quem levantou a mão a escolhida foi Laurency Paes, desafiada pelo músico: “Você consegue cantar? Então vem, girl from Rio”. Sim, ela conseguiu e, sem errar uma palavra sequer, vencendo rapidamente a timidez, foi protagonista de um dos momentos mais legais do show. “Isso foi incrível! E foi ao vivo”, disse Kip, empolgado. “Obrigado por apoiarem a música tocada ao vivo.”

A apresentação não havia chegado a sua metade, mas mesmo assim já tinha valido o ingresso de todos os presentes. Só que tinha mais. Spell I’m Under foi mais um show de Kip como vocalista, enquanto Without the Night se mostrou uma agradável surpresa tirada do homônimo disco de estreia do Winger, de 1988. Ideal para preparar o terreno para quatro músicas dos álbuns solo, começando por How Far Will We Go, do genial This Conversation Seems Like a Dream; passando pela espetacular instrumental Free, de Songs from the Ocean Floor; e fechando com duas de From the Moon to the Sun, ambas com Kip trocando o violão pelo teclado: as bonitas Pages and Pages e Where Will You Go, incluindo uma merecida ovação depois da primeira. “Isso é o que importa. Vocês são incríveis. Muito obrigado!”, agradeceu.

É o que importa, mesmo. As canções de sua carreira solo não estavam na ponta de língua de todos os presentes como estavam as joias do Winger, mas a reação foi extremamente positiva, e em muitos se percebia um ar de admiração pelo que talvez estivessem ouvindo pela primeira vez. Mas se era para cantar, o fim do show foi arrasador. Headed for a Heartbreak é tão bonita que nem mesmo o antológico solo de Reb Beach fez tanta falta assim; Down Incognito foi mais uma amostra da garganta privilegiada do cara que ainda é subestimado por muita gente, em boa parte por causa do início dos anos 90; Madeleine fez todo mundo cantar o coro no refrão; e o hino Seventeen, com direito à brincadeira de que agora “she’s only forty eight”, encerrou um show simples que, na verdade, é um espetáculo de bom gosto, boa música e simpatia (Kip não arredou o pé até tirar foto com o último fã que estava numa improvisada fila, ao fim da apresentação) – e sabe aquele baterista que aparece, num vídeo do início dos anos 90, jogando dardos num pôster do Kip Winger? Se tivesse metade do talento que o multi-instrumentista tem no dedo mindinho da mãe esquerda, esse baterista seria um grande músico. Acontece que não tem.

Mas não acabou aí. Não o texto, pelo menos, porque antes teve a apresentação do Anie, projeto acústico dos ex-Shaman e Noturnall Fernando Quesada (violão e vocal) e Junior Carelli (teclados e vocal), que no Rio contaram com a participação especial do vocalista do Rec/All, Rod Rossi. E mais do que cair com uma luva na proposta do evento, a curta apresentação do trio foi uma agradável surpresa. Talvez We Will Rock You, do Queen, e Nova Era, do Angra, pudessem ter dado lugar a canções menos populistas ou até mesmo a obras autorais, uma vez que foi aí que o show realmente ganhou charme, até porque quem estava interessado em assistir iria curtir de qualquer jeito – e não deixa de ser curioso que em alguns momentos cheguei a imaginar que iria começar alguma coisa do Savatage. Mas, por exemplo, pegue We All Die Young, que Chris “Izzy” Cole, interpretado por Mark Wahlberg, canta na audição para vocalista da fictícia banda Steel Dragon no filme “Rock Star”. Não atingiu o status de Stand Up, mas é uma baita música e foi uma ótima escolha para abrir o set.


E Dream on, do Aerosmith, que veio em seguida? É um clássico, mas não é Walk This Way, e ainda ganhou uma bela verão acústica. Foram opções mais acertadas, assim como a inclusão, mesmo que óbvia, da ótima iHate, do Rec/All, e principalmente de material do próprio Anie. And I Go tem uma história que cabe no formato, para convidar a plateia a participar – “Fala dos anos no Shaman e no Noturnall, então foi nossa carta de despedida. Por isso esse tom”, explicou Quesada –, e Choices é boa, muito boa, com um potencial comercial que precisa ser descoberto. Ainda assim, com três músicos talentosos no palco, arranjos bem sacados e, resumindo, um repertório com mais acertos do que erros, o show foi um bom aperitivo para quem não conhecia o Acoustic Natural Intense Experience.

Setlist Kip Winger
Cross
Easy Come Easy Go
Who’s the One
Can’t Get Enuff
Hungry
Ever Wonder
Rainbow in the Rose
Miles Away
Spell I’m Under
Without the Night
How Far Will We Go
Free
Pages and Pages
Where Will You Go
Headed for a Heartbreak
Down Incognito
Madalaine
Seventeen

Setlist Anie
We All Die Young
Dream on
iHate
Choices
We Will Rock You
And I Go
Nova Era

Saxon

Por Daniel Dutra | Fotos: Daniel Croce

As águas de março… Quis o destino que a primeira vez do Saxon no Rio de Janeiro, apesar de a banda ter passado pelo Brasil em seis oportunidades anteriores (1997, 1998, 2002, 2011, 2013 e 2018), acontecesse no mês em que a cidade costuma sofrer com as chuvas. Some-se a isso um público que parece estar evitando shows de heavy metal, considerando também uma crise econômica no estado maior do que a média nacional, e a receita está completa: um Vivo Rio com uma ocupação aquém do que o quinteto merece. Uma pena. Se necessário, era o caso de improvisar um Noé e construir um barco para sair de casa – até choveu, mas não foi para tanto –, porque se era imaginado que Biff Byford (vocal), Paul Quinn e Doug Scarratt (guitarras), Nibbs Carter (baixo) e Nigel Glockler (bateria) iriam matar a pau, as quase duas horas de show superaram as melhores expectativas.

Em vários momentos eu já disse que, hoje em dia, ninguém faz um show de metal melhor que o Accept. É verdade, mas alguns nomes mandam tão bem quanto: Armored Saint, Metal Church e o próprio Saxon. É normal a lista crescer quando se adiciona uma novidade ao currículo musical, e a grande maioria dos presentes na pista e nos camarotes da casa também estava debutando numa apresentação da banda inglesa, então o impacto foi imediato. Apesar do som muito alto e, consequentemente, embolado – continuou alto, mas foi aos poucos ficando clareando –, a dobradinha inicial mostrou que a noite seria matadora. Thunderbolt e Sacrifice foram um arregaço, mas o melhor mesmo foi perceber ao vivo como as faixas-título dos álbuns lançados em 2018 e 2013, respectivamente, provam como o grupo se manteve relevante depois de 40 anos de estrada.

Mas como a turnê é para comemorar esse aniversário de quatro décadas, considerando o homônimo disco de estreia, vamos aos clássicos… “É muito bom estar aqui pela primeira vez”, disse Byford pouco antes de gravar a plateia com o celular e, em seguida, soltar a voz afiadíssima em Wheels of Steel – e foi aí que começou o show particular de Glockler, diga-se. Strong Arm of the Law e Denim and Leather foram emocionantes, em boa parte pelo público cantando ativamente o refrão, num comportamento que foi de encontro à frieza demonstrada em alguns momentos do show. Ainda empolgados com a trinca de clássicos, os fãs soltaram a garganta no “Olê, olê, olê! Saxon! Saxon!”, e Byford respondeu trocando o nome da banda pelo da cidade. Foi a deixa para a belíssima porrada chamada Battering Ram.


“Vamos tocar duas músicas de nosso primeiro álbum, de 1979”, anunciou o vocalista antes de os cinco detonarem com Frozen Rainbow e Backs to the Wall. Lá estava Glockler fazendo bonito na bateria, mas Scarrat, com um solo emocionante em Frozen Rainbow, e Carter, agitando como se não houvesse amanhã em Backs to the Wall, mereceram o destaque dos holofotes. Pulando do primeiro direto para o trabalho mais recente, Byford anunciou que era hora de uma canção que “fala da nossa primeira turnê, em 1979, ao lado de uma banda chamada Motörhead”, e assim They Played Rock and Roll explodiu no som da casa antes de o quinteto soltar mais um clássico, Power and the Glory – e se houve um único porém na apresentação, e um totalmente justificável, foi o pouco material extraído de Thunderbolt (clique aqui para ler a resenha do álbum), pois cabia Pretador, talvez Sniper ou até Nosferatu (The Vampire’s Waltz). Mas fica para uma próxima vez. Amém!

“O que vocês querem ouvir?”, perguntou o carismático Byford. Ninguém queria ouvir material novo, obviamente, e as opções foram dadas ao público: The Eagle Has Landed, Ride Like the Wind, Broken Heroes, Solid Ball of Rock, Motorcycle Man e 20.000 Ft. “Bom, nada como uma plateia gritando o nome da música”, disse o vocalista ao responder ao anseio dos fãs por The Eagle Has Landed, que foi mais um daqueles momentos emocionantes para quem nunca tinha visto o Saxon em cima de um palco. Curiosamente, ela ficou fora do apresentação em Porto Alegre, onde teve seu espaço no repertório ocupado por Broken Heroes e Motorycle Man. Isso porque… “Vocês não querem ouvir Ride Like the Wind” ? Nós vamos tocar”, mandou Byford. E o cover de Christopher Cross, que tinha sido a escolha dos gaúchos duas noites antes, soou fantástica.

Depois de dar uma zoada por causa do constante ruído da guitarra de Quinn, quando este acionava um determinado pedal, Byford colocou os fãs para cantar 747 (Strangers in the Night). Nem precisou fazer esforço, assim como Carter se mostrava incansável ao agitar alucinadamente em And the Bands Played on. Lionheart, por sua vez, provou ser uma das novas favoritas dos fãs – apesar de que lá se vão quase 15 anos do disco que leva seu nome –, e a velhinha To Hell and Back Again, com seus 38 anos de vida, colocou o vocalista para bater cabeça, Glockler para brincar de tocar bateria e Carter no centro das atenções. Sério mesmo, a presença de palco do baixista é maravilhosamente animal! E incansável, porque logo a seguir, em Dallas 1 PM, o cara continuou possuído. Deu gosto de ver.

Celular novamente na mão, Byford fez aquela média bacana com os fãs ao filmá-los. Mas o momento pedia, afinal, era para registar o semblante dos fãs que ouviam Crusader ao vivo pela primeira vez. Necessário dissertar? Não, mas o clássico encerrou a apresentação antes do bis que todo mundo sabia que ia rolar. E ele começou em alta com a joia Heavy Metal Thunder – na boa, de novo, o que é a presença de palco do Carter?! –, deu uma baixada com Never Surrender, que ficou meio perdida, e terminou de fato num clímax. “Amanhã nós tocaremos em São Paulo…”, o vocalista começou a falar, antes de ser interrompido por vaias. “Eu sei, eu sei. Isso é coisa do futebol, certo? Torço pelo Manchester United, então entendo vocês.” Não exatamente, Biff, mas você se saiu bem e arrancou risos do público. “Tudo bem, vamos tocar em São Paulo, mas hoje estamos no Rio de Janeiro!”, completou o vocalista, agora sob uma salva de palmas. Então, Princess of the Night ecoou para fechar uma noite inesquecível com o que o heavy metal pode oferecer de melhor. E sejam bem-vindos mais vezes, Biff, Paul, Nigel, Doug e Nibbs.

Setlist
Thunderbolt
Sacrifice
Wheels of Steel
Strong Arm of the Law
Denim and Leather
Battering Ram
Frozen Rainbow
Backs to the Wall
They Played Rock and Roll
Power and the Glory
The Eagle Has Landed
Ride Like the Wind
747 (Strangers in the Night)
And the Bands Played on
Lionheart
To Hell and Back Again
Dallas 1 PM
Crusader
Bis
Heavy Metal Thunder
Never Surrender
Princess of the Night