KISS no Brasil: 35 anos – O Big Bang de uma geração

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação, Reprodução e Arquivo Pessoal

Os anos 70 haviam apresentado aos brasileiros os shows de Carlos Santana (1973), Alice Cooper (1974), Rick Wakeman (1975) e Genesis (1977), e os 80 tiveram sua iniciação com Queen (1981) e Van Halen (1983). Mas nada se compara à estreia do KISS no país, seis meses depois da passagem de David Lee Roth, Eddie Van Halen, Michael Anthony e Alex Van Halen. Para uma grande parte da geração que hoje tem entre 40 e 50 anos, o heavy metal – em todas as suas vertentes – começou com Creatures of the Night e ganhou contornos definitivos quando Paul Stanley, Gene Simmons, Eric Carr e Vinnie Vincent desembarcaram no Brasil para apresentações no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e em São Paulo, nos dias 18, 21 e 25 de junho, respectivamente.

Trinta e cinco anos depois do primeiro show, no Maracanã, para o maior público da carreira do KISS, a história ainda é contada em prosa e verso por fãs e pela banda. Para o bem e para o mal. Os detalhes numa época de informação analógica, ingenuidade e romantismo – e ‘business’ para Stanley e Simmons – só foram revelados ao longo dos anos: Creatures of the Night tinha Ace Frehley apenas na capa, o grupo andava em baixa nos Estados Unidos, a turnê no Brasil não foi um mar de rosas… Ainda assim, 35 anos depois, nada disso importa para um sem-número de fãs brasileiros que até hoje acompanham a banda, incluindo aqueles que só puderam ver o KISS nas turnês seguintes (1994, 1999, 2009, 2012 e 2015).

Creatures of the Night

“Para nós, Creatures of the Night foi feito sob o choque e a percepção de havíamos nos perdido completamente”, escreveu Paul Stanley em sua autobiografia, “Face the Music – A Life Exposed” (2014). “O disco foi uma declaração de que estávamos de volta aos trilhos, e Eric (Carr) ficou aliviado, porque era isso o que esperava desde o começo. Ele estava definitivamente mais feliz durante todo o processo.” Sim, é preciso falar do décimo disco de estúdio do KISS, porque ele faz parte do contexto. Depois de namorar o pop e a disco music – Dynasty (1979) e Unsmasked (1980) – e até flertar com o rock progressivo – Music from the Elder (1981) –, o grupo perdeu a sua essência. Não era mais rock’n’roll. Não era mais o inimigo número 1 dos pais. Não metia mais medo.

Musicalmente, Creatures of the Night foi mesmo uma volta às raízes, e com uma boa adição de peso. Hoje, é um clássico, o favorito de muitos fãs, um dos melhores trabalhos da banda, mas à época não foi bem assim. Apesar de ter se saído melhor que o seu antecessor – chegou ao 45º lugar no ranking da Billboard, 30 posições acima de Music from the Elder –, só sentiu o cheiro do Disco Ouro nos EUA em 9 de maio de 1994. Com Ace Frehley somente na foto e nos créditos, o álbum contou com convidados na guitarra solo: Robben Ford, Steve Farris e o até então desconhecido Vincent Cusano, que também assinou a composição de três músicas – duas com Simmons (I Love it Loud e Killer) e uma com Stanley (I Still Love You).


“Nós gostamos de Creatures of the Night e esperávamos pelo melhor, mas ele se saiu mal. Agendamos uma turnê pelos Estados Unidos, a mais malsucedida que fizemos até hoje”, contou o baixista em “KISS and Make-Up” (2001), sua autobiografia. “A cena musical estava mudando, e artistas como Michael Jackson e The Clash encontravam-se em ascensão, então ninguém aparecia para nos ver. Era assim na América do Norte, mas fora dela, especialmente na América do Sul, nós tocamos para as maiores audiências de nossas vidas, em estádios lotados de gente.” Enquanto não se sustentava nos EUA, Creatures of the Night recebia Disco de Ouro no Brasil, em 1983, e emplacava um hit que ultrapassou as fronteiras do heavy metal no país: I Love it Loud.

A 10th Anniversary Tour

Creatures of the Night chegou às lojas em 13 de outubro de 1982, e no dia 29 de dezembro o KISS começou a sua turnê de divulgação, já com Vincent Cusano atendendo por Vinnie Vincent, na persona de Ankh Warrior ao lado de Starchild, The Demon e The Fox – Ankh, a cruz da maquiagem do guitarrista, é um símbolo egípcio que significa vida. Incluindo apenas os EUA e o Canadá, a turnê durou até 3 de abril de 1983 e foi um fiasco para os padrões do grupo: média de público de cinco mil pessoas por show.

“Obviamente, tínhamos de pagar penitência pelo que fizemos em Unmasked e Music from the Elder. E pagamos com Creatures of the Night, mas os fãs não estavam nos perdoando. Foi muito ruim na maioria das cidades. Antes de irmos para o palco, ouvíamos o ‘You wanted the best, you got the best, the hottest band in the land…’, então entrávamos para descobrir que não tinha ninguém na plateia. Algumas vezes havia mil pessoas numa arena que comportava 15 mil”, disse Stanley, ilustrando o desolador cenário. “Nós havíamos lotado aquelas mesmas arenas cinco anos antes, mas se dessa vez eu jogasse minha paleta muito longe, ele passaria pela cabeça das pessoas e cairia no chão.”

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35 anos em uma coleção (Foto: Arquivo Pessoal)
Anúncios do show no Maracanã e da turnê no Brasil (Foto: Montagem/Reprodução)
Anúncios do show no Morumbi (Foto: Montagem/Reprodução)
Ingresso Maracanã (Foto: Reprodução)
Ingresso Morumbi (Foto: Reprodução)
Ingresso Morumbi (Foto: Reprodução)
Capa e contracapa do Tour Book (Foto: Reprodução)
Gene Simmons, Paul Stanley e Vinnie Vincent (Foto: Divulgação)
Gene Simmons, Paul Stanley e Vinnie Vincent (Foto: Divulgação)
Gene Simmons, Vinnie Vincent e Paul Stanley (Foto: Divulgação)
Gene Simmons, Vinnie Vincent e Paul Stanley (Foto: Divulgação)
Eric Carr, Gene Simmons, Vinnie Vincent e Paul Stanley (Foto: Divulgação)
Gene Simmons e Paul Stanley (Fotos: Divulgação)
Eric Carr e Vinnie Vincent (Fotos: Divulgação)
Vinnie Vincent, Paul Stanley, Eric Carr e Gene Simmons (Foto: Divulgação)
Eric Carr, Gene Simmons, Vinnie Vincent e Paul Stanley (Foto: Divulgação)
Eric Carr, Paul Stanley, Vinnie Vincent e Gene Simmons (Foto: Divulgação)
Vinnie Vincent, Paul Stanley, Eric Carr e Gene Simmons (Foto: Divulgação)
Paul Stanley, Vinnie Vincent, Gene Simmons e Eric Carr (Foto: Divulgação)

Depois da tempestade, a bonança. Os rumores da vinda ao Brasil se tornaram realidade no mesmo mês em que o KISS encerrara o giro norte-americano. Outdoors espalhados pelas cidades que receberiam a banda foram suficientes para alavancar as vendas de Creatures of the Night (percebeu a conexão?), causar alvoroço em quem já era fã da banda e começar a formar a geração que, a partir daí, virou membro do KISS Army. Stanley, Simmons, Carr e Vincent chegaram ao Brasil em 14 de junho, quatro dias antes do primeiro show, no Rio de Janeiro, e enfrentaram protestos de cristãos e evangélicos com as alegações de sempre: a banda é satânica e faz apologia ao nazismo – risível, uma vez que Simmons, judeu nascido em Israel, só está entre nós porque sua mãe, Florence Klein, escapou da câmara de gás num campo de concentração na Hungria. A esposa de um oficial da SS precisava de uma cabeleireira.

O Maracanã entra para a história

A melhor de todas, porém, era que os Garotos a Serviço de Satanás pisavam em pintinhos e sacrificam animais no palco. Não foi o que aconteceu em 18 de junho, quando 137 mil pessoas lotaram o Maracanã para assistir à apresentação de estreia no Brasil. “(…) Tocamos para 180 mil fãs enlouquecidos no Estádio do Maracanã, no Rio”, lembrou Stanley, fazendo uma confusão comum em relação ao público presente naquela noite de sábado. “Foi a maior audiência para a qual tocamos até hoje. Ao me apresentar num estádio de futebol na América do Sul, percebi que os estádios que consideramos grandes nos Estados Unidos são muito pequenos em comparação. Minúsculos. Quando você entra num local como o Maracanã, se sente no fundo de um barril de petróleo.”

Alguns dias depois, o show carioca virou um especial de 40 minutos na Rede Globo – que não tem mais a fita master com a gravação bruta da apresentação. O programa incluiu declaração de fãs, como a menina que caiu no conto de dizer que KISS significa (abre aspas, mesmo) “Kids In Service of Satanás”, e da própria banda, que teve de responder se era mesmo verdade que sacrificava animais no palco. A desinformação e a falta de assuntos relevantes estiveram presentes também na coletiva de imprensa, realizada no Rio de Janeiro, e em programas de TV que fizeram a cobertura prévia do evento. O falecido empresário Marcos Lázaro, um dos responsáveis por trazer o grupo ao Brasil, teve de responder que nenhum bichinho seria morto, e houve até matéria com a técnica em retratos falados da Secretaria de Segurança Pública do estado para que ela descobrisse a identidade dos integrantes. Assim como ainda hoje existem protestos de evangélicos – vide a passagem do KISS por Brasília em 2015 –, a grande mídia continua com certos ranços do passado quando o assunto não é do seu domínio. Ou do seu interesse.

Mas aquele 18 de junho ficou marcado a ponto de a banda incluir de alguma maneira o show no Maracanã em vídeos lançados nos anos seguintes. Exposed (1987) tem I Love it Loud na íntegra; X-treme Close-Up (1992) apresenta trechos de Calling Dr. Love e War Machine; Kissology Vol. 2: 1978-1991 (2007) traz 20 minutos do especial da Rede Globo; e um novo videoclipe para Rock and Roll All Nite, editado ainda na década de 80, traz cenas em meio a várias outras colagens. “Não há como descrever a energia que um público daquele tamanho emana. E toda a energia era direcionada para nós em cima do palco”, lembra Stanley. “Você pode dizer que o ar estava eletrificado ou que havia uma sensação de antecipação, uma histeria. Não importa como chame, quando isso é direcionado a você, é como se fosse uma enorme onda que o consome. A quantidade de poder empurrando-o para frente é incrível. Quase pode tirar seus pés do chão.”


O KISS deveria se apresentar dois dias depois no Mineirão, em Belo Horizonte, mas o show acabou adiado para o dia seguinte por causa de problemas elétricos. Então governador de Minas Gerais, Tancredo Neves negou o pedido de líderes religiosos para que a data fosse cancelada, mas um juiz determinou que nenhum menor de 16 anos poderia entrar no estádio sem os pais ou algum responsável legal. Ainda assim, 30 mil fãs assistiram, no dia 21, a uma apresentação com direito a Paul Stanley fazendo média ao usar uma camisa do Atlético-MG.

A apresentação em São Paulo acabou sofrendo com o atraso de um dia no estado vizinho, e o show passou do dia 24 para o dia 25. Na coletiva de imprensa, Stanley, Simmons, Carr e Vincent apareceram sem maquiagem, apenas com lenços cobrindo o rosto. Sessenta mil fãs compareceram ao Morumbi para testemunhar (sem saber, claro) o último show do KISS com as maquiagens até 1996, quando a formação original se reuniu para uma bem-sucedida turnê mundial que passou pela América do Sul, mas não veio ao Brasil. Curiosamente, os paulistas seriam os primeiros a ver o KISS, e em duas datas (10 e 11 de junho), não fosse a necessidade de passar a cidade para o fim da turnê, em virtude das chuvas que castigavam a capital – um agravante também para a mudança de 24 para 25, diga-se. A despedida ainda teve direito a I Love it Loud tocada duas vezes, a segunda no bis, no lugar de Strutter.

Aproximadamente 230 mil pessoas compareceram aos três shows do KISS no Brasil, mas nos bastidores nem tudo correu bem. Os promotores perderam dinheiro com as mudanças de datas e o cancelamento de um show – seriam dois em São Paulo, e no fim houve uma fracassada tentativa de incluir Porto Alegre na logística. A lição do KISS, no entanto, foi diferente. “Apesar de a experiência ter sido depressiva em alguns aspectos, ela abriu nossos olhos para a ideia de que nenhuma cidade e nenhum mercado são definitivos”, disse Simmons. “Se você não está indo bem nos Estados Unidos, vá para o Brasil. Se não está dando certo na Colômbia, tente a Itália.” O baixista se refere aos problemas que a banda teve com a alfândega brasileira, que reteve todo o equipamento durante seis meses. Esta teria sido não apenas a razão de a negociação para uma turnê na Argentina ter morrido – seriam três shows em agosto –, mas também da demora em voltar ao Brasil. Felizmente, águas passadas.

You wanted the best, you got the best!

Por que a primeira vinda do KISS ao Brasil é tão especial? Por que Creatures of the Night é tão especial? Para mim, é especial exatamente porque, 35 anos depois, estou escrevendo estas linhas com prazer e orgulho. Eu tinha 5, 6 anos quando herdei do meu pai a paixão pela música, a começar por Beatles, Elvis Presley e Led Zeppelin, algumas de suas paixões dentro do rock’n’roll – a outra, o Rolling Stones, nunca desceu. E eu tentei, várias vezes, mas achava pior a cada audição. De qualquer maneira, não foi aí que o estrago aconteceu.

Lembro-me como se fosse hoje que, com 8 para 9 anos, assisti ao videoclipe de Shandi no Super Special, programa musical da Bandeirantes (não, a emissora ainda não era chamada de Band). Fiquei fissurado com aqueles quatro caras maquiados, apesar de não saber do que se tratava, apesar de obviamente não saber que Ace Frehley e Peter Criss não estavam mais no KISS. Porque eu não sabia nem mesmo que a banda havia lançado dois discos – Music from the Elder e Creatures of the Night – depois do álbum – Unmasked – que tem aquela música. Eu só sabia que aquilo era melhor coisa que eu já havia escutado. O que meu pai fez? Certamente orgulhoso por ver seu moleque se interessando sozinho por algo, saiu no dia seguinte e comprou o novo álbum daquele grupo chamado KISS.

Não sei precisar quantas vezes ouvi Creatures of the Night (tenho o vinil até hoje, 35 anos depois), mas ele mudou a minha vida. Algumas semanas depois, talvez um mês, os outdoors anunciavam que o KISS iria tocar no Maracanã, a poucos quilômetros da minha casa. Meu pai comprou os ingressos, mas não pôde me levar. Passou mal no dia, e eu, já com 9 anos, só entendi o porquê dois meses e dez dias depois, quando ele faleceu. Aquela noite de sábado, 18 de junho, foi o melhor show que eu nunca vi, porque ele marca o que meu pai fez por mim. E ele esteve comigo em todos os 15 shows do KISS que pude ver desde então. Ele estará comigo no próximo. E ele está comigo sempre que coloco Creatures of the Night para rolar.

E você? Qual a sua história?


Judas Priest – Firepower

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Firepower nem precisou chegar às lojas – ou às plataformas de streaming, para sermos atuais – para se tornar o melhor disco de heavy metal de 2018. Será mesmo? Eu havia o escutado o CD antes mesmo de seu lançamento oficial, e nada mudou depois de quatro meses. As várias novas audições apenas realçaram a minha primeira impressão: o 18º álbum de estúdio do Judas Priest saiu fortalecido com a notícia de que Glenn Tipton não sairia em turnê por causa das limitações causadas pela Doença de Parkinson.

Um hype involuntário, obviamente, mas que causou comoção. E não estou sendo insensível, porque a comoção é justa. Não apenas porque o guitarrista é o alicerce musical da veterana banda inglesa, mas porque entramos na fase em que, de uma maneira ou de outra, os ídolos responsáveis por nossa formação musical estão nos deixando. Sim, não é fácil assimilar o fim de uma era, por mais que estejamos sendo preparados para isso nos últimos anos: Ronnie James Dio, Lemmy Kilmister, Black Sabbath, Slayer…

Firepower é mesmo o melhor trabalho do Judas Priest desde a volta de Rob Halford, em 2003. E se não é mérito algum deixar o insosso Nostradamus (2008) comendo poeira, é louvável que o vocalista, Tipton, Richie Faulkner (guitarra), Ian Hill (baixo) e Scott Travis (bateria) tenham superado o bom Redeemer of Souls (2014). Apesar de os dois discos mais recentes amargarem momentos bem irregulares, o que é bom no novo álbum é bom demais. Por isso, os 58 minutos e dez segundos de música são um exagero.


O quinteto bem poderia ter enxugado o CD de 14 para dez faixas, por exemplo. Há canções que servem para cumprir tabela – casos de Necromancer, Flame Thrower e Spectre, todas não mais que legais – e outras duas completamente dispensáveis: Sea of Red, uma baladinha de bocejar que fecha o álbum de maneira broxante, e a chatíssima Never the Heroes, que troca seu breve início à la Turbo (1986) para uma sonoridade que remete ao Fight da fase A Small Deadly Space (1995), e isso tem seus prós e contras.

Firepower tem outras duas remissões à banda formada por Halford depois de sua saída do Judas Priest, e especificamente ao segundo trabalho. Children of the Sun é a mais gritante, e Evil Never Dies, a melhor. Esta, aliás, fecha a ótima trinca de abertura do álbum, que começa com a rápida faixa-título e a sensacional Lightning Strike, que contagia com sua bateria cavalgada e um refrão de primeira. Portanto, vamos falar de coisas boas. Como Lone Wolf, na qual brilham Halford e Faulkner (belo solo).


Ou vamos falar das melhores. Muito bem escorada pela curta instrumental Guardians, Rising from Ruins é um heavy rock que flerta com balada e dá gosto de ouvir. E Traitors Gate com seu dedilhado inicial que, por um momento, dá a impressão de vai entrar Battle Hymn, do Manowar? Depois, uma sequência de riffs maneiros e um andamento empolgante. Para terminar, a favorita da casa: o bem-sucedido casamento com o hard rock que atende por No Surrender (e alguém falou em W.A.S.P. na guitarra do início?).

Firepower não é essa obra-prima toda, repito, mas é mais um bom capítulo do rejuvenescimento do Judas Priest – e Faulkner tem muito a ver com isso, diga-se. É também uma boa união do passado com o presente, incluindo o veterano Tom Allon – responsável por todos os discos de estúdio de British Steel (1980) a Ram it Down (1988) – para a coprodução ao lado do queridinho Andy Sneap (que, vocês sabem, está substituindo Tipton na turnê). Se este pode ser o canto dos cisnes, os fãs têm de se acostumar.





Angra

Por Daniel Dutra | Fotos: Gustavo Maiato

Sabe aquela noite que valeu a pena mesmo que nem tudo tenha dado certo? Na verdade, que valeu a pena mesmo que algo tenha dado muito errado. É possível resumir assim a primeira passagem do Angra pelo Rio de Janeiro na turnê para promover o novo álbum, ØMNI (2018). Sim, primeira, porque falta agora uma apresentação sem… Bem, vamos por partes. O Circo Voador já estava lindamente abarrotado de gente – acredite, feriado no Rio de Janeiro, ainda mais prolongado, não significa casa cheia em shows – quando Fabio Lione (vocal), Rafael Bittencourt e Marcelo Barbosa (guitarras), Felipe Andreoli (baixo) e Bruno Valverde (bateria) mandaram ver Nothing to Say, o início de um “set list especial e variado”, como Lione anunciaria pouco depois. Desnecessário dizer que a lona entrou em ebulição, afinal, é um dos maiores clássicos da banda – e é de Holy Land (1996), um dos trabalhos emblemáticos do metal brasileiro.

E aí veio a nova Travelers of Time, que todos sabiam cantar, sem contar a turma que abriu a primeira roda da noite, para alegria de Bittencourt. Angels and Demons surgiu em seguida e, apesar de já na estar na hora de algum outro exemplar de Temple of Shadows (2004) entrar no repertório, mostrou por que é uma das favoritas dos fãs. De Secret Garden (2014), Newborn Me e aquela seção instrumental espetacular no meio da canção soaram arrasadoras e foram muito bem acompanhadas pelo público, que continuou respondendo maravilhosamente bem ao passado – com Time, uma joia à la Queensrÿche presente em Angels Cry (1993) – e ao presente do Angra, porque Light of Transcendence foi a prova definitiva de que ØMNI caiu em suas graças. Não à toa, o coro com o nome da banda ecoou forte na casa, e o set list especial mostrava que o caminho seria um pouco de cada álbum – à exceção de Aqua (2010), com boa dose de razão.

Com Bittencourt substituindo sozinho os corais do início, Running Alone, de Rebirth (2001), foi uma agradável surpresa, apesar de a expectativa por Acid Rain, originalmente no set, ter sido frustrada. Um momento de calmaria com a bela Storm of Emotions e um momento de “eu já sabia!” com Insania, porque estava na cara que seu refrão iria pegar fácil, fácil. Rolou piada com a falta de gasolina, “especialmente no Rio de Janeiro”, na hora de Bittencourt agradecer a todos por terem ido ao show; teve solo de bateria – curto, felizmente; e houve problemas. Lione, que desde antes vinha sofrendo com problemas técnicos, não escondeu sua irritação em Black Widow’s Web, uma das mais aguardadas da noite. Daí para frente, a situação só piorou. Fosse o microfone, fosse o fone/monitor ‘in ear’ de retorno, a situação fez com que Lione ficasse cada vez mais puto – mas muito puto – com o técnico da mesa de som lateral.

Nem mesmo um vocalista da excelência de Lione consegue acertar o tom da música quando não consegue ouvir o que está acontecendo, então imagine tendo de fazer também as partes de Alissa White-Gluz – Bittencourt assumiu os vocais gravados pela Sandy. Mas o show tinha de continuar, apesar de te rolado uma esfriada no clima em Upper Levels – uma pena, porque aquele trecho instrumental ‘mezzo’ Kansas, ‘mezzo’ Rush merecia ovação – e em ØMNI – Silence Inside, a ponto de Lione inflar o público para tirá-lo de uma apatia que havia evaporado durante uma baita versão de Z.I.T.O. com Bruno Sá (Geoff Tate) na flauta. A ótima Ego Painted Grey, única de Aurora Consurgens (2006), quase foi esquecida pelo vocalista, que voltou a sofrer com microfone/retorno em Lisbon (tome esporro no técnico, diga-se) e, ao fim do maior clássico de Fireworks (1998), atirou o pedestal no chão.

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O público? Ciente de que algo estava errado, fez a sua parte. Voltou ao estado normal de espírito em Lisbon e gritou com vontade o nome de Lione depois da excepcional Magic Mirror. Uma recompensa e um merecido reconhecimento ao vocalista que, com nova falha no microfone logo no início da música, transformou a raiva numa interpretação matadora junto ao instrumental técnica e criativamente impecável conduzido por Andreoli, Barbosa, Bittencourt e Valverde (entenda-se: cantou para cacete). Uma deixa providencial para o bis que começou com Bittencourt numa versão voz e violão de Reaching Horizons. Melhor, uma versão vozes e violão, porque foi bonito ver e ouvir os fãs cantarem sozinhos boa parte da “primeira música que o Angra compôs”, como lembrou o guitarrista, hoje o único integrante da formação original.

“Este é o Angra de hoje, o Angra do futuro, o Angra do ØMNI”, disse Bittencourt, mandando um “obrigado a todos os ex-integrantes da banda” por terem ajudado a construir uma história de 28 anos, praticamente. E na apresentação da banda de hoje e do futuro, justiça feita a Lione, o mais aplaudido. Ele foi novamente prejudicado em Rebirth, uma vez que o microfone mal funcionou, mas contou com o apoio dos fãs, que cantaram um clássico da segunda fase do Angra que muito bem se aplica à nova era – com trocadilho – do grupo tendo o italiano nos vocais.

Antes de Reaching Horizons, Bittencourt mencionou as rodas abertas na pista ao longo da noite: “Vontade de pular aí”. Promessa cumprida no medley de Angels Cry com Nova Era, que transformou o Circo num pandemônio. Por um instante parecia que o guitarrista havia largado o instrumento porque havia algum problema, mas não. Foi mesmo para se atirar na plateia e ser devolvido ao palco depois de uma breve seção de ‘crowd surfing’. Definitivamente, foi a imagem de um noite que valeu a pena, a imagem de uma banda que, apesar dos problemas, felizmente insiste em se renovar e se fortalecer. E que a noite tenha sido realmente apenas a primeira no ciclo de divulgação de ØMNI, para fazer com que aquela quinta-feira seja lembrada com um ensaio de luxo.

Nota de rodapé: a abertura coube ao Maieuttica, formado por Allan Sampaio e Frank Lima (vocais), Rubens Junior e Lucas Rodrigues (guitarras), Bruno Pinho (baixo) e Vitor Arante (bateria). Promovendo seu segundo disco, Hiatus: Ausência (2018), o sexteto carioca apresentou um metalcore que pode agradar em cheio a ouvidos menos exigentes. Se o estilo se popularizou de tal forma que o déjà vu é inevitável, a banda também não ajuda com seu som genérico. Imagine o Linkin Park resolvendo virar uma banda de heavy metal com algumas pitadas de Faith No More (muito por causa de alguns trejeitos vocais de Lima, responsável pelas partes extremas/guturais).

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É isso o que se ouviu em músicas como Brame, Hidra, Além da Lei e O Paciente: Cárcere – que contou até com a participação da modelo, dançarina e coreógrafa Thalita Ferreira –, somado a uma arrogância juvenil em algumas declarações de Lima, como “Nós somos o Maieuttica. Sim, é um nome difícil de falar” e “Quem não fugiu das aulas da filosofia sabe o que significa”. Acredite, Maieuttica não é um nome difícil de falar. Difícil é decifrar alguns logos de bandas de black metal. E imagino que, assim como o vocalista, aqueles que se formaram em filosofia ou que são da área de humanas em geral lembrem tudo o que aprenderam nas aulas de matemática, geometria, física, química…

Set list
1. Nothing to Say
2. Travelers of Time
3. Angels and Demons
4. Newborn Me
5. Time
6. Light of Transcendence
7. Running Alone
8. Storm of Emotions
9. Insania
10. Bruno Valverde Solo
11. Black Widow’s Web
12. Upper Levels
13. Z.I.T.O.
14. ØMNI – Silence Inside
15. Ego Painted Grey
16. Lisbon
17. Magic Mirror
Bis
18. Reaching Horizons
19. Rebirth
20. Carry on / Nova Era

Clique aqui para acessar a resenha no site da Roadie Crew.

Armored Saint

Por Daniel Dutra | Fotos: Daniel Dutra + Divulgação

Prepara-se para uma aula de heavy metal. E heavy metal clássico, puro em sua melhor essência. Trinta e seis anos depois de dar os primeiros passos em Los Angeles, contando os sete anos de hiato na década de 90 e momentos de incerteza nos anos 2000, o Armored Saint finalmente chega ao Brasil para uma única apresentação em nosso país em sua turnê sul-americana: dia 3 de junho, no Fabrique Club, em São Paulo (a banda também passa por Argentina, Peru, Colômbia e Chile). John Bush (vocal), Phil Sandoval e Jeff Duncan (guitarras), Joey Vera (baixo) e Gonzo Sandoval (bateria) ainda curtem a ótima recepção ao seu mais recente álbum, o excelente Win Hands Down (2015), mas têm também um catálogo de clássicos presentes em March of the Saint (1984), Delirious Nomad (1985), Raising Fear (1987) e, principalmente, no emblemático Symbol of Salvation (1991) – são sete álbuns de estúdio, dois ao vivo, um EP e uma coletânea na discografia do quinteto. Musicalmente tão relevante hoje como foi no início de carreira, o grupo vai mostrar por que atualmente está na linha de frente dos shows de metal. Para falar da primeira vez e de mais um pouco, principalmente o “mais um pouco”, Gonzo atendeu a ROADIE CREW e deu o tom do que virá pela frente. Não perca (a entrevista e o show).

Uma espera de 36 anos. É muito tempo, mas finalmente o Armored Saint está vindo ao Brasil. A primeira pergunta é óbvia: qual é a sua expectativa?
Gonzo Sandoval: Ao longo dos anos, sempre ouvi que os brasileiros são apaixonados e incríveis, então espero uma noite cheia de energia e diversão curtindo heavy metal junto com vocês.

John e Joey já estiveram aqui com o Anthrax e o Fates Warning, então acredito que tenham adiantado alguma coisa. Mas eu diria que o público não tem ideia do que o aguarda. Posso dizer que hoje em dia ninguém faz um show de heavy metal melhor do que Accept, Metal Church e Armored Saint.
Gonzo: John e Joey compartilharam com o restante da banda os ótimos sentimentos que têm sobre o público daí. O Armored Saint adora uma plateia realmente agitada, por isso encoramos todos vocês a ir ao show e ter um ótimo momento rock’n’roll conosco. E muito obrigado pelo elogio em relação ao nosso show! Nós somos uma banda para tocar ao vivo, mesmo.

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A propósito, vocês não tocarão o Symbol of Salvation na íntegra no Brasil. Faz sentido, afinal, a banda nunca tocou aqui…
Gonzo: Nós temos dois anos de planos para o Armored Saint, incluindo muitas estreias, como essa primeira vez no Brasil… E viva o Brasil! Também estamos compondo e nos preparando para gravar um novo álbum, a ser lançado em 2019, então faremos uma turnê mundial que entrará por 2020.

Vamos falar um pouco de história, começando pela formação da banda e o lançamento do EP Armored Saint em 1983. Quais são suas lembranças?
Gonzo: David Prichard, Phil Sandoval e eu formamos o núcleo inicial da banda. John Bush tinha um sistema de PA e queria cantar, então se juntou a nós logo em seguida. Finalmente, Joey Vera, que vivia nos cercando com seu baixo, foi o último a entrar. E Jeff Duncan se tornou integrante quando David perdeu, aos 26 anos, a batalha contra a leucemia. Gravamos o EP, que inicialmente era uma demo com cinco músicas, para o Brian Slagel, da Metal Blade, em 1982. Daquela demo, Lesson Well Learned foi usada na coletânea Metal Massacre II, bem no comecinho da história da gravadora. Armored Saint nasceu dessa sessão de gravação e foi nossa primeira vez num estúdio de verdade. Ele se chamava Track Record e ficava na Melrose Avenue, em Hollywood, Califórnia.


E logo depois vocês assinaram com a Chrysalis Records para lançar March of the Saint, em 1984. Apesar dos problemas com a produção de Michael James Jackson, é um álbum clássico, mas creio que a mudança para um grande selo teve mais contras do que prós. Phil deixou a banda durante as gravações de Delirious Nomad, e em Raising Fear o Armored Saint era um quarteto…
Gonzo: Foi um período muito empolgante para o heavy metal na região de Hollywood, em 1984, porque bandas e clubes estavam surgindo a todo instante. As ruas viviam cheias de gente se divertindo. Muitos daqueles grupos estavam conseguindo um contrato com grandes gravadoras, e fomos um deles. Acreditamos que a Chrysalis seria boa para nós, afinal, ela tinha UFO, Jethro Tull, Huey Lewis and The News e Billy Idol, entre outros, e fomos a primeira banda realmente heavy metal do seu cast. A saída do Phil, enquanto gravávamos Delirious Nomad, foi realmente triste, mas hoje me sinto extremamente feliz por estar tocando e me divertindo com ele, um dos guitarristas mais incríveis que existem por aí. Ah! E Raising Fear foi coproduzido pela banda com Chris Minto, nosso engenheiro de som em March of the Saint. Era raro uma banda produzir seu próprio disco àquela época, mas nós fizemos isso.

O Armored Saint marcou seu retorno à Metal Blade com Saints Will Conquer, o primeiro disco ao vivo da banda, e deu boas-vindas a Jeff Duncan como segundo guitarrista. Foi uma transição simples?
Gonzo: Saints Will Conquer foi gravado ao vivo para uma rádio em Cleveland, Ohio, mas decidimos lançar oficialmente para ganhar tempo durante essa transição da Chrysalis para a Metal Blade. E foi aí que trouxemos Jeff Duncan, porque queríamos abandonar o formato de quarteto para novamente ser um quinteto.


E chegamos ao Symbol of Salvation. Resumindo, como foi compor e gravar uma obra-prima tendo de lidar com a doença e o falecimento de David Prichard?
Gonzo: Este foi um disco que nós tivemos de fazer. Passamos dois anos e meio compondo e gravando demos enquanto David lutava contra a leucemia. Depois que ele se foi, ficamos inativos durante um bom tempo, então decidimos que a música que criamos com David precisava viver. Trouxemos Phil de volta para a guitarra, e ele formou uma nova dupla com Jeff. As gravações de Symbol of Salvation foram uma experiência e um aprendizado inspiradores, divertidos e edificantes. David Jerden, nosso produtor, e Brian Carlstrom, o engenheiro de som, pavimentaram o caminho para que todo o Armored Saint tomasse as rédeas no estúdio. Nós tínhamos as canções, e eles, o método. Que David Earl Richard descanse em paz e sua memória viva para sempre, como no Symbol of Salvation.

Infelizmente, a banda esteve num hiato durante a maior parte dos anos 90, um período que não foi bom para o heavy metal. Mas você e Phil montaram o Life After Death. O que pode nos contar dessa empreitada?
Gonzo: Eu e meu irmão começamos a versão inicial do Life After Death com o guitarrista Gumby, o baixista Ray Burke e um vocalista incrível chamado Jack Emrick. A segunda versão já contava com os guitarristas Terry Williams, que ele descanse em paz, e Giovanni Santos, e foi com eles que gravamos nosso autointitulado álbum de estreia (N.R.: em 1996) com Roy Z na produção, para a extinta gravadora Indivision.


A propósito, como foi participar do MX Machine no fim dos anos 2000?
Gonzo: Quando entrei na banda, ela era um divertido trio semipunk, e havia apenas um integrante da formação original (N.R.: o baixista Diego Negrete). Mas foi algo muito breve para mim.

E sobre o Black Raven? Agora que o álbum Native Knight foi lançado, quais são os planos?
Gonzo: Pretendemos fazer shows e estamos trabalhando para isso, porque felizmente temos a oportunidade de fazer acontecer num futuro próximo (N.R.: a banda conta com Gonzo e Phil Sandoval ao lado de Daniel Hicks na flauta indígena; Chris O’Brian nos teclados; Louis Metoyer no baixo; Mike Smothers na segunda guitarra; e Evan Perlman no didgeridoo, um instrumento de sopro aborígene). Nosso disco está disponível para download e compra física no CD Baby e também se encontra no iTunes e outras plataformas digitais, mas no momento estamos buscando um contrato de licenciamento. Native Knight é, como chamamos, uma “medicação sonora com a intenção de ajudar a curar a condição humana”. É progressivo com world music e música nativo-americana. Vocês devem conferir, acreditem.


De volta ao Armored Saint, a banda retomou as atividades em 1999 e lançou Revelation no ano seguinte. Em 2001 saiu Nod to the Old School, mas um novo disco de inéditas só veio em 2010. Por que tanto tempo até La Raza?
Gonzo: A banda ficou num hiato enquanto John estava no Anthrax, mas ele e Joey começaram a compor em 2000, e o resultado foi Revelation. Nod to the Old School foi a ideia que tivemos para uma coletânea com quatro demos, o EP Armored Saint e algumas outras surpresas (N.R.: juntando todas as versões, são oito demos, e ainda havia duas novas canções, Real Swagger e Unstable). Depois disso, passamos por um período bem estranho e só saímos dele em 2009, quando John e Joey se juntaram para compor as músicas do La Raza. Concordo com você, porque dez anos de espera é tempo demais, mas muita coisa aconteceu. Hoje, estamos felizes por prosperar com o Armored Saint, que está mais forte e ocupado do que nunca.

E a banda levou metade desse tempo para soltar Win Hands Down, um de seus melhores discos. O que você pode falar dele agora, três anos depois do lançamento e de várias turnês para promovê-lo?
Gonzo: Win Hands Down é o álbum no qual o Armored Saint finalmente acertou em cheio na hora de fazer o seu melhor. Tem o melhor som e a melhor produção da banda em todos os tempos, apesar de o processo de gravação ter sido uma novidade para nós. Jay Ruson mixou o disco, Josh Newell gravou a bateria, e Joey produziu o nosso trabalho mais forte até hoje. Eles formaram um time que funcionou perfeitamente. Obrigado, rapazes! Particularmente, sob a direção do Joey, toquei no máximo das minhas habilidades e consegui a melhor performance da minha carreira. Para completar, a turnê tem sido bem cheia e nos levado a todos os lugares do mundo.


E um novo disco ao vivo foi lançado em 2016, mas permita-me uma reclamação. Carpe Noctum tem apenas oito músicas, assim como Saints Will Conquer, e foi pouco para os fãs…
Gonzo: Carpe Noctum é o exemplo do Armored Saint em seu melhor cenário: ao vivo em cima de um palco. Foi gravado numa perna europeia de nossa turnê mundial, e tenho orgulho da minha performance e do som de bateria que consegui tirar. No entanto, como produtor do álbum, Joey optou por um trabalho de curta duração e por não incluir as músicas que já estão no Saints Will Conquer. Mas nós vamos gravar um DVD da turnê que faremos tocando o Symbol of Salvation na íntegra. Continuaremos na estrada até 2020, pelo menos, e lançaremos um novo álbum em 2019 depois do DVD. Então, fiquem ligados!

Além de tocar, você customiza sets de bateria para outros músicos. O que mais pode dizer sobre esse outro lado da sua carreira?
Gonzo: Comecei fazendo o design e customizando um set de bateria na cor preta para James Perse, e o kit está em exposição em sua loja na Highland Avenue, em Hollywood (N.R.: Perse é o dono de uma grande rede de lojas nos EUA. Começou com uma franquia de roupas esportivas, mas ampliou para uma série de produtos de todos os tipos). O site Gonzo Drums of Thunder servirá para encorajar os jovens a seguir pelo caminho da percussão e da bateria. Será um canal educacional. Sou um aliado da música e estou fazendo isso porque quero ajudar esses jovens a entrar no rock’n’roll e a formar bandas, então quem sabe um dia alguns não possam ser grandes nomes do rock. O site ainda está em construção, mas fiquem de olho!


A música não é a única arte pela qual você é apaixonado. Há a fotografia. Como começou? O que você já fez e o que vem pela frente?
Gonzo: Sim, sou apaixonado por arte e criatividade. Amo fotografia e fui abençoado com um bom olho para esta arte. Comecei cedo, como consumidor de câmeras mais amigáveis, mas comprei a minha primeira DSLR assim que decidir levar a sério. Tudo mudou para mim, e desde então minha jornada foi ficando cada vez melhor. Quando vou fotografar alguma coisa, qualquer coisa, procuro sempre criar a imagem correta do ponto de vista criativo. Sou afiliado da Atlas Icons, agência criado e presidida pelo Neil Zlozower (N.R.: conceituado fotógrafo que cobre o cenário rock/hard rock/heavy metal desde o fim dos anos 70), e vocês podem ver alguns dos meus trabalhos no site da empresa, assim como na minha página pessoal. E há muito mais por vir.


O espaço final é seu, Gonzo. Sinta-se à vontade para acrescentar o que quiser.
Gonzo: Aguardo ansiosamente por essa visita ao Brasil. Levarei comigo a minha câmera e um senso de gratidão, porque estou pronto para tocar bateria e levá-la a novos níveis de projeção. Quero encontrar o público brasileiro de heavy metal e me divertir com todos no show. Cuidem-se, mantenham a fé e também o amor pelo futebol. Será a minha primeira vez no seu país, mas espero que não seja a última. Obrigado pelo apoio ao Armored Saint durante todos esses anos. Viva o Brasil, viva o Armored Saint e viva o heavy metal! Vejo vocês na estrada! Muito amor e rock’n’roll!


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Carl Palmer’s ELP Legacy

Por Daniel Dutra | Fotos: Daniel Croce

Vinte e quatro de março de 1993. O Canecão estava tomado por fãs de rock progressivo que esperavam pela primeira apresentação do Emerson, Lake & Palmer no Brasil. Marcado para começar às 21h30, o show já sofria um atraso considerável quando alguém, poucos metros atrás de mim, começou a vociferar para todos ouvirem que era “absurda a falta de respeito desses gringos!” e mais algumas frases de efeito contra Keith Emerson, Greg Lake e Carl Palmer. No entanto, bastaram poucos minutos de Tarkus para a mesma pessoa pedir licença a quem estava à frente porque queria ficar mais próximo do palco. “Isso é muito lindo! Que música maravilhosa! Que banda maravilhosa!”, ele passou falando alto para quem quisesse ouvir. Esse alguém era Renato Russo.

Vinte e cinco de maio de 2018. Não havia nenhum Renato Russo na plateia do Vivo Rio, e no palco estava apenas Palmer para comemorar o legado da obra feita por ele ao lado de Emerson e Lake (ambos falecidos em 2016). Houve atraso para o início da noite com o Carl Palmer’s ELP Legacy, mas de apenas 15 minutos, e num primeiro momento o clima na pista nem de longe lembrava aquele de 25 anos atrás. Com a configuração de mesas e cadeiras e o vai e vem de garçons – com um menu que ia de cerveja mais artesanal do que popular a garrafas de vinho; de batata frita a porções de salgadinhos e mini-hambúrgueres gourmet –, mas parecia que o público estava num restaurante sem se preocupar com quem receberia o couvert artístico.

Felizmente, as diferenças foram apenas essas, porque o show foi lindo, com músicas maravilhosas apresentadas por uma banda maravilhosa. E Palmer acertou em cheio ao optar por não ter um tecladista. Os jovens Paul Bielatowicz (guitarra) e Simon Fitzpatrick (baixo e chapman stick) se dividiram na missão de emular em seus instrumentos o trabalho de Emerson, com eventual e rara ajuda de samples, e foram muito além: conseguiram brilhar em pé de igualdade com o veterano batera. A tônica ficou clara nas duas primeiras canções da noite. Abaddon’s Bolero trouxe Fitzpatrick preenchendo bem os espaços, e Karn Evil 9: 1st Impression, Part 2 flertou com o heavy metal graças ao riff de Bielatowicz.

“Welcome back, my friends, to the show that never ends”, brincou Palmer ao se dirigir à plateia pela primeira vez. Mas não foi apenas uma referência ao clássico segundo álbum ao vivo do ELP. O show tem que continuar, e o batera realmente encontrou a fórmula ideal para manter viva a música do trio sem soar oportunista. O cartão de visitas já havia sido entregue, mas uma versão absurda de Tank enterrou qualquer dúvida que ainda pudesse existir: enquanto Bielatowicz (como toca esse garoto!) e Fitzpatrick simplesmente debulharam, Palmer mostrou com suas viradas à la Buddy Rich que, aos 68 anos, ainda toca como se estivesse brincando.

Baterista e mestre de cerimônias. Para falar com o público, Palmer ia à frente do palco e contava histórias. Lembrou-se de quando ele e os dois antigos companheiros receberam a visita de um sujeito de paletó, terno e gravata – “pensei que fosse alguém cobrando impostos”, disse, arrancando alguns dos vários risos da noite – e ficou sabendo que alguém estava acusando o trio de plágio, por isso teria de compensar financeiramente o autor da reclamação. “Olhei para trás e vi que o Keith havia se mandado. Pensei: ‘OK, ele sabe de alguma coisa’.” Era a vez de Knife-Edge, clássico do álbum de estreia baseado em peças do tcheco Leoš Janáček (1854 – 1928) e do alemão Johann Sebastian Bach (1685 – 1750), que não estavam por trás na notificação extrajudicial, obviamente.

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Quer mais clássico? “Esta é daquela disco que tem a cara dos três, e eu sou o mais bonito, à esquerda.” Modéstia de Palmer à parte, ele se referiu a Trilogy, faixa-título do terceiro, álbum lançado em 1971, e o show foi todo de Bielatowicz. Eu já disse que o garoto toca demais? Acredite, o que você está imaginando é pouco, porque o que ele fez aqui foi de cair o queixo. E valeu até a brincadeira tocando, digamos, ‘air keyboard’ para fazer uma referência ao que estava fazendo: levando os geniais teclados de Emerson com maestria para a guitarra. “Shit Happens”, disse Palmer, mostrando a haste quebrada de um dos pedais de bumbo. “É a quinta vez que isso acontece em toda a minha carreira, mas é pouco se levar em consideração que já são 55 anos.” Pediu cinco minutos para consertar. Levou menos tempo até a surpresa do repertório.

“Antes de a banda acabar pela primeira vez, fizemos um disco em 1978 que…” Palmer nem precisou completar, porque ele mesmo fez uma cara de mea-culpa. “Como pode uma banda de rock progressivo lançar um álbum chamado Love Beach? Parecíamos o Bee Gees na capa, mas estávamos bonitões.” Sim, Love Beach é controverso, mas Canario soou agradável ao vivo e no formato power trio tradicional, ou seja, com guitarra, baixo e bateria. Melhor, porém, foi 21st Century Schizoid Man. Muito bem recebida, a canção do King Crimson, grupo que Greg Lake integrou em seus primeiros anos, de 1968 a 1970, foi precedida pela história de como o saudoso baixista a sugeriu a Palmer e Emerson depois que o ELP se reuniu no início dos anos 90.

Em um show de progressivo a autoindulgência é convidada de honra, então os solos individuais se fizeram presentes. Bielatowicz desfilou técnica de ‘tapping’ e ‘two hands’, e ninguém segurou o riso – nem mesmo o músico – quando um gaiato aproveitou um momento de silêncio para gritar “Foda!” com vontade. A imagem do disco solo do guitarrista, Preludes & Etudes (2014), deu lugar nos telões laterais para imagens de antigos filmes de faroeste durante Hoedown, que soou muito bem no novo-velho formato escolhido por Palmer. Depois, o óbvio virou surpresa. “Esta música, escrita por Greg, é muito especial para mim. É nosso grande hit nos Estados Unidos, e acredito que tenha tocado nas rádios daqui, também.” Sim, Lucky Man, mas com Ritchie nos vocais. Sim, o Ritchie de Menina Veneno, mas também o Ritchie do Vímana, banda brasileira de rock progressivo que, em sua curta trajetória na década de 70, contou com nomes como Lulu Santos, Lobão e o ex-Yes Patrick Moraz.

Depois do solo de Fitzpatrick, mais surpresas. From the Beginning contou com a voz de Sérgio Vid (Vid & Sangue Azul), e C’est la vie, com a de Toni Platão (ex- Hojerizah), coerente ao poupar a música de seus habituais exageros ao cantar. Surpresas improvisadas, diga-se. Cada uma contou com um convidado no violão que sequer foi anunciado – se ajudar, o primeiro parecia o Almir Sater, e o segundo, o Rob Caggiano (Volbeat, ex-Anthrax). Só na aparência, claro. E de longe. Bom, de volta à programação normal: “Sei que essa música teve muita importância para bandas de rock progressivo à época, e felizmente eu estava na que a criou.” Amigo, Tarkus foi um desbunde, com várias passagens instrumentais de tirar o fôlego, coisa para renovar a esperança na boa música (dois garotos tocando com um veterano, lembra?) Não à toa foi, pela primeira vez na noite, aplaudida de pé por todos.

Uma versão matadora de Carmina Burana, de Carl Off, lembrou a todos quem era o astro principal da noite, porque Palmer fez o possível parecer impossível na bateria. “É um privilégio estar de volta ao Rio de Janeiro”, disse ele, 25 anos depois. “A próxima canção é a instrumental número 1 do ELP no Reino Unido, e se vocês aplaudirem bastante depois, talvez nós toquemos mais uma.” Pediu e foi atendido. Fanfare for the Common Man ganhou um bem-vindo peso extra e trouxe a reboque o aguardado solo de bateria. Veja bem: Carl Palmer é um dos cinco bateristas em atividade que têm habeas corpus para fazer solo de bateria. E foi justamente aplaudido de pé por ser criativo e mais musical (e malabarista, claro) do que um simples espancador de peles e pratos.

O bis? O trio nem precisou sair do palco – na verdade, as definições de TOC foram atualizadas com sucesso: o bateria havia avisado que os shows no Brasl durariam uma hora e 55 minutos, e foi exatamente o que aconteceu. Nem um minuto a menos, nem um minutos a mais. E teve pedal quebrado, participações especiais… Enfim, Nutrocker, que virou um rock’n’roll de primeira acompanhado no telão por imagens de Palmer, do ELP e de manchetes de jornais e revistas, encerrou um espetáculo rico em bom gosto e execução musicais. De dar orgulho a quem gosta e se preocupa com isso. Claro, tem quem ironize, mas não se preocupe. Quem faz isso provavelmente está procurando um amor que ouça Los Hermanos, A Banda Mais Bonita da Cidade, O Teatro Mágico, Clarice Falcão, Mallu Magalhães e outras cruzes muito pesadas para carregar.

Set list
1. Abaddon’s Bolero (de Trilogy, 1971)
2. Karn Evil 9: 1st Impression, Part 2 (de Brain Salad Surgery, 1973)
3. Tank (de Emerson, Lake & Palmer, 1970)
4. Knife-Edge (de Emerson, Lake & Palmer, 1970)
5. Trilogy (de Trilogy, 1971)
6. Canario (de Love Beach, 1978)
7. 21st Century Schizoid Man
8. Guitar Solo
9. Hoedown (de Trilogy, 1971)
10. Lucky Man (de Emerson, Lake & Palmer, 1970)
11. Bass Solo
12. From the Beginning (de Trilogy, 1971)
13. C’est la vie (de Works Volume 1, 1977)
14. Tarkus (de Tarkus, 1971)
15. Carmina Burana
16. Fanfare for the Common Man/Drum Solo (de Works Volume 1, 1977)
17. Nutrocker (de Pictures at an Exhibition, 1971)

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Ozzy Osbourne

Por Daniel Dutra | Fotos: Daniel Croce

Razão e coração. Impossível o segundo não falar mais alto que o primeiro ao analisar a despedida carioca de Ozzy Osbourne numa Jeunesse Arena tomada por dez mil pessoas, afinal, é mais uma ficha que cai. O Madman, que completa 70 anos em dezembro, vai apenas parar com as longas turnês, então não podemos esperar uma Retirement Sucks 2 depois desta No More Tours 2 – o primeiro adeus, em 1992, basicamente foi motivado pela esclerose múltipla. Um diagnóstico errado, porque o vocalista tem Síndrome de Parkin, raro problema genético cujos sintomas são parecidos com os da Doença de Parkinson, porém mais leves.

O problema agora é o mesmo que outros artistas enfrentam: o tempo. Perdemos Ronnie James Dio, perdemos Lemmy Kilmister. O Black Sabbath já fez o seu canto dos cisnes, o Slayer entrou em modo ‘game over’, o KISS, queiram ou não, está mesmo à beira do fim da estrada… Ah, sim: Judas Priest e Scorpions ficaram apenas na ameaça, mas quantos anos mais para cada um deles? Há um sem-número de artistas nos acréscimos do segundo tempo ou já disputando a prorrogação, e os próximos cinco a dez anos serão marcados pelas despedidas dos grandes responsáveis por toda uma formação musical. A melhor das graduações, diga-se.

Entendeu por que é impossível ser 100% racional? Ozzy deve fazer um show aqui e outro ali ao término de uma turnê programada até o fim de 2019, mas é melhor nos acostumarmos definitivamente a matar a saudade com CDs e, principalmente, DVDs. Isso porque já estamos todos acostumados com o set list que o Madman apresenta, e nem é preciso dar aquela pesquisada na internet antes do show. Depois de um vídeo bacana com imagens da carreira do Madman, sabíamos que Carmina Burana, de Carl Off, abriria os serviços. E daí? Não importa quantas vezes você tenha presenciado isso ao vivo, porque a ovação a Ozzy, assim que ele coloca o pé no palco, é de reverência. Foi sempre assim, mas agora com um tom de emoção como nunca antes.

“Let the madness begin!” Foi novamente assim que Ozzy anunciou Bark at the Moon, a primeira do repertório, e quando ele pediu “everybody howl!”, todo mundo virou lobisomem e uivou para acompanhar o ídolo. O set list é o de sempre, né? Meu amigo, o cara pode abrir um show com Bark at the Moon e mandar Mr. Crowley em seguida. É muita pressão. E são dois clássicos com quatro dos solos de guitarra – dois em cada música – mais espetaculares da história do heavy metal. Obrigado, Randy Rhoads. Obrigado, Jake E. Lee. Para completar o pódio, I Don’t Know obviamente ganhou o coro do público em seu refrão simples e absurdamente funcional.

Passados os primeiros minutos de êxtase, Fairies Wear Boots, a primeira do Black Sabbath na noite, serviu para observações – curiosamente, a ex-banda de Ozzy só foi lembrada com canções de Paranoid (1970). Palco caprichado, com um telão que ocupava todo o fundo e uma enorme cruz que não era meramente decorativa. Fazia parte, digamos assim, da iluminação do espetáculo. E que iluminação! Principalmente no jogo de lasers verde e vermelho que causava um belíssimo efeito quando usado. E tinha Ozzy em melhor forma do que quando esteve aqui em 2016, na derradeira turnê do Sabbath. Claro, há muito ele não dá aqueles saltos, e mesmo o balde d’água só se fez presente uma vez. O teleprompter é usado com mais frequência do que antes, e as escorregadas vocais (e nas letras, vez ou outra) continuam lá. Virou charme, mas a alegria “let’s go fucking crazy” não se perde. É a mesma alegria quase infantil que o Príncipe das Trevas demonstra ao ouvir os fãs cantarem “Olê! Olê! Olê! Ozzy! Ozzy”. Momentos para colocar um sorriso no rosto de qualquer um.

Ozzy OsbourneZakk WyldeOzzy OsbourneBlaskoOzzy OsbourneTommy ClufetosOzzy OsbourneAdam WakemanOzzy OsbourneZakk WyldeOzzy OsbourneBlaskoOzzy OsbourneTommy ClufetosOzzy OsbourneAdam WakemanOzzy OsbourneZakk WyldeBlaskoZakk WyldeAdam WakemanZakk WyldeTommy ClufetosZakk WyldeBlasko e Tommy ClufetosZakk WyldeOzzy OsbourneZakk Wylde

Mais do que isso, é contagiante, mesmo que em alguns momentos do show ele tenha feito um esforço extra diante da apatia de parte do público. Como na hora de apresentar a banda, cuja estrela é Zakk Wylde. O guitarrista não precisou de muito para ser aplaudido efusivamente, mas os companheiros – Blasko (baixo), Tommy Clufetos (bateria) e Adam Wakeman (teclados e guitarra base) necessitaram de um empurrãozinho. “Esse cara é um Wakeman, porra!”, disse Ozzy, em tom de repreensão, ao pedir mais aplausos para o músico. Havia uma parcela do público que não tinha ideia de quem é o pai do rapaz, muito menos da ligação do sobrenome com a história do Sabbath, afinal, sempre vai ter quem ouça War Pigs e diga que é um cover do Faith No More. De qualquer maneira, apesar dos momentos “I can’t fucking hear you”, o Madman nunca deixou de “I love you all”.

Antes de War Pigs, no entanto, as estruturas foram balançadas com Suicide Solution e No More Tears, duas joias que, a rigor, foram um show à parte de Wylde – também teve a baladinha Road to Nowhere para dar uma acalmada nos ânimos. Foi o barulho que precedeu o esporro, porque o clássico do Sabbath foi não apenas um momento de catarse. Foi a extensão dos solos massacrantes do guitarrista, que – assim como fez com o Zakk Sabbath, em novembro do ano passado – desceu para o pit (onde deveriam ter ficado os fotógrafos, vetados pela produção da banda) e largou os dedos sem dó nem piedade. Largou os dedos e também os dentes, tocou com a guitarra nas costas e apresentou um medley matador com trechos de Miracle Man, Crazy Babies, Desire e Perry Mason, canções que bem poderiam estar inteiras no repertório – ao menos a primeira e a última, que estão entre as melhores da carreira solo de Ozzy, e para as quais Wylde escreveu solos antológicos.

Depois de Clufetos espancar a bateria com os holofotes voltados somente para ele, Ozzy retornou ao palco para Shot in the Dark, que voltou ao set na turnê de Scream (2010), ainda com Gus G., e felizmente não saiu mais. Mas o lado hard rock do Madman – do injustiçado The Ultimate Sin (1986), mais precisamente – parece ter ficado apagado em algum canto da memória do público. Uma pena, porque a música é tão alto nível quando o disco. Mas para o fã que estava próximo de mim e gritou “Jake E. Lee!” ao ouvir as primeiras notas, meus parabéns. Parabéns também a todos que cantaram I Don’t Want to Change the World, incluindo o “Uh!” logo depois do riff no início, porque se esgoelar em Crazy Train é fácil.

OK, é complicado competir com os clássicos, mas Mama, I’m Coming Home fez melhor antes de Paranoid, que encerrou a noite como (quase) todos esperavam. Houve quem achasse que não era o fim da festa, mas foi o desfecho de 90 minutos de emoção, para o coração calar a razão e achar legal até a rodinha Nutella aberta na pista. Pouco importa se as músicas do Black Sabbath poderiam ter dado lugar a material próprio. Ou que o set list tenha sido o mesmo das duas últimas turnês no Brasil (em 2011 e 2015), praticamente à exceção de canções pós-1991, ano de No More Tears. No centro do palco, no comando de tudo, estava John Michael “Ozzy” Osbourne, um dos quatro rapazes que há 50 anos deram os primeiros passos para criar o estilo que despertou nossa paixão pela música. Ozzy foi um dos arquitetos do caminho que me levou a escrever estas linhas. Ozzy foi um dos responsáveis por despertar em você o interesse em lê-las. E isso não tem preço.

Observação: assim como na turnê do Black Sabbath em 2016, a produção do Ozzy Osbourne vetou credenciamento a todos os fotógrafos – veja bem: não foi a produtora que trouxe Ozzy ao Brasil, e muito menos é o vocalista quem decide isso. Foram liberadas quatro fotos para a imprensa depois do show de São Paulo, o que não aconteceu ao fim das apresentações em Curitiba, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Na verdade, as imagens disponibilizadas são de um show no Markham Park, em Sunrise, Flórida (EUA), no dia 29 de abril. Em respeito ao leitor, as fotos que ilustram esta resenha são, de fato, da apresentação no Rio de Janeiro. Feitas na raça, no meio do público, e parte do arquivo pessoal do autor das imagens.

Set list
1. Bark at the Moon
2. Mr. Crowley
3. I Don’t Know
4. Fairies Wear Boots
5. Suicide Solution
6. No More Tears
7. Road to Nowhere
8. War Pigs
9. Medley instrumental: Miracle Man/Crazy Babies/Desire/Perry Mason
10. Tommy Clufetos Drum Solo
11. Shot in the Dark
12. I Don’t Want to Change the World
13. Crazy Train
Bis
14. Mama, I’m Coming Home
15. Paranoid

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Glenn Hughes

Por Daniel Dutra | Fotos: Luciana Pires

Glenn Hughes resolveu cair na estrada para contar a sua história no Deep Purple. Para isso, buscou recriar da melhor maneira possível toda aquela atmosfera dos anos 70. Ele voltou a colocar um tecladista no palco, o dinamarquês Jay Boe, e no aparato do cara é obrigatório ter o Hammond que Jon Lord tocava como ninguém. Também buscou um batera que tivesse a pegada ideal, e o chileno Fer Escobedo, de 25 anos, não apenas tomou o lugar de Pontus Engborg na banda. O garoto usa uma bateria vintage para replicar o som de Ian Paice. Para completar, o sueco Søren Andersen, cuja parceria de dez anos com Hughes sofreu uma única pausa em 2015, quando Doug Aldrich assumiu as seis cordas, se veste como Ritchie Blackmore e tem como companheira quase inseparável uma Fender Stratocaster preta e branca.

No repertório, um mergulho nos álbuns Burn (1974), Stormbringer (1974) e Come Taste the Band (1975). O que poderia dar errado? Bom, o problema é a expectativa causada por tudo isso, e a noite de domingo com o baixista e vocalista no Circo Voador provou como a música pode ser bipolar. Sim, o show foi magistral. Sim, o show foi cansativo. Foram 11 músicas executadas em uma hora e 40 minutos de uma apresentação que teve momentos de euforia e depressão convivendo lado a lado. No início, êxtase. Stormbringer começou incendiando a lona famosa, e Might Just Take Your Life foi de arrancar lágrimas. Como se fosse um sonho realizado ouvir aquela introdução de Hammond e uma banda tinindo para dar apoio a Hughes.

“Vocês estão na minha alma e no meu coração, e não foram vocês que vieram ver o Glenn Hughes. Foi o Glenn Hughes quem veio ver vocês”, disse o baixista e vocalista, emocionado e falando na terceira pessoa depois da primeira ovação da noite. Sail Away e seu groove irresistível vieram na sequência, mas não foi nenhuma surpresa para quem pode ver a dobradinha Hughes & Aldrich em 2015. Ainda assim, tão bem-vinda que um Circo Voador bem cheio não se furtou a gritar o nome do anfitrião. “Eu amo vocês, mas o correto é Rio! Rio! Rio!, porque o Rio de Janeiro é uma das maiores ‘rock cities’ do mundo, senão a maior ‘rock city’ do mundo”, respondeu ele, exagerando na rasgação de seda e recebendo mais aplausos. “Estou aqui para cantar para cada um de vocês, irmãos e irmãs, e o amor é a resposta.”

Sim, Hughes estava lá para cantar, e Mistreated foi uma daquelas amostras de cair o queixo. Aos 65 anos, é inacreditável o que esse cara canta. Coisa do outro mundo, inclusive quando sai da sua zona de conforto para emular David Coverdale, dando uma aula no fim da canção ao interpretá-la com tons mais graves e rasgados. Simplesmente impressionante. Até aí era a só alegria, porém… “Vamos voltar ao California Jam”, anunciou ele, referindo-se ao antológico show da MK III do Deep Purple no festival, em 1974. E You Fool No One infelizmente acabou se perdendo numa versão tão exagerada que deixa a de Made in Europe (1976) parecendo edição para as rádios.

Glenn HughesGlenn HughesGlenn HughesGlenn HughesGlenn HughesGlenn HughesGlenn HughesGlenn HughesGlenn HughesGlenn HughesGlenn HughesGlenn HughesGlenn HughesGlenn HughesGlenn HughesGlenn HughesGlenn HughesGlenn HughesGlenn HughesGlenn Hughes

Teve solo de teclado no início. Teve solo de guitarra, com Andersen mandando até trecho daquele blues de Blackmore cuja derradeira versão está em On Stage, do Rainbow, mais precisamente no medley Man on the Silver Mountain/Blues/Starstruck. E teve solo de bateria. Um solo de bateria tão longo que, por mais que Escobedo seja muito bom, foi um balde de água fria. Aliás, dava para beber uns três baldes d’água, urinar todos eles no banheiro da casa e voltar a tempo de pegar o início de This Time Around, que recolocou as coisas em seu devido lugar e foi um dos momentos mais emocionantes da noite. “Eu tinha 23 anos quando compus essa música”, lembrou Hughes antes, porque ao fim não conseguiu esconder as lágrimas.

De fato, foi tão mágico que é necessário lamentar que Owed to ‘G não tenha sido planejada para ser tocada na sequência, como em Come Taste the Band. Aí você lembra da perda de tempo que foi You Fool No One e fica ainda mais decepcionado com a enrolação instrumental em Gettin’ Tighter, apresentada em seguida. “Compus essa música com meu irmão Tommy Bolin. Ele não está fisicamente aqui, mas vive em mim”, disse Hughes. Baita canção, de fato, mas o excesso instrumental poderia ter dado espaço a Lady Double Dealer ou Lady Luck, por exemplo. Inclusive, Smoke on the Water, cujo histórico riff foi alvo de uma, digamos, brincadeira de Andersen no início, poderia ter dado lugar a uma delas. Fica a dica.

Teoricamente, lá estávamos para ouvir clássicos das MK III e IV. No entanto, não dá para brigar com os fatos. Smoke on the Water terminou com um sonoro “Olê! Olê! Olê! Glenn Hughes! Glenn Hughes!”, que emocionou o baixista e vocalista. “Vocês são lindos demais!”, bradou, recebendo de um fã um cartaz com os dizeres ‘You are the holy man’ – anote-se: Holy Man foi limada do set list. Depois de um breve papo sobre espiritualidade e felicidade, veio a “canção que compus com David Coverdale”, e os fãs foram brindados por uma versão arrasadora de You Keep on Moving.

OK, eu já havia visto o set list, então sabia que Highway Star abriria o bis. Independentemente de ser mais uma desnecessária apelação – é um clássico da MK II, com Ian Gillan, catzo! –, causou a esperada histeria. E vá lá que foi interessante ver Hughes atuando como frontman, já que Jimmy, seu roadie, assumiu o baixo durante toda a música, ficando timidamente entre o teclado e a bateria. Interessante, mas ainda assim desnecessário. Sabe por quê? Burn é a resposta. Empunhando um Rickenbacker, Hughes abalou as estruturas do Circo Voador com a sua Highway Star. Ou a sua Smoke on the Water, tanto faz. E um show que começou a toda terminou a toda, com o clímax na imagem do abraço coletivo – sim, de toda a banda – em Hughes. “Olê! Olê! Olê! Glenn Hughes! Glenn Hughes!”, entoavam os fãs. No fim das contas, extasiados.

Set list
1. Stormbringer
2. Might Just Take Your Life
3. Sail Away
4. Mistreated
5. You Fool No One
6. This Time Around
7. Gettin’ Tighter
8. Smoke on the Water / Georgia on My Mind
9. You Keep on Moving
Bis
10. Highway Star
11. Burn

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Pain of Salvation

Por Daniel Dutra | Fotos: Daniel Croce

A gripe que derrubou Daniel Gildenlöw, no fim de janeiro, apenas adiou o inevitável. A quinta passagem do Pain of Salvation deveria ter rolado no início de fevereiro, mas esperar quase três meses não foi problema, afinal, o quinteto sueco não decepciona nunca. Mas antes de a atração principal subir no palco para mostrar os porquês, coube ao Reckoning Hour aquecer quem já estava no Teatro Rival e quem chegava a casa de shows, e aí residiu o único problema da noite: a banda carioca apresentou seu set para pouca gente, e o público total foi decepcionante. Principalmente levando-se em consideração que o Pain of Salvation encheu o mesmo local nas duas visitas anteriores, em 2012 e 2015.

É possível apontar uma série de fatores, da crise econômica à devolução de ingressos em virtude da remarcação da apresentação, mas a verdade é que o público carioca vem minguando em quantidade nos últimos dois ou três anos, e várias produtoras já não colocam a cidade como rota obrigatória. “Como assim o Sons of Apollo não vai tocar no Rio de Janeiro?”, você deve ter escutado ou lido em algum lugar antes de o supergrupo montado por Mike Portnoy aportar no país para três shows (em Porto Alegre, São Paulo e Belo Horizonte). Não chega a ser o caso do Living Colour, que só vai tocar na capital paulista porque, basicamente, o produtor argentino que o trouxe para a América do Sul cresce o olho na hora de repassar datas. De qualquer maneira, o panorama precisa melhorar antes que heavy metal ao vivo no Rio vire sinônimo de assistir a show em DVD.

No palco, JP (vocal), Philip Leander e Lucas Brum (guitarras), Cavi Montenegro (baixo) e Johnny Kings (bateria) fizeram bem o dever de casa. O death metal melódico – e moderno – do grupo não traz nada de novo, e você pode até dizer que é genérico, mas não pode negar que é bem feito. Até porque o Reckoning Hour tem em JP um trunfo: o cara é três em um, porque adiciona vocais gritados na mistura de partes limpas e guturais (nas quais se sai muito melhor, diga-se). Para quem gosta, um prato cheio. Para quem não gosta, respeito. Exatamente o que aconteceu, porque o estilo é completamente diferente do praticado pelo Pain of Salvation, e não machuca dizer que as pessoas foram para ver a turma liderada por Gildenlöw – Johan Hallgren (guitarra), Gustaf Hielm (baixo), Daniel Karlsson (teclados) e Léo Margarit (bateria) acompanham o vocalista e guitarrista.

Os cinco entraram no palco mandando logo uma trinca do disco mais recente, a obra-prima In the Passing Light of Day (2017), e a receita de peso (bota mais peso ao vivo, aliás), melodias impecáveis e complexidade instrumental foi um soco na boca do estômago. Full Throttle Tribe só não levou os fãs à lona porque estes se dividiam em cantar e ficar com um semblante de “como é que esses caras conseguem fazer isso ao vivo?”. A magistral Reasons, então, é um caso a ser estudado. Seu impacto ao vivo foi inacreditável, coisa de deixar qualquer um atônito, e talvez seja por isso que a belíssima Meaningless (cara, que refrão lindo de doer!) tenha sido colocada na sequência. Emocionante, apesar de ter sido o único momento em que os vocais de Ragnar Zolberg fizeram muita falta – de qualquer maneira, Hallgren, de volta ao posto depois de seis anos, segurou a onda muito bem.

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Contando com a interação da plateia no riff – a pedido de Gildenlöw, mas nem precisaria –, Linoleum comprovou o status de clássico recente do Pain of Salvation. Canção de altíssimo nível, mas esperada, então foi a partir daí que a banda resolveu apelar. “Vocês costumam pesquisar os set lists no Google, né? Bem, todas essas ferramentas de pesquisa estão erradas. Nossas letras também estão erradas nelas, mas essa é outra história”, brincou o líder antes dos primeiros acordes de Rope Ends, de Remedy Lane (2002). De arrepiar e, graças a passagens instrumentais de rara inspiração, de cair o queixo, mas também o ponto de partida para mostrar que o repertório seria único mesmo para quem havia assistido aos quatro shows anteriores do Pain of Salvation no Rio.

Sem a guitarra a tiracolo, Gildenlöw assumiu o papel de frontman na intimista e emocional Kingdom of Loss, de Scarsick (2007), e a casa voltou a pegar fogo com o riff e as notas de piano que introduziram Inside Out, de One Hour By the Concrete Lake (1998). Coisa de maltratar os pulmões na hora de cantar o refrão, de machucar o pescoço nas partes mais rápidas e de admiração nos momentos mais calmos – e como foi legal ver a interação de Gildenlöw e Hallgren, que foi ovacionado no momento de apresentação dos integrantes. Um sincero “seja bem-vindo de volta”.

Àquela altura, o fã já poderia se perguntar o que ainda estaria por vir, mas duvido que tenha sido exatamente isso que passou pela cabeça: “Creio que é a primeira vez que vamos tocar essa música com esta formação. Voltemos ao primeiro álbum…. das Spice Girls”, disse Gildenlöw, e mal deu tempo de rir com a piada. “O nome dela é Revival.” A reação de incredulidade foi acompanhada por um palavrão em êxtase. O Pain of Salvation estava pinçando uma canção de cada álbum, e a pérola de Entropia (1997) foi uma surpresa muito agradável. Poderia ter continuado assim, uma vez que Road Salt One (2010) e Road Salt Two (2011) foram preteridos – e Road Salt e Softly She Cries seriam outras lindezas no repertório –, mas não vamos reclamar de barriga cheia.

Obrigatória, Ashes cumpriu seu papel: devotos, os fãs cantaram como se a faixa de The Perfect Element, Part I (2000) fosse o grande hino do Pain of Salvation. E talvez seja, honestamente, porque é uma daquelas canções criadas a partir de alguma inspiração divina. Depois de revisitar o próprio catálogo, a banda voltou a In the Passing Light of Day para terminar a noite como começou. Bonita demais, Silent God funcionou como o silêncio que precede o esporro, já que On a Tuesday encerrou o set regular da mesma maneira que abre o novo CD.

Foi uma porrada depois amenizada por aquelas passagens mais calmas e progressivas com a assinatura típica do grupo. E com direito a um bônus: Margarit assumiu os vocais na ponte – ‘I lost the will, I lost the way, I haven’t lost the faith, It’s just lost in me’ – e surpreendeu com um falsete que arrancou aplausos do público e mais um dos vários sorrisos de Gildenlöw – que, não bastasse cantar uma barbaridade, é bem escorado pelos vocais (de apoio ou não) de toda a banda. Na volta para o bis, uma única música, mas uma de 15 minutos. Imagine se o Pain of Salvation resolvesse fazer a trilha sonora de Twin Peaks e o resultado ficasse à altura dos melhores momentos da série – e lembre-se que os melhores momentos da obra de David Lynch são momentos de pura genialidade. Pronto, você tem a pérola The Passing Light Day, e foi com ela que terminou mais uma noite com um dos melhores nomes do prog metal. Não somente. Com um dos grupos mais criativos surgidos no heavy metal desde os anos 90.

Set list
1. Full Throttle Tribe
2. Reasons
3. Meaningless
4. Linoleum
5. Rope Ends
6. Kingdom of Loss
7. Inside Out
8. Revival
9. Ashes
10. Silent Gold
11. On a Tuesday
Bis
12. The Passing Light of Day

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Moonspell

Por Daniel Dutra | Fotos: Daniel Croce e Gustavo Maiato

Pode a expectativa por um show ser maior por causa do novo disco do que necessariamente pela própria banda? Diga-se de passagem, não é uma banda qualquer, e seria o primeiro show completo dela no Rio de Janeiro. Sim, pode. O Moonspell havia causado boa impressão no Palco Sunset do Rock in Rio em 2015, mas o festival não é um evento carioca, então a noite no Teatro Odisseia ganhou ares especiais por causa do mais recente disco do grupo português, o excelente 1755, que conta a história do terremoto que fez enorme estrago e em Lisboa, principalmente, tirando a vida de milhares de pessoas no dia 1º de novembro do ano que dá nome ao álbum.

E o Moonspell não decepcionou. Ao apresentar oito das dez músicas do trabalho conceitual – considerando a nova leitura de Em Nome do Medo, originalmente gravada em Alpha Noir (2012), e Lanterna dos Afogados, cover dos Paralamas do Sucesso –, Fernando Ribeiro (vocal), Ricardo Amorim (guitarra), Aires Pereira (baixo), Pedro Paixão (teclados) e Miguel Gaspar (bateria) fizeram um daqueles shows para ficar guardado na memória. E nem é preciso ficar imaginando como poderia ter sido melhor caso o cenário de palco pudesse ser comportado num palco maior do que o do acanhado espaço na casa de shows localizada na Lapa.

Não mesmo, porque não se deve levar em consideração o pano de fundo, os apetrechos que enfeitam o posto de Paixão ou uma iluminação de primeira e jamais vista no Teatro Odisseia, acostumado a oferecer apenas um monocromático jogo de luzes vermelhas. O novo show do Moonspell vai muito além disso, afinal, Ribeiro o transforma num belo espetáculo teatral, e o início, com quatro canções de 1755, é simplesmente matador. Com uma lamparina na mão, o vocalista chamou para si todas as atenções na abertura com Em Nome do Medo, que contou com a participação ativa do público cantado cada palavra da letra. Emocionante.

A ótima faixa-título trouxe Ribeiro paramentado de médico, mas nada de sobretudo branco. A roupa escura tinha uma máscara que se destacava do chapéu e da capa, e era a máscara com bico que os profissionais da área da saúde usavam para se proteger no caso de o paciente ter alguma doença infecto-contagiosa. De fato, um trabalho do nível de 1755 merecia um tratamento visual à altura, e os fãs não ficaram atrás: deu gosto ver a plateia cantando In Tremor Dei (que música!) e Desastre. As letras em português são um facilitador, sem dúvida, mas o conteúdo, musical inclusive, tem que ser de qualidade.

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Night Eternal, do álbum de mesmo nome, lançado dez anos atrás, contou com aquela iluminação especial mencionada parágrafos acima, e Opium continuou a viagem pelo material mais antigo. “Vamos fazer uma passagem de pouco mais de 200 anos no tempo”, disse Ribeiro antes de anunciar esta e Awake!, músicas tiradas de Irreligious (1996), reforçando que aquela noite de quarta-feira era destinada a uma aula de História. Se havia alguma dúvida, Ruínas causou novo frisson na pista, e o vocalista não se conteve: “Obrigado pela gentileza! Fantástico!” Realmente, porque a recepção ao novo material foi uma agradável surpresa numa época em que um sem-número de grupos lança discos apenas para ter uma razão para sair em turnê, na qual o passado é o principal alvo.

No caso do Moonspell, mesmo a dobradinha Breathe (Until We Are No More) e Extinct, de Extinct (2015), fez bonito – a canção que dá nome ao disco teve seu refrão recebido de braços abertos e sorriso no rosto pelos fãs. Olhando para frente, o quinteto português atacou com a sensacional Evento e em seguida conseguiu fazer ainda melhor, porque Todos os Santos foi o grande momento do show – o nome faz referência à data do desastre, o feriado Dia de Todos os Santos. Não bastasse ser uma das melhores músicas de 1755, senão a melhor, contou com outra performance teatral de Ribeiro – que empunhava uma cruz com dois feixes de luz vermelha – e um lindo coro dos fãs no refrão. Foi de arrepiar.

Poderia ter acabado aí que já teria valido o ingresso, mas imagine você o que foram Vampiria e Alma Mater… Antes do primeiro clássico, Ribeiro convocou a “galera” – “Como se diz aqui no Rio de Janeiro”, lembrou – a gritar bem alto. Foi atendido. Antes do segundo clássico, ele, que já havia declarado ser o Rio “a cidade mais bonita e portuguesa do Brasil”, mostrou estar ciente dos problemas que os cariocas vêm enfrentando numa cidade que vem namorando a falência – econômica, política, social, ética e moral – e está à mercê da violência: “Diante de tudo que vocês estão enfrentando, agradeço por terem vindo nos ver.” E arrisco dizer, sem medo, que foi em respeito e gratidão a esses fãs que Ribeiro desceu ao pit e cantou Alma Mater com eles e para eles.

A bela versão de Lanterna dos Afagados, enriquecida pelo teatro de Ribeiro no palco, antecedeu o bis que começou com Everything Invaded e cresceu rumo a um encerramento apoteótico. “Com esse sinal nas mãos, ajudem o Moonspell a conclamar o nome de Mefisto”, pediu o frontman, referindo-se ao chifrinho – aquele imortalizado por Ronnie James Dio – e anunciando Mephisto. Ao fim do clássico, as palmas e os gritos vindos da plateia. “Fantástico!”, bradou o vocalista, que voltou seus elogios à “galera do Rio”: “Vocês vão no nosso coração, como um povo irmão.” E a aguardada Full Moon Madness encerrou um show que é forte candidato a um dos melhores do ano no Brasil.

Set list
1. Em Nome do Medo
2. 1755
3. In Tremor Dei
4. Desastre
5. Night Eternal
6. Opium
7. Awake!
8. Ruínas
9. Breathe (Until We Are No More)
10. Extinct
11. Evento
12. Todos os Santos
13. Vampiria
14. Alma Mater
15. Lanterna dos Afogados
Bis
16. Everything Invaded
17. Mephisto
18. Full Moon Madness

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