Greta Van Fleet

Por Daniel Dutra | Fotos: Daniel Croce

Led Zeppelin. Para o bem ou para o mal, a banda de Robert Plant, Jimmy Page, John Paul Jones e John Bonham é sempre a primeira coisa que vem à cabeça – e sai da boca – quando o assunto é o Greta Van Fleet. E as reações costumam ser maniqueístas, apesar de ser possível encontrar um meio-termo, mesmo nesse hype que envolve os irmãos Josh (vocal), Jake (guitarra) e Sam Kiszka (baixo) e o baterista Danny Wagner. Por exemplo, dá para achar que Anthem of the Peaceful Army (2018) é um baita disco de rock’n’roll, mas ainda assim não listá-lo entre os melhores lançamentos do ano porque, bem, tudo que está ali foi feito cinco ou quatro décadas atrás por Plant, Page, Jones e Bonham. Mas aí os garotos, que este ano levaram o Grammy de melhor álbum por From the Fires (2017), vêm ao Brasil e mostram que são mesmo para valer.

Não que isso vá mudar a opinião daqueles que escolheram 8 em vez de 80, mas numa Fundição Progresso lotada – cuja capacidade oficial é de 5.000 pessoas, então olha a que ponto chegou o hype do Greta Van Fleet no Rio de Janeiro… –, o quarteto fez um show para deixar muita gente grande com vergonha. Com um palco que privilegiava apenas uma ótima iluminação, ou seja, nada de pirotecnia, efeitos ou mesmo algum pano de fundo, a banda entrou mandando ver com The Cold Wind e logo mostrou uma elogiável faceta: uma performance inquieta, principalmente a de Jake, que parece ter se preparado com várias latinhas de algum energético. Resumindo, eles se divertem tocando, e isso naturalmente passa para a plateia. E se os fãs e, principalmente, curiosos curtiram a canção que abriu a noite sem precisar abrir a boca para cantar, o mesmo não aconteceu em seguida.

A ótima Safari Song fez o público colocar a garganta para trabalhar, e Black Smoke Rising completou o serviço com seu refrão grudento. Antes da terceira música do set, aliás, Wagner fez a alegria de quem vibra com qualquer virada de bateria – basicamente, os mesmos que iam ao delírio a cada nota alta alcançada por Josh – ou daqueles que ainda acham legal solo individual nos dias de hoje. Ainda assim, não deixou de ser uma satisfação ver tanta gente cantando as músicas de uma banda jovem que resolveu tocar rock’n’roll de verdade (a declaração é um spoiler das considerações finais). “Essa é a primeira vez que tocamos no Rio. Na verdade, não apenas na cidade, porque é o nosso primeiro show no Brasil”, disse Josh antes de Flower Power, na qual Sam, tal qual John Paul Jones, largou o baixo e foi para o teclado.


Watch Me, de Labi Siffre, e a curta The Music is You, de John Denver (ele mesmo, o artista country que se juntou a Frank Zappa e Dee Snider contra o PMRC nos anos 80), serviram para esquentar o clima para a bela You’re the One, outra cujo refrão foi bem recebido pelo público. Ao fim, as vozes vindas da pista e das frisas aportuguesaram a pronúncia da primeira das três palavras que formam o nome da banda no tradicional corinho de “Olê, olê, olê!”, cujo ritmo foi acompanhado por Wagner, e receberam de volta um agradecimento de Josh: “Obrigado por nos manter no tempo certo.” Mesmo brincando, o vocalista acertou, porque o que os quatro fizeram a seguir foi de arrepiar e, fácil, o melhor momento do show: a dobradinha Black Flag Exposition e Watching Over, ambas com uma iluminação bem particular, com tons de azul e vermelho saindo do fundo do palco e deixando a frente na penumbra.

Um ótimo efeito para a parte musical: Black Flag Exposition foi um longo desbunde instrumental, com destaque para o longo e sensacional solo de Jake, que esbanjou feeling num improviso muito bem ensaiado, digamos assim, e Watching Over veio na cola, sem deixar a plateia respirar, para mais um show particular do guitarrista (e se você ouviu algumas notas do solo de Stairway to Heaven, eu diria que não foi mera coincidência). Curiosamente, o set regular foi encerrado com mais holofotes para Jake em Edge of Darkness, e foi aqui que o garoto mostrou de vez que só não é mais Jimmy Page porque usa uma Gibson SG (de apenas um braço) em vez de uma Les Paul. Afinal, além de tocar com a guitarra nas costas, ainda meteu aquelas notas na trave que só Page faz com tanta maestria. Mas o pupilo aprendeu direitinho a lição. Hora do bis, e o Greta Van Fleet, que costuma alterar a ordem do setlist de um show para o outro, apelou com dois de seus hits – sim, porque o grupo já tem hits, no plural. When the Curtain Falls estava na boca do público, mas foi Highway Tune que terminou de deixar a casa em ebulição depois de 80 minutos de um ótimo show de rock’n’roll, principalmente para quem vê o copo metade cheio.

Para quem vê o copo meio vazio, vale lembrar que não será num show do The Strokes que veremos tanta gente usando camisas do AC/DC, KISS, Black Sabbath, Iron Maiden e, claro, Led Zeppelin. Da mesma maneira, não será o The Vaccines que fará a garotada olhar para trás para descobrir as raízes dessa música que tanto gostamos, e que esses quatro garotos do Greta Van Fleet fazem de maneira orgânica, com instrumentos de verdade, o que já é um passo para começar a construir uma identidade própria. Lembre-se: verão sim, verão também, a grande mídia – aquela moderna, que venera artistas indie, saca? – tem a necessidade de criar um salvador do rock, como se o gênero precisasse de salvação. Então, se a nova geração tem que ser bombardeada com música, que seja uma de qualidade acima da média e de boas referências, mesmo que a fonte seja o maior grupo de rock da história (o desempate com os Beatles é no photochart). Afinal, se o próprio Robert Plant deu a bênção a Josh, Jake, Sam e Wagner, quem somos nós para discordar?

Setlist
The Cold Wind
Safari Song
Black Smoke Rising
Flower Power
Watch Me
The Music is You
You’re the One
Black Flag Exposition
Watching Over
Edge of Darkness
Bis
When the Curtain Falls
Highway Tune

Black Label Society

Por Daniel Dutra | Fotos: Daniel Croce

Oito vezes em 11 anos. Não está ruim para o headbanger carioca acompanhar as aventuras de Zakk Wylde em cima do palco – além do Black Label Society, a matemática inclui o Zakk Sabbath e as duas apresentações ao lado de Ozzy Osbourne. Mais do que isso, o guitarrista comprovou o status de queridinho do público ao encher o Circo Voador pela terceira vez seguida, então não será surpresa se em breve voltar à cidade com seu projeto que revisita a primeira fase do Black Sabbath, afinal, o Madman reagendou todas as datas deste ano de sua No More Tours 2 para 2020. Só que o sonho e/ou o desejo ficam para depois, porque a realidade foi a quinta parada do BLS em sua turnê de sete datas pelo Brasil – a banda tocou em Porto Alegre, Curitiba, Brasília e Manaus antes do Rio de Janeiro, de onde seguiu para São Paulo e Belo Horizonte.

Mas a noite de sexta-feira começou com o anfitrião Syren, que agarrou a oportunidade com unhas e dentes. Em 30 minutos, Luiz Syren (vocal), Pedro Soriano (guitarra), Thiago Velasquez (baixo) e Julio Martins (bateria) mostraram o que a banda, em suas diferentes formações, sempre fez de melhor: heavy metal em estado bruto e sem firulas, daqueles contagiantes e recheados de riffs, melodias e refrãos bacanas. Com dois discos nas costas, Heavy Metal (2011) – viu só? – e Motordevil (2015), o quarteto equilibrou o curto set entre o antigo e o novo. Do álbum mais recente, My Shadown, My Dear Friend foi o cartão de visita, e a ótima Eyes of Anger veio a seguir para mostrar o carisma de Syren, que não se fez de rogado ao pedir gritos mais altos de “boa noite” e colocou a plateia para entoar o coro da música. E quem já estava na pista e nas arquibancadas comprou o barulho, cantando o refrão da faixa-título do trabalho de estreia – feito sob medida exatamente para isso, diga-se.


O novo single, Salvation, cujo ‘lyric video’ já está no YouTube, premiou dois fãs que, da pista, acertaram o nome da música – cada um levou para casa um CD do grupo – e mostrou que o direcionamento continua firme e forte, mas com um detalhe agradável: de forma consciente ou não, o refrão tem um bem-vindo toque de Nevermore. Hora de apresentar os integrantes, de agradecer à produtora do evento pela justa oportunidade e, principalmente, soltar uma verdade: “Fazer heavy metal no Rio é coisa de herói”, disse Syren, batalhador de longa data no cenário no carioca e um dos principais vocalistas do estilo no Brasil, ainda que, talvez por ser radicado numa cidade outrora maravilhosa, não tem o reconhecimento que merece. Mais uma do primeiro disco, Die in Paradise – que dá nome à cerveja da banda – encerrou um show enxuto e que manteve o nível lá em cima o tempo todo. Mais uma vez, heavy metal puro e feito por quem e para quem cresceu ouvindo as melhores referências do estilo.

Aquecimento feito, então era hora de a cortina com a caveira e o logo do Black Label Society – aqueles da capa internacional de Sonic Brew (1999), o álbum de estreia – cobrir o palco para anunciar que a partir dali Zakk Wylde, Dario Lorina (guitarra), John DeServio (baixo) e Jeff Fabb (bateria) tomariam conta da festa. Depois de Whole Lotta Sabbath, o mashup de War Pigs com Whole Lotta Love criado pelo australiano Tom Compagnoni, rolar no PA, a cortina caiu para o quarteto começar o massacre com Genocides Junkies, e nem mesmo a breve falha na guitarra de Wylde poderia diminuir a previsível empolgação – mas é bom ressaltar que o som estava muito, muito bom. Em seguida, Funeral Bell inaugurou o primeiro pula-pula da noite, colocando os fãs também para cantar o refrão, e Suffering Overdue injetou a primeira dose mais forte de fritação do chefão do BLS. E foi assim, com uma sequência de três cruzados no queixo, que os fãs foram vencidos.

Exatamente, foram três sem sair de cima até a primeira das trocas de guitarra ao longo da apresentação – não para mostrar a vasta coleção de Wylde, porque isso ele faz nas redes sociais, mas por causa das diferentes afinações –, e Bleed for Me manteve o clima quente. Até porque Fabb resolveu brincar no andamento mais reto da canção e enfiou uns licks para tornar as coisas mais interessantes. Com um groove incomum para o BLS, Heart of Darkness antecedeu o que foi, de fato, o primeiro grande momento da noite, porque Suicide Messiah foi matadora! Teve um efeito bem legal com canhões de fumaça (ou gelo seco, vá saber…), roadie com o megafone para cantar o nome da música no refrão e, melhor de tudo, um Circo Voador em uníssono fazendo o mesmo no encerramento. Um momento tão legal que arrancou palmas e um baita sorriso de Wylde. Sim, deu até para ver os dentes no meio da barba e da cabeleira que o deixam parecido com o primo Coisa, de A Família Addams. E tem foto para provar.


Como o álbum mais recente do BLS, Grimmest Hits (2018), ainda tem cheiro de novo, a banda – cuja formação é a mesma desde 2014 – felizmente mostrou algumas de suas faixas (clique aqui para ler a resenha do CD). E três vieram em sequência: Trampled Down Below teve direito a Lorina com arco à la Jimmy Page; All That Once Shined levou Wylde a abandonar a tradicional (e encenada) pose de marrento para brincar com o público, que começou um coro com a melodia da canção; e Room of Nightmares soou sensacional com seu refrão simples e eficiente. Até então, o peso estava dominando a famosa casa na Lapa, mas sempre tem aquele momento de calmaria, sabe? Uma trilogia de sensibilidade, aliás. Começou com Bridge to Cross, tendo Lorina no teclado (com som de teclado mesmo), e terminou com Spoke in the Wheel e a indefectível In This River, ambas com Wylde no teclado (agora com som de piano). E a última foi, claro, o destaque. Não pelas brincadeiras de Wylde, que ainda mostrou seu lado de pianista virtuoso, mas por causa das bandeiras de Dimebag Darrell, à esquerda do palco, e Vinnie Paul, à direita. Desnecessário dizer qual foi a reação dos fãs ao ver as imagens dos saudosos irmãos.

Com o pé novamente no acelerador, o BLS matou a pau com The Blessed Hellride e resgatou mais uma do novo disco, a ótima A Love Unreal, mas foi Fire it Up que levou a lona ao delírio. Tivemos mais efeitos com os canhões de fumaça, as várias bolas jogadas para a plateia – simulando a bola 8 da sinuca, como na capa de Shot to Hell (2006), apesar de a canção ser de Mafia (2005) – e um desfecho com muita debulhação, incluindo Wylde tocando com os dentes, com a guitarra nas costas e duelando com Lorina, e uma menção a Smoke on the Water, do Deep Purple. Era tanta felicidade que os fãs mandaram um trenzinho na canção seguinte, Concrete Jungle, e tome mais uma leva de solos, agora com um duelo estendido entre Wylde e Lorina, que se revezavam na plataforma usada pelo vocalista e guitarrista, além de nova menção a um clássico no fim: Black Sabbath, a música.

Os fãs adoraram, ou talvez seja isso mesmo que a grande maioria espera, mas é um tempo perdido se considerarmos que nada de Order of the Black (2010) foi tocado – honestamente, Overlord, Parade of the Dead e Godspeed Hellbound são melhores do que ficar vendo o que todos já sabemos, ou seja, que Wylde é um dos grandes guitarristas do heavy metal. Mas teve Stillborn, um hino, para reconduzir o show ao seu devido lugar, com Fabb enlouquecido atrás da bateria, como se estivesse tomado pela energia que era emanada para o palco – sejamos justos: DeServio, braço-direito de Wylde, tem uma baita presença de palco, e o conjunto da obra acaba compensando a relativa timidez de Lorina. Mas o que dizer de um show que acaba sob efusivos aplausos de uma casa cheia? Ora, foi bom para caramba, e os fãs ainda ganharam camisas oficiais do Black Label Society. Digo, aqueles que se dispuseram a se estapear para disputar os mimos que foram jogados pela banda.

Setlist Black Label Society
Genocide Junkies
Funeral Bell
Suffering Overdue
Bleed for Me
Heart of Darkness
Suicide Messiah
Trampled Down Below
All That Once Shined
Room of Nightmares
Bridge to Cross
Spoke in the Wheel
In This River
The Blessed Hellride
A Love Unreal
Fire it Up
Concrete Jungle
Stillborn

Setlist Syren
My Shadown, My Dear Friend
Eyes of Anger
Heavy Metal
Salvation
Die in Paradise

Kip Winger

Por Daniel Dutra | Fotos: Daniel Croce

“Preciso que meu violão funcione, mas posso apenas cantar”, disse Kip Winger ao responsável pelo som da casa. E enquanto o problema não era resolvido, o jeito era jogar conversa fora. No bom sentido. “É muito bom estar de volta ao Rio de Janeiro, e em algum momento isso vai funcionar”, garantiu o músico, observando o técnico mexendo no equipamento. “É tudo que tenho a dizer, porque o que quero mesmo é cantar algumas músicas. Bom, posso fazer o moonwalk.” A segunda vez de Kip com seu show acústico na cidade já estava virando comédia stand-up – ele ameaçou o passo de dança, arrancando risadas do público – quando tudo parecia finalmente solucionado. “Estou até com medo de me mexer. Alguém tem uma fita? Ok, dane-se!”, brincou Kip antes de o som sumir mais uma vez. “Bom, garanto a vocês que vai ser incrível assim que acertamos isso.” E foi.

Acompanhado apenas do ótimo percussionista Robby Rothschild, que participou de três de seus discos solo de estúdio – This Conversation Seems Like a Dream (1997), Songs from the Ocean Floor (2000) e From the Moon to the Sun (2008) –, Kip fez um show realmente incrível. O início com Cross, de Songs from the Ocean Floor, foi o aquecimento para a primeira enxurrada de joias do Winger. Easy Come Easy Go ganhou os vocais de apoio voluntários dos fãs que compareceram em número razoável ao Teatro Odisseia, mas em quantidade suficiente para arrancar um “Fucking awesome! Obrigado”, dito com um enorme sorriso pela estrela da noite. Em Who’s the One foi a vez de o microfone falhar, então a parada para o conserto foi aproveitada com apertos de mão e autógrafos para a turma que estava colada no palco – a casa, aliás, estava com uma inédita configuração de mesa e cadeiras, mas ninguém ficou sentado.

Can’t Get Enough foi outra muito bem recebida, mas o negócio esquentou em Hungry. Não porque o público cantou junto, mas porque Kip deixou todo mundo de queixo caído. É simplesmente absurdo o que esse cara canta, e a resposta da plateia foi com um coro com seu nome, prontamente devolvido pelo músico com um “Rio! Rio! Rio” – em tempo: sim, músico. Melhor ainda, multi-instrumentista, porque estamos falando de um artista que é muito mais do que o baixista e vocalista do Winger. “Nosso último disco, Better Days Comin’, é de 2014, então eu e Reb vamos nos juntar em agosto para começarmos a compor o novo álbum”, anunciou Kip, arrancando óbvios aplausos entusiasmados dos fãs. Estava mesmo na hora.


E foi de Better Days Comin’ a música seguinte, a belíssima Ever Wonder, com destaque, nas palavras de Kip, para “esse badass motherfucker, o percussionista Robbie”. Rainbow in the Rose, por sua vez, ficou fabulosa no formato acústico – na verdade, foi a comprovação in loco do que está no obrigatório Down Incognito (1998). Mesmo sem o instrumental que a deixa especialmente intrincada (salve Rod Morgenstein), a complexidade ainda se fez presente na canção que é uma das grandes obras-primas da história do hard rock. Em seguida, Kip perguntou se alguém da pista gostaria de subir ao palco para cantar nada menos que o maior hit do Winger, e entre quem levantou a mão a escolhida foi Laurency Paes, desafiada pelo músico: “Você consegue cantar? Então vem, girl from Rio”. Sim, ela conseguiu e, sem errar uma palavra sequer, vencendo rapidamente a timidez, foi protagonista de um dos momentos mais legais do show. “Isso foi incrível! E foi ao vivo”, disse Kip, empolgado. “Obrigado por apoiarem a música tocada ao vivo.”

A apresentação não havia chegado a sua metade, mas mesmo assim já tinha valido o ingresso de todos os presentes. Só que tinha mais. Spell I’m Under foi mais um show de Kip como vocalista, enquanto Without the Night se mostrou uma agradável surpresa tirada do homônimo disco de estreia do Winger, de 1988. Ideal para preparar o terreno para quatro músicas dos álbuns solo, começando por How Far Will We Go, do genial This Conversation Seems Like a Dream; passando pela espetacular instrumental Free, de Songs from the Ocean Floor; e fechando com duas de From the Moon to the Sun, ambas com Kip trocando o violão pelo teclado: as bonitas Pages and Pages e Where Will You Go, incluindo uma merecida ovação depois da primeira. “Isso é o que importa. Vocês são incríveis. Muito obrigado!”, agradeceu.

É o que importa, mesmo. As canções de sua carreira solo não estavam na ponta de língua de todos os presentes como estavam as joias do Winger, mas a reação foi extremamente positiva, e em muitos se percebia um ar de admiração pelo que talvez estivessem ouvindo pela primeira vez. Mas se era para cantar, o fim do show foi arrasador. Headed for a Heartbreak é tão bonita que nem mesmo o antológico solo de Reb Beach fez tanta falta assim; Down Incognito foi mais uma amostra da garganta privilegiada do cara que ainda é subestimado por muita gente, em boa parte por causa do início dos anos 90; Madeleine fez todo mundo cantar o coro no refrão; e o hino Seventeen, com direito à brincadeira de que agora “she’s only forty eight”, encerrou um show simples que, na verdade, é um espetáculo de bom gosto, boa música e simpatia (Kip não arredou o pé até tirar foto com o último fã que estava numa improvisada fila, ao fim da apresentação) – e sabe aquele baterista que aparece, num vídeo do início dos anos 90, jogando dardos num pôster do Kip Winger? Se tivesse metade do talento que o multi-instrumentista tem no dedo mindinho da mãe esquerda, esse baterista seria um grande músico. Acontece que não tem.

Mas não acabou aí. Não o texto, pelo menos, porque antes teve a apresentação do Anie, projeto acústico dos ex-Shaman e Noturnall Fernando Quesada (violão e vocal) e Junior Carelli (teclados e vocal), que no Rio contaram com a participação especial do vocalista do Rec/All, Rod Rossi. E mais do que cair com uma luva na proposta do evento, a curta apresentação do trio foi uma agradável surpresa. Talvez We Will Rock You, do Queen, e Nova Era, do Angra, pudessem ter dado lugar a canções menos populistas ou até mesmo a obras autorais, uma vez que foi aí que o show realmente ganhou charme, até porque quem estava interessado em assistir iria curtir de qualquer jeito – e não deixa de ser curioso que em alguns momentos cheguei a imaginar que iria começar alguma coisa do Savatage. Mas, por exemplo, pegue We All Die Young, que Chris “Izzy” Cole, interpretado por Mark Wahlberg, canta na audição para vocalista da fictícia banda Steel Dragon no filme “Rock Star”. Não atingiu o status de Stand Up, mas é uma baita música e foi uma ótima escolha para abrir o set.


E Dream on, do Aerosmith, que veio em seguida? É um clássico, mas não é Walk This Way, e ainda ganhou uma bela verão acústica. Foram opções mais acertadas, assim como a inclusão, mesmo que óbvia, da ótima iHate, do Rec/All, e principalmente de material do próprio Anie. And I Go tem uma história que cabe no formato, para convidar a plateia a participar – “Fala dos anos no Shaman e no Noturnall, então foi nossa carta de despedida. Por isso esse tom”, explicou Quesada –, e Choices é boa, muito boa, com um potencial comercial que precisa ser descoberto. Ainda assim, com três músicos talentosos no palco, arranjos bem sacados e, resumindo, um repertório com mais acertos do que erros, o show foi um bom aperitivo para quem não conhecia o Acoustic Natural Intense Experience.

Setlist Kip Winger
Cross
Easy Come Easy Go
Who’s the One
Can’t Get Enuff
Hungry
Ever Wonder
Rainbow in the Rose
Miles Away
Spell I’m Under
Without the Night
How Far Will We Go
Free
Pages and Pages
Where Will You Go
Headed for a Heartbreak
Down Incognito
Madalaine
Seventeen

Setlist Anie
We All Die Young
Dream on
iHate
Choices
We Will Rock You
And I Go
Nova Era

Saxon

Por Daniel Dutra | Fotos: Daniel Croce

As águas de março… Quis o destino que a primeira vez do Saxon no Rio de Janeiro, apesar de a banda ter passado pelo Brasil em seis oportunidades anteriores (1997, 1998, 2002, 2011, 2013 e 2018), acontecesse no mês em que a cidade costuma sofrer com as chuvas. Some-se a isso um público que parece estar evitando shows de heavy metal, considerando também uma crise econômica no estado maior do que a média nacional, e a receita está completa: um Vivo Rio com uma ocupação aquém do que o quinteto merece. Uma pena. Se necessário, era o caso de improvisar um Noé e construir um barco para sair de casa – até choveu, mas não foi para tanto –, porque se era imaginado que Biff Byford (vocal), Paul Quinn e Doug Scarratt (guitarras), Nibbs Carter (baixo) e Nigel Glockler (bateria) iriam matar a pau, as quase duas horas de show superaram as melhores expectativas.

Em vários momentos eu já disse que, hoje em dia, ninguém faz um show de metal melhor que o Accept. É verdade, mas alguns nomes mandam tão bem quanto: Armored Saint, Metal Church e o próprio Saxon. É normal a lista crescer quando se adiciona uma novidade ao currículo musical, e a grande maioria dos presentes na pista e nos camarotes da casa também estava debutando numa apresentação da banda inglesa, então o impacto foi imediato. Apesar do som muito alto e, consequentemente, embolado – continuou alto, mas foi aos poucos ficando clareando –, a dobradinha inicial mostrou que a noite seria matadora. Thunderbolt e Sacrifice foram um arregaço, mas o melhor mesmo foi perceber ao vivo como as faixas-título dos álbuns lançados em 2018 e 2013, respectivamente, provam como o grupo se manteve relevante depois de 40 anos de estrada.

Mas como a turnê é para comemorar esse aniversário de quatro décadas, considerando o homônimo disco de estreia, vamos aos clássicos… “É muito bom estar aqui pela primeira vez”, disse Byford pouco antes de gravar a plateia com o celular e, em seguida, soltar a voz afiadíssima em Wheels of Steel – e foi aí que começou o show particular de Glockler, diga-se. Strong Arm of the Law e Denim and Leather foram emocionantes, em boa parte pelo público cantando ativamente o refrão, num comportamento que foi de encontro à frieza demonstrada em alguns momentos do show. Ainda empolgados com a trinca de clássicos, os fãs soltaram a garganta no “Olê, olê, olê! Saxon! Saxon!”, e Byford respondeu trocando o nome da banda pelo da cidade. Foi a deixa para a belíssima porrada chamada Battering Ram.


“Vamos tocar duas músicas de nosso primeiro álbum, de 1979”, anunciou o vocalista antes de os cinco detonarem com Frozen Rainbow e Backs to the Wall. Lá estava Glockler fazendo bonito na bateria, mas Scarrat, com um solo emocionante em Frozen Rainbow, e Carter, agitando como se não houvesse amanhã em Backs to the Wall, mereceram o destaque dos holofotes. Pulando do primeiro direto para o trabalho mais recente, Byford anunciou que era hora de uma canção que “fala da nossa primeira turnê, em 1979, ao lado de uma banda chamada Motörhead”, e assim They Played Rock and Roll explodiu no som da casa antes de o quinteto soltar mais um clássico, Power and the Glory – e se houve um único porém na apresentação, e um totalmente justificável, foi o pouco material extraído de Thunderbolt (clique aqui para ler a resenha do álbum), pois cabia Pretador, talvez Sniper ou até Nosferatu (The Vampire’s Waltz). Mas fica para uma próxima vez. Amém!

“O que vocês querem ouvir?”, perguntou o carismático Byford. Ninguém queria ouvir material novo, obviamente, e as opções foram dadas ao público: The Eagle Has Landed, Ride Like the Wind, Broken Heroes, Solid Ball of Rock, Motorcycle Man e 20.000 Ft. “Bom, nada como uma plateia gritando o nome da música”, disse o vocalista ao responder ao anseio dos fãs por The Eagle Has Landed, que foi mais um daqueles momentos emocionantes para quem nunca tinha visto o Saxon em cima de um palco. Curiosamente, ela ficou fora do apresentação em Porto Alegre, onde teve seu espaço no repertório ocupado por Broken Heroes e Motorycle Man. Isso porque… “Vocês não querem ouvir Ride Like the Wind” ? Nós vamos tocar”, mandou Byford. E o cover de Christopher Cross, que tinha sido a escolha dos gaúchos duas noites antes, soou fantástica.

Depois de dar uma zoada por causa do constante ruído da guitarra de Quinn, quando este acionava um determinado pedal, Byford colocou os fãs para cantar 747 (Strangers in the Night). Nem precisou fazer esforço, assim como Carter se mostrava incansável ao agitar alucinadamente em And the Bands Played on. Lionheart, por sua vez, provou ser uma das novas favoritas dos fãs – apesar de que lá se vão quase 15 anos do disco que leva seu nome –, e a velhinha To Hell and Back Again, com seus 38 anos de vida, colocou o vocalista para bater cabeça, Glockler para brincar de tocar bateria e Carter no centro das atenções. Sério mesmo, a presença de palco do baixista é maravilhosamente animal! E incansável, porque logo a seguir, em Dallas 1 PM, o cara continuou possuído. Deu gosto de ver.

Celular novamente na mão, Byford fez aquela média bacana com os fãs ao filmá-los. Mas o momento pedia, afinal, era para registar o semblante dos fãs que ouviam Crusader ao vivo pela primeira vez. Necessário dissertar? Não, mas o clássico encerrou a apresentação antes do bis que todo mundo sabia que ia rolar. E ele começou em alta com a joia Heavy Metal Thunder – na boa, de novo, o que é a presença de palco do Carter?! –, deu uma baixada com Never Surrender, que ficou meio perdida, e terminou de fato num clímax. “Amanhã nós tocaremos em São Paulo…”, o vocalista começou a falar, antes de ser interrompido por vaias. “Eu sei, eu sei. Isso é coisa do futebol, certo? Torço pelo Manchester United, então entendo vocês.” Não exatamente, Biff, mas você se saiu bem e arrancou risos do público. “Tudo bem, vamos tocar em São Paulo, mas hoje estamos no Rio de Janeiro!”, completou o vocalista, agora sob uma salva de palmas. Então, Princess of the Night ecoou para fechar uma noite inesquecível com o que o heavy metal pode oferecer de melhor. E sejam bem-vindos mais vezes, Biff, Paul, Nigel, Doug e Nibbs.

Setlist
Thunderbolt
Sacrifice
Wheels of Steel
Strong Arm of the Law
Denim and Leather
Battering Ram
Frozen Rainbow
Backs to the Wall
They Played Rock and Roll
Power and the Glory
The Eagle Has Landed
Ride Like the Wind
747 (Strangers in the Night)
And the Bands Played on
Lionheart
To Hell and Back Again
Dallas 1 PM
Crusader
Bis
Heavy Metal Thunder
Never Surrender
Princess of the Night

Tuatha de Danann – The Tribes of Witching Souls

Por Daniel Dutra | Fotos: Rorigo Barbieri/Divulgação

Depois de Dawn of a New Sun (2015), o “disco da volta”, o Tuatha de Danann fez um agrado nos fãs ao relançar no ano seguinte o homônimo EP de estreia, de 1999, com a regravação de seis faixas. Mas foi só um aperitivo, porque a ansiedade era mesmo por material inédito para marcar esta nova fase da banda mineira, agora centrada no multi-instrumentista Bruno Maia e em Giovani Gomes (baixo e vocal) e Edgard Brito (teclados). E o trio, com a ajuda de vários convidados especiais, fez valer a pena a espera, porque The Tribes of Witching Souls só tem um problema: é um EP. Fica um gosto de quero mais, apesar de sua duração ser até bastante razoável – sete faixas em 31 minutos e 35 segundos; ou 43 minutos e 30 segundos se consideramos as duas demos que entraram como bônus.

Esse gosto de quero mais, na verdade, surgiu em novembro do ano passado, quando a banda lançou o ‘lyric video’ da faixa-título. The Tribes of Witching Souls é daquelas músicas para meter um sorriso no rosto graças ao seu alto astral, trazendo tudo mais que se espera do Tuatha de Danann além do clima positivo, incluindo melodias vocais caprichadas e um baita refrão (aqui enriquecido pelos corais). É assim que começa o CD, que fica ainda melhor na canção seguinte, porque Turn é simplesmente maravilhosa. O lado celta casa perfeitamente com um instrumental que se aproxima do hard rock – a levada e o riff do início dizem tudo, além de um solo na mesma veia – e traz mais um refrão impecável.


Com participação da vocalista Daísa Munhoz (Vandroya e Inlakesh), a ótima Warrior Queen mostra por que o Tuatha de Danann é uma banda única no Brasil – e que ficou ainda melhor com ajustes que o tempo se encarregou de fazer, como a redução de vocais guturais. Mas o grupo vai muito além, porque a presença de Martin Walkyier, praticamente um membro honorário, mostra também que falamos de um dos mais relevantes mundialmente em seu estilo. Aqui, a participação do ex-Skyclad em Your Wall Shall Fall confirma isso: heavy metal celta absolutamente empolgante e com uma mensagem que diz muito sobre o momento que vivemos. Não está escrito que bandas de rock precisam ser panfletárias, mas como é bom quando elas se mostram conscientes social e politicamente. E está dado o recado: “Damned are ye who would divide”.

Última das realmente inéditas, a excelente Conjura fala da Inconfidência Mineira e tem uma queda mais forte pelo rock progressivo em meio ao mundo celta da música do grupo. Para completar o material mais recente, duas regravações acústicas que, de fato, agregaram muito valor ao EP. Não coincidentemente, a nova versão de Outcry, gravada originalmente em Dawn of a New Sun, ampliou o lado folk da canção, enquanto a do clássico Tan Pinga Ra Tan, de Tingaralatingadun (2001), ficou muito bonita com as vozes de Fernanda Lira (Nervosa) e Nita Rodrigues (Bud Pump). Não que precisasse, mas dá para imaginar como será ainda melhor cantá-la ao vivo.


E temos as faixas bônus, claro: as demos de Rhymes Against Humanity, também do disco de 2014; e a instrumental de The Tribes of Witching Souls, na qual detalhes novos e escondidos chamam muita atenção, principalmente os teclados que dão, novamente, um ar de progressivo confirmado pelo belo desfecho orquestral que ficou fora da edição final do EP, uma evolução natural do caminhado trilhado em Dawn of a New Sun, que consolidou o retorno do Tuatha de Danann depois do hiato de 2010 a 2013. Agora resta torcer para que o próximo trabalho, de preferência um álbum completo, não demore cinco anos para ver a luz do dia.

Faixas
1. The Tribes of Witching Souls
2. Turn
3. Warrior Queen
4. Your Wall Shall Fall
5. Conjura
6. Outcry
7. Tan Pinga Ra Tan
8. Rhymes Against Humanity (demo 2014)*
9. The Tribes of Witching Souls (demo instrumental)*
*faixas bônus

Banda
Bruno Maia – vocal, guitarra, viola, banjo, bouzouki, whistles e Irish flute
Giovani Gomes – baixo e vozes
Edgard Brito – teclados

Músicos convidados
Fabricio Altino – bateria
Rodrigo Abreu – bateria (faixa 4)
Alex Navar – gaita de fole (faixas 2 e 4)
Nathan Viana – violino
Martin Walkyier – vocal (faixa 4)
Jacqueline Taylor – guitarra (faixa 4)
Fernanda Lira – vocal (faixa 7)
Nita Rodrigues – vocal (faixa 7)
Daísa Munhoz – vocal (faixa 3)
David Briggs – bodhran (faixa 3)
Rafael Salobreña – bodhran (faixa 3)
Dana Russi Maia – vocal (faixa 1)

Lançamento: 19/02/2019

Produção: Bruno Maia
Mixagem: Brendan Duffey (faixas 1-5) e Fabricio Altino (faixas 6 e 7)

Dee Snider – Sick Mutha F**kers Live in the USA

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

“This is not Twisted Sister. This is Dee fucking Snider with some sick mutha fuckers on stage”, brada Dee Snider logo depois de Stay Hungry, terceira música do CD, antes de dar um esporro em quem colocou uma cerveja no palco. “Do you know what I do for a living? I don’t sing for a rock’n’roll band. I’m not a frontman in a rock’n’roll band. I kick fucking ass. That’s what I do!” Sim, é exatamente o que o vocalista sempre fez, e Sick Mutha F**kers Live in the USA é um belo exemplo. Dá para sentir a energia que sai das caixas de som – energia que ganhou cores no DVD Deevision (2002), mas essa é outra história, porque isso aqui já é bom demais para quem não tem o Twisted Forever, disco lançado sob a alcunha de Dee Snider’s S.M.F’s em 1997.

Sim, Sick Mutha F**kers Live in the USA é uma reedição do CD lançado há pouco mais de 20 anos – está fora de catálogo, diga-se, mas por um punhado a mais de dólares ainda é possível achar uma cópia usada na internet. Enfim, depois do discurso descrito acima, Snider continua chutando bundas com uma baita versão de Destroyer. Ele e uma banda afiada, formada pelos guitarristas Derek Tailer (desde 2002 no Overkill) e Keith Alexander, o baixista Spike e o batera Charlie Mills. E o mais interessante do trabalho é que se trata de um registro bruto e sem produção (apenas mixagem das faixas), ou seja, sem overdubs, o que dá para sacar na performance do próprio vocalista.

Sabe quando você não para de correr e bater cabeça, então acaba comendo aquela última sílaba da palavra ou mesmo a última palavra da frase? Pois é, e isso é ótimo. Não esqueçamos que Snider canta para caramba, mas o que sempre esperamos dele é uma entrega absoluta no palco, porque ficamos mal acostumados. O CD começa com What You Don’t Know (Sure Can Hurt You), uma das melhores músicas para abrir show que existem por aí, e logo em seguida, sem respirar, Snider mostra o cartão de visitas: “Are you ready to kick some ass? We are the sick mutha fuckers!”. Vem The Kids Are Back, vem Stay Hungry, vem Destroyer, e você já se encontra empolgadíssima com a sequência inicial de clássicos – o repertório é inteiro do Twisted Sister.


“Este é o nosso primeiro hit”, diz Snider para anunciar I Am (I’m Me), e sem sair de cima a banda emenda o hino You Can’t Stop Rock ‘n’ Roll. Hora de respirar, e o vocalista traz à tona Beavis & Butt-Head ao fazer paródia com uma das célebres frases do primeiro personagem (“I am Cornholio! I need some T.P. for my bunghole!”) antes de um dos momentos mais legais: o medley com alguns exemplares do subestimado Come Out and Play (1985). Tem a faixa-título, I Believe in Rock ‘n’ Roll, Be Chrool to Your Scuel e, felizmente, Leader of the Pack (encurtada para The Pack no track list), cover do The Shangri-Las que é uma das músicas mais deliciosamente sem vergonhas gravadas pelo Twisted Sister. Outro resgate bem legal é Wake Up (The Sleeping Giant), canção de Love is for Suckers (1987) que ganhou um belo ‘punch’ ao vivo – bom, até Hot Love ganharia uma pegada extra ao vivo.

E a festa continua com as sempre ótimas We’re Gonna Make it, Shoot ‘Em Down e Under the Blade – “A primeira canção que compus”, lembra Snider – até terminar de maneira tradicional, com S.M.F.. Mas, acredite, elas não são os principais destaques da segunda metade do CD. I Wanna Rock é um rolo compressor de tamanho porte que dá para visualizar o vocalista ensandecido no palco, graças à gravação nua e crua; Burn in Hell reforça um dos melhores refrãos do heavy metal; We’re Not Gonna Take it, que entra emendada em Under the Blade, e o joga contra a parede; e The Price… Bem, Snider fala da importância da power ballad em sua carreira (é a única música com letra no encarte original, de 1997), a plateia canta o início, ele solta um “You’re making me smile again”, e o fã brasileiro pode se lembrar da antológica primeira vez do Twisted Sister no Brasil, em 2009, no extinto Via Funchal, em São Paulo. Aí é só ouvir Sick Mutha F**kers Live in the USA novamente, mais uma vez, de novo…

Faixas
1. What You Don’t Know (Sure Can Hurt You)
2. The Kids Are Back
3. Stay Hungry
4. Destroyer
5. I Am (I’m Me)
6. You Can’t Stop Rock ‘n’ Roll
7. Medley: Come Out and Play/The Pack/I Believe in Rock ‘n’ Roll/Be Chrool to Your Scuel
8. We’re Gonna Make it
9. I Wanna Rock
10. Wake Up (The Sleeping Giant)
11. Burn in Hell
12. Shoot ‘Em Down
13. Under the Blade
14. We’re Gonna Take it
15. The Price
16. S.M.F.

Banda
Dee Snider – vocal
Keith Alexander – guitarra
Derek Tailer – guitarra
Spike – baixo
Charlie Mills – bateria

Lançamento: 05/10/2018

Mixagem: Danny Stanton

Raven – Screaming Murder Death from Above: Live in Aalborg

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Depois de 45 anos de carreira, o Raven sempre vai ter um problema ao lançar algum disco ao vivo: as comparações com Live at the Inferno (1984), principalmente, e Destroy All Monsters/Live in Japan (1996). São discos que o tempo se encarregou de considerar clássicos, então Screaming Murder Death from Above: Live in Aalborg já nasce tendo muito a provar, principalmente porque não foi um lançamento planejado, digamos assim. Os irmãos John (baixo e vocal) e Mark Gallagher (guitarra), agora acompanhados pelo batera Mike Heller (Fear Factory e Malignancy), subiram ao palco do Skråen, na cidade dinamarquesa, no dia 27 de novembro de 2017, apenas para fazer o que sabem fazer melhor: um baita show de heavy metal. Mas o show foi gravado, os caras gostaram, então…

“(…) Percebemos que, apesar de alguns pequenos problemas técnicos, tínhamos uma gravação ao vivo mágica nas mãos. Foi um concerto quase perfeito graças a ótima atmosfera na casa e nossa atitude fora de controle, uma vez que não sabíamos que estávamos sendo gravados”, disse John no press release. Curiosamente, reside aí um problema, porque o disco não faz jus ao que é um show do Raven – quem já viu sabe do que estou falando –, por mais que a atitude tenha sido espontânea. A gravação crua, sem uma grande produção, também não ajuda ao esconder o peso que o trio impõe ao repertório. Dá parta sentir isso logo de cara, com Destroy All Monsters, do álbum mais recente, ExtermiNation (2015), uma daquelas canções ideias para dar partida num show.

O 13º disco da banda inglesa contribui com mais uma faixa, Tank Treads (The Blood Runs Red), que mostra por que o trabalho foi um dos melhores lançamentos de heavy metal naquele ano. E ainda ajuda a colocar o trem nos trilhos depois de um desnecessário solo de guitarra, A.N.S.M.M.G.N., e também, veja só você, de um clássico. Rock Until You Drop – faixa-título do álbum de estreia, lançado em 1981 – perde um pouco do gás com algumas enrolações, como aquele lance de colocar a plateia para repetir corinho. Uma coisa é botar o público para cantar o refrão, porque esse tem de cantar mesmo, mas num CD isso se torna maçante, principalmente quando os 55 minutos de duração poderiam ter sido mais bem aproveitados.


Mas estamos falando do Raven, um dos grandes nomes da NWOBHM, e apesar de a banda dos Gallagher ainda merecer muito mais reconhecimento, não faltam clássicos. Rock Until You Drop cede mais uma canção, Hell Patrol, um lindo encontro do heavy metal com o rock’n’roll que, por causa de seu riff sensacional, mostra como Mark é igualmente um subestimado. Quer mais uma grande performance do guitarrista? Ouça o furacão chamado Hung, Drawn and Quartered, com várias texturas de guitarra, o que é mais louvável por se tratar de um registro ao vivo. A música é uma das três de All for One (1983), que cedeu ainda o hino que é a sua faixa-título e Break the Chain, joia que serve também para a banda se divertir enxertando trechos de War Pigs e Sympton of the Universe, do Black Sabbath, e It’s a Long Way to the Top (If You Wanna Rock ‘n’ Roll), do AC/DC – ressalte-se que John continua o ótimo baixista de sempre, além do seu jeito todo particular de cantar, e que Heller mata a pau, tranquilizando banda e fãs depois da saída de Joe Hasselvander, por motivos de saída.

Para completar o curto repertório – apenas dez músicas, excluindo o solo de Mark –, temos o arrasa-quarteirão Faster Than the Speed of Light, de Wiped Out (1982), seguido sem sair de cima pela maravilhosa On and on, do injustiçado Stay Hard (1985). As duas formam o melhor momento de Screaming Murder Death from Above: Live in Aalborg, cujo desfecho é com mais um petardo, Crash Bang Wallop, do homônimo EP lançado em 1982. Com um repertório que passeia pelos quatro primeiros anos de sua discografia, de 1981 a 1985, até chegar ao trabalho mais recente, o Raven lançou um ao vivo para ficar bonito tanto na coleção do fã quanto na do banger que está descobrindo o trio agora. Mas que, a rigor, serve mais para dar vontade de conferir o show ‘in loco’.

Faixas
1. Destroy All Monsters
2. Hell Patrol
3. All for One
4. Hung, Drawn and Quartered
5. Rock Until You Drop
6. A.A.N.S.M.M.G.N.
7. Tank Treads (The Blood Runs Red)
8. Faster Than the Speed of Light
9. On and on
10. Break the Chain
11. Crash Bang Wallop

Banda
John Gallagher – baixo e vocal
Mark Gallagher – guitarra
Mike Heller – bateria

Lançamento: 18/01/2019

Mixagem: Mike Heller

Steve Perry – Traces

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

“I know it’s been a long time comin’ since I saw your face”, canta Steve Perry em No Erasin’, primeiro single e canção que abre Traces, que marca a volta do vocalista depois de Trial By Fire (1996), seu último trabalho com o Journey – lançado dois anos depois de seu segundo disco solo, For the Love of Strange Medicine. Faz muito tempo desde a última vez que escutamos A Voz, e ela voltou tão bonita quanto antes – com a força que os 69 anos de idade permitem – num trabalho com uma beleza que faz justiça a sua história, apesar de o CD carecer de um pouco mais de agito. Mas vamos por partes.

Bonita e elegante como o todo, No Erasin’ nasceu com cara de hit, mas não é exatamente esse o caminho trilhado por Perry em seu terceiro álbum solo – o primeiro, Street Talk (1984), saiu quando o vocalista já estava experimentando os louros do sucesso com sua ex-banda. Pegue, por exemplo, as intimistas In the Rain e We Fly, nas quais ele fica na companhia apenas de piano e orquestração. São um contraponto às levadas blues e hard pop da ótima No More Cryin” e de Sun Shines Gray, respectivamente; e a veia mais pop volta a se fazer presente em Most of All, que carrega também um pouco de soul, e Easy to Love, por sua vez com um groove providencial do gênio Vinnie Colaiuta nas baquetas.


Perry, aliás, se cercou de muitos músicos para dar vida a Traces, no qual começou a trabalhar em 2015, e Colaiuta é um dos grandes nomes presentes. Mas as baquetas também passaram pelas mãos de Josh Freese e Steve Ferrone, enquanto Nathan East e Pino Palladino gravaram alguns baixos – um dos guitarristas, John 5 (Rob Zombie, ex-David Lee Roth e Marilyn Manson) se destaca exatamente em Sun Shines Gray, a qual compôs ao lado de Perry e de Thom Flowers, braço-direito do vocalista na produção do disco (veja a lista de instrumentistas no fim desta resenha).

O clima leve ainda se faz presente em You Belong to Me, com melodias vocais que ressaltam uma das vozes mais preciosas de todos os tempos, e até mesmo na ótima releitura de I Need You, dos Beatles, com uma interessante revelação de Perry: há muitos anos, recebeu a bênção de George Harrison (1943-2001) para fazer uma versão da música que o saudoso integrante dos Fab Four compôs para entrar em Help! (1965). E tem a maravilhosa We’re Still Here, segunda canção de Traces, com seu clima The Flame Still Burns (aquela baita música composta por Mick Jones, do Foreigner, para a banda fictícia Strange Fruit no filme “Ainda Muito Loucos”, de 1999). Ela faz valer um disco especial, mas que só não é melhor por ser basicamente um CD de baladas.


Em tempo: uma edição especial, à venda apenas na rede americana de supermercados Target, traz cinco bônus. Curiosamente, com três faixas que são melhores do que boa parte da edição regular: Blue Jays Fly, um quase gospel de arrepiar com a voz de Perry, e principalmente October in New York e Angel Eyes – a primeira com um clima ‘jazzy’ à la Frank Sinatra, e a segunda numa veia R&B à la Sam Cooke. No entanto, a faixas mais importante de Traces talvez seja Call on Me, um reggae que conta com o amor e as risadas de Kellie Nash – “love and laughter”, exatamente como descrito no encarte. Por quê? Kellie, namorada de Perry, perdeu a luta contra o câncer em dezembro de 2012, e foi ela quem despertou novamente a paixão do vocalista pela música. “Agora eu entendo profundamente o significado de ‘é melhor ter amado e perdido do que nunca ter amado, mesmo”, escreveu Perry. Que esse amor renda mais frutos musicais.

Faixas
1. No Erasin’
2. We’re Still Here
3. Most of All
4. No More Cryin’
5. In the Rain
6. Sun Shines Gray
7. You Belong to Me
8. Easy to Love
9. I Need You
10. We Fly
11. October in New York (faixa bônus, exclusiva EUA)
12. Angel Eyes (faixa bônus, exclusiva EUA)
13. Call on Me (faixa bônus, exclusiva EUA)
14. Could We Be Somethin’ Again (faixa bônus, exclusiva EUA)
15. Blue Jays Fly (faixa bônus, exclusiva EUA)

Steve Perry – vocal, baixo (1, 2, 4, 5, 6, 10 e 13), guitarra (1 e 14), orquestração (2, 4, 5, 7 e 13), sintetizadores (9, 12 e 14) e todos os instrumentos em Blue Jays Fly


Ficha técnica
. Guitarra – Thom Flowers (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 10), David Spreng (1), Brian West (2), Dan Wilson (4), John 5 (6), Tim Pierce (12), Devin Hoffman (13 e 14) e Michael Sanford (14)
. Baixo – Devin Hoffman (1, 2, 4, 6 e 14), Nathan East (3 e 12), Travis Carlton (7), Pino Palladino (8 e 9) e Chuck Berghofer (11)
. Bateria – Vinnie Colaiuta (2, 3, 4, 7, 8, 9, 11 e 13), Josh Freese (1 e 6), Brian West (2) e Steve Ferrone (12 e 14)
. Piano – Tommy King (1, 7 e 12), Dallas Kruse (3, 5 e 9), Randy Goodrum (3), Jeff Babko (10) e Tom Ranier (11)
. Hammond – Tommy King (1, 7 e 12), Dallas Kruse (4, 8 e 9) e Booker T. Jones (4)
. Violoncelo – Paula Hochhalter (2, 5, 7 e 11), Steve Richards (2, 3, 5, 7), Suzie Katayama (2, 5 e 7) e Alisha Bauer, Matt Cooker e Tina Soule (11)
. Violino – Michele Richards, Charlie Bisharat e Sara Parkins (2, 5 e 7)
. Contrabaixo acústico com arco – Tim Eckert (faixa 11)
. Viola – Andrew Duckles e Luke Maurer (2, 5 e 7) e Ralph Morrison, Harry Shirinian, Scott Hosfeld, Rodney Wirtz e Ray Tischer (11)
. Orquestração – David Campbell (2, 5 e 7)
. Sintetizadores – Roger Joseph Manning Jr. (1 e 3)
. Metais – Teag Reaves e Dylan Hart (5 e 7) e Douglas Tornquist (7)
. Percussão – Dan Greco (11)
. Vocais de apoio – Sherree Brown e Lynn Mabry (2) e Katie Hampton e Aubrey Logan (12)

Lançamento: 05/10/2018

Produção: Steve Perry
Mixagem: Thom Flowers e Steve Perry

Overkill – The Wings of War

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Cinco discos de estúdio nos anos 2010. Sim, o Overkill vai fechar a década com um CD de inéditas a cada dois anos, média mais que respeitável na era em que o streaming se consolidou como alternativa ao download. Mas nada disso importaria se a banda americana não tivesse lenha para queimar, e The Wings of War é a nova amostra de uma sequência impressionante de grandes trabalhos. É preciso fazer força para lembrar qual foi, guardadas as devidas proporções, o último álbum mais ou menos – ReliXIV (2005), talvez? – mas de Ironbound (2010) para cá todo lançamento é digno de entrar em qualquer lista de melhores do ano.

Sim, é impressionante, ainda mais se levarmos em consideração que o Overkill completa 40 anos em 2020. E sem tirar o pé do freio. É exatamente isso que fica na cara na música que abre o disco, Last Man Standing, porrada das boas com um refrão matador. Coisa linda de ouvir, assim como Believe in the Fight, que vem a seguir com uma melodia vocal feita para funcionar ao vivo, além de uma quebra de andamento sensacional. Pronto. Em dez minutos e 52 segundos, Bobby “Blitz” Ellsworth (vocal), D. D. Verni (baixo), Dave Linsk e Derek Tailer (guitarras) e o novato Jason Bittner (bateria, ex-Shadows Fall e Flotsam and Jetsam) mostram que a banda continua a toda.


O quinteto até reduz a marcha em Head of a Pin, mas a empolgação fica por conta do andamento cavalgado e da caixa de riff aberta por Linsk e Tailer. Aliás, é essa diversidade dentro do próprio disco que torna o thrash metal do grupo ainda mais interessante, afinal, como explicar a deliciosa loucura musica da ótima Bat Shit Crazy? Propositalmente ou não, o título é autoexplicativo. Mas aí vem Distortion, com algo de Iron Maiden no começo que leva o Overkill pelo caminho do heavy metal clássico, e na sequência A Mother’s Prayer, com um baita riff de baixo, dá início a uma nova pancadaria – diga-se mais uma vez, porque você já deve ter lido ou escutado por aí: Verni tem um dos timbres mais bonitos do instrumento no metal.

E se há algo que a banda não abandona é a veia punk, desta vez muito presente em Welcome to the Garden State, um arrasa-quarteirão que sugere um momento para recobrar o fôlego a seguir. Então, a sensacional Where Few Dare to Walk, outra mais cadenciada, atende ao pedido com louvor, principalmente porque é preciso enaltecer o trabalho das guitarras, mais uma vez; de Ellsworth, cuja voz continua maravilhosa e irresistivelmente nervosa; e de Bittner. O batera já vinha massacrando peles e pratos desde o começo, mas aqui recebe definitivamente o cartão de boas-vindas do fã. The Wings of War é o primeiro álbum sem Ron Lipnicki desde ReliXIV, vale ressaltar.


O início acachapante de Out on the Road-Kill, com umas paradinhas muito bem sacadas e novos ótimos riffs, prepara o terreno para o massacre final com Hole in My Soul. A décima faixa faz com que o disco termine como começou: machucando pescoços e apresentando riffs e mais riffs cavalares. Tudo bem que ainda tem a faixa bônus, In Ashes, divertida de tanto que soa descompromissada em relação ao restante do CD – e exatamente por isso talvez seja um extra. The Wings of War fica um pouco abaixo de The Grinding Wheel, cuja primeira audição reservou a ele um lugar cativo na lista de melhores de 2017, mas o 19º disco do Overkill é forte candidato a repetir o feito este ano.

Faixas
1. Last Man Standing
2. Believe in the Fight
3. Head of a Pin
4. Bat Shit Crazy
5. Distortion
6. A Mother’s Prayer
7. Welcome to the Garden State
8. Where Few Dare to Walk
9. Out on the Road-Kill
10. Hole in My Soul
11. In Ashes (faixa bônus)


Banda
Bobby “Blitz” Ellsworth – vocal
Dave Linsk – guitarra
Derek “The Skull” Tailer – guitarra
D. D. Verni – baixo
Jason Bittner – bateria

Lançamento: 22/02/2019

Produção: Overkill
Mixagem: Chris “Zeuss” Harris