Queensrÿche: a MK I ainda vive

Capitol Records capricha nas novas edições pars os sete primeiros álbuns do quinteto de Seattle

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Queensrÿche: a MK I ainda vive

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Vinte anos de história, 15 deles registrados nos sete CDs que a Capitol Records relançou em maio nos Estados Unidos: chegou a vez de o Queensrÿche ganhar a inevitável série remasterizada, com faixas extras, encartes com liner notes e fotos novas e/ou inéditas. O trabalho (muito bem) caprichado da gravadora dá as caras logo no primeiro lançamento, a demo tape que virou o EP simplesmente intitulado Queensrÿche (1983). O autor do texto histórico é ninguém menos que Paul Suter, editor da conceituada Kerrang! e um dos grandes responsáveis pelo sucesso inicial da banda. Ao receber uma fita dos então empresários do grupo, Kim e Diana Harris, Suter rasgou seda numa edição da revista inglesa – “o futuro do heavy metal”, disse ele –, e o resultado foi avassalador: as quatro músicas (Queen of the Reich, Nightrider, Blinded e The Lady Wore Black) se transformaram em vinil 12″ (do selo independente e próprio do grupo, 206 Records), 60 mil cópias foram vendidas e um contrato com a EMI foi assinado sem que Geoff Tate (vocal), Michael Wilton e Chris DeGarmo (guitarras), Scott Rockenfield (bateria) e Eddie Jackson (baixo) tivessem feito show algum.


O bônus do CD é simplesmente delicioso, pois se trata da íntegra do maravilhoso vídeo Live in Tokyo (1985), ou seja, as canções do EP e seis do primeiro álbum, The Warning, lançado em setembro de 1984. Produzido por James Guthrie (Pink Floyd), este é um trabalho essencial à discoteca de qualquer metalhead que se preze. E um dos melhores exemplos do que o metal dos anos 80 tem de melhor. Nada do hard rock americano que despontava (não à toa o Queensrÿche era frequentemente associado à Inglaterra), mas um som pesado e já preocupado com a qualidade instrumental, ratificada na presença de Michael Kamen, responsável pelas partes orquestradas. Fora isso, letras inteligentes e uma postura séria. Tudo isso fica latente em músicas como Warning, NM156, o clássico Take Hold of the Flame e a épica Roads to Madness. De presente, a reedição traz versões ao vivo de The Lady Wore Black e Take Hold of the Flame, além de Prophecy – que, diga-se de passagem, foi bônus do EP quando lançado em CD em 1988. Trata-se de uma das primeiras composições da banda, mas a gravação foi realizada durante as sessões de Rage for Order.

E vamos ao segundo disco, que mostra a banda à frente de seu tempo. Rage for Order chegou às lojas em 1986 e foi criticado por boa parte da imprensa e dos fãs, mas foi necessário pouco tempo para que todos se rendessem a um trabalho visionário. Duvida? Vale lembrar que não é exagero dizer que grupos como Fates Warning e Dream Theater não estariam fazendo o que fazem hoje não fosse este álbum. Há 17 anos, o Queensrÿche dava o ponto de partida no prog metal: apesar de as músicas não passarem de quatro ou cinco minutos, a influência de rock progressivo é sentida não apenas no maior uso dos teclados, mas nos efeitos sonoros e arranjos. Além disso, o soberbo instrumental fugia do lugar-comum. Excelentes riffs (muitas vezes dois diferentes tocados paralelamente numa mesma música), harmonias, arranjos e solos belíssimos, estes invariavelmente alternados e dobrados.


Walk in the Shadows, I Dream in Infra Red, London e Screaming in Digital são perfeitas, mas The Whisper merece menção especial graças ao genial Scott Rockenfield. De andamento 4/4, a música se transforma numa de 12/8 por causa de uma quiáltera no contratempo. Inteligência e bom gosto de um batera de talento e criatividade ímpares. Os bônus do CD são de dar água na boca, apesar de a versão alternativa para Gonna Get Close to You destoar de todo o restante (faça-se o registro, é uma composição da canadense Lisa Dal Bello): temos registros ao vivo de The Killing Words e Walk in the Shadows e um belíssimo remix acústico de I Dream in Infra Red. O melhor, no entanto, ainda estava por vir. Em 1988 saiu a obra-prima Operation: Mindcrime, o melhor disco conceitual de heavy metal em todos os tempos. O enredo trazia uma evolução da influência do escritor George Orwell – principalmente da obra “1984” – nas letras do Queensrÿche, algo que já se mostrara presente em The Warning.

A trama não é tão simples, mas cabe aqui um resumo: líder de uma organização criminosa e movimento revolucionário, Dr. X acredita que pode dominar o mundo com métodos violentos. Ele tem no viciado Nikki o seu homem de confiança para assassinar políticos e líderes religiosos. Ao mesmo tempo, a prostituta Mary é tirada das ruas e transformada numa freira para vigiar os passos de Nikki, mas o relacionamento de ambos fica mais sério que o planejado. Dr. X ordena que Mary seja assassinada, enquanto o garoto pede que as mortes cessem e se recusa a fazer o trabalho. Ao voltar para a igreja, Nikki a encontra morta, e daí para frente a sequência dos acontecimentos leva o fã à dúvida, já que a história deixa margem para três interpretações sobre quem pode ser o assassino: Dr. X, o próprio Nikki (alucinado por causa do efeito das drogas) e Padre William, outro membro da organização (e minha aposta, diga-se de passagem).


Musicalmente, Operation: Mindcrime é brilhante do primeiro ao último segundo: Revolution Calling, a faixa-título, Spreading the Disease, as maravilhosas The Mission e Suite Sister Mary, Breaking the Silence, I Don’t Believe in Love e Eyes of a Stranger são um verdadeiro bálsamo. Como bônus, The Mission e uma linda releitura de My Empty Room, ambas ao vivo. Sucesso de crítica, com Geoff Tate elevado ao status de uma das melhores vozes do rock, o Queensrÿche experimentaria o sucesso comercial com Empire, lançado em setembro de 1990. Oito milhões de cópias vendidas apenas nos EUA, quatro discos duplos de platina, seis singles e premiações no Billboard Music Awards e MTV Music Awards em 1991 (com a belíssima balada Silent Lucidity escolhida a música do ano pelo público).

Bem diferente do álbum anterior, menos pesado e mais detalhista e técnico, Empire foi a prova de que a banda não tinha limites criativos, já que cada disco era totalmente diferente do anterior. Pérolas como The Thin Line, Jet City Woman, Della Brown e Empire garantem a excelência do álbum, enriquecido com Last Time in Paris (gravada para a trilha sonora do filme “As Aventuras de Ford Fairlane”, de 1990), Scarborough Fair (cover de Simon & Garfunkel) e Dirty Lil’ Secret (lançada como lado B de single). Mas depois de uma turnê de quase dois anos, que trouxe a banda pela primeira vez ao Brasil, para o segundo Rock in Rio, o Queensrÿche foi na contramão do sucesso e sumiu de cena para um longo período de férias.


O silêncio foi quebrado em outubro de 1994, com o lançamento de Promised Land, simplesmente a terceira obra-prima seguida, sem nenhum resquício do último trabalho. Introspectivo, com letras pessoais, repletas de questionamentos e reflexões maniqueístas sobre a vida, o CD traz músicas geniais e nada acessíveis, como I Am I, Damaged, Out of Mind, Disconnected, Lady Jane e Somenone Else? (apenas piano e voz… Impossível descrever exatamente sua beleza). A exceção não-comercial fica por conta de Bridge, linda, com vários trechos acústicos e especial para Chris DeGarmo (a letra fala do relacionamento com seu pai, que abandonou a família quando o guitarrista era pequeno e faleceu durante as gravações do disco). Os extras ficam por conta de Someone Else? numa versão de sete minutos e com toda a banda, Damaged ao vivo e a excepcional Real World (ao vivo e em estúdio), música composta para a trilha sonora de “O Último Grande Herói” (1993), de Arnold Schwarzenegger.

Hear in the Now Frontier, de 1997, marca o fim e o início de um ciclo para o Queensrÿche. Conhecido e exaltado pela complexidade e riqueza dos detalhes nas músicas, o grupo lançou seu trabalho mais simples, o que gerou comentários que havia se rendido ao grunge – uma besteira sem tamanho, convenhamos. O disco não abandona o cuidado com os arranjos e não abre mão da qualidade, como é comprovado em Sign of the Times (belíssimo refrão e uma grande letra), The Voice Inside, You, Some People Fly (perfeita em todos os aspectos), Hero (linda), Reach (riff de guitarra, refrão e bateria de absoluto bom gosto) e sp00L (se alguma banda da safra grunge tivesse escrito uma música como esta, o traje com bermuda rasgada, coturno e camisa de flanela amarrada na cintura não teria sido tão ridículo).


No entanto, há ressalvas: All I Want (cantada por DeGarmo), Cuckoo’s Nest e Anytime/Anywhere nem de longe fazem justiça à banda. Quatro músicas entram de brinde no relançamento: a bela Chasing Blue Sky (que saiu como bônus na edição japonesa) e as versões do MTV Unplugged para Silent Lucidity, The Killing Words e I Will Remember. Mas a EMI America faliu no meio da turnê, e o Queensrÿche ficou órfão. A Virgin assumiu o trabalho de divulgação, mas os shows acabaram resumidos aos Estados Unidos e a uma curta passagem pela América do Sul (Brasil e Argentina). Em janeiro de 1998, um anúncio pegou todos os fãs de surpresa: Chris DeGarmo estava fora da banda. Meses e muitos rumores depois, Kelly Gray (companheiro de Tate no The Myth, no início dos anos 80) ocupou o posto e com ele foram lançados dois discos: Q2k (1999) e o duplo ao vivo Live Evolution (2001).

Apesar de ter feito um bom trabalho no Queensrÿche, como músico e mesmo como produtor, Gray foi posto para fora em maio de 2002, e em fevereiro de 2003 aconteceu o que todos esperavam: DeGarmo estava de volta. Com a formação original, a banda compôs e gravou as dez músicas que farão parte do novo disco, Tribe, a ser lançado em 22 de julho. No entanto, no fim de abril foi anunciado que, “por motivos de agenda”, o guitarrista não participará dos shows na Europa e nos EUA. Enquanto a casa não fica em ordem, muitos fãs já apostam que esta será a última turnê da banda.


Artigo publicado na edição 93 do International Magazine, em junho de 2003.

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