New metal: sobrenome não autorizado

Moda? Bom ou ruim? Artistas e profissionais de heavy metal falam da nova febre: o new metal

Foto: Mario Alberto

New metal: sobrenome não autorizado

Por Daniel Dutra | Ilustração: Mario Alberto

Vocais rap, cozinha reta, ritmo pula-pula e instrumental sob o peso de guitarras com afinação baixa – recurso que pode ser usado por quem tem pouca ou nenhuma intimidade com o instrumento. Simples assim, a fórmula do new metal não apenas provou ser rentável, mas serviu também para criar uma enorme polêmica. De um lado, bandas como Korn, Limp Bizkit e Linkin Park rejeitam o rótulo, mas não o sucesso alcançado com um sobrenome tradicional; do outro, fãs de rock pesado que desprezam um estilo considerado por eles absolutamente artificial.

Os defensores do alterna metal – ironicamente, a palavra “metal” tem lugar cativo – acusam os fãs de heavy metal de conservadores, argumento que pode cair por terra com o crescimento de vertentes como death, black e metal melódico. “New metal? Desde quando essas bandas têm a ver com heavy metal? Absolutamente nada. Poderiam ser até new heavy, já que fazem um som bem pesado, mas ainda assim o estilo não existira para mim”, diz Vitão Bonesso, um dos nomes mais respeitados da imprensa especializada e há 15 anos apresentador do programa Backstage, na Brasil 2000 – 107,3 MHZ, em São Paulo (todos os domingos, às 21h).

Ultimamente, a discussão gerou uma resposta chamada “novo metal”, movimento formado por bandas europeias como In Flames, Soilwork, Dark Tranquility e Arch Enemy, todas com raízes no rock pesado e com grande prestígio entre os headbangers (metaleiro não, por favor). “O ‘novo metal’ vem acompanhado de vários estilos, como o melódico e o tradicional, sem a necessidade de mais um rótulo”, lembra Vitão. Para Eric de Haas, diretor geral da Century Media Records no Brasil, o contra-ataque involuntário pode acabar gerando algumas dúvidas. “Acredito que haverá uma escala entre o ‘novo metal’ e o new metal, que acho irritante e sem feeling. Assim, pode acontecer a discussão a respeito de uma banda estar ou não seguindo o estilo.”


O repúdio ao new metal não acompanha apenas quem ouve heavy metal desde os anos 80, no mínimo, ou aqueles que somente não enxergam qualidade nos grupos do gênero. Há um consenso geral de que o estilo não passa de música elevada ao patamar de moda pela mídia americana. “Nos EUA, os mais jovens têm sido enganados por essa porcaria em vez de aprenderem de onde vem a verdadeira música. A verdadeira essência do metal você encontrava em bandas como Venom, Destruction, Slayer e Celtic Frost”, afirma Phil Anselmo, ex-vocalista do Pantera e hoje à frente do Superjoint Ritual. “Queremos não apenas oferecer isso aos fãs antigos, mas também mostrar aos mais novos que o new metal é um lixo.”

Guitarrista do Destruction e um dos mais influentes músicos do thrash metal, Mike não poupa ironia ao falar do estilo – “Talvez eles sejam metal, mas são artificiais demais. É muito plástico até chegar a metal” –, mas resume bem a ideia inicial de Anselmo. “Esse tipo de música não é natural. Há muita coisa feita por computador, e eles se orgulham disso. O mundo precisa de bandas honestas, mas as de new metal são, de alguma maneira, criadas pela mídia ou por gravadoras. Elas não têm personalidade.” Indo um pouco mais além, Mike lembra que até mesmo o modismo pode terminar em algo positivo. “Depois de dois anos ouvindo new metal, esses jovens começam a ficar entediados. Aí buscam as raízes e descobrem as boas bandas. É um processo normal.”

“Os Estados Unidos não servem mais como termômetro para o heavy metal. Hoje, o estilo é mais funcional na Europa, em países como Itália, Grécia, Suécia e, principalmente, Alemanha”, lembra Vitão, respondendo também aos desavisados que insistem em declarar o verdadeiro rock pesado como morto. “O metal voltou a crescer de forma discreta, e é assim que deve ficar. Não deve se expor a ponto de a mídia americana colocá-lo novamente no topo e depois, assim que quiser, jogá-lo no ostracismo. Grupos como Nightwish, Edguy, Children of Bodom e Cradle of Filth recentemente fizeram turnês pelos EUA sem essa exposição, e os resultados foram bastante satisfatórios.”

De fato, o heavy metal teve seu auge de popularidade na década de 80 e início dos anos 90, até a explosão do grunge, mais um movimento do que um estilo musical. Ainda assim, o que passou a valer foram as camisas de flanela amarradas na cintura. “Na verdade, novos estilos vão surgir, e os já existentes continuarão a ter seguidores. Seja com o grunge no passado ou com o new metal agora, a discussão sobre o fim do heavy metal sempre será precedida por um novo estilo que surge como uma avalanche”, diz de Haas.


Para Vitão, as semelhanças entre os dois gêneros estão “na forma de a mídia trabalhar um suposto estilo. Bandas como Pearl Jam e Soundgarden são exemplos de um bom heavy rock, nada mais que isso, mas a mídia sempre procura por uma denominação para poder trabalhar um novo produto”. Ao lembrar que existe similaridade entre o grunge o new metal, Haas acrescenta que é “somente no sentido de que surgiu algo totalmente diferente dos estilos tradicionais. Consequentemente, há quem ame e quem odeie”.

A novidade, no entanto, passa longe do campo musical. Senão, vejamos: nova menina dos olhos do new metal, o Evanescence é vendido como “diferente de tudo que você já ouviu”, só que mais parece um Linkin Park com uma mulher no vocal principal. No fim das contas, muita gente se pergunta por que um grupo como o Lacuna Coil não atinge os mesmos números – no Brasil, a sétima prensagem do primeiro disco do Evanescence, Fallen, saiu com 20.000 unidades. A resposta pode ser encontrada no fato de a banda italiana estar diretamente ligada ao heavy metal desde o início independente, já que talento não falta à turma liderada pela vocalista Cristina Scabbia.

A busca por protótipos encontra a explicação nas palavras de Charlie Benante, baterista do Anthrax. Na verdade, uma nova versão para explicar o new metal como um produto sazonal. “Na Europa, o heavy metal e o hard rock são levados muito a sério, diferentemente dos Estados Unidos, onde o que importa é a moda e todo dia muita merda é empurrada às pessoas. Os últimos cinco ou seis anos não foram bons para a música nos EUA”, disse ele. Chega a ser irônico que canções pesadas com andamento e vocais hip hop sejam hoje considerados inovação, já que o próprio Anthrax, em 1987, misturou rap como heavy metal em I’m the Man. Depois, a banda ainda faria uma parceria com o Public Enemy em Bring the Noise. “O new metal não é metal, mas eles têm de rotular essas bandas de alguma maneira. Na verdade, são apenas boy bands ou bandas pop com guitarras pesadas”, completa Benante.


E falando em boy bands, a preocupação dos grupos de new metal com a imagem não raro ultrapassa o limite do bom senso. Um dos casos mais emblemáticos aconteceu em 2000, quando o vocalista do Korn, Jonathan Davis, se recusou a entregar um prêmio durante um evento da MTV, afinal, o faria junto a Bruce Dickinson, do Iron Maiden. De acordo com Davis, o frontman da Donzela tem uma imagem muito associada ao heavy metal, e ele não queria fazer parte disso. Como qualquer comparação entre Dickinson a Davis pode ser uma ofensa, ficam duas perguntas: onde estará o cantor do Korn daqui a 20 ou 25 anos? Qual será o seu legado para o rock?

O troféu paspalhão, no entanto, tem apenas um dono: Fred Durst, do Limp Bizkit. Líder daquele que é considerado o pior grupo do estilo, ele coleciona atitudes idiotas e fanfarronices sem precedentes. Depois de dividir o palco com Christina Aguilera e afirmar que a intenção era transar com ela, não seria possível se surpreender com as atitudes do, digamos assim, vocalista. No fim do ano passado, Durst afirmou ao site da MTV americana que Eddie Van Halen teria feito audição para o Limp Bizkit, visando ao posto antes ocupado por Wes Borlan, e teria sido reprovado. Claro que tudo não passou de mais uma estratégia para tirar a atenção da música e jogá-la na imagem de rebelde sem causa.

Não à toa, Zakk Wylde registrou comentários pouco agradáveis ao Limp Bizkit nos lançamentos ao vivo do Black Label Society – o CD Alcohol Fueled Brewtality Live!! (2001) e o DVD Boozed, Broozed e Broken-Boned (2003). Com a moral de quem é considerado por muitos o melhor guitarrista de heavy metal da atualidade, Wylde não deu desconto à tentativa de Durst de puxar o tapete de qualquer um dos músicos escalados para o filme “Rock Star” (2001), na tentativa de garantir uma vaga naquela que deveria ter sido a história de Tim “Ripper” Owens até substituir Rob Halford no Judas Priest – estrelado por Mark Wahlberg e Jennifer Aniston, o longa conta com Wylde, Jason Bonham e Jeff Pilson (Dokken) na banda fictícia Steel Dragon, e Blas Elias (Slaughter) e Nick Catenese (Black Label Society) também participam.


O remédio para tudo isso? “Mais e mais pessoas têm ido aos nossos shows nos Estados Unidos. Isso é bem legal. Podemos tentar capturar os fãs de new metal, fazer com que eles deixem de escutar isso e ouçam nossa música”, diz Silenoz, guitarrista do Dimmu Borgir, sem fugir da questão principal do assunto. “Assim como vários outros estilos inventados, serve para vender bandas e discos, mas uma hora acaba. Basta se tornar popular nos EUA para chegar a vários outros países. A indústria lá funciona assim. Eles escolhem o que deve ser bom.”

Se os Estados Unidos servem de parâmetro cultural, no Brasil isso não chega a ter no heavy metal a força que exerce em outros estilos. “Quando surge um novo estilo musical em qualquer parte do mundo, pessoas vão copiá-lo e incrementá-lo, independentemente do lugar em que vivem”, lembra de Haas. E Vitão completa: “A cena brasileira sempre foi inspirada nisso, seja na música ou na maneira de se vestir. Mas aqui, na hora de escolher o que ouvir, existe o fã que sabe quão nociva foi a influência americana. Por isso, posso dizer que aquilo que vem de fora não faz a menor diferença para quem gosta de heavy metal no Brasil.”

O discurso contra o new metal nem sempre é totalmente contrário, existindo artistas que preferem fazer uso da diplomacia. “As pessoas estão se acostumando ao som pesado por causa do new metal. Há algumas coisas boas nele, mas muita merda também, mas parece que os fãs estão bem receptivos ao death metal melódico vindo da Suécia”, afirma o vocalista do Soilwork, Björn “Speed” Strid. “Isso tudo faz com que a cena cresça nos Estados Unidos, o que é bastante positivo.” Uma das maiores vozes do rock, Michael Kiske não esconde que uma ou outra coisa o agrada, mas ainda assim confirma em palavras que é impossível evitar críticas. “Não há muita coisa de novo, são basicamente bandas pop com guitarras mais pesadas, mas invariavelmente com um trabalho bem feito. As pessoas podem chamar de new metal, mas elas não têm mesmo nada de heavy metal.”

No campo político, nada se compara às opiniões dos vocalistas Corey Glover (Living Colour) e Timo Kotipelto (ex-Stratovarius). “Há muitos grupos que surgem e desaparecem com a mesma facilidade. Estilos musicais são assim também. Infelizmente, nenhuma banda dura para sempre. Se você souber esperar, a música que você gosta terá sua vez”, diz Glover. “Não tenho nada contra o new metal, apenas não ouço nenhuma banda do estilo. Se alguém quiser ouvir disco ou samba, eu não vejo problema algum. Só não perca tempo ouvindo o que não gosta”, completa Kotipelto.

A média não dura muito quando a palavra é passada a Dan Lilker, baixista do Nuclear Assault. “New metal é uma merda. Chamar isso de heavy metal é besteira. Quando as pessoas me perguntam por que voltamos, eu digo que foi para acabar com isso. Se você quer ouvir boa música, então tem de fazê-la. Está na hora de mostrar às pessoas o verdadeiro metal. O estilo está voltando à mídia porque todos estão ficando de saco cheio desse lixo de rap metal.”


Enquanto o new metal é basicamente apontado como mais uma das muitas modas da indústria musical, sem poder vislumbrar futuro algum, como fica o heavy metal diante de tudo isso? “Progredindo. Existe o lado ruim desse crescimento, pois muita porcaria pega carona, mas o metal nunca esteve tão profissional e ativo como nos últimos cinco anos”, responde Vitão. “Várias gravadoras surgiram sem nenhum vínculo com as majors, o que é muito importante, pois atrás de mesa de diretor não se encontra um leigo que só visa ao lado financeiro, mas um ex-músico ou apreciador que quer ganhar dinheiro ao mesmo tempo em que procura se divertir divulgando algo em que sempre acreditou. O heavy metal deve ser trabalhado por quem realmente sabe diferenciar o que é autêntico do que é uma farsa.”

Há anos trabalhando no cenário de heavy metal, seja promovendo shows no Brasil ou dando aos fãs a possibilidade de ter em versão nacional aqueles CDs antes só disponíveis em importadoras, de Haas tem opinião parecida. “Claro que nos próximos anos parte das novas bandas terá sumido, enquanto a outra já estará no topo, mas acredito que o metal tradicional está muito forte e renovado. Peço sempre união e respeito entre os diversos estilos, pois brigas internas só dificultam o crescimento do rock pesado”, diz ele, tocando em outro assunto importante. “É preciso conscientização em relação à pirataria, download de músicas e cópias caseiras de CDs. Isso acaba com o mercado fonográfico e, consequentemente, com a música em geral. Sem a venda de produtos oficiais não há músico que consiga se dedicar por muito tempo a uma banda, morrendo assim um grupo que um dia poderia ser o Pink Floyd ou o Iron Maiden do futuro.”

Observação: Todos os depoimentos da matéria foram concedidos em entrevistas exclusivas.

Artigo publicado na edição 100 do International Magazine, em janeiro de 2004.

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