Queensrÿche – The Verdict

Century Media | Importado | 2019

Foto: Divulgação

Queensrÿche – The Verdict

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Queensrÿche (2013) foi o resgate do tempo perdido, e Condition Hüman (2015), a consolidação da sonoridade clássica. Mas The Verdict é aquele novo trabalho do Queensrÿche ao qual os fãs se acostumaram nos primeiros dez anos da banda. Ou seja, é previsivelmente imprevisível. O 16º álbum de estúdio do precursor do progressive metal remete à obra-prima Rage for Order (1986), mas em sentidos bem específicos: não é uma continuação dos discos anteriores com Todd La Torre; necessita de várias audições para que o ouvinte se acostume com ele, para que absorva todos os detalhes; e poderia muito bem ser o CD recém-saído do forno de algum nome promissor, exatamente pela maneira como deixa a música da banda revigorada.

La Torre (vocal), Michael Wilton e Parker Lundgren (guitarras) e Eddie Jackson (baixo) até foram relativamente objetivos em certos momentos – em tempo: apesar de Casey Grillo (ex-Kamelot) acompanhar o quarteto nos palcos há quase dois anos, o vocalista gravou todas as baterias e mandou bem demais. Mas é claro que o extraordinário Scott Rockenfield fará falta. Ele sempre foi peça-chave no som do Queensrÿche, mas se decidiu pular fora… Enfim, há canções mais palatáveis, como o primeiro single, Man the Machine, mais tradicional e até com um pouco de Iron Maiden na mudança de andamento no fim, o que ressaltou o baixo de Jackson, um dos destaques do álbum. E há também Propaganda Fashion, que é, apesar de algumas variações, a faixa mais acessível de The Verdict. Como um filho temporão de Empire (1990).


O fato, no entanto, é que a banda usou e abusou das mudanças de andamentos, compassos compostos e convenções pouco usuais. Como na passagem da estrofe para a ponte da excelente Blood of the Levant, que ainda apresenta riffs palhetados e um conteúdo lírico que reforça a posição de ‘thinking man’s band’ – concedida ao Queensrÿche em seus primeiros anos por causa das letras muito acima da média – pela referência à guerra na Síria do ditador Bashar al-Assad. Em Bent, o grupo leva o fã a pensar em assuntos como a devastação dos ameríndios e a tomada de suas terras, além da contaminação de centenas de milhares de pessoas em Flint, no estado de Michigan, devido ao mau tratamento da água. Musicalmente, Bent tem um quê de Nevermore nos versos – especialmente na primeira parte, na qual a interpretação de La Torre remete a Warrel Dane – e instrumental e refrão impecáveis.

As nuances instrumentais ganham nova dimensão na espetacular Launder the Conscience, que vai do peso a um desfecho inusitado na forma de uma peça progressiva puxada pelo piano, com orquestrações e Eddie Jackson mostrando mais uma vez que merece muito mais crédito no mundo do heavy metal. Os arranjos orquestrais, aliás, são outro ponto alto de The Verdict. Sejam os mais tímidos, como os de Inside Out, para não soterrar a melodia indiana que permeia a música, enriquecida por um belíssimo solo em sua parte mais lenta; sejam os mais presentes, como na linda e emocionante Dark Reverie, composição de Lundgren, cujo talento o fez sair do papel de ex-genro de Geoff Tate para o de substituto definitivo de Chris DeGarmo.


Dark Reverie, diga-se, mostra uma veia progressiva que fica ainda mais forte em Portrait, que mantém a tradição de fechar os discos de maneira épica. Lenta e muito, mas muito bonita (que refrão!), tem algo de Promised Land (1994) e uma guitarra slide que pode fazer você jurar que está ouvindo as notas saírem dos dedos de DeGarmo. O trabalho de Wilton e Lundgren nas seis cordas continua resgatando o som característico do Queensrÿche, felizmente, com uma riqueza de detalhes que pode ser exemplificado na pesada Inner Unrest, cujo instrumental caprichadíssimo é acompanhado por uma bela melodia vocal.

As nove canções detalhadas aqui já seriam suficientes para dobrar o último dos reticentes, mas tem Light-years. Meu amigo, que música! O início com o peso do prog metal e os ótimos riffs compõem um instrumental completamente torto e nada a ver com um dos melhores refrãos já feitos pela banda. É o melhor exemplo das quebradas de tempo e compassos compostos que o quarteto espalhou por todo o trabalho, incluindo solos dobrados, uma aula à parte de Jackson (sério, esse cara toca demais) e La Torre fazendo aquele lick com ride e hi-hat característico de Rockenfield. Desde o homônimo álbum de estreia de La Torre, a banda vem fazendo sempre o melhor disco desde Promised Land. Agora, fez a melhor obra deste “novo” Queensrÿche, que vai ficando cada vez relevante novamente.


Faixas
1. Blood of the Levant
2. Man the Machine
3. Light-years
4. Inside Out
5. Propaganda Fashion
6. Dark Reverie
7. Bent
8. Inner Unrest
9. Launder the Conscience
10. Portrait

Banda
Todd La Torre – vocal e bateria
Michael Wilton – guitarra
Parker Lundgren – guitarra
Eddie Jackson – baixo

Lançamento: 01/03/2019

Produção e mixagem: Chris “Zeuss” Harris

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *