Greta Van Fleet

Fundição Progresso – Rio de Janeiro/RJ – 05/04/2019

Foto: Daniel Croce

Greta Van Fleet

Por Daniel Dutra | Fotos: Daniel Croce

Led Zeppelin. Para o bem ou para o mal, a banda de Robert Plant, Jimmy Page, John Paul Jones e John Bonham é sempre a primeira coisa que vem à cabeça – e sai da boca – quando o assunto é o Greta Van Fleet. E as reações costumam ser maniqueístas, apesar de ser possível encontrar um meio-termo, mesmo nesse hype que envolve os irmãos Josh (vocal), Jake (guitarra) e Sam Kiszka (baixo) e o baterista Danny Wagner. Por exemplo, dá para achar que Anthem of the Peaceful Army (2018) é um baita disco de rock’n’roll, mas ainda assim não listá-lo entre os melhores lançamentos do ano porque, bem, tudo que está ali foi feito cinco ou quatro décadas atrás por Plant, Page, Jones e Bonham. Mas aí os garotos, que este ano levaram o Grammy de melhor álbum por From the Fires (2017), vêm ao Brasil e mostram que são mesmo para valer.

Não que isso vá mudar a opinião daqueles que escolheram 8 em vez de 80, mas numa Fundição Progresso lotada – cuja capacidade oficial é de 5.000 pessoas, então olha a que ponto chegou o hype do Greta Van Fleet no Rio de Janeiro… –, o quarteto fez um show para deixar muita gente grande com vergonha. Com um palco que privilegiava apenas uma ótima iluminação, ou seja, nada de pirotecnia, efeitos ou mesmo algum pano de fundo, a banda entrou mandando ver com The Cold Wind e logo mostrou uma elogiável faceta: uma performance inquieta, principalmente a de Jake, que parece ter se preparado com várias latinhas de algum energético. Resumindo, eles se divertem tocando, e isso naturalmente passa para a plateia. E se os fãs e, principalmente, curiosos curtiram a canção que abriu a noite sem precisar abrir a boca para cantar, o mesmo não aconteceu em seguida.

A ótima Safari Song fez o público colocar a garganta para trabalhar, e Black Smoke Rising completou o serviço com seu refrão grudento. Antes da terceira música do set, aliás, Wagner fez a alegria de quem vibra com qualquer virada de bateria – basicamente, os mesmos que iam ao delírio a cada nota alta alcançada por Josh – ou daqueles que ainda acham legal solo individual nos dias de hoje. Ainda assim, não deixou de ser uma satisfação ver tanta gente cantando as músicas de uma banda jovem que resolveu tocar rock’n’roll de verdade (a declaração é um spoiler das considerações finais). “Essa é a primeira vez que tocamos no Rio. Na verdade, não apenas na cidade, porque é o nosso primeiro show no Brasil”, disse Josh antes de Flower Power, na qual Sam, tal qual John Paul Jones, largou o baixo e foi para o teclado.


Watch Me, de Labi Siffre, e a curta The Music is You, de John Denver (ele mesmo, o artista country que se juntou a Frank Zappa e Dee Snider contra o PMRC nos anos 80), serviram para esquentar o clima para a bela You’re the One, outra cujo refrão foi bem recebido pelo público. Ao fim, as vozes vindas da pista e das frisas aportuguesaram a pronúncia da primeira das três palavras que formam o nome da banda no tradicional corinho de “Olê, olê, olê!”, cujo ritmo foi acompanhado por Wagner, e receberam de volta um agradecimento de Josh: “Obrigado por nos manter no tempo certo.” Mesmo brincando, o vocalista acertou, porque o que os quatro fizeram a seguir foi de arrepiar e, fácil, o melhor momento do show: a dobradinha Black Flag Exposition e Watching Over, ambas com uma iluminação bem particular, com tons de azul e vermelho saindo do fundo do palco e deixando a frente na penumbra.

Um ótimo efeito para a parte musical: Black Flag Exposition foi um longo desbunde instrumental, com destaque para o longo e sensacional solo de Jake, que esbanjou feeling num improviso muito bem ensaiado, digamos assim, e Watching Over veio na cola, sem deixar a plateia respirar, para mais um show particular do guitarrista (e se você ouviu algumas notas do solo de Stairway to Heaven, eu diria que não foi mera coincidência). Curiosamente, o set regular foi encerrado com mais holofotes para Jake em Edge of Darkness, e foi aqui que o garoto mostrou de vez que só não é mais Jimmy Page porque usa uma Gibson SG (de apenas um braço) em vez de uma Les Paul. Afinal, além de tocar com a guitarra nas costas, ainda meteu aquelas notas na trave que só Page faz com tanta maestria. Mas o pupilo aprendeu direitinho a lição. Hora do bis, e o Greta Van Fleet, que costuma alterar a ordem do setlist de um show para o outro, apelou com dois de seus hits – sim, porque o grupo já tem hits, no plural. When the Curtain Falls estava na boca do público, mas foi Highway Tune que terminou de deixar a casa em ebulição depois de 80 minutos de um ótimo show de rock’n’roll, principalmente para quem vê o copo metade cheio.

Para quem vê o copo meio vazio, vale lembrar que não será num show do The Strokes que veremos tanta gente usando camisas do AC/DC, KISS, Black Sabbath, Iron Maiden e, claro, Led Zeppelin. Da mesma maneira, não será o The Vaccines que fará a garotada olhar para trás para descobrir as raízes dessa música que tanto gostamos, e que esses quatro garotos do Greta Van Fleet fazem de maneira orgânica, com instrumentos de verdade, o que já é um passo para começar a construir uma identidade própria. Lembre-se: verão sim, verão também, a grande mídia – aquela moderna, que venera artistas indie, saca? – tem a necessidade de criar um salvador do rock, como se o gênero precisasse de salvação. Então, se a nova geração tem que ser bombardeada com música, que seja uma de qualidade acima da média e de boas referências, mesmo que a fonte seja o maior grupo de rock da história (o desempate com os Beatles é no photochart). Afinal, se o próprio Robert Plant deu a bênção a Josh, Jake, Sam e Wagner, quem somos nós para discordar?

Setlist
The Cold Wind
Safari Song
Black Smoke Rising
Flower Power
Watch Me
The Music is You
You’re the One
Black Flag Exposition
Watching Over
Edge of Darkness
Bis
When the Curtain Falls
Highway Tune

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