Steve Perry – Traces

Hellion | Nacional | 2018

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Steve Perry – Traces

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

“I know it’s been a long time comin’ since I saw your face”, canta Steve Perry em No Erasin’, primeiro single e canção que abre Traces, que marca a volta do vocalista depois de Trial By Fire (1996), seu último trabalho com o Journey – lançado dois anos depois de seu segundo disco solo, For the Love of Strange Medicine. Faz muito tempo desde a última vez que escutamos A Voz, e ela voltou tão bonita quanto antes – com a força que os 69 anos de idade permitem – num trabalho com uma beleza que faz justiça a sua história, apesar de o CD carecer de um pouco mais de agito. Mas vamos por partes.

Bonita e elegante como o todo, No Erasin’ nasceu com cara de hit, mas não é exatamente esse o caminho trilhado por Perry em seu terceiro álbum solo – o primeiro, Street Talk (1984), saiu quando o vocalista já estava experimentando os louros do sucesso com sua ex-banda. Pegue, por exemplo, as intimistas In the Rain e We Fly, nas quais ele fica na companhia apenas de piano e orquestração. São um contraponto às levadas blues e hard pop da ótima No More Cryin” e de Sun Shines Gray, respectivamente; e a veia mais pop volta a se fazer presente em Most of All, que carrega também um pouco de soul, e Easy to Love, por sua vez com um groove providencial do gênio Vinnie Colaiuta nas baquetas.


Perry, aliás, se cercou de muitos músicos para dar vida a Traces, no qual começou a trabalhar em 2015, e Colaiuta é um dos grandes nomes presentes. Mas as baquetas também passaram pelas mãos de Josh Freese e Steve Ferrone, enquanto Nathan East e Pino Palladino gravaram alguns baixos – um dos guitarristas, John 5 (Rob Zombie, ex-David Lee Roth e Marilyn Manson) se destaca exatamente em Sun Shines Gray, a qual compôs ao lado de Perry e de Thom Flowers, braço-direito do vocalista na produção do disco (veja a lista de instrumentistas no fim desta resenha).

O clima leve ainda se faz presente em You Belong to Me, com melodias vocais que ressaltam uma das vozes mais preciosas de todos os tempos, e até mesmo na ótima releitura de I Need You, dos Beatles, com uma interessante revelação de Perry: há muitos anos, recebeu a bênção de George Harrison (1943-2001) para fazer uma versão da música que o saudoso integrante dos Fab Four compôs para entrar em Help! (1965). E tem a maravilhosa We’re Still Here, segunda canção de Traces, com seu clima The Flame Still Burns (aquela baita música composta por Mick Jones, do Foreigner, para a banda fictícia Strange Fruit no filme “Ainda Muito Loucos”, de 1999). Ela faz valer um disco especial, mas que só não é melhor por ser basicamente um CD de baladas.


Em tempo: uma edição especial, à venda apenas na rede americana de supermercados Target, traz cinco bônus. Curiosamente, com três faixas que são melhores do que boa parte da edição regular: Blue Jays Fly, um quase gospel de arrepiar com a voz de Perry, e principalmente October in New York e Angel Eyes – a primeira com um clima ‘jazzy’ à la Frank Sinatra, e a segunda numa veia R&B à la Sam Cooke. No entanto, a faixas mais importante de Traces talvez seja Call on Me, um reggae que conta com o amor e as risadas de Kellie Nash – “love and laughter”, exatamente como descrito no encarte. Por quê? Kellie, namorada de Perry, perdeu a luta contra o câncer em dezembro de 2012, e foi ela quem despertou novamente a paixão do vocalista pela música. “Agora eu entendo profundamente o significado de ‘é melhor ter amado e perdido do que nunca ter amado, mesmo”, escreveu Perry. Que esse amor renda mais frutos musicais.

Faixas
1. No Erasin’
2. We’re Still Here
3. Most of All
4. No More Cryin’
5. In the Rain
6. Sun Shines Gray
7. You Belong to Me
8. Easy to Love
9. I Need You
10. We Fly
11. October in New York (faixa bônus, exclusiva EUA)
12. Angel Eyes (faixa bônus, exclusiva EUA)
13. Call on Me (faixa bônus, exclusiva EUA)
14. Could We Be Somethin’ Again (faixa bônus, exclusiva EUA)
15. Blue Jays Fly (faixa bônus, exclusiva EUA)

Steve Perry – vocal, baixo (1, 2, 4, 5, 6, 10 e 13), guitarra (1 e 14), orquestração (2, 4, 5, 7 e 13), sintetizadores (9, 12 e 14) e todos os instrumentos em Blue Jays Fly


Ficha técnica
. Guitarra – Thom Flowers (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 10), David Spreng (1), Brian West (2), Dan Wilson (4), John 5 (6), Tim Pierce (12), Devin Hoffman (13 e 14) e Michael Sanford (14)
. Baixo – Devin Hoffman (1, 2, 4, 6 e 14), Nathan East (3 e 12), Travis Carlton (7), Pino Palladino (8 e 9) e Chuck Berghofer (11)
. Bateria – Vinnie Colaiuta (2, 3, 4, 7, 8, 9, 11 e 13), Josh Freese (1 e 6), Brian West (2) e Steve Ferrone (12 e 14)
. Piano – Tommy King (1, 7 e 12), Dallas Kruse (3, 5 e 9), Randy Goodrum (3), Jeff Babko (10) e Tom Ranier (11)
. Hammond – Tommy King (1, 7 e 12), Dallas Kruse (4, 8 e 9) e Booker T. Jones (4)
. Violoncelo – Paula Hochhalter (2, 5, 7 e 11), Steve Richards (2, 3, 5, 7), Suzie Katayama (2, 5 e 7) e Alisha Bauer, Matt Cooker e Tina Soule (11)
. Violino – Michele Richards, Charlie Bisharat e Sara Parkins (2, 5 e 7)
. Contrabaixo acústico com arco – Tim Eckert (faixa 11)
. Viola – Andrew Duckles e Luke Maurer (2, 5 e 7) e Ralph Morrison, Harry Shirinian, Scott Hosfeld, Rodney Wirtz e Ray Tischer (11)
. Orquestração – David Campbell (2, 5 e 7)
. Sintetizadores – Roger Joseph Manning Jr. (1 e 3)
. Metais – Teag Reaves e Dylan Hart (5 e 7) e Douglas Tornquist (7)
. Percussão – Dan Greco (11)
. Vocais de apoio – Sherree Brown e Lynn Mabry (2) e Katie Hampton e Aubrey Logan (12)

Lançamento: 05/10/2018

Produção: Steve Perry
Mixagem: Thom Flowers e Steve Perry

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