Uli Jon Roth

Por Daniel Dutra | Fotos: Daniel Croce

Uli Jon Roth precisou gravar apenas quatro discos de estúdio com o Scorpions – Fly to the Rainbow (1974), In Trance (1975), Virgin Killer (1976) e Taken By Force (1977) – para colocar seu nome na história, e apenas isso seria suficiente para justificar turnês baseadas inteiramente ou não no seu repertório com a banda alemã. Mas ele participou também de Tokyo Tapes (1978), um dos melhores álbuns ao vivo da história do rock, então estamos combinados: o guitarrista pode até lançar o seu Tokyo Tapes Revisited: Live in Japan (2016), registro do giro pela Terra do Sol Nascente para promover, vejam só, o duplo Scorpions Revisited (2015). E foi justamente aquela fase, de mais de 40 anos, que levou um público (infelizmente) apenas razoável ao Teatro Rival para assistir à segunda passagem de Roth pelo Rio de Janeiro, num show de poucas e significativas mudanças em relação ao de 2014.

Não que a casa com um público aquém do esperado tenha desmotivado o veterano alemão. Aos 63 anos, Roth camufla seu jeito tímido com um fácil e largo sorriso de felicidade a cada letra cantada pelos fãs. Exatamente como aconteceu com a matadora sequência de abertura: All Night Long é hit, a ótima Longing for Fire tem um tema de guitarra sensacional, e Sun in My Hand o deixou lado a lado com Niklas Turmann (guitarra e voz) num baita duelo nas seis cordas – Nico Deppisch (baixo), Corvin Bahn (teclados) e Richard Kirk (bateria) completam a banda. Sim, da mesma maneira que Roth assumiu o microfone em Sun in My Hand, afinal, a veia blues pedia uma voz relativamente mais grave, Turmann mostrou-se um habilidoso guitarrista ao longo do espetáculo. Mas vamos com calma, porque Roth era a estrela da noite…

Os gritos de “Uli! Uli! Uli!” ecoaram por todos os cantos do Rival depois de The Sails of Charon, e não há adjetivos suficientes para descrevê-la. Um clássico que arrepia quando você o escuta no Taken By Force em vinil, CD ou cassete, mas ao vivo o negócio é ainda mais mágico. “A próxima música foi escrita pelo meu irmão, que morreu no início deste ano”, disse Roth em seguida, referindo-se a Zeno Roth, falecido no dia 5 de fevereiro. “Um compositor e guitarrista muito talentoso, e ele a fez para vocês.” Começou assim, com Don’t Tell the Wind, a primeira quebra no material do Scorpions. Com um bem-vindo ar de anos 80 no espetáculo – a canção é original do álbum Zeno (1986) –, a bela canção ganhou um emotivo solo de Roth e os backing vocals caprichados de Turmann e Bahn.

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A fase Electric Sun – banda formada por Roth em 1978 e que durou até 1986 – marcou presença com Just Another Rainbow, na qual o guitarrista não esconde sua veneração por Jimi Hendrix, e Enola Gay (Hiroshima Today), que mostrou os primeiros sinais de exageros nas improvisações, apesar da bela seção instrumental no meio da canção. Exageros que não aconteceram nas maravilhosas We’ll Burn the Sky e In Trance, que aumentaram a temperatura do local (principalmente a última), mas que reapareceram com força no set semiacústico que veio a seguir. Sentado num banquinho, o que o fez sumir da vista de quem não estava no gargarejo, por causa do palco baixo da casa, Roth começou um exercício de autoindulgência que, em sua segunda metade, teve a companhia de Turmann, com direito até mesmo a trechos de Mediterranean Sundance/Río Ancho, composição de Al Di Meola e do saudoso Paco de Lucia cuja versão definitiva está na obra-prima Friday Night in San Francisco (1981), disco ao vivo de Meola, Lucia e John McLaughlin.

Depois de a dupla debulhar, a cansativa Rainbow Dream Prelude, incluindo um solo espacial de Bahn, fez surgir alguns bocejos até que Fly to the Rainbow colocasse o show novamente nos trilhos – apesar dos desnecessários ruídos em forma de encerramento instrumental, outro capítulo de um excesso que felizmente não rolou quando pude ver Roth no Monsters of Rock Cruise East, em 2016, graças ao tempo mais curto das apresentações no cruzeiro. Nada, no entanto, que não fosse por terra com a trinca a seguir, mais matadora que aquela que abriu o show. Pictured Life e Catch Your Train, duas sem sair de cima, colocaram os fãs para cantar, e Dark Lady mostrou a sintonia fina entre Roth e Turmann. O ótimo vocalista brilhou nos agudos em contraponto ao vocal do guitarrista, e os dois mandaram ver em mais solos dobrados de tirar o fôlego, com uma cena curiosa: enquanto o vocalista tocava concentrado no que estava fazendo, sem tirar os olhos dos dedos da mão esquerda, Roth fazia o mesmo como se aquilo fosse a coisa mais fácil do mundo. Olhava para os fãs, que babavam, e agradecia com um sorriso de garoto.

Era o fim do set antes do bis que todo mundo sabe que vai acontecer. E foi a volta para o bis mais rápida da história, afinal, os cinco nem saíram do palco depois do agradecimento à plateia. Lembra-se da paixão de Roth por Jimi Hendrix? All Along the Watchtower, o começo do fim da apresentação, veio numa versão à la Electric Ladyland (1968) – afinal, o que fazer se o próprio Bob Dylan disse que Hendrix fez melhor? –, só que mais pesada, cortesia de Kirk, que resolveu descer o braço no seu pequeno kit. O que continuou fazendo em Little Wing, a ponto de Roth virar para trás com um olhar pouco amigo, sinal de que era para o batera segurar a onda. Ainda assim, um bis à altura dos melhores momentos do show e de um guitarrista cuja elegância e classe acabam falando mais alto.

Setlist
1. All Night Long
2. Longing for Fire
3. Sun in My Hand
4. The Sails of Charon
5. Don’t Tell the Wind
6. Just Another Rainbow
7. Enola Gay (Hiroshima Today)
8. We’ll Burn the Sky
9. In Trance
10. Solo Acoustic Guitar (Uli John Roth & Niklas Turmann)
11. Rainbow Dream Prelude
12. Fly to the Rainbow
13. Pictured Life
14. Catch Your Train
15. Dark Lady
Bis
16. All Along the Watchtower
17. Little Wing

Destruction

Por Daniel Dutra | Fotos: Daniel Croce

Quando foram anunciadas as primeiras datas no Brasil da Latin Attack 2018, nova turnê do Destruction, bateu aquele desânimo ao imaginar que o Rio de Janeiro ficaria fora do itinerário, afinal, está cada vez mais difícil fazer shows desse porte por aqui. Por razões que vão da situação geral do estado, um reflexo piorado de como está o país, ao desinteresse do público headbanger, pois há quem deixe passar porque “Ah, eles estiveram no Rock in Rio (2013)” ou “Ah, eu vi na última vez (em 2014)” ou, pior ainda, “Ah, eu vi aquele show no Circo Voador (em 2006)”. Bom, felizmente o Rio se juntou às datas em São Paulo (capital e Limeira), Minas Gerais (Belo Horizonte), Brasília e Amazonas (Manaus).

Obrigado, produção; parabéns a quem foi; e meus pêsames aos que ficaram em casa porque acreditam que uma vez já está bom. O cenário local de metal agradece ao público razoável que compareceu ao Teatro Odisseia naquela noite de terça-feira. Um público razoável que foi testemunha de um show simplesmente matador. Provavelmente, o melhor em solo carioca do Destruction, que não poupou parafernália no pequeno palco do Teatro Odisseia.

O pano de fundo estava lá, os painéis laterais também, a iluminação colorida foi uma daquelas raridades na casa, e Marcel “Schmier” Schirmer manteve seus três microfones – um no centro, um à esquerda, um à direita –, e quem já assistiu à banda num espaço maior sabe como é empolgante a performance do baixista e vocalista correndo o tempo todo pelo palco para cantar em cada um deles. Claro, ainda havia a máquina de riffs chamada Mike Sifringer, um dos melhores guitarristas da história do thrash metal, e o experiente novato Randy Black (ex-Annihilator e Primal Fear), que foi um espetáculo à parte. E os caras ainda começam o set com Curse the Gods! Era o prenúncio de uma noite maravilhosamente nostálgica…

“Vocês estão prontos para o thrash metal alemão old school?”, perguntou Schmier antes de Tormentor, e a resposta dos fãs foi do mesmo nível da atuação arrasadora de Black na canção do primeiro ‘full-length’ do Destruction, o clássico Infernal Overkill (1985). E o que aconteceu foi mesmo uma viagem de volta à velha escola germânica, com nada menos que dez das 17 músicas pinçadas dos três primeiros trabalhos do grupo – além de Infernal Overkill, o EP Sentence of Death (1984) e Eternal Devastation (1986). Até fez sentido o fato de as ótimas Armageddonizer, de Day of Reckoning (2011), e Dethroned, de Under Attack (2016), terem tido uma recepção menos calorosa.

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O clima era mesmo o do lançamento de Thrash Anthems II (2017) – como o nome entrega, o segundo álbum com regravações de hinos do estilo forjados pelo próprio Destruction –, então nem vale ficar lamentando a ausência de material de Metal Discharge (2003), Inventor of Evil (2005), D.E.V.O.L.U.T.I.O.N. (2008) e Spiritual Genocide (2012). De jeito nenhum. Não depois de ver uma pista de dimensões modestas receber uma roda como a que os fãs abriram em Mad Butcher. Não depois da roda que começou antes mesmo dos primeiros acordes de Total Desaster, porque bastou Schmier anunciar o nome do rolo compressor.

E, olha só, teve a maravilhosa instrumental Thrash Attack; teve Black Mass fazendo sua estreia no Brasil; teve Eternal Ban com a união entre Brasil e Alemanha, como frisou o baixista e vocalista, e um coro animado dos fãs no antológico refrão; teve Mike e seus riffs mágicos em Release from Agony, faixa-título do homônimo disco lançado em 1987, o terceiro ‘full-length’ do Destruction; e teve Schmier lembrando as passagens anteriores, incluindo o Rock in Rio, antes de Antichrist. E brincando com um fã depois que jogou para ele uma lata de cerveja. “Você deixou cair no chão? Cara, se você faz isso na Alemanha…”, disse ele, fazendo o gesto de cortar o pescoço antes de jogar outra lata. “Foi a menina que conseguiu pegar. Aprenda com ela.”

Mas a noite não foi apenas de clássicos nascidos nos anos 80, porque o Destruction soube se reconstruir no mercado depois que Schmier voltou à banda, em 1999. Tocado no primeiro quarto do show, Nailed to the Cross, de The Antichrist (2001), mostrou mais uma vez ter se tornado um clássico de primeiro escalão: os fãs foram à loucura, e Schmier agradeceu com sinceros “Do caralho!” na boca e sorriso no rosto. De All Hell Breaks Loose (2000), The Butcher Strikes Back, com sua sonoplastia de serra elétrica no início, fechou de maneira espetacular o set antes de um bis que teve de protocolar apenas a certeza de que aconteceria.

Thrash Till Death, mais uma de The Antichrist, iniciou o serviço final antes do único porém para alguns fãs. “Nós sempre gostamos de tocar um punk rock”, disse Schmier antes de Holiday in Cambodia, cover do Dead Kennedys que se justifica no repertório não apenas por ter sido incluída como bônus de Thrash Anthems II, mas por Black, que se divertiu tanto a ponto de tocá-la quase pulando do banquinho – e, diga-se, o excepcional batera deu à canção um groove completamente novo. “Façam mais um mosh pit como aqueles”, pediu Schmier antes da última da noite, Bestial Invasion. E os fãs obedeceram, transformando-se na cereja do bolo de um show absurdo de bom de uma banda que, 36 anos depois, segue dando aula de thrash metal.

Setlist
1. Curse the Gods
2. Armageddonizer
3. Tormentor
4. Nailed to the Cross
5. Mad Butcher
6. Dethroned
7. Life Without Sense
8. Release from Agony
9. Eternal Ban
10. Total Desaster
11. Solo Randy Black
12. Antichrist
13. Black Mass
14. Thrash Attack
15. The Butcher Strikes Back
Bis
16. Thrash Till Death
17. Holiday in Cambodia
18. Bestial Invasion

Cannibal Corpse & Napalm Death

Por Daniel Dutra | Fotos: Daniel Croce

Nem mesmo a chuva que desabou em vários pontos do Rio de Janeiro impediu o Circo Voador de receber um belo público para o início da turnê brasileira de dois pesos-pesados do metal extremo: Cannibal Corpse e Napalm Death, que depois tinham devastações marcadas para mais sete cidades (São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Manaus, Fortaleza e Recife). Tudo bem que era noite de sexta-feira, mas o pé-d’água resolver dar as caras umas duas horas antes de soar a primeira nota – e olha que a Lapa, onde fica o Circo Voador, é um bairro acostumado a deixar pessoas ilhadas em bares, esperando que as ruas alagadas voltem a ficar transitáveis. Mas, enfim, o que não falta é bar para matar o tempo.

Fazendo valer a origem britânica, o Napalm Death começou pontualmente mais uma apresentação que, preciso fazer o registro, serve como argumento para derrubar viúvas desse ou daquele músico que não faz parte da banda. E me refiro a qualquer banda. Sem nenhum integrante da formação original, o quarteto hoje formado por Mark “Barney” Greenway (vocal), Shane Embury (baixo), Danny Herrera (bateria) e John Cooke (guitarra) matou a pau. Tudo bem que os três primeiros são veteranos, mas o último ainda é calouro – Mitch Harris compõe e grava, mas não sai em turnê desde 2014, quando Cooke passou a substituí-lo no palco.

Multinational Corporations, uma das seis faixas extraídas do clássico álbum de estreia, Scum (1987), abriu os serviços para mostrar uma coisa: é preciso tirar o chapéu para Barney, e não necessariamente pela forte garganta. Na verdade, pela presença completamente hipnótica. Dá gosto de vê-lo agitando como uma criança, correndo até meio desengonçadamente pelo palco – de longe, parecendo até mesmo John Cleese na meia-idade num quadro do Monty Python para zoar maratonistas. Aliás, fico imaginando quantos quilômetros o vocalista não correu nos 70 minutos de show…

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E Barney estava tão alucinado que quebrou o microfone já na segunda música, Instinct of Survival, que contou com Cooke para segurar a onda até um roadie deixar tudo em ordem. “Amor e paz, meus amigos”, foram as primeiras palavras dirigidas ao público, bem inseridas nos pequenos discursos ao longo do set. E os destaques foram vários num repertório de 23 músicos, a ponto de valer citá-los um a um. A começar por Practice What You Preach, massacre sonoro que deixou Barney tão elétrico a ponto de ele ficar dando voltinhas no palco antes da canção seguinte.

Depois, a lembrança da participação do saxofonista John Zorn em Everyday Pox, música que a tornou a roda na pista ainda mais absurda, assim como fizeram Silence is Deafening; Call That an Option? e seu discurso contra armas nucleares; e Suffer the Children, com seu alerta para o mal causado pela religião e suas interferências. Não foi a primeira intervenção política, digamos assim – isso aconteceu com a referência ao fascismo em Control, que precedeu os menos de cinco segundos somados de You Suffer e Dead. “Duas canções muito diferentes”, brincou Barney –, mas a melhor ainda estava por vir.

Bradando “espírito de fraternidade e solidariedade”, Barney anunciou Nazi Punks Fuck Off, do Dead Kennedys. Ao fim da cacetada (e de uma belíssima roda), a resposta do público veio com um coro em homenagem àquele deputado federal fascista, racista, machista, misógino e homofóbico que concorre à Presidência da República: “Pau no cu do Bolsonaro”, com o perdão do bom francês. “Não estou entendendo nada. Alguém pode traduzir para mim?”, pediu o vocalista, que soube o que os fãs estavam gritando e assinou em baixo: “Ótima sugestão”. E se estava bom demais, Inside the Torn Apart foi um desfecho digno de um baita show.

O intervalo poderia ter durado mais de uma hora que os ânimos continuariam exaltados, no melhor sentido. E os fãs fizeram com que o Cannibal Corpse acompanhasse a arrebatadora apresentação da atração de abertura. Sim, os fãs, porque, convenhamos, os integrantes da banda nova-iorquina não passam do palco a mesma energia para a plateia. Isso é fato, mas há um ponto que pode ser discutido como subjetivo: o sentimento de já-ouvi-isso-antes-e-neste-mesmo-show que permeou a apresentação de 75 minutos de George “Corpsegrinder” Fisher (vocal), Pat O’Brien e Rob Barrett (guitarras), Alex Webster (baixo) e Paul Mazurkiewicz (bateria).

Mas, ressaltando de outra maneira, os fãs não estavam nem aí para isso. Bastava reparar na roda animal em Only One Will Die, que veio na sequência de Code of the Slashers e abriu caminho para o riff matador da faixa-título do trabalho mais recente, Red Before Black (2017). Três das quatro músicas extraídas do 14º disco de estúdio da banda. As três primeiras do trabalho que, mesmo em ordem trocada, foram tocadas sem sair de cima – e vamos tirar o chapéu, porque o Cannibal Corpse basicamente passou a limpo a sua trajetória, esquecendo apenas os álbuns Gallery of Suicide (1998) e Gore Obsessed (2002).

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E entre as favoritas dos fãs que mais se destacaram, como Evisceration Plague, Kill or Become, Devoured By Vermin e A Skull Full of Maggots, era impossível não se impressionar com a estupidez instrumental de Webster e O’Brien, porque é simplesmente absurdo o que esses dois tocam. E quando Corpsegrinder deixava de lado seu gutural assustador e parava de bater cabeça alucinadamente – ou seja, quando resolvia falar com o público –, mostrava um senso de humor, digamos assim, que não combina com um sujeito daquele tamanho.

“Você tirou da mão dele. Isso é sacanagem”, disse ele antes de The Wretched Spawn, pegando outra garrafa d’água e entregando com segurança na mão do fã que havia sido surrupiado. “Se vocês estão interessados em bater cabeça, esta é a música. Tentem me acompanhar. Vocês não vão conseguir, mas podem tentar assim mesmo”, provocou antes I Cum Blood, responsável pela roda mais matadora de toda a noite. E não, ninguém conseguiu acompanhar Corpsegrinder. Até mesmo as sete pessoas, incluindo duas meninas, que subiram ao palco na canção seguinte, Make Them Suffer, para bater cabeça e foram gentilmente convidadas a voltar para a pista. Gentilmente, mesmo, porque o oitavo fã não teve a mesma sorte, uma vez que o roadie que ficava ao lado da bateria obviamente havia perdido a paciência.

“Esta é a última música da noite, mas se vocês agitarem bastante… Bem, ela continuará sendo a última música da noite”, Corpsegrinder deu uma zoada antes de Call That an Option?. Os fãs agitaram como se fosse, mas obviamente não era. E eles sabiam disso. Estavam todos esperando uma canção específica, como bem anunciou o vocalista: “Vamos tocar mais uma, e vocês sabem qual. Mas vou dizer assim mesmo”. E Hammer Smashed Face fez o Circo Voador estremecer com o coro em alto e bom som dos fãs. Duas bandas e duas horas e 25 minutos de música extrema para uma cidade que merece uma sacudida do mesmo nível.

Setlist Cannibal Corpse
1. Code of the Slashers
2. Only One Will Die
3. Red Before Black
4. Scourge of Iron
5. Evisceration Plague
6. Scavenger Consuming Death
7. The Wretched Spawn
8. Pounded Into Dust
9. Kill or Become
10. Gutted
11. Corpus Delicti
12. Devoured By Vermin
13. A Skull Full of Maggots
14. I Cum Blood
15. Make Them Suffer
16. Stripped, Raped and Strangled
17. Hammer Smashed Face

Setlist Napalm Death
1. Multinational Corporations
2. Instinct of Survival
3. When All is Said and Done
4. Unchallenged Hate
5. Smash a Single Digit
6. The Wolf I Feed
7. Practice What You Preach
8. Standardization
9. Everyday Pox
10. Scum
11. Life?
12. Control
13. You Suffer
14. Dead
15. Narcoleptic
16. Victims of a Bomb Raid
17. Suffer the Children
18. Breed to Breathe
19. Silence is Deafening
19. Call That an Option?
20. How the Years Condemn
21. Nazi Punks Fuck Off
22. Cesspits
23. Inside the Torn Apart

Paradise Lost

Por Daniel Dutra | Fotos: Alex Cavalcanti

Não que tenha se tornado arroz de festa, até porque é louvável o Paradise Lost passar a bater ponto com frequência no Brasil. A turnê para promover o ótimo Medusa (2017), com um show no Rio de Janeiro e dois em São Paulo (na capital e em Limeira), é a quinta passagem da banda inglesa por aqui apenas nos anos 2010 – a quinta das oito desde a primeira vez, naquele Monsters of Rock de 1995. Mais louvável ainda é perceber que os três últimos giros (2015, 2016 e agora) incluíram o Rio de Janeiro, mas se levarmos em consideração que o quinteto passou do Circo Voador para o Imperator e, desta vez, para Teatro Rival, fica a pulga atrás da orelha: uma hora não vai mais valer a pena o esforço hercúleo das produtoras para trazer shows de pequeno e médio porte para cidade.

Se você está se perguntando se o local estava lotado, a resposta é não. Com capacidade para 450 pessoas, a casa recebeu um público até razoável para prestigiar o belo show proporcionado por Nick Holmes (vocal), Greg Mackintosh e Aaron Aedy (guitarras), Stephen Edmondson (baixo) e Waltteri Väyrynen (bateria). E apesar de não ter visto as duas apresentações anteriores em solo carioca – sim, não sabia o que era um show do Paradise Lost desde o dia 6 de setembro de 1995 –, posso imaginar que a graça seria igual mesmo que não houvesse a surpresa gerada pelo hiato pessoal de 23 anos.

E teve graça desde o início, com From the Gallows. Graça porque a música, uma das quatro do álbum mais recente, é pesada e hipnótica. Graça porque foi a primeira deixa para a ‘stand-up comedy’ de Holmes, que ironizou o calor gerado por uma iluminação multicolorida que não combina com a banda – “Parece que estamos tocando numa cozinha” – e o insistente ruído que saía do sistema de som – “Esse ‘feedback’ é legal, mas já pode dar um jeito nele”, disse o vocalista, dirigindo-se a quem estava no comando da mesa de som.

E a graça vinha do típico jeito blasé inglês de Holmes, que se veste tão casualmente quanto aquele sujeito que estava passando por perto, depois do trabalho, e foi chamado para subir ao palco e dar uma palhinha. E foi com essa postura descompromissada, mas extremamente competente – e o cara ainda canta demais! – que ele anunciou “uma canção muito, mas muito antiga”. Era de se esperar, aliás, alguma comoção em Gothic, faixa-título do segundo disco do Paradise Lost, lançado em 1991. No entanto, não foi o que aconteceu.

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O negócio esquentou mesmo com as belezuras chamadas One Second, depois de uma piadinha de Holmes sobre seu cabelo (ou a falta de), e Erased, precedida da tentativa do frontman de se lembrar do último show na cidade – “Minhas memórias não são muito claras, pois estava muito bêbado”. Havia os fãs que sabiam tudo de cor e salteado, mas é impressionante como o lado mais melódico e, por que não?, pop do quinteto incendiaram o público – registre-se: respectivamente, as músicas são de One Second (1997), é claro, e Symbol of Life (2002). Uma recepção do nível da que teve Forever Failure, do clássico Draconian Times (1995).

Requiem, de In Requiem (2007), baixou um pouco a bola na pista, e a igualmente pesada Medusa não ajudou a mudar o cenário. Depois de reclamar novamente do ‘feedback’ – de fato, o som não estava em seus melhores dias: alto demais e embolado a ponto de a bateria ser apenas bumbos, caixa e pratos – e agradecer pelo ótimo dia que a banda passou no Rio de Janeiro, Holmes viu que era preciso mudar: “Vamos tocar algo mais alegre e up-tempo”. An Eternity of Lies, de The Plague Within (2015), fez até o vocalista pedir palmas, no que foi razoavelmente bem atendido, mas serviu para mostrar como Mackintosh é uma usina de força nas seis cordas. Nem tanto pelo riff à la Tony Iommi, mas sim por mais uma amostra das melodias e temas que costuma encaixar com precisão nas bases de Aedy. E que refrão!

Uma zoada ao apresentar do tecladista – “Ele está aqui, mas escondido. Vocês não conseguem vê-lo”, disse Holmes, brincando com o fato de as partes serem pré-gravadas – antecipou a excelente Faith Divides Us – Death Unites Us, que dá nome ao álbum de 2009 e é um dos títulos mais maneiros que você pode encontrar no mundo da música. Jogo ganho para a entrada da nova, rápida e pesada Blood and Chaos. A dobradinha funcionou tão bem que arrancou o nome do grupo da boca dos presentes, num coro que botou um sorriso no rosto de toda a linha de frente do grupo no palco.

“Vamos tocar uma música que parece que não tocamos há mil anos, e ela fala sobre a morte”. E foi o refrão de As I Die, de Shades of God (1992), que ecoou forte entre as quatro paredes do Teatro Rival. “Agora, um pouco de doom metal”. E Beneath Broken Fire (a bênção, Black Sabbath!) fez a ponte para o desfecho com Embers Fire, do clássico Icon (1993). Fim antes do protocolar bis, afinal, não foi apenas porque o público cantou o refrão com a mesma vontade de antes que os cinco voltaram ao palco. Mas ainda bem que voltaram, porque o encore foi um luxo só.

No Hope in Sight provou mais uma vez ser uma das favoritas dos fãs, que fizeram bonito com palmas no refrão. “Quem estava em nosso show em 1995, com Ozzy Osbourne?”, perguntou Holmes. Opa! Eu pude levantar a mão, mas a pergunta serviu de passagem de tempo. “Eu queria que o tempo lá fora mudasse, mas não vai”, completou o vocalista antes de mais uma nova, The Longest Winter, que foi curiosamente mais bem recebida. Nada, porém, que se compare a Say Just Words – ah, aquele lado mais melódico e pop do Paradise Lost… E que refrão de rara felicidade! Encerramento alto nível de um show de uma banda singular mesmo nos momentos considerados deslizes por alguns fãs. E foram 16 canções de dez álbuns de uma discografia de 15 álbuns (pode contar ao longo da resenha) para mostrar que ainda há lenha para queimar, porque nada menos que sete foram dos dois últimos trabalhos. Sorte dos fãs.

Setlist
1. From the Gallows
2. Gothic
3. One Second
4. Erased
5. Forever Failure
6. Requiem
7. Medusa
8. An Eternity of Lies
9. Faith Divides Us – Death Unites Us
10. Blood and Chaos
11. As I Die
12. Beneath Broken Earth
13. Embers Fire
Bis
14. No Hope in Sight
15. The Longest Winter
16. Say Just Words