O KISS e a indústria que esqueceu a música

Por Daniel Dutra | Ilustração: Mario Alberto | Foto: Divulgação

O passado recente do KISS, uma das melhores e mais importantes bandas da história do rock, tem estado preso a boatos, baixaria e pouca música. Não é de assustar que Gene Simmons, em seu site oficial, tenha sido nada diplomático ao responder a um fã que apenas queria saber qual é a real situação da banda. “Eu direi o que eu quiser e quando eu quiser. Ficamos combinados assim”, disse o baixista e vocalista, que atualmente parece estar muito mais interessado em divulgar a sua revista, Gene Simmons’ Tongue, na linha entretenimento e mulheres, muitas mulheres (semi)nuas.

Não é a primeira vez que o KISS é colocado de lado por Simmons. Nos anos 80, o músico foi seduzido por Hollywood e entrou como pôde na indústria cinematográfica, atuando em cinco filmes – com maior repercussão para “Runaway – Fora de Controle”, com Tom “Magnum” Selleck, e “O Exterminador Implacável”, com Rutger Hauer. Mas até aí a banda ainda funcionava, tendo à frente Paul Stanley, responsável pelos outros 50% do KISS. Enfim, o grupo lançava discos com material inédito e não dispensava turnês.


Hoje a história é bem diferente. O lançamento de mais uma coletânea, oficialmente a sexta na carreira do grupo, é o indício de que os fãs devem sentar, porque ficar em pé irá cansar bastante. Nas lojas desde o fim de agosto, The Very Best of KISS traz 21 músicas, incluindo os hits e clássicos de sempre: Deuce, Rock and Roll All Nite, Detroit Rock City, Beth, I Was Made for Lovin’ You, I Love it Loud e Forever, entre outros. Claro, nenhuma música composta e gravada especialmente para o disco, como em Smashes, Thrashes & Hits (1988) ou Killers (1982), este à época não lançado apenas nos EUA, onde o grupo havia terminado de se afundar com o fracasso comercial do excelente (Music From) The Elder.

A partir de 1996, quando foi anunciado o retorno da formação original, a banda viveu um óbvio período de fertilidade, e os fãs viram um antigo sonho ser realizado. Ace Frehley (guitarra) e Peter Criss (bateria) estavam de volta para o que deveria ter sido apenas a Reunion Tour. O primeiro show – no dia 28 de junho, no Tiger Stadium, em Detroit – foi um sucesso retumbante, com os 45 mil ingressos sendo vendidos em apenas 15 minutos. Não à toa, depois de 17 anos sem tocarem juntos, Ace, Gene, Paul e Peter foram responsáveis pela turnê mundial mais bem-sucedida no período 96/97.

Inocência pensar que a banda não aproveitaria o momento para retomar a KISSmania, febre que nos anos 70 culminou com uma quantidade assustadora de badulaques à venda. Apesar disso, da volta dos bonecos – desenhados desta vez por Todd McFarlane, criador de Spawn e que fez nome com o Homem-Aranha – às lancheiras, passando por camisinhas e kits de maquiagem, nada pior que a profusão de coletâneas caça-níqueis. A primeira foi You Wanted the Best, You Got the Best!!, um resumo dos dois primeiros discos ao vivo da banda mais as até então inéditas Room Service, Two Timer, Let Me Know e Take Me, que mais parecem as versões de estúdio com o som do público ao fundo.

Com Greatest KISS a ambição foi em dobro. Duas versões do mesmo CD com pequenas diferenças na escolha das músicas: uma visando ao mercado americano, e a outra, à Europa. Os europeus, aliás, ganharam uma coletânea exclusiva, Greatest Hits, que contém músicas não apenas da formação original. Se o mundo já estava tomado, o que fazer depois? Claro, os quatro voltaram ao estúdio para gravar o primeiro disco desde 1980, quando foi lançado Unmasked – este, para quem ainda não sabe, só tem Peter Criss na capa e nos créditos. Suas partes foram feitas por Anton Fig, amigo de Frehley e hoje na banda do talk show de David Letterman, e não há uma música sequer composta ou cantada pelo baterista.

O erro foi perpetuado em Psycho Circus, bom disco lançado em 1998 e rodeado de mistérios. Todas as vozes estão lá, só que uma vez mais os boatos que chegaram à imprensa em todo mundo davam conta que os quatro pouco tocaram no disco. Frehley teria gravado apenas os solos de guitarra, com as outras partes ficando por conta de Bruce Kulick, que ocupou o posto de 1984 a 1996 e teria também assumido o baixo nas gravações. Nas seis e quatro cordas a dúvida poderá nunca ser esclarecida, mas em relação à bateria…

Kevin Valentine, músico de estúdio que teve uma breve passagem pelo Cinderella no início dos anos 90, teria comandado as baquetas em 90% de Psycho Circus. Independentemente de ter sido ele ou não, ouvidos mais atentos podem atestar que Into the Void é mesmo a única música com Criss, conhecido por ser um baterista pouco privilegiado criativa e tecnicamente. Assim, o que se ouve nas outras nove faixas do disco, sejamos sinceros, não pode mesmo ter sido tocado por ele. Ah, sim, para completar, Within’ seria sobra de estúdio do ótimo Carnival of Souls, último trabalho com Kulick e o exímio batera Eric Singer. O álbum, que seria engavetado por causa da “nova” fase do KISS, foi lançado às pressas para combater os milhares de piratas cada vez mais fáceis de achar.


Tanta especulação seria suficiente para que tudo desse errado, mas não com o KISS. Psycho Circus atingiu rapidamente a marca de 500 mil cópias vendidas, e o grupo partiu para uma nova turnê, que passou pelo Brasil em abril de 1999. No Autódromo de Interlagos, em São Paulo, mais de 60 mil pessoas assistiram a um show único, assim como os fãs em Porto Alegre. Até mesmo o fato de Frehley ter subido bêbado ao palco não importou muito, mas tudo poderia ter sido bem melhor. Já era o início do fim. Do segundo fim, claro, pois tudo pode acontecer quando falamos de algo que tenha $immons envolvido.

Não demorou para a banda anunciar a Farewell Tour, que começou mas não terminou. Por divergências financeiras, Criss saiu da banda. Singer retornou pintando o cabelo de preto e assumindo trajes e maquiagem de gato. Se por um lado o KISS ganhava em qualidade, os problemas estavam longe de acabar. Novamente consumido pelo álcool, responsável por muitos de seus problemas passados, inclusive o acidente de carro que o fez ser submetido a algumas cirurgias plásticas no rosto, Ace foi demitido. A saída do guitarrista deixou o futuro do KISS ainda mais nublado, com as baixarias sendo o que de mais concreto o grupo tem oferecido.

Em 27 de abril deste ano, dia de seu aniversário, Frehley chegou bêbado a um evento onde distribuiria autógrafos e daria uma coletiva. Não bastasse isso, exigiu mais dinheiro para continuar e foi responsável por uma situação constrangedora. Depois de descrever Simmons como um “mercenário arrogante que só pensa em dinheiro”, o guitarrista recebeu um bolo das mãos do próprio. Acompanhado por Singer, o baixista não disse uma única palavra e se retirou do local ainda a tempo de ouvir o guitarrista indagar “não é maravilhoso o que as pessoas fazem por dinheiro?”.

Apesar da atitude nada elogiável, Frehley não está longe de ter razão. O maior exemplo é o KISS Kasket, caixão personalizado que custa nada menos que US$ 4,700 e pode ser usado como geladeira antes de servir ao verdadeiro propósito. Tem gosto para tudo, tanto que logo depois, no fim de 2001, o grupo lançou também um box com cinco CDs simplesmente intitulado KISS. Em versões simples e de luxo, esta no formato de case de guitarra, a caixa é espetacular, porém sintomática. O livro de 120 páginas é rico em informações e belas fotos, e algumas raridades são bastante interessantes, como gravações do Wicked Lester, o grupo pré-KISS. No entanto, é mais uma prova de que a banda está vivendo do passado. De contrato rescindido com a Mercury Records, um dos braços da Universal Music, mesmo o aguardado e certamente vendável Alive IV, gravado e anunciado há quase dois anos, está na geladeira por tempo indeterminado.

Melhor político que sua cara-metade no KISS, Paul Stanley ainda dá algum sopro de esperança. Muito se fala num novo disco, que estaria sendo gravado com Eric Singer e o guitarrista Tommy Thayer, do finado Black n’ Blue (banda da safra hard rock do heavy metal americano da década de 80) e que atualmente trabalha nos bastidores do próprio KISS, como um de seus muitos produtores executivos. Stanley não desmente nem confirma, mas diz que uma nova turnê para o próximo ano é possível, mas que gostaria que fosse com a última formação, ou seja, com Singer e Frehley. Seja lá quem estiver ao lado de Simmons e Stanley no palco, uma coisa é certa: em 2003 o KISS completa 30 anos, portanto, prepare o bolso. Ou a indignação.

Matéria publicada na edição 87 do International Magazine, em setembro de 2002.

Mr. Big – In Japan / Farewell Live in Japan

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Depois de 14 anos de bons serviços prestados à música e 15 discos lançados – três deles exclusivamente no Japão –, o Mr. Big acabou. Ao lado do Badlands de Jake E. Lee (ex- Ozzy Osbourne) e do Blue Murder de John Sykes (ex-Whitesnake), a banda formada por Billy Sheehan (baixo), Paul Gilbert (guitarra), Pat Torpey (bateria) e Eric Martin (vocal) surgiu no fim dos anos 80 com merecido status de supergrupo. E foi mais longe do que os outros dois, que não duraram mais que três álbuns (no caso do Badlands, uma pena).

Ironicamente, ao mesmo tempo em que conhecia o sucesso comercial, o Mr. Big acabou subestimado por suas baladas, principalmente depois do estrondoso sucesso mundial de To Be With You (1991). Uma coisa levou à outra, e muita gente não fez questão de conhecer o lado hard rock do grupo. Mas se isso não aconteceu antes, provavelmente não será agora. Depois de um período de três anos de férias, iniciadas em 1996, a banda retornou com Richie Kotzen no lugar de Gilbert, lançou dois trabalhos de estúdio – incluindo um dos melhores de toda a carreira, Get Over it – e sucumbiu por causa dos problemas internos.

Depois do excelente Actual Size, de 2001, o relacionamento entre Martin e Sheehan chegou ao limite. O baixista foi despedido depois de criticar publicamente o direcionamento mais pop do trabalho, e o Mr. Big perdeu o rumo dos negócios. As turnês japonesa e asiática foram canceladas pelos promotores, que exigiam a presença de Sheehan, não à toa um dos melhores – senão o melhor – baixista de rock das últimas duas décadas. Para honrar os compromissos, o acordo foi simples: os quatro voltariam aos palcos, mas pela última vez – uma imposição de Sheehan, diga-se de passagem.


Dito e feito. Como resultado, o lançamento do CD In Japan e do DVD Farewell Live in Japan, capturando o derradeiro show do Mr. Big, no dia 5 de fevereiro de 2002, no Tokyo International Forum. O resultado, como todo registro ao vivo do grupo, tem produção cristalina e performance impecável. O DVD, claro, tem seus extras: solos de Sheehan e Kotzen, entrevistas individuais com cada integrante e três músicas a mais que o disquinho de áudio – Where Are They Now?, Take a Walk e Mr. Big (canção do Free que deu nome à banda). Pena que seis músicas do set list não estejam presentes em nenhum formato. São elas Wild World (Cat Stevens), 30 Days in the Hole (Humble Pie), Green-Tinted Sixties Mind, My New Religion, Colorado Bulldog e Take Cover (as duas últimas certamente entre as melhores do grupo).

Mesmo assim, há um bom apanhado da carreira da banda, obviamente incluindo To Be With You. Representando a primeira fase, músicas arrasa-quarteirão como Addicted to That Rush e Daddy,Brother, Lover, Little Boy se juntam às empolgantes Alive and Kickin’, Blame it on My Youth e Price You Gotta Pay. A segunda era tem sua indefectível balada, Superfantastic, mas Lost in America, Dancin’ With My Devils, Electrified e Suffocation mostram todo o poder de fogo do Mr. Big.

E Suffocation, aliás, é a prova de que Sheehan, Torpey e Kotzen poderiam formar um power trio espetacular. Os dois primeiros são uma cozinha perfeita, com o batera dando aula num kit básico, assim como Ian Paice (Deep Purple) fazia nos anos 70. Já Kotzen prova mais uma vez ser um dos melhores guitarristas da atualidade. Além de extraordinário em seu instrumento – passeando pelo rock, funk, soul e jazz com extrema facilidade –, é um ótimo vocalista, obscurecendo Eric Martin na própria Suffocation e nas excelentes Static e Shine. Nada que faça Martin deixar de ser um dos melhores do estilo, de timbre único e agradável. Se o CD e o DVD são mais dois motivos para lamentar o fim do Mr. Big, serve de consolo que a banda tenha se despedido em grande estilo.

Resenha publicada na edição 87 do International Magazine, em setembro de 2002.

Nightwish

Por Daniel Dutra | Fotos: Mario Alberto

Noite de domingo, fim de mês e o ATL Hall abria suas portas para o Nightwish, banda finlandesa da nova geração do heavy metal. Ingredientes mais do que suficientes para um fracasso de público. Ledo engano. Sem querer descobrir de onde os pais tiraram dinheiro para bancar os ingressos da grande quantidade de adolescentes, 4.500 pessoas compareceram à principal casa de espetáculos do Rio de Janeiro, que, diga-se de passagem, reduziu sua capacidade para sete mil.

Como explicar? Simples. Uma semana antes, 2.500 fãs pagaram para assistir ao show do Angra no “longínquo” Campo Grande, bairro da Zona Oeste da cidade. Um mês depois, um Canecão lotado para o Blind Guardian, banda alemã que já fizera uma turnê bem-sucedida no Brasil anos atrás. Há gosto para tudo, e a história se repete no restante do país.

Antes de o Nightwish subir ao palco, o público teve a oportunidade de conhecer mais um representante do metal nacional, o Glory Opera, oriundo de Manaus. Músicos competentes e música sem inspiração e identidade própria. Não bastasse o vocalista Humberto Sobrinho dar as boas-vindas e se despedir com um daqueles agudinhos em busca do nota mais alta possível, o grupo ainda tem muito o que amadurecer, deixando de soar como um pastiche das bandas do metal melódico contemporâneo. Méritos apenas por fugir do lugar-comum dos covers, escolhendo um do Angra e outro do Symphony X, enquanto todos esperavam Helloween ou Iron Maiden.

E vamos ao Nightwish, ou melhor, à vocalista Tarja Turunen, pois o show foi dela. Da primeira, Bless the Child, à última música do bis, Wishmaster, não houve nada que pudesse ofuscá-la. Simpática, comandando o público com o gesto mais simples, Tarja ainda se sobressai por ser uma vocalista excepcional. Melhor ainda que, assim como fez no último álbum da banda, o bom Century Child, seus vocais líricos tenham dado lugar a interpretações mais diretas.

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Com a banda sendo absolutamente dependente de Tarja, que os fãs torçam para que sejam mesmo apenas boatos as histórias de que ela sairá do Nightwish ao fim da turnê. É por causa da vocalista que músicas como Come Cover Me, Dead to the World, a ótima Slaying the Dreamer (a melhor de Century Child), Over the Hill and Far Away (cover de Gary Moore) e a bela Sleeping Sun ficam bem interessantes ao vivo. A bem da verdade, o grupo ganhou muito com a entrada do baixista Marco Hietala (ex-Synergy), que tem boa presença de palco e deu vida às partes vocais masculinas, e o restante ainda fica atrás da dupla.

Nem mesmo Crazy Train, música de Ozzy Osbourne que costuma levantar até defunto, funcionou bem. Apesar do esforço de Hietala nos vocais, não deu para se entusiasmar com o guitarrista Emppu Vuorinem. Sem falar em Jukka Nevalainen, baterista que sofre de uma irritante falta de criatividade, e de Tuomas Holopainen, tecladista e principal compositor. Ao descobrir a fórmula sinfônico + lírico, Holopainen passou a aproveitar o momento: ganha algum dinheiro e nem se preocupa em mostrar que sabe tocar. Passa o show inteiro balançando os cabelos, usando sequenciadores e, pasmem!, samplers nas partes em que há os (raros) solos.

Apesar do show apenas correto e que não chegou a empolgar – para os fãs, claro, um pouco mais que isso –, a apresentação do Nightwish provou mesmo que o heavy metal tem um sem número de vidas. Sendo óbvio, caso não tenha sido bem explicado parágrafos acima, o rock pesado não morre enquanto houver adolescentes no mundo. Assim sendo, preconceitos injustificados à parte, difícil encontrar um estilo em que o público não apenas cresça com regularidade, mas se renove com tanta facilidade.

Resenha publicada na edição 87 do International Magazine, em setembro de 2002.