Queensrÿche – Tribe

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação e Queensrÿche Online Campaign (2003)

Não é de hoje que o Queensrÿche carrega a frase “previsivelmente imprevisível”. Independentemente da repercussão de um álbum, o trabalho seguinte nunca seguia a mesma fórmula. Foi assim que a banda conquistou o respeito de críticos e a admiração dos fãs, mas foi assim também que sua imagem ficou arranhada. A saída do guitarrista Chris DeGarmo, no início de 1998, fez com que o quinteto lançasse no ano seguinte seu disco mais aguardado, Q2k (1999). Pela curiosidade. Com Kelly Gray nas seis cordas, o resultado não foi muito diferente de Hear in the Now Frontier (1997), que tinha uma sonoridade mais simples em vez da sofisticação habitual. Ou seja, muitos fãs e boa parte da imprensa especializada continuaram insatisfeitos.

A história, no entanto, deve começar a mudar com Tribe, nono álbum de estúdio e o melhor desde Promised Land (1994). “Nós precisamos descobrir novamente como fazer um disco do Queensrÿche. Tivemos alguns momentos difíceis, problemas de comunicação que são naturais depois de 20 anos juntos”, diz Geoff Tate no press release. A mensagem do vocalista é simples: o clima interno não era bom. Gray havia sido demitido, e o relacionamento de Tate com os outros integrantes – Scott Rockenfield (bateria), Michael Wilton (guitarra) e Eddie Jackson (baixo) – não era mais o mesmo. A volta de DeGarmo era o pedaço do quebra-cabeça que estava faltando: principal compositor durante os 15 anos em que esteve na banda – principalmente depois de Empire (1990), para o qual Wilton já havia escrito menos –, no novo álbum ele escreveu três músicas (Falling Behind, The Art of Life e Doin’ Fine) e participou de outras duas (Open e Desert Dance).

Sim, a formação original compôs e gravou um disco para fazer as pazes com os mais turrões. Obviamente, o Queensrÿche não fez um novo Empire (1990) ou a segunda parte de Operation: Mindcrime (1988), mas Tribe só não é um disco para levantar e aplaudir por causa de Losing Myself, composta por Tate e o guitarrista Mike Stone, que está excursionando com o grupo – DeGarmo desistiu na última hora de cair na estrada para a turnê europeia e a bem-sucedida excursão com Fates Warning e Dream Theater nos EUA. As outras nove músicas são no mínimo suficientes para estampar no rosto um sorriso de felicidade.

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Press release
Press release
Foto de divulgação sem Chris DeGarmo (a imagem foi manipulada para apagar o guitarrista)
Anúncio oficial de Tribe
Contracapa de Open, primeiro single
Contracapa de Losing Myself, segundo single
Arte conceitual descartada
Arte conceitual descartada
Arte conceitual descartada
Arte conceitual descartada
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Arte conceitual descartada
Arte conceitual descartada
Arte conceitual descartada
Wallpaper de divulgação
Wallpaper de divulgação
Wallpaper de divulgação
Wallpaper de divulgação
Wallpaper de divulgação
Wallpaper de divulgação
Wallpaper de divulgação
Pôster da turnê, mas com foto de 2001 (com Kelly Gray, cortado da imagem)

Open abre o disco (sem trocadilho, por favor) com riffs e refrão ótimos e uma aula vocal de Tate. A má impressão causada por Losing Myself vai por água abaixo com Desert Dance, uma das melhores do CD, com uma discreta e eficiente melodia árabe nas guitarras e um ótimo groove, cortesia dos mestres Rockenfield e Wilton. As excelentes Falling Behind e The Great Divide se dividem em momentos acústicos e arranjos muito bem cuidados, enquanto Rhythm of Hope é um momento de extremo bom gosto, espetacular com seu belíssimo arranjo de orquestra.

A ótima faixa-título traz o conceito lírico idealizado por Tate, que passou a questionar o mundo depois dos atentados de 11 de setembro, mas sem esbarrar no americanismo piegas. “Vejo os Estados Unidos se tornarem uma nação de ovelhas lideradas por uma mídia em forma de pastor. Culturalmente, estamos fechados dentro de uma caixa. Não temos ideia do que nos dizem para fazer, do que pensar, comprar, vestir, amar ou odiar. Tudo em nossas vidas está sujeito à manipulação, e o medo é a ferramenta mais poderosa que vem sendo usada”, afirma o vocalista, que nasceu na Alemanha e se mudou para os EUA aos três anos. “A maneira como o país respondeu ao que acontece ao redor do mundo me deixou frustrado. Talvez a evolução esteja além de nossa compreensão. Através de conflitos podemos adquirir experiência, mas também perder nossa autoestima e o que nos faz sentir bem. São aspectos da vida e da cultura que influenciaram as canções em Tribe.”

À exceção de Losing Myself e Desert Dance, todas as músicas versam sobre o assunto – “So are we standing at the great divide? Is there hope for America?”, canta Tate em The Great Divide – e apontam outro aspecto positivo de Tribe, já que as letras inteligentes deram lugar a temas vazios e decepcionantes em Q2k. Musicalmente, o disco encerra com uma trinca de respeito: Blood tem um trabalho impecável de Rockenfield; The Art of Life possui todo o clima de Promised Land, incluindo até mesmo um solo de sax; e a excelente Doin’ Fine nos brinda com uma melodia cativante e mensagem positiva – “We could all use a little sunshine, take the day off and smile (…) We’re looking at life from a different side, and I know that we’ll all be fine”. Mais do que um grande disco, Tribe é a prova de que o Queensrÿche ainda tem muito a oferecer.

Resenha publicada na edição 96 do International Magazine, em setembro de 2003.

Circle II Circle

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

O heavy metal está cheio de exemplos de vocalistas que tiveram a ingrata tarefa de substituir alguém “insubstituível”. Alguns deram certo, como Bruce Dickinson ocupando a vaga de Paul Di’Anno no Iron Maiden. Ou Tim “Ripper” Owens assumindo o posto de Rob Halford no Judas Priest – apesar de a grana ter falado mais alto, assim Halford voltou recentemente à banda. Alguns casos foram um verdadeiro fiasco, como o próprio Iron Maiden escolhendo Blaze Bayley para o lugar de Dickinson, e outros ainda são motivo para discussão, como Michael Kiske cedendo o microfone a Andi Deris no Helloween.

Então, imagine você uma banda que perde seu vocalista, mentor e principal compositor. Agora pense num novato (e desconhecido) assumindo a responsabilidade de ser a nova voz do grupo. Este é o resumo da saída de Jon Oliva e da entrada de Zachary Stevens no Savatage, em 1992, com um resultado inimaginável à época: Stevens não apenas foi plenamente aceito, mas tornou-se o favorito de muitos fãs.

Depois de oito anos e cinco discos – Edge of Thorns (1993), Handful of Rain (1994), Japan ‘Live 94 (1995), Dead Winter Dead (1995) e a obra-prima The Wake of Magellan (1997) –, Stevens anunciou que estava deixando o Savatage para se dedicar à família. Jon Oliva, que retornara à banda em 1994, assumindo os teclados, gravou todos os vocais de Poets and Madmen, lançado em 2001, e logo depois Damond Jiniya foi confirmado como novo vocalista. Apesar de ser um bom trabalho, o álbum carregou o estigma de “seria melhor com Zak”, sem contar que o jovem Jiniya ainda sofre com as inevitáveis comparações.

Depois de três anos afastado do cenário, Stevens reapareceu com uma nova banda, Circle II Circle, e seu excelente álbum de estreia, Watching in Silence. Tanto tempo sem notícias fez com que várias dúvidas ficassem no ar, e o vocalista confirma a única coisa que sabemos. “Afastei-me do Savatage no início de 2000, mas levou mais tempo do que eu esperava para cuidar de alguns negócios e assuntos pessoais, aos quais não pude dar atenção durante meus oito anos excursionando e gravando com a banda”, contou Stevens, em entrevista realizada no fim de julho. “O tempo passou, a banda encontrou outro vocalista, e eu comecei a pensar no Circle II Circle e a escrever músicas para o nosso primeiro disco.”

Apesar da aparente simplicidade, a decisão de largar tudo foi “bastante difícil, definitivamente”, mas nunca em caráter definitivo. “A necessidade de preencher minhas aspirações musicais nunca me abandonou. É algo que provavelmente nunca acontecerá. Eu passei os dois últimos anos dando vida ao Circle II Circle e trabalhando no Watching in Silence”, afirma Stevens, ressaltando que a experiência o fez crescer como músico, compositor e produtor. O sentimento é traduzido na hora de explicar o significado do nome da banda, mostrando que passado e presente caminham juntos. “Saí de um circulo de família e amigos para outro círculo de novos amigos para formar um novo grupo. Entretanto, ainda estamos conectados ao antigo círculo, já que compus com Jon e Chris Caffery (N.R.: guitarrista do Savatage). Agora nós aumentamos a família musical de onde vim, mantivemos uma tradição de sermos uma mesma classe.”


Zak escreveu todas as letras de Watching in Silence, função que no Savatage cabe ao produtor (e sétimo integrante) Paul O’Neill, enquanto Jon e Chris compuseram a maioria das músicas e riffs. O trabalho foi fechado com a participação do guitarrista Matt LaPorte, que chegou a fazer algumas audições para o álbum Dead Winter Dead, mas perdeu o posto para Al Pitrelli. “Para o Circle II Circle, pensei imediatamente no Matt. Ele se juntou a nós e escreveu três canções (N.R.: entraram duas no CD: Into the Wind e Lies), e depois eu e Jon produzimos o disco com a ajuda do Jim Morris, do Morrisound Studios.”

Outro integrante com background semelhante é o tecladista John Zahner, que tocou com o Savatage na turnê de Streets, em 1991 e 1992. “Na verdade, John, Kevin e Chris são bons amigos do Matt há muitos anos e também tocaram em muitas bandas na região da Flórida”, disse Stevens, referindo-se ao baixista ao Kevin Rothney e ao baterista Chris Kinder. “Assisti a vários shows com eles e fiquei impressionado. Assim, os chamei para a banda.” E o vocalista ainda aproveita para apresentar o guitarrista Shane French, o novato da turma. “Ele é um ótimo cara, e os fãs gostaram muito dele.”

O constante envolvimento com o Savatage acabou resultando num álbum bem próximo à sonoridade de sua ex-banda. As comparações, no entanto, não deixam o vocalista incomodado. “Percebi que havia similaridade no momento em que comecei a compor, principalmente porque fiquei oito anos na banda e ela foi uma tremenda influência musical para mim.” Mas Stevens concorda que músicas como Out of Reach, Sea of White e Into the Wind têm uma identidade própria. “Sim, definitivamente. Eu queria que pelo menos 50% do disco tivessem um som definido pelo Circle II Circle, ditados pelos integrantes da banda. Curti compor no tradicional estilo do Savatage, mas realmente quis definir nosso caminho para o futuro.”

Um dos grandes momentos de Watching in Silence é F.O.S. (N.R.: que significa Fields of Sorrow), canção com os vocais em contraponto – como em Bohemian Rhapsody, do Queen –, recurso adotado com propriedade pelo Savatage desde Handful of Rain, com a clássica Chance. “Tocamos F.O.S. todas as noites, e realmente gosto de cantá-la”, diz o vocalista, que adianta as músicas do Savatage que fazem parte do show. “Edge of Thorns, Turns to Me, Tauting Cobras, Lights Out e Follow Me, entre outras. Eu apenas escolho minhas favoritas e as coloco no repertório, e é ótimo poder tocar essas canções junto com material novo e próprio.”

O entusiasmo continua quando Stevens fala do início da carreira, assunto não muito conhecido pelos fãs, principalmente os brasileiros. “Decidi que queria ser o frontman de uma banda de rock’n’roll quando assisti ao Iron Maiden pela primeira vez, durante a turnê do Piece of Mind, em 1983, quando ainda era adolescente. Pensei que o trabalho do Bruce Dickinson parecia realmente divertido (risos). Além dele, minhas influências são Ronnie James Dio e Geoff Tate (Queensrÿche).” A entrada no Savatage, claro, está guardada na memória. “Conheci Criss Oliva (N.R.: guitarrista e irmão de Jon que morreu num acidente de carro causado por um motorista bêbado, em outubro de 1993) e o restante da banda quando morava em Los Angeles, antes mesmo de formar o Wicked Witch (N.R.: primeiro grupo do vocalista). Minhas demos foram o motivo por que entrei no Savatage em 1992.”


O bate-papo vai chegando ao fim, e uma pergunta é inevitável. Muitos fãs sonharam com sua volta ao Savatage logo depois que Al Pitrelli retornou (N.R.: em 2002, com o fim do Megadeth). Em algum momento imaginou que era tão querido e respeitado? “Obrigado um milhão de vezes (risos). Devo dizer que não imaginava que minha saída causaria um impacto tão grande nos fãs. Senti-me mal por isso, mas eu realmente precisava cuidar de algumas coisas. Esse tipo de situação me fez querer fazer o melhor em minha nova banda. Queria mostrar a todos como sou grato por tanto apoio, exatamente o opoio que tornou o Circle II Circle possível”.

Watching in Silence chegou às lojas brasileiras no início de agosto e vem recebendo rasgados elogios. É uma boa razão para voltar ao Brasil, agora com o Circle II Circle? “Eu simplesmente não posso esperar por isso! Acredito que os fãs irão gostar bastante do grupo ao vivo. Tive no Brasil alguns dos meus melhores momentos em turnê com o Savatage. Para falar a verdade, nós já estamos trabalhando numa turnê aí enquanto falo com você. Mal podemos esperar para reencontrar todos os nossos amigos em seu país”, antecipa o vocalista, fazendo questão de agradecer o apoio. “Quero dizer um grande obrigado aos nossos fãs brasileiros. Estamos entusiasmados com a possibilidade de tocar no seu país o mais breve possível. Até lá, tudo de bom a todos vocês!”

Entrevista publicada na edição 96 do International Magazine, em setembro de 2003.

Iron Maiden – Visions of the Beast

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

O novo álbum do Iron Maiden, Dance of Death, chega às lojas no dia 9 de setembro, mas os fãs ganharam um belo aperitivo enquanto aguardam o segundo trabalho da banda inglesa em forma de sexteto – Bruce Dickinson (vocal), Steve Harris (baixo), Nicko McBrain (bateria) e os guitarristas Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers. O DVD duplo Visions of the Beast passa a limpo todos os clipes gravados pela Donzela, a discografia e os inevitáveis extras (lá fora saiu também em VHS, apenas com os 31 vídeos promocionais). Tudo dentro de uma embalagem de dar gosto de tão bonita e bem elaborada, incluindo um ótimo menu interativo (destacando sempre o mascote Eddie).

O primeiro disco é quase perfeito, musicalmente falando. Women in Uniform, do single homônimo, mostra o Iron Maiden ainda com Dennis Stratton, guitarrista presente no primeiro e autointitulado disco do grupo, lançado em 1980, e que mais tarde seria substituído por Smith. Infelizmente, a fase Paul Di’Anno só é representada por mais um clipe, Wrathchild, tirado do vídeo Live at the Rainbow (1981), único registro oficial da turnê da obra-prima Killers, do mesmo ano. Uma pena, pois do mesmo show poderia ter sido aproveitada a versão de Remember Tomorrow. Na verdade, bem que Live at the Rainbow poderia sair em DVD.


A banda passaria a gravar mais clipes depois da entrada de Dickinson, em 1982. Absolutamente toscos e divertidos nos primeiros anos, diga-se. A estreia de Air Raid Siren – nome dado às sirenes antiaéreas e que virou o apelido do vocalista em seus anos no Samson – foi de gala, com o fabuloso The Number of the Beast. Dele saíram a faixa-título e o hilário Run to the Hills. Lançado em 1983, Piece of Mind marcou a estréia de McBrain, em substituição a Clive Burr, e os dois clipes recaíram justamente sobre as duas melhores músicas: Flight of Icarus e The Trooper.

Para muitos o disco definitivo do Iron Maiden, Powerslave (1984) cedeu Aces High e 2 Minutes to Midnight (cujo riff de guitarra é uma releitura de Burn, do Deep Purple). O disco continuaria sendo excepcional se lançado hoje, mas poderia ter mais um ponto a favor: um videoclipe bem feito e produzido para o épico Rime of the Ancient Mariner. Wasted Years (com cenas da banda tocando no estúdio, intercaladas com várias imagens de sua história) e Stranger in a Strange Land (pegando todo mundo no palco), de Somewhere in Time (1987), são dois dos melhores trabalhos de toda a videografia do grupo, enquanto o conceitual Seventh Son of a Seventh Son só peca por Can I Play With Madness (a música, não o clipe, que é muito legal).


The Evil That Men Do e Infinite Dreams, retirados do home video Made in England (1989), e The Clairvoyant, ao vivo no Donington ’88, encerram o período criativamente fértil e diferenciado do Iron Maiden. Daí para frente, bons e maus momentos, mas nada genial como o passado. Fechando o primeiro DVD, Holy Smoke e a intragável Tailgunner são exemplos de como No Prayer for the Dying (1990) é um disco fraquinho, fraquinho – o primeiro com Gers no lugar de Smith. O mesmo álbum abre o segundo disco, com Bring Your Daughter… To the Slaughter, originalmente gravada pela banda solo de Dickinson para a trilha sonora de um dos filmes da série “A Hora do Pesadelo”.

Um pouco melhor, Fear of the Dark (1992) tem os clipes da ótima Be Quick or Be Dead, From Here to Eternity (quase autoplágio de Holy Smoke), Wasting Love (aquela que é ou não é plágio descarado da balada Die For Love, composta por Marc Ferr nos anos 80?), Afraid to Shoot Strangers e a versão ao vivo da faixa-título no Donington ’92 (do mesmo show ainda temos Hallowed Be Thy Name). A fase da banda com Blaze Bayley tem seis vídeos para algumas músicas bem chatinhas – Virus e The Angel and the Gambler – e outras nem tanto – Man on the Edge, Lord of the Flies e Futureal.


Apesar de The X Factor (1995) e Virtual XI (1998), os dois álbuns controversos da banda, e Bayley, um vocalista que não encaixou bem, Visions of the Beast é indispensável. Afinal, se é para contar a história, o retorno de Dickinson e Smith à banda fecha muito bem o DVD. Brave New World não é nenhuma obra-prima, realmente, mas é o melhor álbum da Donzela em 13 anos. The Wicker Man e Out of the Silent Planet são a prova, sem contar a música que dá nome ao trabalho, tirada do DVD Rock in Rio (2002), que teve uma edição de imagens tão ágil, mas tão ágil, que fica difícil acompanhar o show.

Agora que você já sabe o que Visions of the Beast tem a oferecer – isso se já não correu à loja mais próxima para comprá-lo –, fique de olhos nos ótimos extras. A “versão futebol” de Futureal, com cenas da seleção Iron Maiden em amistosos (leia-se “peladas”) ao redor do mundo, liderada pelo camisa 11 Steve Harris (que coincidência…); Fear of the Dark ao vivo no Rock in Rio (com a sacanagem de Harris na mixagem, colocando a voz de Dickinson quando só deveria ter o público cantando); e Aces High, The Number of the Beast, The Wicker Man, Flight of Icarus e Run to the Hills na versão Camp Chaos, ou seja, os clipes com desenhos animados da banda referentes ao tema das músicas. São simplesmente impagáveis!


Resenha publicada na edição 96 do International Magazine, em setembro de 2003.

Glenn Hughes – Songs in the Key of Rock

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Incansável e incrivelmente talentoso. Atualmente não há outra maneira de definir o baixista e vocalista Glenn Hughes, que solta mais um ótimo disco solo, Songs in the Key of Rock, em meio a uma série de trabalhos paralelos – com destaque para o Hughes Turner Project, projeto com o vocalista Joe Lynn Turner que chega ao segundo álbum de estúdio, HTP2. A quantidade de atividades fez com que Hughes interrompesse a sequência de um CD de inéditas por ano, iniciada com The Way it is (1999). Em 2002, ano em que lançou dois discos com Turner, HTP e o ao vivo Live in Tokyo, os fãs tiveram de se contentar com a coletânea dupla Different Stages. Como se fosse pouco…

Em Songs in the Key of Rock, clara homenagem a Stevie Wonder, um de seus maiores ídolos, Hughes mantém a fórmula do não menos ótimo Building the Machine (2001), mas mergulha um pouco mais fundo nas raízes do rock da década de 70. A primeira constatação está no ótimo trabalho do tecladista Ed Roth, que tocou com o guitarrista Chris Impellitteri e recentemente deu uma mão a Rob Halford em Crucible (2002), último disco da banda do novamente vocalista do Judas Priest.

O CD abre com In My Blood, um rock vigoroso movido a grandes riffs de guitarra, refrão bem construído e a garganta impecável de Hughes, não à toa chamado de “The Voice of Rock”. Pegue os vocalistas contemporâneos e compare: David Coverdale (Whitesnake), Robert Plant (ex-Led Zeppelin) e Ian Gillan (Deep Purple) há muito tempo já não têm a mesma força. Como Hughes, apenas Ronnie James Dio bebe formol todos os dias no café da manhã. Chega a ser impressionante, principalmente no quesito “quem sabe faz ao vivo”.

A busca pela sonoridade de sua época no Deep Purple está presente em Lost in the Zone, uma coletânea dos álbuns Burn (1974), Stormbringer (1974) e Come Taste the Band (1975) em pouco mais de quatro minutos. Fora isso, Gasoline tem um andamento parecido com o de Lady Double Dealer, e Wherever You Go busca uma linha vocal semelhante à de You Fool No One. Mais do que o túnel de tempo que leva a três álbuns clássicos e essenciais, as três canções são uma homenagem ao passado de Hughes.


Higher Places (Song for Bonzo) nos remete ao estilo arrastado de Kashmir, apresenta um belíssimo solo de guitarra e é, como o nome já diz, um tributo ao falecido e saudoso batera do Led Zeppelin, John Bonham. O instrumental preciso é outra marca registrada em Songs in the Key of Rock, graças principalmente ao trabalho nas seis cordas de JJ Marsh (ao lado de Hughes desde 1996, com um ou outro hiato no palco) e Jeff Kollman (famoso ‘guitar extraordinaire’ do trio de rock/fusion Cosmosquad). Nas baquetas, Gary Ferguson (velho companheiro de estúdio) cumpre seu papel apenas corretamente, no entanto, bem aquém do potencial de Bob Harsen ou Brian Tichy (ex-Pride & Glory), que acompanharam o baixista/vocalista em turnês recentes.

A face mais groove de Hughes aparece em Get You Stoned – com a participação especial de Chad Smith, baterista do Red Hot Chili Peppers – e Secret Life, a faixa mais funk do CD. Courageous e The Truth têm um lado mais pop, com belas linhas de baixo e refrãos na medida certa (a primeira, quase dançante). O contraste vem com Standing on the Rock, um arrasa-quarteirão de dar gosto, provando que o trabalho não deixa a peteca cair em momento algum.

Apesar do altíssimo nível, Songs in the Key of Rock deixa espaço para um destaque absoluto: Written All Over Your Face. Mais calma e com mudanças de clima fascinantes, uma harmonia de teclado fazendo um pano de fundo luxuoso, um solo simplesmente memorável e Hughes soberbo no vocal (a música termina de maneira apoteótica, com sua voz convivendo em harmonia com as guitarras de Marsh e Kollman). Enaltecer um novo disco de Glenn Hughes já virou redundância.

Resenha publicada na edição 96 do International Magazine, em setembro de 2003.

Black Label Society – The Blessed Hellride

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Uma nova banda de heavy metal surge a cada dia que passa, fazendo com que o nível de qualidade oscile bastante. No entanto, apesar de muitos grupos ainda lançarem um disco igual ao outro – alguém aí falou “metal melódico”? – o estilo se renova e sempre apresenta coisa boa. Da renovação dentro do som mais extremo – revelando excelentes nomes como In Flames, Soilwork, Arch Enemy e Children of Bodom – aos grupos que chegam ao mainstream, caso do System of a Down, existem artistas consagrados que vêm se mantendo no topo com relativa tranquilidade.

Um deles é Zakk Wylde, guitarrista de Ozzy Osbourne e mentor do Black Label Society, que solta seu quarto disco de estúdio, The Blessed Hellride. Virou clichê dizer que Wylde é atualmente o melhor nas seis cordas dentro do rock pesado, mas é a mais pura verdade. O melhor de tudo é que o respeito e admiração foram conquistados ao longo de 15 anos de muito trabalho. De jovem revelação em 1988 até os dias atuais, foram 14 discos e várias participações em projetos – incluindo uma banda cover do Lynyrd Skynyrd e participações especiais em shows de outros grupos, como The Allman Brothers Band – e tributos – AC/DC, Alice Cooper e Led Zappelin, por exemplo.

Os primeiros passos como artista solo foram dados em 1994, com a formação do Pride & Glory (ao lado do baixista James Lomenzo e do baterista Brian Tichy). O trio durou pouco, mas o suficiente para lançar um ótimo disco homônimo, uma contagiante mistura de hard e southern rock. Dois anos depois, chegava às lojas o belíssimo e predominantemente acústico Book of Shadows, que mostrou uma face até então inédita do guitarrista (ambos os trabalhos estão hoje disponíveis em versões com CD bônus contendo músicas inéditas). Mas o lado mais calmo do trabalho de Wylde parou por aí, já que logo depois veio o Black Label Society e um metal de primeira linha, direto e objetivo.



Sonic Brew (1999), Stronger Than Death (2000), Alcohol Fueled Brewtality Live!! + 5 (2001) e 1919 Eternal (2002) foram os primeiros capítulos, todos indispensáveis à coleção de qualquer banger que se preze, mas uma única audição de The Blessed Hellride coloca o novo trabalho no topo do pódio. Mais agressivo que o anterior, apesar de não possuir a fúria dos dois primeiros, o disco é o melhor da banda. Claro, o peso está presente, e os riffs continuam alucinantes, com os harmônicos que viraram marca registrada de Wylde – diga-se de passagem, é interessante como ele utiliza o recurso ao vivo. Suas duas mãos são absolutamente “nervosas”. Stoned and Drunk, Doomsday Jesus, Funeral Bell e a sensacional Destruction Overdrive trazem todos os elementos que fazem do BLS uma das melhores bandas de heavy metal surgidas nos últimos anos.

Mais do que isso, a inclusão de outros elementos foi fundamental. We Live No More tem um lado mais hard rock; Blackened Waters é uma semibalada com um solo maravilhoso; Dead Meadow apresenta um ótimo trabalho de piano e slide; e The Blessed Hellride é uma volta à época do Pride & Glory (menos) e Book of Shadows (mais). Não bastasse tudo isso, há o fator Black Sabbath: Suffering Overdue é uma coletânea dos melhores momentos do pai do heavy metal, incluindo um quê de War Pigs; há uma influência de Ozzy Osbourne nos vocais de Wylde (mais uma vez muito bons) em Final Solution; e o próprio Madman divide as vozes com o pupilo em Stillborn, que, curiosamente, lembra Immigrant Song, do Led Zeppelin.

Ao lado do guitarrista, que produziu o disco, compôs todas as músicas e ainda fez as vezes de baixista, está somente o bom baterista Craig Nunenmacher (Crowbar). Ao vivo, a banda contará ainda com Nick Catanese nas seis cordas – parceiro de longa data de Wylde – e o baixista Mike Inez (ex-Ozzy e Alice in Chains), que substituirá Robert Trujillo, agora no Metallica. Faça um favor a você mesmo: compre The Blessed Hellride e espere pelo lançamento do DVD Boozed, Broozed & Broken-Boned (saindo lá fora no dia 12 de agosto).

Resenha publicada na edição 96 do International Magazine, em setembro de 2003.

KISS – KISS Symphony: Alive IV

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação e Reprodução

“Quando a Orquestra Sinfônica de Melbourne se juntar ao KISS, prometo que o resultado não será menor que uma explosão sônica. Beethoven e Mozart levantarão dançando e com seus punhos erguidos enquanto nós estivermos oferecendo um espetáculo que será clássico e erudito ao mesmo tempo. É hora de black tie e couro preto”, disse o guitarrista e vocalista Paul Stanley na coletiva de imprensa para anunciar o show realizado em 28 de fevereiro deste ano, na Austrália. Se as palavras são exageradas ou não, você pode conferir em KISS Symphony: Alive IV, CD duplo que chegou às lojas no dia 22 de julho (o DVD será lançado em 9 de setembro).

Coletâneas de todos os tipos, box set incluindo material inédito, outros três discos ao vivo, acústico para a MTV, tributo organizado pelo próprio grupo… Agora só falta um álbum de covers. No ano em que o KISS comemora 30 anos, nada é impossível. A apresentação no Telstra Dome, junto à orquestra regida por David Campbell, é um prato cheio para os fãs, sejam os que podem comprar apenas os discos ou aqueles que têm grana para colocar a mão em todo e qualquer badulaque idealizado por Stanley e o baixista e vocalista Gene Simmons. KISS Symphony: Alive IV é mesmo um ótimo álbum, mas tem alguns detalhes que incomodam – daí a necessidade de colocar um freio no entusiasmo dos mais fanáticos.

O “Primeiro Ato” conta apenas com a banda – completada por Peter Criss (bateria e vocal) e Tommy Thayer (guitarra), que substituiu Ace Frehley e fez um belíssimo trabalho – no palco. Seria interessante dizer que as seis músicas apresentadas são clássicos, mas seria forçar a barra. Deuce, Strutter, Let Me Go Rock & Roll e Calling Dr. Love se encaixam na definição, mas estão sozinhas. Psycho Circus é uma boa canção, só que Lick it Up é um insistente balde de água fria. Ao menos Heaven’s of Fire, outra favorita de Stanley, ficou fora da festa. Seria um tremendo desperdício de tempo.

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Com a Melbourne Symphony Ensemble, formada por 12 dos 60 integrantes da orquestra, o KISS fez do “Segundo Ato” um pequeno set acústico. A indefectível Beth é o ponto de partida, mas a balada cantada por Criss ficou realmente legal na nova roupagem, com os arranjos de corda enriquecidos de novas partes. Goin’ Blind e Sure Know Something poderiam ter dado lugar a outras músicas não apresentadas no já antológico KISS Unplugged (1996), mas não chegam a ser uma pisada na bola como Forever e Shandi. Na verdade, duas ótimas canções descaracterizadas pelo baterista. É claro que Criss não reproduz os licks originais do saudoso Eric Carr em Forever, até porque ele não tem condições técnicas para tanto, mas também não precisava fazer uma introdução tão ridícula para Shandi.

Contando com todos os membros da Melbourne Symphony Orchestra – devidamente maquiados como o grupo, diga-se de passagem –, o KISS fez do “Terceiro Ato” o grande momento de KISS Symphony: Alive IV. Dez músicas e o reconhecimento ao álbum Destroyer, apontado por muitos como a obra-prima do KISS e discoteca básica do rock. Lançado em 1976, quando a banda era ridicularizada pela crítica, o disco cedeu mais seis canções ao show (além de Beth) e é responsável por um dos momentos mais emocionantes: Great Expectations, que nunca havia sido tocada ao vivo. Para ficar ainda mais bonito, as 24 crianças do Australian Children’s Choir não deixaram faltar nada da versão de estúdio.

Detroit Rock City incendeia o público – composto até por brasileiros, saudados por Stanley durante a apresentação – e mostra uma orquestra que trabalhou em cima das músicas, sem muita invenção. Ponto para ela. Apesar de um único deslize – em King of the Night Time World –, o resultado ficou muito, muito bom. Do You Love Me, God of Thunder, Shout it Out Loud e Love Gun dispensam apresentações, mas os grandes destaques são mesmo I Was Made For Lovin’ You (nunca ficou tão bem ao vivo), Black Diamond (simplesmente emocionante) e o hino Rock and Roll All Nite. Apesar de algumas bolas na trave, o saldo de KISS Symphony: Alive IV é positivo. Para os fãs da banda, para os fãs de rock.

Resenha publicada na edição 96 do International Magazine, em setembro de 2003.

DIO e Fates Warning em formato audiovisual

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Abençoado seja o DVD. Não faz muito tempo que o fã esperava pelo anúncio do lançamento do home video de seu grupo ou artista favorito… Em VHS. O video laser nem chegou a empolgar tanta gente assim, pois seu tamanho não era lá muito prático – e, por isso mesmo, não deixava de ser um retrocesso depois da mudança do vinil para o CD. O DVD veio para resolver o problema, afinal, não bastasse possuir a qualidade de áudio e vídeo que todos conhecemos, ainda virou febre: transformou o consumidor comum em colecionador até mesmo de filmes. Mas como nosso assunto é música, fiquemos com dois ótimos lançamentos do formato no rock: The View from Here, do Fates Warning, e Evil or Divine – Live in New York City, do DIO.

Em The View from Here, a banda mais legal do progressive metal na atualidade aparece em retrospectiva, num apanhado de seus videoclipes e imagens de algumas apresentações. São 20 anos de estrada registrados em grandes momentos, principalmente do fim da década de 80 até os dias atuais. Os vídeos Silent Cries e Anarchy Divine, de 1988, são os últimos resquícios dos dias de pastiche do Iron Maiden, já que a partir do ano seguinte, com o álbum Perfect Symmetry, a coisa mudaria de figura. De Through Different Eyes a Nothing Left to Say, o som do Fates Warning passou a ser uma aula bom gosto muito mais técnica – a saber, Jim Matheos é um brilhante guitarrista e compositor; Ray Alder, um vocalista exemplar; e Mark Zonder, um dos melhores bateristas do mundo. Não é pouca coisa, não.


O DVD já valeria a pena por causa de Point of View (digamos que seja uma homenagem ao Queensrÿche, e é só ouvir Breaking the Silence para atestar), Eye to Eye e Monument (uma das mais belas e complexas composições do metal), mas há material de altíssimo nível ao vivo, como as partes X, XI e XI da obra-prima A Pleasant Shade of Gray (1997) – os fãs de rock progressivo deveriam ouvir este disco. Fora isso e mais um pouco, os making of de Parallels (1990) e Disconnected (2000) são bastante interessantes, e a entrevista com os ex-integrantes Frank Aresti (guitarra) e Joe DiBiase (baixo), reveladora. Grande lançamento, grande pedida.

Já Ronnie James Dio e banda estão impecáveis em Evil or Divine – Live in New York City, que traz a íntegra da apresentação realizada no Roseland Ballroom, no dia 13 de dezembro de 2002. De material bônus, temos galeria de fotos, entrevista, cenas de backstage e o ótimo clipe de Push, com direito à participação do ator Jack Black, de “Alta Fidelidade” (2000), de Stephen Frears, e “O amor é Cego” (2001), dos irmãos Farrelly. No entanto, o que interessa mesmo é o show… E que show! Não há nada mais a falar de Dio que não já tenha sido dito um sem-número de vezes, mas é mesmo impressionante o que o Baixinho canta no alto de seus 61 anos (ou seriam 63?). Só pode beber um litro de formol por dia, porque não há outra explicação para conservar a voz que o tornou o maior vocalista do rock pesado em todos os tempos.


Impossível não ser ofuscado por Dio, mas o baterista Simon Wright, que no AC/DC tocava com uma perna e um braço atados, e o excelente guitarrista Doug Aldrich, que saiu para o reformulado Whitesnake e abriu brecha para a volta de Craig Goldy, têm ótimos momentos – Scott Warren (teclados) e Jimmy Bain (baixo) completam o time. O repertório privilegia o material do DIO, como sempre, aliando músicas de várias fases da passagem do vocalista por Black Sabbath (Heaven and Hell e Children of the Sea) e Rainbow (Man of the Silver Mountain e Long Live Rock and Roll).

Temos material dos álbuns mais recentes – Lord of the Last Day e Fever Dream, de Magica (2000); Push, Rock and Roll e a faixa-título de Killing the Dragon (2002) – e pérolas que nunca perdem a força: da surpresa Egypt (The Chains Are on) aos clássicos Stand Up and Shout, Don’t Talk to Strangers, Holy Diver, The Last in Line, Rainbow in the Dark e We Rock. É assistir ao DVD e ter certeza de que os anos 80 foram infinitamente mais ricos…

Artigo publicado na edição 96 do International Magazine, em setembro de 2003.