Zakk Sabbath

Texto: Daniel Dutra | Fotos: Luciana Pires

Aquela banda cover que você respeita, mas não apenas porque se trata de uma que toca apenas material da fase inicial do Black Sabbath – dos cinco primeiros discos, mais precisamente. Também porque tem um nome de respeito na liderança, alguém com status de guitar hero. E de ídolo. Exatamente por isso a noite de sexta-feira foi de casa cheia no Circo Voador para receber o Zakk Sabbath, trio que tem Zakk Wylde à frente da cozinha formada por Rob “Blasko” Nicholson (baixo, Ozzy Osbourne e ex-Rob Zombie) e Joey Castillo (bateria, ex-Queens of the Stone Age, California Breed, Eagles of Death Metal e mais um monte de gente).

Desnecessário apresentar as credenciais do guitarrista, afinal, tudo gira em torno dele. Do nome do projeto à música que rola no PA antes de o show começar. Ou você acha coincidência que tenha sido Immigrant Song, do Led Zeppelin, que aqueceu as turbinas? Lembre-se: o quarto filho do braço-direito do Príncipe das Trevas chama-se Sabbath Page Wielandt Wylde. Exatamente. O sobrenome da maior banda de heavy metal da história com o sobrenome do guitarrista da maior banda de rock de todos os tempos. Sim, bom gosto é o mínimo que se espera de Wylde, e o cara entregou um show para lavar alma dos fãs que fizeram bonito na lona. Foi, de fato, um massacre sonoro.

O melhor de tudo? Ao revisitar o catálogo de Ozzy, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward, o guitarrista basicamente se apropriou de algumas canções mais raras nos shows dos pais do estilo. A começar por Supernaut, literalmente. Depois dos barulhinhos de chuva e trovoadas de Black Sabbath, seu riff magistral – a bênção, Iommi! – foi cantado pelos fãs, que pularam com vontade acompanhando o ritmo e o peso infernal que o trio impôs à música. Daria para dizer que Snowblind era uma das mais populares do repertório, mas a verdade é que A National Acrobat veio a seguir e colocou todo mundo para fazer “ô ô ô ô ô” acompanhando o riff, mais uma vez. Ou seja, as letras nem sempre estiveram 100% na língua da plateia, mas as músicas e suas melodias e riffs mágicos estavam. Com louvor.

Snowblind, é bom registrar, mostrou os dois lados de Wylde na hora de solar: Melódico e econômico no meio da canção, ligado em 220 V no fim dela. O melhor fica a gosto do freguês, mas o fato é que, ao largar o dedo numa fritação de tirar o fôlego, teve como retorno urros, aplausos e exclamações vestidas de entusiasmados palavrões. Pré-gravada, Embryo anunciou o óbvio: um pula-pula lindo de ver em Children of the Grave – fora o coro, mais um, obviamente. Na sequência, Lord of This World levou Wylde a (quase) tocar no meio do público. Com várias caixas improvisando degraus no pit reservado para os fotógrafos, que sofreram por causa disso, o guitarrista desceu para solar longa e alucinadamente praticamente colado à grade.

Um dos inúmeros verbetes de doom metal forjados pelo Black Sabbath, Under the Sun/Every Day Comes and Goes foi marcada por uma das cenas emblemáticas da noite: o guitarrista em cima da plataforma estrategicamente posicionada ao lado do microfone, imponente e novamente solando como se não houvesse amanhã. E se cabe alguma crítica num show tão espetacular, aqui vai uma: o excesso resultou num sentimento de déjà vu, afinal, nesses momentos parecia que Wylde fazia o mesmo solo à velocidade da luz. Mas quem se importa? Melhor lamentar que não tenham emendado com Never Say Die, como vez ou outra acontece.

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Wicked World foi de arrepiar, principalmente porque o grupo não fez o que seus mestres faziam na década de 70: a transformavam numa longa jam de 20 minutos, explorando as nuances de jazz que a canção mostra sem suas primeiras notas. A versão mais enxuta deu sequência à dinâmica que Fairies Wear Boots e Into the Void mantiveram de maneira sublima – teve roda nesta última, que, perdoem meu francês, puta que pariu! Como pode um ser humano criar tantos riffs maravilhosos numa mesma música? De novo: a bênção, Iommi!

Infelizmente, a ótima Hand of Doom ficou perdida como pano de fundo para Wylde, falando um inglês em boa parte do tempo quase ininteligível, apresentar a banda no primeiro e único momento em que realmente se comunicou com a plateia – curiosamente, o guitarrista se esforça para cantar como Ozzy, com bons resultados, e usa cola para cantar as músicas: à sua frente, vários papéis com as letras, retirados música a música. Cada um usa o Teleprompter que pode. Enfim, Castillo e Blasko (que presença de palco tem esse sujeito!) foram coadjuvantes de luxo na festa, mas como bem disse o guitarrista ao parafrasear Cyrus, personagem do clássico “Warriors – Os Selvagens da Noite’: ‘Can you dig it?’ Sim, todos os presentes – e se não assistiu ao filme, faça um favor a você mesmo. Termine esta resenha e corra imediatamente atrás.

Situação normalizada, Behind the Wall of Sleep foi a deixa perfeita para um encerramento apoteótico. Depois dela só poderia mesmo vir N.I.B. – deveria ser obrigatório –, e nem mesmo a única derrapada de Castillo (abre esse contratempo e solta o braço direito para dar mais peso!) impediria o carnaval que tomou conta do Circo Voador. E se o amigo leitor chegou até aqui, então poderá imaginar o que foi War Pigs como ‘grand finale’ – e com Wylde novamente tocando no pit e fazendo a alegria de quem estava no gargarejo. E depois de uma hora em 40 minutos de espetáculo, praticamente com 13 músicas sem sair de cima, foi só voltar para casa com sorriso no rosto e aquela certeza definitiva: Black Sabbath é vida.

Clique aqui para acessar a resenha no site da Roadie Crew.

Set list
1. Supernaut
2. Snowblind
3. A National Acrobat
4. Children of the Grave
5. Lord of This World
6. Under the Sun/Every Day Comes and Goes
7. Wicked World
8. Fairies Wear Boots
9. Into the Void
10. Hand of Doom
11. Behind the Wall of Sleep
12. N.I.B.
13. War Pigs

Accept

Texto: Daniel Dutra | Fotos: Daniel Croce

Quem é heavy curte Accept, disse uma vez o sábio. E quem é heavy não vai encontrar em lugar algum do planeta um show de metal melhor que o da banda alemã. Entra ano e sai ano – foi a terceira apresentação do quinteto no Rio de Janeiro desde 2015 –, Mark Tornillo (vocal), Wolf Hoffmann e Uwe Lulis (guitarras), Peter Baltes (baixo) e Christopher Williams (bateria) não deixam espaço para qualquer dúvida. Felizes daqueles que foram ao Teatro Rival numa chuvosa noite de sábado para assistir a mais uma aula de heavy metal – e vergonha de quem preferiu ficar em casa porque já viu ou porque poderá ver de novo. Ajoelhe no milho, clame por uma surra de cipó de goiaba e arrependa-se de seu pecado.

Exatamente às 21h30, a poderosa Die By the Sword deu início aos trabalhos e mostrou que nem mesmo o pequeno palco da casa, cujo espaço ficou ainda mais reduzido graças ao belo cenário (ponto para a banda), atrapalharia a energética movimentação dos músicos e suas coreografias em momentos estratégicos (mais um ponto para a banda) – e vamos deixar registrado: é simplesmente sensacional a interação entre Hoffman e Baltes. Faixa de abertura do novo álbum, The Rise of Chaos (2017), a canção tinha o refrão na ponta da língua dos fãs, que em seguida encheram o teatro com o empolgante coro para acompanhar a melodia da excelente Stalingrad.

Duas músicas dos quatro álbuns com Tornillo – foram dez num set de 21 – para mostrar que basta continuar lançando ótimos discos para que eventualmente algumas se tornem clássicas. Então, novo ponto para a banda, porque desde o retorno com a obra-prima Blood of the Nations (2010) o Accept vem soltando uma pérola atrás da outra. Uma lição para muito grupo que fez fama e deitou na cama, e Restless and Wild (de tirar o fôlego), London Leatherboys (que som sensacional Baltes tira do seu baixo) e Living for Tonite (até agora com o refrão na cabeça) mostraram na prática a beleza da convivência do novo com o antigo.

E o novo voltou a fazer bonito numa sequência de seis canções, sendo as quatro primeiras do trabalho mais recente. Beneficiadas pela divulgação prévia ao lançamento do álbum, The Rise of Chaos e Koolaid foram recebidas com entusiasmo; No Regrets ajudou a machucar pescoços; e a maravilhosa Analog Man aos poucos colocou os fãs para cantar, por ser pura e simplesmente irresistível. Por outro lado, Final Journey, de Blind Rage (2014), e Shadow Soldiers, de Stalingrad (2012), comprovaram o status de velhas-novas conhecidas.

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O curto solo de Hoffman serviu para o guitarrista mostrar sua paixão por música erudita ao tocar trechos de algumas peças, com destaque para a centenária In the Hall of the Mountain King, de Edvard Grieg, acompanhada em uníssono por centenas de vozes. Uma abertura de luxo para Neon Nights, cujo encerramento com pinta de jam muito bem ensaiada foi de tirar o fôlego. Princess of the Dawn (até os garçons da casa cantaram), Midnight Mover (o Accept mostrando também como se faz hard rock) e Up to the Limit deixaram o local em ebulição para o rolo-compressor Objection Overruled, uma agradável e muito bem-vinda adição ao repertório, enriquecida pelo duelo entre Baltes e Hoffman. Lembra-se da interação entre os dois? É isso, meu amigo.

Clássico instantâneo da nova fase da banda – com espírito captado perfeitamente por Lulis, que interage a todo instante com os fãs, e Williams, que toca com estilo e elegância de dar gosto –, Pandemic só não foi um arregaço maior porque o que estava por vir foi covardia. A começar pela destruidora Fast as a Shark… Preciso falar da reação dos fãs? De como cantaram a musiquinha da introdução? Creio que não. Mas o bis, aquele bis que vai do protocolar à catarse… Sim, foi isso mesmo o que aconteceu.

Faltou apenas Tornillo soltar um “tirem os pés do chão”, mas, a bem da verdade, não precisaria. O pula-pula foi garantido em Metal Heart, Teutonic Terror e Balls to the Wall, uma trinca matadora para fechar em altíssimo nível uma apresentação de duas horas com, vale ressaltar, um som impecável. E, mais uma vez, com o novo e o antigo de mãos dadas no caminho que descamba no clássico, porque Teutonic Terror causou a comoção de músicas decanas e foi o recheio perfeito para dois hinos do heavy metal (e seus coros para deixar o fã rouco). Porque, meu amigo, quem é heavy curte Accept. Simples assim, de verdade.

Clique aqui para acessar a resenha no site da Roadie Crew.

Set list
1. Die By the Sword
2. Stalingrad
3. Restless and Wild
4. London Leatherboys
5. Living for Tonite
6. The Rise of Chaos
7. Koolaid
8. No Regrets
9. Analog Man
10. Final Journey
11. Shadow Soldiers
12. Neon Nights
13. Princess of the Dawn
14. Midnight Mover
15. Up to the Limit
16. Objection Overruled
17. Pandemic
18. Fast as a Shark
Bis
19. Metal Heart
20. Teutonic Terror
21. Balls to the Wall

Edguy

Por Daniel Dutra | Fotos: Alex Kühr/Divulgação

Vinte e cinco anos. As bodas de prata chegaram para o Edguy, e a banda alemã resolveu comemorar em grande estilo. Teve coletânea, claro, mas uma à altura da data: Monuments conta com 22 clássicos, cinco músicas novas e uma inédita espalhadas em dois CDs, além de um DVD com um show gravado no Brasil em 2004, durante a turnê de Hellfire Club. E teve uma miniturnê, também: treze shows de 15 de setembro a 3 de outubro, quando Tobias Sammet (vocal), Jens Ludwig e Dirk Sauer (guitarras), Tobias “Eggi” Exxel (baixo) e Felix Bohnke (bateria) encerraram o bem-sucedido giro com uma apresentação em sua cidade natal, Fulda. E a festa obviamente tinha de estar nas páginas da ROADIE CREW, por isso fomos atrás do grupo para uma conversa. Mas é bom ressaltar: o bom humor típico do Edguy se refletiu numa entrevista totalmente descontraída com o empolgadíssimo e, por isso mesmo, falante Exxel. A ponto de o papo ter começado de uma maneira, digamos, pouco comum. Assim, boa leitura!

Tobias Exxel: Oi, Daniel! Aqui é Tobias Exxel, do Edguy. Tudo bem?

Olá, Tobias. Tudo bem, e aí? Aliás, permita-me dizer que você acabou de matar uma curiosidade minha. Conheço muita gente que fala ‘Tobaias’ Exxel ou ‘Tobaias’ Sammet, ou seja, não como se escreve, que é o jeito certo confirmado agora pela própria fonte.
Tobias: (rindo bastante) Sim! E provavelmente essa é a pergunta mais interessante de todas que respondi até agora (risos). É verdade que muitos fãs falam ‘Tobaias’, mas para facilitar seria melhor dizer apenas Tobi. Mas como esse é o apelido do nosso vocalista, atendo por Eggi. Fiz essa gentileza a ele porque sou mais velho (risos).

E é bom saber que essa dúvida não é novidade para você, porque tomo como base a maneira como os fãs brasileiros pronunciam.
Tobias: Acredito que isso acontece porque não é um nome internacional, como os que são comuns nos Estados Unidos e na Inglaterra, por exemplo. Não é como os nomes que têm pronúncia diferente dependendo do inglês americano e do britânico. E você não encontra muitos Tobias ou ‘Tobaias’ por aí (risos). Não existe nem mesmo uma tradução específica, então as pessoas podem falar da maneira que acharem melhor. A partir do momento em que todos nos entendemos, não tem problema. Mas se ficar complicado, é só me chamar de Eggi… Ah! Algumas pessoas no Brasil me chamam de ‘Édi’, e eu sempre achei que era uma referência a Edguy (risos). Mas Eggi se pronuncia ‘Égui’, disso eu tenho certeza (risos), e não tem nada a ver com a pergunta que muitos me fazem, porque meu apelido não é Eggi porque pareço com um ovo (risos). Quando tinha 10 ou 11 anos, um colega no colégio surgiu com esse nome para mim, e a coisa se espalhou de tal maneira que até os professores me chamavam assim. Sempre achei engraçado, então não me incomodava. E também nunca perguntei por que ganhei esse apelido, apenas fiquei feliz por ter um. Acho que meu antigo colega queria era me irritar ao me chamar a todo instante de Eggi (N.R.: Exxel imita a voz do colega, incluindo uma risada à la Beavis & Butt-Head), mas se deu mal, porque eu gostei (risos). Pensando bem, eu deveria ter ficado irritado, assim ele poderia ter me chamado de Angry Eggi. Seria ainda mais legal, tipo Angry Birds (risos) (N.R.: referência ao famoso jogo para smartphones criado em 2009). Eu sei que a entrevista mesmo nem começou, mas todo esse lance de Tobias ou ‘Tobaias’ e Eggi ou ‘Édi’ é muito importante na história do Edguy (risos). Sério, nunca havia falado sobre isso tão profundamente, então foi bem interessante. Gostei bastante.


Acredito que os fãs também vão curtir. Talvez não como Monuments, porque o conteúdo é mesmo bem caprichado. O quanto vocês se envolveram na elaboração da coletânea?
Tobias: Envolvemo-nos completamente, desde o início. Todas as músicas foram escolhidas por nós, por exemplo, e a solução mais interessante que encontramos para chegar ao track list final foi que os cinco estivessem totalmente de acordo. Temos um catálogo muito grande de canções e, no geral, estamos muito satisfeitos com ele, porque é nosso cartão de visitas. Todas as nossas músicas representam muito bem o Edguy, não importa o quão diferente sejam. Pode ser uma mais rápida, uma balada ou algo mais rock, porque acredito que fazemos uma boa mistura de estilos. Qualquer período de nossa carreira tem isso. No fim das contas, foi bem tranquilo definir quais seriam as 22 faixas de Monuments. Acredite, não houve um problema sequer em relação a isso, porque vou lhe contar um segredo: muitas vezes acabamos discutindo por causa de set list, tipo que músicas devemos tocar numa próxima turnê, sabe? Eu gostaria disso, mas Felix quer algo diferente, então Dirk aparece com outras ideias… Mas para o CD foi fácil. É o melhor do Edguy, e os fãs já têm essas canções, por isso nosso objetivo com uma compilação é maior na questão de conquistar novos fãs, apresentar a banda a quem nunca ouviu nosso trabalho. Era preciso impressioná-los com o que fizemos nos últimos vinte e cinco anos, mas também agradar àqueles que nos acompanham há tanto tempo, por isso incluímos um DVD ao vivo e material novo. Nenhuma das cinco faixas inéditas é sobra de estúdio, todas foram compostas e gravadas em fevereiro e março deste ano (N.R.: Monuments foi lançado em 14 de julho), e a edição limitada ainda vem acompanhada de um enorme livro (N.R.: 160 páginas) com várias fotos inéditas e informações realmente legais. É um pacote completo para o fã do Edguy, talvez algo que não faríamos não fosse uma ocasião tão especial, os vinte e cinco anos da banda, porque o investimento é grande. E também estamos completando vinte anos sem nenhuma alteração na formação, o que é impressionante até para nós mesmos (risos). Vemos tantos grupos mudando a todo instante que é até difícil acreditar que estamos juntos todo esse tempo. Sempre nos inspiramos no Aerosmith, que está aí com a sua formação clássica e sem nenhuma mudança há quase quarenta anos (N.R.: desde 1984), então mal posso esperar pelas entrevistas que darei daqui a vinte e cinco anos, uma delas talvez para você mesmo, para falarmos do cinquentenário do Edguy (risos).

Espero chegar lá, e tomara que a entrevista seja com você, que está tornando o meu trabalho bem mais fácil. Já matou três das minhas perguntas numa só resposta.
Tobias: (rindo bastante) Desculpe-me! Eu falo demais, né? (risos)

Não se desculpe, não, porque estou achando ótimo. Isso é um sonho de todo jornalista, então continue assim (risos).
Tobias: OK, manda a próxima que vou responder e antecipar mais algumas (risos).

Você explicou o processo de escolha das músicas de Monuments e que as cinco inéditas foram compostas especialmente para a coletânea, mas houve alguma razão para nenhuma faixa do primeiro álbum, Kingdom of Madness (1997), estar presente?
Tobias: Sim, apesar de ter sido algo inconsciente. Kingdom of Madness é um bom disco, sem dúvida, mas para nós não é uma representação de fato do nosso trabalho. É difícil explicar isso, porque não quero ofender os fãs que gostam do disco. Sabemos que é parte importante da banda e do seu desenvolvimento, porque foi um aprendizado em termos de composição, especialmente para Tobi, que começou a se encontrar como vocalista. Por outro lado, o Edguy começou mesmo a ficar mais popular a partir de Vain Glory Opera (N.R.: o disco seguinte, de 1998). Assim, como tínhamos que escolher vinte e duas ou vinte e três faixas, dependendo da duração de cada uma, preferimos pinçar mais uma, duas ou três canções de Theater of Salvation (N.R.: de 1999) ou do próprio Vain Glory Opera para representar nossa fase mais antiga. Além disso, há dez ou quinze anos não tocamos nenhuma música de Kingdom of Madness ao vivo, porque há tantas outras que queremos tocar, e talvez Vain Glory Opera pudesse ter mais algumas de suas faixas em Monuments, mas ainda assim não o ignoramos (N.R.: há duas músicas dele, a faixa-título e Out of Control).De qualquer maneira, nosso primeiro disco não está fora de catálogo, então o fã pode comprar a coletânea e ele também, caso não o tenha. Ou escutá-lo no YouTube, porque hoje em dia você encontra qualquer coisa no YouTube (risos).


E para o fã brasileiro, o DVD é um bônus mais do que especial, até porque esse show é um desejo antigo (N.R.: foi gravado no festival Rock the Planet, que contou com Timo Kotipelto, Shaman e Viper no dia 2 de outubro de 2004, no Espaço das Américas).
Tobias: Isso mesmo! Você sabe que o show completo deveria ter sido lançado oficialmente anos atrás, mas não rolou porque houve grandes problemas técnicos com algumas câmeras. Colocamos algumas músicas no DVD que acompanhou o EP Superheroes (2005), mas só agora encontramos uma equipe técnica boa o suficiente para restaurar os vídeos e deixar toda a apresentação pronta para ser lançada com a qualidade necessária. E aquele show foi maravilhoso! Quando assisti ao DVD agora, depois de tanto tempo, fiquei arrepiado com o público em canções como The Piper Never Dies, por exemplo. E o melhor de ter revisitado o show treze anos depois foi perceber como ainda temos aquela energia e aquele frescor. Ainda fazemos shows como aquele e nos divertimos no palco, tocando para pessoas que nos admiram. Sou grato por não sermos uma banda que apenas fica olhando para os instrumentos para ver se o tempo passa mais rápido no palco. Amamos tocar, tocar e tocar sem parar, e sei que para vocês, brasileiros, ter aquela apresentação finalmente em DVD é algo especial. Lembro-me que a atmosfera em São Paulo naquela noite era muito boa e guardo com carinho todas as lembranças, desde os momentos que antecederam o show até o backstage ao fim dele. Foi uma experiência maravilhosa para nós.

E uma última pergunta sobre Monuments. Vocês chegaram a pensar em regravar o baixo e bateria de Reborn in the Waste, que acabou não saindo na demo Savage Poetry (1995)? Porque assim ela teria a formação clássica do Edguy, com você e Felix Bohnke.
Tobias: Não, realmente. Preferimos manter a versão original, com o primeiro baterista, Dominik Storch, e o baixo do Tobi. Hoje em dia você pode consertar qualquer coisa em estúdio, mas Reborn in the Waste está como foi gravada naquela época. É um documento de quase vinte e cinco anos atrás, quando Tobi, Dirk e Jens tinham quatorze ou quinze anos de idade, ou seja, você pode ouvir que mal sabiam tocar direito (risos). Era o comecinho da banda, e o interessante é que essa música foi finalizada, mas não registrada num estúdio profissional, e acabou sendo deixada de lado porque eles tinham canções melhores e com as quais se sentiam mais confortáveis. Até por isso ela nem mesmo foi regravada para Kingdom of Madness, o que, em minha opinião, a torna mais especial. A primeira vez que a escutei foi há um ano, quando Jens encontrou a fita original, e não pude deixar de rir. Aliás, foi divertido para todos nós porque era um cassete, e hoje você tem de explicar aos fãs mais novos o que eram as fitas cassete e como as usávamos. Hoje eles só conhecem CDs e, principalmente, MP3s (risos).

Para terminar, você está na banda desde 1998, mas sempre o considerei como parte da formação original, afinal, Tobi era responsável pelo baixo. Ou seja, não é que você tenha substituído alguém. É um ponto de vista de diferente, mas o que acha dele?
Tobias: Sabe o que é mais interessante? Não seria apenas a minha opinião a respeito, mas também as de Tobi, Jens e Dirk, e garanto a você que eles consideram a atual formação como a original. Claro, isso pode soar injusto com Dominik, mas lembra-se quando disse que nossa popularidade começou a crescer depois de Vain Glory Opera? Foi na turnê deste disco que Tobi, Jens, Dirk, Felix e eu subimos num palco pela primeira vez juntos (N.R.: Storch gravou apenas Kingdom of Madness, enquanto a bateria de Vain Glory Opera ficou a cargo de um músico de estúdio, Frank Lindenthal). Foi o line-up atual que caiu na estrada pela primeira vez, e o Edguy nunca havia tocado fora da Alemanha até estarmos os cinco na banda. Dormíamos num micro-ônibus e fazíamos tudo juntos. Incluo o Felix nesse ponto de vista, porque é um grande elogio para nós quando pensam assim. Você está certo, então, e somos gratos aos outros três por também compartilharem essa ideia.

Entrevista realizada no dia 6 de julho de 2017 e originalmente publicada na edição 226 da Roadie Crew, em novembro. Com a estreia do novo site da revista, o papo de 35 minutos com o gente boa Tobias “Eggi” Exxel ganhou vida na internet lá – clique aqui para conferir – e aqui também.

Megadeth

Por Daniel Dutra | Fotos: Alessandra Tolc

Lembra-se da última vez que o Megadeth fez um show completo no Rio de Janeiro? Não, não foi em 2013, quando Dave Mustaine e companhia tiveram a honra de abrir para o Black Sabbath na Praça da Apoteose. Era para ter sido em 2008, mas a apresentação no Citibank Hall não chegou ao fim – puto com os problemas de som, Mustaine encurtou o set e saiu do palco sem nem mesmo dar um até logo. As duas apresentações anteriores, na mesma casa de shows, então chamada Metropolitan, foram em 1997 e 1995. Na primeira, a banda tocou entre Queensrÿche e Whitesnake; na segunda, se apresentou antes de Alice Cooper.

Não se assuste, porque é isso mesmo: havia mais de 20 anos que o Megadeth não fazia, de fato, um show para chamar de seu na cidade. A última vez foi em 1994, quando Mustaine, Marty Friedman, Dave Ellefson e Nick Menza arregaçaram o Imperator numa noite memorável, durante a turnê de “Youthnasia” (1994). Compreensível, então, a euforia dos fãs que lotaram o Vivo Rio numa quarta-feira véspera de feriado. Mas não foi apenas isso, e vamos chegar lá.

Antes teve o VIMIC, banda liderada pelo ex-Slipknot Joey Jordison e escolhida a dedo pelo chefão do Megadeth. E apesar de todo o esforço da banda – completada por Kalen Chase Musmecci (vocal), Jed Simon e Steve Marshall (guitarras), Kyle Konkiel (baixo) e Matt Tarach (teclados) –, a sensação foi que teremos mais do mesmo no álbum de estreia, “Open Your Omen”, a ser lançado em 2018. Se a primeira impressão é a que fica, o grupo atira para vários lados, mas não consegue realmente acertar os alvos.

O pesadíssimo começo com Marionetta logo deu lugar a acentos mais pop dentro da maçaroca sonora do sexteto, como em Simple Skeletons (juro que tem até uma parte mais dançante) e In Your Shadow, na qual a voz limpa de Musmecci enfim funcinou – bom frontman, com direito até mesmo a crowd surfing no fim do show, ele se sai melhor quando vai do vocal gritado ao gutural. E Jordison, exímio baterista, infelizmente acabou prejudicado pelo som embolado que praticamente soterrou suas viradas precisas e a impressionante velocidade que impõe nos dois bumbos.

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E como as pessoas foram para ver o Megadeth, a espera foi recompensada. Não como os fãs argentinos foram alguns dias depois, com quatro músicas a mais no set list – Dawn Patrol, Poison Was the Cure, She-Wolf e Poisonous Shadows –, mas ainda assim com uma apresentação arrebatadora que, felizmente, teve uma participação atualmente acima da média em se tratando dos fãs cariocas. Depois da tradicional introdução com o início de Prince of Darkness, Hangar 18 abriu os serviços com direito a riff cantado pelo público e coro de “Megadeth” na quebra instrumental que divide os solos no fim da música. E por falar em solos…

The Threat is Real, faixa de abertura de Dystopia (2016), mostrou aquilo que o público local basicamente só tinha visto em vídeos: o entrosamento e a interação de Mustaine com Kiko Loureiro. E sejamos sinceros duas vezes: primeiro porque a empolgação do brasileiro no palco nem de longe se compara à de seus anos no Angra. Depois porque estamos mesmo diante da melhor formação da banda desde aquela (insuperável, claro) com Friedman e Menza. Desnecessário descrever os predicados de Kiko, por razões óbvias, então só tinha dúvida a respeito de Dirk Verbeuren quem nunca havia escutado Soilwork. Ou quem não acreditou quando Chris Adler disse que Verbeuren é provavelmente um dos três melhores bateras do estilo atualmente.

O cartão de visitas havia sido distribuído em dez minutos, então Wake Up Dead e In My Darkest Hour nem precisaram fazer muita força. Na verdade, a o fim da primeira com o início da segunda nasceram um para o outro. Quase um mashup que, nas palavras de Mustaine, antecedeu “uma canção que não tocamos na última vez em que estivemos aqui”. E Take No Prisoners foi efusivamente recebida como seria qualquer outra faixa de Rust in Peace (1990). Os ânimos acalmaram, e a euforia de lugar à contemplação com a inclusão das novas Conquer or Die! e Lying in State no repertório, nos lugares de She-Wolf e Skin O’ My Teeth, tocadas em São Paulo na noite anterior.

Instrumental, Conquer or Die! é nada menos do que uma plataforma para Kiko mostrar (ao mundo, não aos brasileiros) por que está no posto, mas recebe no palco uma versão futurista de Vic Rattlehead, mascote da banda. O suficiente para fazer o público não dispersar e repor as energias para a sequência de clássicos que viria a seguir. Sweating Bullets, Trust e A Tout Le Monde surgiram em versões impecáveis, e a casa terminou de vir abaixo na mais que aguardada Tornado of Souls, que fez aparecer a primeira roda (estava difícil com a casa tão cheia) e obviamente teve uma tremenda ovação a Kiko depois de ele fazer bonito no antológico solo escrito por Friedman.

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Mechanix veio a seguir e sem muitas delongas (alguém não conhece a história?), e Dystopia foi agradavelmente muito bem recebida, muito pelo espetacular instrumental e, de novo, pela interação de Mustaine com Kiko. O efeito Tornado of Souls se repetiu em Symphony of Destruction – sim, todo mundo “cantando” o nome da banda ao acompanhar a música – e foi estendido em Peace Sells, a prova de que Ellefson é o cara e também a cara do Megadeth. Que graça tem o clássico ser puxado por outro baixista que não seja ele? Ah, sim: de paletó, terna e gravata (pretos), como na capa de Peace Sells… But Who’s Buying? (1986), Vic reapareceu.

E quando disse, parágrafos acima, que a participação do público estava acima da média, não me lembro de um coro tão bacana em ‘If there’s a new way, I’ll be the first in line’ como aquele. Providencial, porque os sinais de cansaço na voz de Mustaine já eram claros, mas nada que atrapalhasse também o bis, porque a catarse em Holy Wars… The Punishment Due era tão previsível quanto o encerramento com uma das maiores obras-primas do thrash metal. E foi, de fato, um espetáculo para comprovar que não basta continuar lançando ótimos discos. É preciso colocar tesão também nos shows. E neste ponto, Mustaine deixa aquele sorrisinho de canto boca para uns antigos companheiros…

Clique aqui para acessar a resenha no site da Roadie Crew.

Set list Megadeth
1. Hangar 18
2. The Threat is Real
3. Wake Up Dead
4. In My Darkest Hour
5. Take No Prisoners
6. Conquer or Die!
7. Lying in State
8. Sweating Bullets
9. Trust
10. A Tout Le Monde
11. Tornado of Souls
12. Mechanix
13. Dystopia
14. Symphony of Destruction
15. Peace Sells
Bis
16. Holy Wars… The Punishment Due