The Night Flight Orchestra – Sometimes the World Ain’t Enough

Por Daniel Dutra | Fotos: Emelie Lager/Divulgação (capa) e Carlos Holmberg/Divulgação (interna)

The Last of the Independent Romantics é uma música com muitos elementos progressivos, no sentido de que há surpresas e mudanças em seu andamento. É para mostrar do que a banda é capaz, porque sempre vamos além daquilo que decidimos fazer. Se você tenta adivinhar o que virá a seguir, será novamente surpreendido”, disse Björn “Speed” Strid, durante o bate-papo que resultou na entrevista que está na edição 235 (agosto) da Roadie Crew, ao comentar a canção que encerra Sometimes the World Ain’t Enough. “O elemento surpresa é sempre algo muito bonito, mas precisa fazer sentido, e ela faz sentido. Leva você a uma viagem, porque é praticamente um álbum inteiro numa única música. É muita longa, mas com várias nuances que servem para tirar o fôlego, porque nossa ideia era deixar o ouvinte se perguntando ‘Que diabos aconteceu?’ assim que ela e, consequentemente, o disco acabam.”

E há uma razão muito boa para começar desta maneira, meio que pelo fim, a resenha do novo álbum do The Night Flight Orchestra: o vocalista e seus parceiros de crime – David Andersson (guitarra), Sharlee D’Angelo (baixo), Richard Larsson (teclados), Sebastian Forslund (percussão e guitarra) e Jonas Källsbäck (bateria) – conseguiram novamente. Basta uma audição de Sometimes the World Ain’t Enough para você se pegar pensando como é possível os caras terem feito um trabalho ainda melhor que o espetacular Amber Galactic (2017). Pois bem, um ano depois, eles fizeram. O que surpreende em The Last of the Independent Romantics é o progressive AOR, porque não há maneira melhor de definir os nove minutos de uma canção recheada de belas passagens instrumentais, incluindo solo de teclado e um fim acústico com violoncelos.


Tudo com aquela aura mágica dos anos 80 que permeia todo o CD, mas ainda assim uma música diferente das demais. Como a primeira faixa, a empolgante This Time, mais rock’n’roll, empolgante como os solos de piano e guitarra. Ou como o molho extra que as vozes de Anna-Mia Bonde e Anna Brygård dão a Turn to Miami, um baita AOR levado pelos teclados, a Moments of Thunder e ao lado groove e hard rock da faixa-título. Groove, aliás, que é mérito total de D’Angelo, que brilha como nunca antes, porque é surpreendente e muito agradável ouvi-lo tocando com os dedos e emprestando um suingue formidável a Paralyzed, uma daquelas canções nascidas de alguma inspiração divina. Que refrão absurdo!

É tão maravilhoso quanto os de Speedwagon e Can’t Be That Bad, joias que têm nas contagiantes Barcelona e Winged and Serpentine, ambas mais AOR com hard rock, semelhantes do mesmo quilate. Aí você que ainda não ouviu o CD pode pensar que não dá para ficar melhor. Sim, dá. Pretty Thing Closing in é a união perfeita de AOR com disco music, e Lovers in the Rain… Meu amigo, que música é essa!? Hino ou hit, como queira, ela seria um sucesso gigantesco 30 anos atrás, e isso diz muito sobre o NFO, a melhor banda surgida nos anos 2000, e Sometimes the World Ain’t Enough, o álbum de 2018. Porque, acredite, a música tem salvação.


Faixas
1. This Time
2. Turn to Miami
3. Paralyzed
4. Sometimes the World Ain’t Enough
5. Moments of Thunder
6. Speedwagon
7. Lovers in the Rain
8. Can’t Be That Bad
9. Pretty Thing Closing in
10. Barcelona
11. Winged and Serpentine
12. The Last of the Independent Romantics

Banda
Björn “Speed” Strid – vocal
David Andersson – guitarra
Sharlee D’Angelo – baixo
Richard Larsson – teclados
Jonas Källsbäck – bateria
Sebastian Forslund – percussão e guitarra
Anna-Mia Bonde – backup vocal
Anna Brygård – backup vocal


Lançamento: 29/06/2018

Produção: The Night Flight Orchestra
Mixagem: Sebastian Forslund

Dee Snider – For the Love of Metal

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

É compreensível que We Are the Ones (2016) tenha incomodado tanto os fãs de Dee Snider. Esperava-se que o primeiro disco do solo do vocalista depois do fim definitivo do Twisted Sister fosse na linha de Never Let the Bastards Wear You Down (2000); talvez algo na veia do Widowmaker, independentemente se mais tradicional como Blood and Bullets (1992) ou moderno (para a época) como Stand By for Pain (1994); de repente um resgate do infelizmente esquecido Desperado; ou até mesmo um álbum na praia da sua ex-banda. Mas não foi, e ele avisou que não seria – e convenhamos: apesar da desnecessária releitura de We’re Not Gonna Take it, não estamos falando de um CD que o gato cheira e joga terra em cima.

Enfim, se os fãs queriam heavy metal, então foi isso que eles ganharam, porque For the Love of Metal é o melhor disco de heavy metal de 2018. Curiosamente, um trabalho que conta apenas com a grife do vocalista, uma vez que todas as composições giram em torno de outros três nomes: o vocalista do Hatebreed, Jamey Jasta, que produziu o trabalho; o baterista Nicky Bellmore (Toxic Holocaust), coprodutor e responsável pela mixagem; e o guitarrista e baixista Charlie Bellmore, integrante do Kingdom of Sorrow ao lado do próprio e do irmão Nicky. Ou seja, uma nova experiência para Snider, acostumado a compor as músicas e escrever as letras basicamente sozinho. Assim, o que ele fez? Deixou o som do trio ainda mais poderoso com sua personalidade e uma performance avassaladora.


Pegue Lies Are a Business, que abre o CD: começa rápida e termina cadenciada, e no meio de tudo isso há riffs em profusão. Mais do que isso, dá para escutá-la imaginando Snider ensandecido em cima do palco. Assim como na maravilhosa Tomorrow’s No Concern, feita para machucar pescoços e cantar o refrão com os punhos para cima. Os caras acertaram tanto a mão na hora de compor que a letra de I Am the Hurricane, exatamente na ponte para o refrão, tem um “I am a force of nature” que é cara de Dee Snider, um dos maiores frontmen da história do rock – e ótimo vocalista, é bom ressaltar para os desavisados.

Se você está se perguntando se a pegada aqui é mais moderna, por causa do time que criou as canções, saiba que é isso mesmo. Mask carrega esses elementos para além da produção (repare no refrão), e The Hardest Way, com a participação de Howard Jones (Light the Torch, ex- Killswitch Engage), é o principal exemplo. No entanto, o pula-pula no fim de American Made não é nada que o próprio Twisted Sister não tenha feito um sem-número de vezes, assim como a levada contagiante e a pegada nervosa de Roll Over You (que riff!) e de Running Mazes sempre foram uma referência na carreira de Snider.

Esse apelo a uma nova geração, digamos assim, está na participação de Alissa White-Gluz (Arch Enemy) em Dead Hearts (Love Thy Enemy), que começa acústica, com a vocalista cantando limpo, e depois vira heavy metal de primeira grandeza – e a combinação das vozes de Alissa e Snider ficou muito, muito boa. Ou seja, não há nada a temer. Além de tudo isso, se o fã quiser metal dos anos 80, I’m Ready está aqui para agradá-lo; se quiser reviver aquele lado mais acessível e hard rock do Twisted Sister, Become the Storm tem jeitão de hit e um dos melhores refrãos do álbum; e se quiser um hino, então pode ficar com a faixa-título. Pesada, melódica e também moderna, For the Love of Metal, a música, é uma declaração absolutamente verdadeira. E quem gosta de heavy metal tem que reverenciar Dee Snider. Mais uma vez.


Faixas
1. Lies Are a Business
2. Tomorrow’s No Concern
3. I Am the Hurricane
4. American Made
5. Roll Over You
6. I’m Ready
7. Running Mazes
8. Mask
9. Become the Storm
10. The Hardest Way
11. Dead Hearts (Love Thy Enemy)
12. For the Love of Metal

Músicos
Dee Snider – vocal
Charlie Bellmore – guitarra e baixo
Nicky Bellmore – bateria


Convidados especiais
Alissa White-Gluz – vocal (faixa 11)
Howard Jones – vocal (faixa 10)
Joey Conception – guitarra (faixa 6)
Tanya O’Callaghan – baixo (faixas 5 e 10)

Lançamento: 27/07/2018

Produção: Jamey Jasta
Mixagem: Nicky Bellmore (coprodutor)

Red Dragon Cartel – Patina

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Quando Jake E. Lee apareceu no videoclipe de We Come Undone, do Beggars & Thieves, no fim de 2011, a reação foi tão positiva que os fãs passaram a sonhar com a possibilidade de ele sair do exílio e voltar a fazer música. Efetivamente, porque o guitarrista não lançava nada desde Retraced (2005), o álbum de covers que não o tirou de casa, assim como seu primeiro disco solo, o instrumental A Fine Pink Mist (1996), também não o fez voltar aos palcos. Tirando uma ou outra aparição surpresa e relâmpago em Las Vegas, onde reside, Lee estava longe dos holofotes e do grande público havia quase 20 anos.

Mas aquele clipe e um empurrãozinho de Kevin Churko e de Ronnie Mancuso – produtor e guitarrista/baixista do Beggars & Thieves, respectivamente – deram resultado: três anos depois, Lee estava de volta com o Red Dragon Cartel. No entanto, se você torceu o nariz para o homônimo disco de estreia, que chegou às lojas em 2014, saiba que Patina é exatamente o que o single/videoclipe Havana entregou: um Jake E. Lee old school, à la Badlands. E não foi apenas a sonoridade mais moderna que ficou para trás, porque a produção de primeira também remete ao passado, com um toque especial de Max Norman na mixagem – ele e Lee trabalharam juntos em Bark at the Moon (1983), de Ozzy Osbourne.


Apoiado por uma nova e ótima cozinha – Anthony Esposito (baixo, ex-Lynch Mob e Ace Frehley) e Phil Varone (bateria, ex-Skid Row) –, o gênio das seis cordas fez um álbum para emocionar o fã. E o início do álbum é arrasador: Speedbag tem nuances de guitarra que vão muito além do ótimo riff palhetado, além de um trabalho tribal bem interessante de Varone; e Havana entrega mais um riff sensacional para rivalizar com o solo debulhador, cheio de feeling e com direito a wah-wah no fim. As duas apontam o caminho pelo qual seguem mais algumas canções empolgantes: Bitter, com um baita riff funkeado, e Punchclown, que mostra a todos como esse cara toca bonito demais…

Aliás, Lee se divide entre largar os dedos no braço da guitarra – ouça The Luxury of Breathing, que tem algo de Dusk (1998), as demos do que seria o terceiro trabalho do Badlands, mas que acabaram virando CD anos depois – e mostrar um feeling de arrepiar, como na bonita A Painted Heart, que destaca também as linhas de baixo – vale ressaltar: Esposito coproduziu o disco e coescreveu as músicas com Lee, ou seja, virou o homem de confiança do chefe. Mas, no geral, o trabalho de guitarra tem tantos detalhes que vale ouvir o álbum com fones de ouvido. Experimente fazer isso nas ótimas Crooked Man, mais arrastada, e My Beautiful Mess, com toques de psicodelia.

No entanto, é a excelente Ink & Water que melhor ilustra o trabalho de Lee no disco: com toques de jazz e surf music, também pede a ouvidos mais atentos a percepção de uma das técnicas peculiares do guitarrista: criar melodias batendo com os dedos da mão direita nas cordas logo acima dos captadores, como em Fool Like You, de The Ultimate Sin (1986), seu último trabalho com Ozzy. Ah, e não pense que esqueci: tão criticado, especialmente por causa de sua péssima estreia ao vivo, Darren James Smith segue no comando do microfone, mas parece outro vocalista, mais seguro, confiante mesmo. Ouça a belíssima Chasing Ghosts, na qual ele gravou várias camadas de voz, e entenda por que Lee insistiu em mantê-lo. Valeu a pena. O novo Red Dragon Cartel e Patina não são o Badlands – nunca qualquer outra coisa será –, mas é um lindo presente de um dos melhores e mais criativos guitarristas do hard rock.


Faixas
1. Speedbag
2. Havana
3. Crooked Man
4. The Luxury of Breathing
5. Bitter
6. Chasing Ghosts
7. A Painted Heart
8. Punchclown
9. My Beautiful Mess
10. Ink & Water

Banda
Darren James Smith – vocal
Jake E. Lee – guitarra
Anthony Esposito – baixo
Phil Varone – bateria


Lançamento: 09/11/2018

Produção: Anthony Esposito e Jake E. Lee
Mixagem: Max Norman

Electric Boys – The Ghost War Diaries

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Depois de Starflight United, minha expectativa para o novo disco do Electric Boys atingiu índices estratosféricos. Culpa de Conny Bloom (vocal e guitarra), Franco Santunione (guitarra), Andy Christell (baixo) e Niclas Sigevall (bateria), que fizeram o melhor álbum de 2014 – a banda agora conta com um segundo baterista, Jolle Atlagic, que tocou com Bloom e Christell nos últimos dois anos de vida do Hanoi Rocks, em 2008 e 2009 (o vocalista e guitarrista estava ao lado de Michael Monroe na lendária banda finlandesa desde 2004, e o baixista, desde 2005). Mas os caras conseguiram de novo, e The Ghost War Diaries vicia mais que assistir a séries no Netflix.

Arrasa-quarteirão movido a riff e refrão matadores, Hangover in Hannover começa quebrando tudo, mas aí a banda resolver apelar ainda mais com três joias: There She Goes Again tem um refrão tão bom, mas tão bom que merece até momento solo, com a voz de Bloom e os vocais de apoio num acento até gospel; a radiofônica You Spark My Heart seria um enorme hit se o mundo fosse justo; e Love is a Funny Feeling é uma aula de funk metal com direito a orquestração e backing vocals femininos fabulosos, cortesia de Anna Thorsson-Foyen e Annie Kratz-Gutå. É inacreditável como esses caras fazem músicas empolgantes, e só essas quatro já valeriam o CD, mas a peteca não cai de jeito nenhum.


Tente resistir a Gone Gone Gone, por exemplo. Ela ameaça uma balada, mas embala com uma guitarra cheia de suingue, aquele Hammond bem encaixado, muito de Beatles e uma seção instrumental bem anos 70 durante o solo. E por falar nos Fab Four, ouça Knocked Out By Tyson e imagine como seria se Paul, John, George e Ringo caíssem no funk rock. E First the Money, Then the Honey? Mais uma canção cheia de groove e com refrão pegajoso, feita para dançar e pular. Calma que tem mais: Rich Man, Poor Man mistura o lado acústico do blues, com direito a uso do slide, com o groove do funk, resultando num refrão típico do Electric Boys – ou seja, formidável –, mas com algo de Aerosmith.

Com riffs de guitarra e de baixo grudentos, até a instrumental Swampmotofrog é para chacoalhar o esqueleto Aliás, é como se ela fosse a continuação de Sometimes U Gotta Go Look for the Car, do excelente And Them Boys Done Swang (2011), só que trocando a letra (apenas o título da música cantado algumas vezes por Bloom) por novos elementos musicais, como um pouco de progressivo. E assim como Starflight United tem um desfecho épico, com 59 High Mountain St., o novo álbum não fica para trás: música mais longa do CD, One of the Fallen Angels carrega passagens mais intimistas e tem um fim meio fantasmagórico. Desde a sua volta à ativa em 2009, com a formação original e depois de um hiato de 15 anos, o Electric Boys não erra uma. Na boa, pare agora o que você está fazendo e vá atrás de The Ghost War Diaries.


Faixas
1. Hangover in Hannover
2. There She Goes Again
3. You Spark My Heart
4. Love is a Funny Feeling
5. Gone Gone Gone
6. Swampmotofrog
7. First the Money, Then the Honey
8. Rich Man, Poor Man
9. Knocked Out By Tyson
10. One of yhe Fallen Angels

Banda
Conny Bloom – vocal e guitarra
Franco Santunione – guitarra
Andy Christell – baixo
Niclas Sigevall – bateria (faixas 1, 2, 3, 5, 6, 7 e 10)
Jolle Atlagic – bateria (faixas 4, 8 e 9)

Lançamento: 23/11/2018

Produção e mixagem: David Castillo

2018 in review: BR

Ao contrário do ano passado (confira aqui como foi), a retrospectiva de 2018 foi dividida entre discos internacionais e nacionais: os trabalhos de artistas brasileiros saíram do Top 20 para formar um Top 5. A lista, na verdade, teria dez títulos, mas a missão foi abortada porque (i) dois deles foram originalmente lançados em 2017 – os álbuns de estreia do Galactic Gulag, To the Stars By Hard Ways, e do Blind Horse, Patagonia –, apesar de a divulgação de ambos ter sido efetivamente feita no ano seguinte; e (ii) um CD em potencial – Imortal, do Azul Limão – chegou às lojas no apagar das luzes. Assim sendo, entre todos os que tiveram a devida audição da casa ao longo de 2018, os cinco melhores são:

#5 Corsair (LIVING LOUDER) – O power trio paulista continua bebendo na fonte do rock dos anos 60 e 70, e o seu segundo álbum mostra grande evolução um ano depois do homônimo disco de estreia. Nas músicas e na produção (clique aqui para ler a resenha).


#4 Inverno Mineiro (KHADHU CAPANEMA) – Baixista e vocalista do Cartoon, o multi-instrumentista mostra em seu primeiro trabalho solo, bem pessoal, a inquietude musical que faz da banda mineira parte da vida inteligente do rock progressivo (clique aqui para ler a resenha).


#3 Postcards from the Black Sun (SIXTY-NINE CRASH) – Sem medo de arriscar, a banda carioca trocou o lado glam e sleaze do hard rock por uma sonoridade mais pesada e moderna. E acertou em cheio num trabalho denso e contagiante (clique aqui para ler a resenha).


#2 Scourge of the Enthroned (KRISIUN) – Um dos grandes orgulhos do metal brasileiro e um dos maiores nomes do death metal. Pule de dez a cada lançamento, o trio gaúcho voltou aos anos dourados do estilo para uma aula de brutalidade e melodia (clique aqui para ler a resenha).


#1 ØMNI (ANGRA) – Assim como nas eras Andre Matos e Edu Falaschi, o Angra faz na gestão Fabio Lione um de seus discos definitivos. O melhor da banda em 14 anos, diga-se, e com uma convidada que valeu também todo o marketing orgânico (clique aqui para ler a resenha).


MÉTODO DE AVALIAÇÃO

Quebre, Passe longe, Vale a audição, Divirta-se, Pode comprar e Obrigatório. O que isso quer dizer para quem lê as resenhas publicadas visando à retrospectiva 2018 (e todas as outras a partir de agora)? Que o leitor deve decidir por ele mesmo se o CD deve passar batido ou ir direto para a sua coleção. Por quê? Porque a resenha traduz a opinião de quem escreve. Goste ou não o fã, resenha de disco sempre foi, continua sendo e sempre será a opinião do autor. No entanto, como dar nota é algo que nunca foi do agrado da casa, a saída foi arrumar alguns quesitos. Com um toque de diversão.

Quebre é apenas figura de linguagem, obviamente, e Obrigatório não significa necessariamente que o álbum é nota 10. Levando-se em consideração os dois extremos da avaliação, são apenas dicas de que ou o trabalho serve apenas para pegar poeira na estante, no caso de você fazer questão de ter a coleção completa, ou é indispensável para quem curte o estilo e/ou a banda. E as outras quatro categorias? Com as plataformas de streaming, você pode conferir o disco e aí concordar ou discordar. No entanto, sempre que puder, compre o produto físico e original. Quem faz música e vive dela agradece.

The Dead Daisies – Burn it Down

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Quem diria que aquele projeto idealizado pelo guitarrista David Lowy em 2013, ao lado do vocalista Jon Stevens, se tornaria uma das melhores bandas de rock que você pode encontrar por aí. A quantidade de músicos que já passou pelo The Dead Daisies não cabe nos dedos das mãos e dos pés, mas sejamos sinceros: foi com a entrada de John Corabi em 2015 que o grupo subiu vários degraus, porque Revolución coloca no bolso o homônimo álbum de estreia, lançado dois anos antes. É bom demais ver um músico tão talentoso como o ex-vocalista do Mötley Crüe e do Union finalmente bem parado. Aí veio Doug Aldrich (ex-Dio, Whitesnake e um monte de outros nomes) para levar o trabalho de guitarra a um patamar ainda mais alto, afinal, ele chegou para substituir Richard Fortus e também Dizzy Reed (tecladista). E Make Some Noise (2016) fez tanto barulho que rendeu o ao vivo Live & Louder (2017), ambos também obrigatórios.

E houve mais uma mudança de formação, mas a entrada de Deen Castronovo no lugar de Brian Tichy não é a razão de Burn it Down ser um novo passo à frente. O novo dono das baquetas é um gênio, mas o que ele, Lowy, Corabi, Aldrich e Marco Mendoza (baixo) fizeram foi não se repetir para continuar a ascensão com grandes discos. O time de composição permaneceu intacto, incluindo o produtor Marti Frederiksen, e o quarto trabalho apenas pegou o hard rock dos anteriores e o repaginou com um rock’n’roll visceral e mais sujo, sem perder a veia dos anos 60 e 70 que permeia a sonoridade da banda.


Isso pode ser explicado nos covers da vez, a começar na ótima versão de Revolution, dos Beatles, na qual o respeito ao clássico dos Fab Four está na pegada mais pesada comandada por Castronovo e na interpretação de Corabi. E há Bitch, dos Rolling Stones, mas a história é diferente. Ou quase, já que o quinteto se saiu muito melhor do que os próprios autores – o que, convenhamos, não é nenhuma novidade. Que o digam Grand Funk, KISS, Gov’t Mule e Montrose, por exemplo.

O mais legal, no entanto, é saber que se trata de diversão, uma vez que o Dead Daisies é capaz de forjar seus próprios clássicos. Primeiro single, Rise Up já virou hino não oficial da NASCAR em 2018, e o álbum tem caixa para mais, porque Dead and Gone é espetacular de tão grudenta – não é todo mundo que insere ‘yeah!’ num refrão e se dá bem. Mas seria injusto dizer que são as duas melhores canções de Burn it Down, já que a faixa-título é um baita de um hard blues, enquanto Judgment Day dá sequência até se tornar um hard mais pesado. E tudo isso é embalado pelos principais predicados do trabalho: melodias vocais, refrãos para cantar com vontade e um show de Aldrich nas seis cordas (riffs e solos). Contenha-se ao ouvir What Goes Around e Leave Me Alone; abra o sorriso com Set Me Free, bela balada com clima anos 70; e lembre-se de Aerosmith nas destruidoras Resurrected e Can’t Take it With You. Depois faça tudo de novo.


Faixas
1. Resurrected
2. Rise Up
3. Burn it Down
4. Judgement Day
5. What Goes Around
6. Bitch
7. Set Me Free
8. Dead And Gone
9. Can’t Take it with You
10. Leave Me Alone
11. Revolution (faixa bônus)

Banda
John Corabi – vocal
David Lowy – guitarra
Doug Aldrich – guitarra
Marco Mendoza – baixo
Deen Castronovo – bateria


Lançamento: 06/04/2018

Produção: Marti Frederiksen
Mixagem: Anthony Focx

Metal Church – Damned if You Do

Por Daniel Dutra | Fotos: Melissa Castro/Divulgação

O Metal Church conseguiu de novo. Damned if You Do fica um pouco atrás de “XI” (2016), talvez porque sua audição não venha acompanhada da empolgação com o retorno de Mike Howe, mas o 12º disco de estúdio do quinteto é matador! Mais uma vez. E com um detalhe que traz um sabor todo especial: exala anos 80. Não apenas na produção deliciosamente orgânica do guitarrista Kurdt Vanderhoof, desde sempre o líder e principal compositor da banda, mas também em músicas que resgatam aquela década, como as ótimas The Black Things e Rot Away. Mas o bicho pega mesmo nas excelentes Out of Balance e The War Electric, porque, meu amigo, elas são de arrepiar quem gastou os vinis Metal Church (1984) e The Dark (1986) de tanto ouvi-los três décadas atrás.

Elas têm todos os elementos que transformaram aqueles dois álbuns em clássicos absolutos do heavy metal, mas com a roupagem da segunda e maravilhosa fase do Metal Church, de 1988 a 1995, exatamente com Howe nos vocais. Sim, os anos antes do primeiro hiato do grupo são fortemente representados em canções que poderiam ter saído dos primeiros três trabalhos com o então jovem vocalista cabeludo e loiro. Mais rápida e com aquele riff palhetado sempre funcional, Guillotine parece irmã de Conductor, do infelizmente subestimado Hanging in the Balance (1993), enquanto Into the Fold poderia ter saído de Blessing in Disguise (1989), e Monkey Finger, de The Human Factor (1991).


Monkey Finger, aliás, apresenta todo o groove que a banda ganhou com a entrada de Howe no lugar do saudoso David Wayne (1958-2005). E não deixa de ser curioso que, com Damned if You Do, Howe – que sempre foi um favorito dos fãs – passe a ser a maior voz na história do Metal Church: são cinco discos gravados contra quatro de Ronny Munroe, com quem o grupo teve seus momentos menos inspirados, e três de Wayne. Com pinta de comemoração do feito, a faixa-título, lançada pouco menos de um mês antes como primeiro single e videoclipe, já tinha dado uma amostra do poder de fogo. Mas aqui, como abertura do CD, vira um poderoso novo cartão de visitas com seu riff destruidor (Vanderhoof tem uma mão direita de muito respeito) e um refrão para castigar os pulmões.

Como se não bastasse tudo isso, o álbum ainda nos reserva duas das melhores músicas do Metal Church: By the Numbers, que já virou clipe (hilário, por sinal), é simplesmente sensacional, com mais um riff contagiante e uma baita linha vocal enriquecida pela performance nervosa de Howe; e Revolution Underway, por sua vez com um instrumental cheio de mudanças e belas passagens, nas quais brilham o guitarrista Rick Van Zandt, o sólido baixista Steve Unger e, principalmente, o batera Stet Howland. Na banda desde abril de 2017, quando entrou na vaga de Jeff Plate (Trans-Siberian Orchestra e Savatage), o ex-W.A.S.P. é uma verdadeira usina de força. Depois de vencer um câncer no início de 2018, Howland espanca o kit como se sua vida dependesse disso. E faz bonito. Gosta de heavy metal? Então, Damned if You Do é um item indispensável à sua coleção.


Faixas
1. Damned if You Do
2. The Black Things
3. By the Numbers
4. Revolution Underway
5. Guillotine
6. Rot Away
7. Into the Fold
8. Monkey Finger
9. Out of Balance
10. The War Electric

Banda
Mike Howe – vocal
Kurdt Vanderhoof – guitarra
Rick Van Zandt – guitarra
Steve Unger – baixo
Stet Howland – bateria


Lançamento: 07/12/2018

Produção: Kurdt Vanderhoof

Kamelot – The Shadow Theory

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Se você está lendo esta resenha, então posso imaginar que seja um fã do Kamelot. Sendo assim, pergunto: gostou de Silverthorn (2012) e Haven (2015)? Se a resposta for positiva, pode sair correndo para comprar The Shadow Theory, porque é preciso dizer que Tommy Karevik (vocal), Thomas Youngblood (guitarra), Sean Tibbetts (baixo) e Oliver Palotai (teclados) resolveram abrir mão dos experimentos elementos mais modernos e até industriais, presentes no álbum anterior – o novato Johan Nunez (bateria) completa oficialmente a formação. Ou seja, quem é fã vai abrir um sorriso ainda maior no rosto com esse retorno às raízes. Isso fica latente logo em Phantom Divine (Shadow Empire), com um daqueles refrãos que a banda saber moldar como poucas no estilo, e que aqui ganhou a participação de Lauren Hart (Once Human) tanto no vocal limpo quanto no gutural.

Curiosamente, a canção é uma das várias em que Youngblood nos brinda com solos. O mentor do Kamelot andava bem econômico nesse sentido, mas resolveu usar a mão esquerda para fazer mais do que riffs, tanto que levou Palotai com ele. Há ótimos duelos de guitarra e teclados, o que deveria ser via de regra, em Kevlar Skin, que tem um baita riff mais pesado na parte cadenciada, e The Proud and the Broken, esta com um bonito interlúdio de piano e voz, numa grande performance de Karevik. Em Vespertine (My Crimson Bride), porém, Youngblood e seus dedos dividem os holofotes com os pés e as mãos de Nunez, que mostra personalidade ao fugir um pouco da linha rítmica construída durante mais de duas décadas por Casey Grillo (hoje no Queensrÿche) – em tempo: uma lesão na perna fez Nunez ser temporariamente substituído por Alex Landenburg (Luca Turilli’s Rhapsody).


O desapego em relação aos elementos adicionados em Haven, no entanto, não foi total. Amnesiac e, principalmente, MindFall Remedy carregam um pouco de modernidade em relação ao estilo do Kamelot. E as duas são um contraste: enquanto a primeira tem cara de hit, graças a refrão e melodia vocal mais palatáveis, a segunda traz aqueles ruídos que não assustam, mas que desagradaram a alguns fãs, e novos vocais guturais a cargo de Lauren – e ambas as faixas têm solos, diga-se. E esses toques mais modernos se fazem necessários, uma vez que o conceito de futuro distópico apresentado em Haven ganhou continuidade. Desta vez, com foco no ser humano, partindo da Teoria das Sombras, do psiquiatra suíço Carl Jung (1875-1961).

Ao abordar o lado negro do ser humano, que deve aceitá-lo para não ser totalmente abraçado pela escuridão, o Kamelot fez novamente um disco difícil para mentes preguiçosas – até porque envolve desvios morais e éticos cada vez mais presentes em nosso dia a dia, infelizmente. Mas a abordagem dos temas é feita com uma roupagem musical que resultou no melhor trabalho do Kamelot com Karevik nos vocais. Se não, vejamos: a ótima Static é mais um exemplo, com melodias, incluindo a vocal, que fazem jus ao belíssimo início com piano e orquestração. E a fantástica Burns to Embrace? Um solo bonito e mais melódico; mudanças de andamento com um criativo trabalho de Nunez; e, melhor de tudo, um coro infantil – com participação de Thomas Dalton, filho de Youngblood – que fecha a canção com ar de grandiosidade.

E se é o melhor dos três álbuns com Karevik, o cara que substituiu Roy Khan também tem que justificar mais um pouco a avaliação, certo? Pois bem, ouça a bela Stories Unheard e a excelente RavenLight, esta com arranjos caprichados de Palotai, que ainda mete mais um duelo com a guitarra – braço-direito de Youngblood, o tecladista é o corresponsável pelo ideal clima cinematográfico da introdução The Mission e da instrumental Ministrium (Shadow Key), que fecha o CD. Dito tudo isso, somente In Twilight Hours já valeria The Shadow Theory por inteiro. Com a participação de Jennifer Haben (Beyond the Twilight) num dueto com Karevik, a canção é uma daquelas baladas elegantes que poucos têm a manha de fazer. Manha que o Kamelot levou a outro patamar desde a chegada do vocalista. Vide Song for Jolee e Under Grey Skies. Se você leu a resenha e nunca ouviu o som do Kamelot, pode começar por aí.


Faixas
1. The Mission
2. Phantom Divine (Shadow Empire)
3. RavenLight
4. Amnesiac
5. Burns to Embrace
6. In Twilight Hours
7. Kevlar Skin
8. Static
9. MindFall Remedy
10. Stories Unheard
11. Vespertine (My Crimson Bride)
12. The Proud and the Broken
13. Ministrium (Shadow Key)


Banda
Tommy Karevik – vocal
Thomas Youngblood – guitarra
Sean Tibbetts – baixo
Oliver Palotai – teclados
Johan Nunez – bateria

Convidados especiais
Lauren Hart – vocal
Jennifer Haben – vocal


Lançamento: 06/04/2018

Produção e mixagem: Sascha Paeth

Gioeli – Castronovo – Set the World on Fire

Por Daniel Dutra | Fotos: Johnny Pixel/Divulgação

Vinte e cinco anos depois de Double Eclipse, o disco de estreia do Hardline, Johnny Gioeli e Deen Castronovo voltaram a juntar forças. E o som não fica muito distante daquele exercido em 1992, apesar de a tendência ao AOR ser muito maior… Bom, sabe qual é a gravadora responsável pelo lançamento do CD? Pois é, e a Frontiers acertou de novo em mais uma empreitada do presidente do selo italiano, Serafino Perugino, com a mão de obra de Alessandro Del Vecchio (Hardline e Jorn, ex-Voodoo Circle e mais um monte de bandas) – faz-tudo, o tecladista produziu Set the World on Fire e basicamente compôs quase todo o álbum, à exceção de dois covers e uma música feita por Jim Peterik (sim, o cara que fez Eye of the Tiger, do Survivor).

Mas as canções e o instrumental afiado – aqui cortesia não apenas de Del Vecchio, mas também de Mario Percudani (guitarra) e Nik Mazzucconi (baixo) – são a deixa para Gioeli e Castronovo (responsável pela bateria, obviamente) fazerem de Set the World on Fire um grande trabalho de dois ótimos vocalistas. Para começar, a dupla é ajudada por refrãos deliciosamente grudentos, como fica claro no puro AOR Mother e nas semibaladas Through e Who I Am, esta com um toque ainda mais pop. As duas últimas, aliás, falam da amizade entre os dois, principalmente do apoio de Gioeli no momento mais difícil da vida de Castronovo, quando este chegou ao fundo do poço por causa das drogas.


Recuperado e sóbrio, felizmente, o batera que também canta (e muito) deixa o período nebuloso para trás com uma química de dar gosto com o vocalista de fato. A combinação de suas vozes é igualmente perfeita em Fall Like an Angel, Run for Your Life, Remember Me e Set the World on Fire, todas quatro misturando com maestria o AOR com o hard rock mais tradicional, uma vez que os teclados e as guitarras não tentam roubar a cena – o solo de Percudani em Fall Like an Angel faz bonito sem precisar se estender. Do início ao fim, a preocupação é entregar um álbum de grandes canções enriquecidas por duas gargantas privilegiadas.

E é por isso que a dupla ainda tem espaço para brilhar cada um por conta própria. Castronovo manda ver na hard Ride of Your Life, a canção escrita por Petrik (por isso mesmo, completamente anos 80), e na power ballad Walk With Me. Gioeli, por sua vez, ganhou três canções de presente: as baladinhas It’s All About You, mais uma com belos solos, e Let Me Out, cover do The Veronicas originalmente gravado no homônimo disco lançado em 2014 – diga-se: o grupo é liderado pelas irmãs gêmeas australianas Jess Origliasso e Lisa Origliasso.

A versão com mais ênfase no violão ficou ótima, mas sensacional mesmo ficou a de Need You Now, hit gravado em 2010 pela Lady Antebellum, banda americana de pop country. E como ela pede uma voz feminina para dar vida à letra, Gioeli teve a companhia de Giorgia Colleluori – vocalista italiana que divide o microfone com o compatriota Fabio Lione no Eternal Idol – para um dueto de encher os olhos. Um dos 12 exemplos que fazem de Set the World on Fire um CD que teima em não sair do aparelho – ou de um trabalho que vai ficar em looping na sua plataforma de streaming favorita.


Faixas
1. Set the World on Fire
2. Through
3. Who I Am
4. Fall Like an Angel
5. It’s All About You
6. Need You Now
7. Ride of Your Life
8. Mother
9. Walk With Me
10. Run for Your Life
11. Remember Me
12. Let Me Out


Banda
Johnny Gioeli – vocal
Deen Castronovo – vocal e bateria
Alessandro Del Vecchio – teclados
Mario Percudani – guitarra
Nik Mazzucconi – baixo


Convidados
Manato Raoul Christian Navarro – violão
Giorgia Colleluori – vocal

Lançamento: 13/07/2018

Produção e mixagem: Alessandro Del Vecchio