Ghost – Prequelle

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Prequelle figurou como o melhor disco de heavy metal de 2018 em vários lugares mundo afora, e isso não é nenhum exagero, acredite. Principalmente se a eleição for um compilado das escolhas individuais, porque é muito difícil deixar o quarto álbum de estúdio do Ghost fora de qualquer lista – a posição, claro, varia de acordo com o gosto pessoal, afinal, lista é como resenha: opinião. Mas o interessante de tudo é que a banda liderada por Tobias Forge conseguiu romper uma barreira num mundo conservador como o do rock pesado, porque as referências de música pop – mas pop mesmo, como Pet Shop Boys, que teve It’s a Sin regravada para uma edição exclusiva do CD – foram bem aceitas. Felizmente, porque o grupo está conseguindo, guardadas as devidas proporções, manter um pouco de metal no mainstream.

Mas, enfim, o fato é que Prequelle é bom demais, e chega a ser curioso que Forge tenha conseguido elevar ainda mais o nível do Ghost depois das polêmicas com ex-integrantes e do fim do mistério da sua identidade. Apesar de o Papa Nihil ainda estar presente, conceitualmente, Forge deu fim a uma linhagem de Papas – depois dos Papa Emeritus I, II e III – e surgiu com a figura do Cardinal Copia. Acabou o segredo, mas o teatro ainda funciona muito bem. Assim como a música da banda sueca. Depois da introdução Ashes, por exemplo, vem uma trinca arrasadora.


Rats tem uma levada sensacional, enriquecida por um baita riff heavy rock e uma ponte bem pop, que abre caminho para um refrão simples e um corinho funcional. Mais uma com um riff maneiríssimo – e desta vez o trabalho de guitarra acompanha solos bem sacados –, Faith tem umas paradinhas à la King Diamond no refrão, além de ir do pop ao metal com facilidade depois do primeiro refrão. Para fechar, See the Light soa como um pop prog dos anos 80, com uma melodia vocal viciante. As três canções são ótimas e mostram que é tudo muito bem construído, muito bem pensado.

Mas nem tudo são flores. Pro Memoria, por exemplo, é um tanto quanto cansativa em seus quase seis minutos de duração. Ironicamente, sua melodia serve de base para a excelente instrumental Helvetesfönster, uma peça progressiva com a participação de Mikael Åkerfeldt (Opeth) no violão – um dos vários convidados no disco, é bom ressaltar, mas definitivamente o mais conhecido. E por falar em instrumental, o Ghost acerta de novo com Miasma, que tem cara de trilha sonora de filme e detalhes que realmente fazem a diferença: os teclados de Salem Al Fakir, o solo de sax de Gavin Fitzjohn e um riff que lembra, intencionalmente ou não, Beat it, de Michael Jackson.


A rigor, apenas Pro Memoria e Witch Image não se destacam tanto. Esta última, na verdade, por ser quase uma Dance Macabre, mas ser um déjà vu de uma das melhores obras do Ghost merece perdão: esta trata-se de um hard pop dos anos 80, com um refrão irresistível e enorme jeito de hit. Maravilhosa. Sabe aquela pessoa que odeia heavy metal ou faz carinha de nojo porque o Ghost é, vá lá, satânico? Coloque Dance Macabre para ela ouvir e diga que é uma nova banda americana que estourou nas rádios dos EUA e da Europa. Depois, emende com Life Eternal – bonita, muito bonita! – e, em seguida, mostre a capa de Prequelle. Pronto. Você vai poder lembrá-la pelo resto da vida do erro que é o preconceito.

Faixas
1. Ashes
2. Rats
3. Faith
4. See the Light
5. Miasma
6. Dance Macabre
7. Pro Memoria
8. Witch Image
9. Helvetesfönster
10. Life Eternal

Banda
Cardinal Copia
Group of Nameless Ghouls
Papa Nihil

Lançamento: 01/06/2018

Produção: Tom Dalgety
Mixagem: Andy Wallace

Saxon – Thunderbolt

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Não é de hoje que o Saxon vem mostrando uma regularidade impressionante, mas parece que a banda entrou rejuvenescida na década de 2010, numa escalada que resultou em seu melhor álbum no mesmo período. Curiosamente, Biff Byford (vocal), Paul Quinn e Doug Scarratt (guitarras), Nibbs Carter (baixo) e Nigel Glockler (bateria) foram enaltecidos ao lado de outros grupos veteranos do heavy metal que soltaram novos trabalhos em 2018. Muito justo, até porque Thunderbolt é o melhor entre todos os lançados pelos quarentões (ou quase cinquentões) no ano que passou.

É só ouvir a faixa-título para perceber o poder de fogo dos ingleses. É metal tradicional de excelência, com um refrão pronto para os shows. Aliás, não falta material feito especialmente para os pés, garganta e pescoço dos fãs. Quer mais um refrão poderoso? Fique com a ótima e animada Speed Merchants. Quer mais animação? Escute Roadie’s Song, baita canção – e homenagem, sacou o titulo? – com três ingredientes saborosos: paradinhas para a plateia se esgoelar num grito de “hei!”; as viradas mágicas de Glockler; e um grande riff de guitarra, porque, lembre-se, aqui é heavy metal.


E é riff que você quer? Então fique com The Secret of Flight, que ainda traz de quebra uma baita melodia vocal e um solo de dar gosto, ou com duas das melhores canções de Thunderbolt: Sniper e Predator, porque elas são mesmo espetaculares, daquelas que têm um andamento tão contagioso que fazem você começar a bater cabeça sem perceber. A última, diga-se, ainda conta com Johan Hegg, do Amon Amarth, dividindo o microfone com Byford, e o resultado da união de duas vezes tão distintas, mas poderosas, ficou bom demais.

Claro, há momentos mais comuns, como a cadenciada A Wizard’s Tale, ou não tão comuns assim mesmo dentro da obviedade. É o caso da épica Nosferatu (The Vampires Waltz), cujo previsível clima fantasmagórico e assustador no instrumental foi feito com maestria. Tanto que a sua versão crua, que entrou no CD como faixa bônus, tem uma sonoridade mais metal, mas em boa parte do charme. Charme que não falta a Sons of Odin, muito graças ao bonito refrão e a um tema de guitarra cheio de feeling.


Por último, é impossível não reservar um parágrafo apenas para They Played Rock and Roll. Ela empata no pódio das melhores faixas de Thunderbolt, ao lado de Sniper e Predator, mas dá para dizer que leva vantagem num eventual desempate: é especial, e seu videoclipe, emocionante. O título lhe diz alguma coisa? Exatamente. Por razões sentimentais, pode ser a faixa para apresentar Thunderbolt, e ajuda o fato de ser arrasadora, fazendo jus aos homenageados Lemmy Kilmister e seu Motörhead. É um tributo a caráter – musicalmente, a canção tem a mesma estrutura rock’n’roll à la Motörhead –, remetendo à turnê que as duas bandas fizeram juntas no fim dos anos 70, início dos 80. Para ouvir sem parar.

Faixas
1. Olympus Rising
2. Thunderbolt
3. The Secret of Flight
4. Nosferatu (The Vampire’s Waltz)
5. They Played Rock and Roll
6. Predator
7. Sons of Odin
8. Sniper
9. A Wizard’s Tale
10. Speed Merchants
11. Roadie’s Song
12. Nosferatu (The Vampire’s Waltz) [Raw Version] (bônus)


Banda
Biff Byford – vocal
Paul Quinn – guitarra
Doug Scarratt – guitarra
Nibbs Carter – baixo
Nigel Glockler – bateria


Lançamento: 02/02/2018

Produção e mixagem: Andy Sneap

U.D.O. – Steelfactory

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Depois de Decadent (2015), Udo Dirkschneider deu um tempo no material autoral e caiu na estrada para dar um adeus aos inúmeros clássicos que gravou com o Accept. A turnê rendeu dois discos ao vivo – Live – Back to the Roots (2016) e Live – Back to the Roots – Accepted! (2017) , com a banda levando seu sobrenome –, e o retorno do baixinho às atividades com o U.D.O. foi marcado pelo lançamento de Steelfactory. Mas o 16º álbum de estúdio traz o vocalista e banda – Andrey Smirnov (guitarra), Fitty Wienhold (baixo) e Sven Dirkschneider (bateria) – soando mais Accept do que nunca.

Claro, a voz de Udo será sempre associada ao grupo alemão, mas aqui é o instrumental que traz mesmo as referências, porque, por incrível que pareça, nem mesmo o ótimo Animal House (1987) soa tão parecido – e olha que as composições do álbum de estreia são assinadas por Accept e Deaffy, o pseudônimo de Gaby Hoffmann, esposa de Wolf e empresária do quinteto. E entre as 15 faixas do CD, considerando as duas que entraram como bônus na versão digipack, essas referências são gritantes em pelo menos seis delas, como Tongue Reaper, que abre o disco chutando a porta: é rápida e tem um refrão forte.


Trata-se, na verdade, de um recurso que a ex-banda de Udo vem utilizando desde a volta, em 2009. Mas não é só de velocidade que se trata, já que a cadenciada One Heart One Soul fala a mesma língua. Mas se você ainda não está convencido, ouça Hungry and Angry – xerox colorida, autenticada e com firma reconhecida em cartório – ou Rising High – qualquer semelhança com Aiming High não parece ser mera coincidência. Pronto, agora pode fazer por você mesmo a associação ao passado na ótima Make the Move, que apresenta o grande destaque de Steelfactory: Smirnov, em um de seus solos de tirar o fôlego.

O guitarrista russo ainda incorpora Wolf Hoffmann, digamos assim, em Blood on Fire. Sabe os temas clássicos que o líder do Accept mete em algumas músicas? Tipo Für Elise, de Ludwig van Beethoven, em Metal Heart? Para não ficar tão descarado, o que rola no solo da melhor canção do novo álbum é o tango La Cumparsita, de Carlos Gardel. Ficou sensacional. E quando digo que Smirnov é, individualmente, o destaque, há outros exemplos: Eraser e The Devil is an Angel mostram muita técnica, e In the Heat of the Night apresenta versatilidade no violão bem encaixado entre as guitarras e um solo muito bonito.


Aliás, vale citar que o russo gravou todas as guitarras, uma vez que, segundo Udo, os outros guitarristas – primeiro o finlandês Kasperi Heikkinen, depois o brasileiro Bill Hudson – foram demitidos por não jogarem para o time. Dee Dammers foi anunciado como quinto membro, enquanto Wienhold deu adeus ao U.D.O. depois de 22 anos, sendo substituído por Tilen Hudrap. Com os dois novos integrantes, o grupo já está apresentando músicas como Keeper of My Soul, que tem uma ótima melodia vinda diretamente do Oriente Médio, algo que se repete em Raise the Game, e bem poderia acrescentar no repertório Rose in the Desert, que respira um pouco do hard rock dos anos 80, ou a balada The Way, cuja letra é praticamente uma biografia de Udo Dirkschneider – sem soar como uma despedida (como pode parecer), mas como um aviso de que ainda há mais por vir. Afinal, Steelfactory já está dominando o setlist, com sete músicas, e, claro, não tem mais Accept nos shows.

Faixas
1. Tongue Reaper
2. Make the Move
3. Keeper of My Soul
4. In the Heat of the Night
5. Raise the Game
6. Blood on Fire
7. Rising High
8. The Devil is an Angel (bônus)
9. Hungry and Angry
10. One Heart One Soul
11. Pictures in My Dreams (bônus)
12. A Bite of Evil
13. Eraser
14. Rose in the Desert
15. The Way


Banda
Udo Dirkschneider – vocal
Andrey Smirnov – guitarra
Fitty Wienhold – baixo
Sven Dirkschneider – bateria

Lançamento: 31/08/2018

Produção e mixagem: Jacob Hansen

Metal Allegiance – Volume II – Power Drunk Majesty

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Lembro-me de Mike Portnoy, em 2015, dando um teaser nas redes sociais do que seria o projeto mais extremo da sua carreira, com blast beats e por aí vai. Não demorou para a empreitada se revelar o supergrupo Metal Allegiance, idealizado pelo baixista Mark Menghi, que também havia recrutado David Ellefson (baixo, Megadeth) e Alex Skolnick (guitarra, Testament). Contando com vocalistas convidados, o quarteto levou a festa dos palcos para o estúdio, no mesmo ano, mas o disco de estreia, autointitulado, ficou devendo. É bem legal, sem dúvida, mas aquém da expectativa diante dos nomes envolvidos.

Introdução feita, a coisa mudou de figura com Volume II – Power Drunk Majesty. O roteiro é basicamente o mesmo: o quarteto continua compondo todas as músicas para que outros famosos emprestem a voz – e alguns até mesmo escrevem as letras –, e um ou outro ás da guitarra ainda dá o ar da graça em duelos com Skolnick. Porem, o fato é que o segundo álbum nasceu vários degraus acima. A principal diferença? Empolga do início ao fim. Não há uma música mais ou menos, e a primeira já entrega algo especial.


The Accuser começa com Skolnick fazendo o fã lembrar-se de Signs of Chaos, o solo que abre The Ritual (2002), quinto álbum do Testament. Depois, o pau come solto, o guitarrista divide solos com Andreas Kisser, e Trevor Strnad (The Black Dahlia Murder) ajuda a transformar tudo num thrash metal de primeira. O guitarrista do Sepultura ainda aparece na empolgante Mother of Sin, que tem algo de Slayer no riff da primeira parte cadenciada; um ótimo trecho instrumental cadenciado no meio, antes dos solos, e outro pronto para abrir roda na plateia; e, mais importante, uma interpretação matadora de Bobby Blitz (Overkill).

E por falar em guitarristas convidados, a banda foi mais econômica em Volume II – Power Drunk Majesty. Apenas três, em vez dos oito de Metal Allegiance, e Kisser é o único que deu bis. No entanto, as outras duas estrelas também são muito bem-vindas, a começar por um cara que muito lá atrás foi professor de Skolnick. Joe Satriani está em Power Drunk Majesty (Part II), cujo instrumental mais pesado contrasta não apenas com seu estilo, mas também com a voz angelical de Floor Jansen (Nightwish), que também solta a garganta com raiva e enriquece um dos melhores refrãos do álbum.


Em King With a Paper Crown, Skolnick e Nita Strauss (Alice Cooper) debulham em passagens instrumentais mais progressivas, mas a música é de uma riqueza de dar gosto: cheia de groove, tem umas paradinhas muito bem sacadas, principalmente quando Portnoy preenche alguns espaços com os bumbos. O microfone ficou a cargo de Johan Hegg (Amon Amorth), cuja voz soa ainda mais poderosa com os backings de Mark Osegueda, que, diga-se, é um dos dois cantores que reprisaram participação. Com uma performance de tirar o chapéu, mais uma vez, o vocalista do Death Angel está nas ótimas Power Drunk Majesty (Part I) – cuja passagem instrumental levada pelo baixo, no fim, remete levemente àquela de Rime of the Ancient Mariner, do Iron Maiden – e Impulse Control, na qual Skolnick também arrasa com riff e solos sensacionais.

O outro gogó com título de sócio-proprietário é Troy Sanders (Mastodon), que aparece em Liars & Thieves, canção com umas repetições instrumentais quase hipnóticas. Todas estas linhas já deveriam ser suficientes para fazê-lo ter Volume II – Power Drunk Majesty na coleção, mas anote aí três músicas que vão convencê-lo a comprar o CD assim que acabar de ler esta resenha: Terminal Illusion, com Mark Tornillo (Accept), e Bound By Silence, com John Bush (Armored Saint) são aquele heavy metal injetado na veia que faz qualquer um abrir o sorriso; e Voodoo of the Godsend é uma música especialmente feita para Max Cavalera (Soulfly e Cavalera Conspiracy), que escreveu a letra com várias referências a um passado já distante. E sua interpretação ficou animal. Convencido?


Faixas
1. The Accuser
2. Bound By Silence
3. Mother of Sin
4. Terminal Illusion
5. King With a Paper Crown
6. Voodoo of the Godsend
7. Liars & Thieves
8. Impulse Control
9. Power Drunk Majesty (Part I)
10. Power Drunk Majesty (Part II)


Banda
Alex Skolnick – guitarra
Mark Menghi – baixo
David Ellefson – baixo
Mike Portnoy – bateria

Convidados
Bobby Blitz – vocal
Floor Jansen – vocal
Johan Hegg – vocal
John Bush – vocal
Mark Osegueda – vocal
Mark Tornillo – vocal
Max Cavalera – vocal
Trevor Strnad – vocal
Troy Sanders – vocal
Andreas Kisser – guitarra
Joe Satriani – guitarra
Nita Strauss – guitarra

Lançamento: 07/09/2018

Produção: Alex Skolnick e Mark Menghi
Mixagem: Mark Lewis

Michael Schenker Fest – Resurrection

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

A ideia de juntar os três vocalistas originais do MSG, Gary Barden, Graham Bonnet e Robin McAuley, foi tão legal que o projeto rumou dos palcos para o estúdio. Com a adição de Doogie White, a voz do Michael Schenker’s Temple of Rock, o guitarrista alemão criou Resurection, o primeiro álbum de inéditas do Michael Schenker Fest. E como Chris Glen (baixo), Ted McKenna (bateria) e Steve Mann (teclados) completam a formação, tenha certeza de que o som é exatamente o heavy rock clássico que você esperava. No entanto, absolutamente atual e relevante para os dias de hoje.

Curiosamente, cada vocalista tem sua história muito bem representada em cada uma das músicas a que emprestou o talento e garganta. Pegue Everest, uma das duas com a voz de Bonnet, por exemplo. Ela poderia muito bem estar em Assault Attack (1982), o único disco que gravou com o Michael Schenker Group. O segundo frontman do MSG ainda brilha em Night Moods, uma das canções que, no geral, são uma viagem no tempo até a sonoridade do grupo nos anos 80, mas com uma roupagem atual que não assusta. E quase todos foram privilegiados com essa fusão.


Responsável pela fase mais bem-sucedida do MSG, comercialmente falando – à época, a banda mudou de nome para McAuley Schenker Group e gravou três discos de estúdio, Perfect Timing (1987), Save Yourself (1989) e M.S.G. (1991) –, McAuley resgata em Time Knows When it’s Time um pouco do lado acessível que fez muita gente torcer o nariz no fim daquela década. Injustamente, porque repare bem no ótimo refrão da canção e lembre-se que ele e Schenker fizeram muito isso no passado. Mas se é para abraçar o lado mais tradicional, fique com Heart and Soul, que ainda conta com a participação de Kirk Hammett (Metallica).

Único a gravar três músicas sozinho, White mostra a ponte entre o ontem e o hoje em The Girl With the Stars in Her Eyes, enquanto Anchors Away é uma bela continuação do trabalho que vinha realizando com Shenker no Temple of Rock – depois de gravar apenas um canção no homônimo CD de estreia, em 2011, ele assumiu o microfone de vez em Bridge the Gap (2013) e Spirit on a Mission (2015), E é White que, curiosamente, por ser o novato da turma de vocalistas, está na melhor música de Resurrection, a viciante Take Me to the Church.


Talvez não à toa, sejam bem mais tradicionais, digamos assim, as duas faixas com Barden – que, ainda jovem no fim dos anos 70, teve a missão de ser o vocalista da nova empreitada daquele genial e genioso ex-guitarrista do Scorpions e do UFO. Messing Around e Living a Life Worth Living, são aquele rock’n’roll movido a riffs de guitarra como se fazia lá no início do MSG, então você pode ouvi-las pensando em The Michael Schenker Group (1980), MSG (1981) e Built to Destroy (1983), o que diz muita coisa em relação à qualidade de cada uma.

Aliás, rock’n’roll movido a riffs e solo de guitarras… Os vocalistas são um atrativo, mas a festa tem dono (com o perdão do trocadilho). Schenker dá espaço para os convidados aparecerem, mas mostra brilho próprio do primeiro ao último seguinte, literalmente. Como na instrumental Salvation, na qual deixa um gostinho de quero mais ao largar o dedo justamente quando a canção vai acabando em fade out – e que timbre maravilhoso de guitarra o dele! O mesmo acontece em The Last Supper, uma das duas faixas com Barden, Bonnet, McAuley e White juntos, e um hard de primeira grandeza que acaba fazendo o fã pedir mais. E é Schenker quem salva a outra com as quatro vozes, porque Warrior não entusiasmou tanto quando foi lançada como primeiro single, mas nem de longe mostra o que é Resurrection. Ainda bem.


Faixas
1. Heart and Soul
2. Warrior
3. Take Me to the Church
4. Night Moods
5. The Girl With the Stars in Her Eyes
6. Everest
7. Messin’ Around
8. Time Knows When it’s Time
9. Anchors Away
10. Salvation
11. Livin’ a Life Worth Livin’
12. The Last Supper

Banda
Gary Barden – vocal
Graham Bonnet – vocal
Robin McAuley – vocal
Doogie White – vocal
Michael Schenker – guitarra
Chris Glen – baixo
Ted McKenna – bateria
Steve Mann – teclados

Lançamento: 02/03/2018

Produção: Michael Schenker e Michael Voss-Schoen
Mixagem: Michael Voss-Schoen

Phil Campbell and the Bastard Sons – The Age of Absurdity

Por Daniel Dutra | Fotos: Dan Sturgess/Divulgação

Depois de apenas uma audição de The Age of Absurdity, dá para dizer que o EP homônimo, lançado em 2016, não chegou nem mesmo a ser uma palinha do que estava por vir. Apesar de bem legais, aquelas cinco músicas não adiantaram o altíssimo nível do primeiro full-length do ex-guitarrista do Motörhead Phil Campbell ao lado dos filhos bastardos Neil Starr (vocal), Todd Campbell (guitarra), Tyla Campbell e Dane Campbell – obviamente, apenas os três últimos são filhos do homem, mas a licença poética pode e deve ser usada sem parcimônia.

Uma coisa, no entanto, Phil Campbell and the Bastard Sons havia entregado: há uma referência aqui, outra ali, mas o quinteto estava bem afastado da banda na qual Phil passou 31 anos de sua vida. Você quer Motörhead? Vai encontrar no espetacular riff do arrasa-quarteirão Ringleader, que abre o CD, mas, convenhamos, é algo cuja marca está registrada também em nome do guitarrista. Ainda tem Gypsy Kiss, com algo de punk rock que Lemmy e companhia faziam ganhar identidade própria, mas para por aí.


Com altas doses de peso, claro, o Phil Campbell and the Bastard Sons faz um rock’n’roll para chamar de seu. Sem firulas e com refrãos grudentos, como nas ótimas Freakshow, Welcome to Hell, Step Into the Fire e Get on Your Knees, esta um daqueles exemplos de canção que não deixam o ouvinte quieto. E sabe os riffs do veterano da turma? Como se rejuvenescido por uma nova geração, mesmo sendo uma que cresceu ouvindo seu trabalho, Phil abriu o arquivo para mostrar um arsenal bem diverso. Em uma mesma música, Skin and Bones, há um riff melhor que o outro. Todos sem fazer nenhuma remissão a não ser ao bom e velho rock’n’roll.

O álbum é dar gosto do início ao fim, mas é impossível não destacar quatro das suas faixas. High Rules, que entrega no refrão o nome do disco, cresce da introdução de baixo (com um som bonitão, é bom ressaltar) a riffs e melodias empolgantes; e a longa e cadenciada Into the Dark, que fecha o trabalho, mostra um grupo olhando com carinho para o rock progressivo, mas sem abandonar sua essência. Talvez seja por isso, aliás, que a música tenha o solo de guitarra que mais chama a atenção em toda a audição.


Dark Days tem um forte acento de blues enriquecido por um gaita esperta, tocada por Todd, um refresco para a curta e grossa Dropping the Needle, uma locomotiva que chega para destruir tudo em menos de dois minutos. Sua letra antidrogas, aliás, também é uma ode ao rock, e é nela que se sobressai o talento de Starr. Apenas os ingênuos esperariam um vocalista que emulasse Lemmy, e o frontman canta os clássicos do Motörhead (procure por vídeos no YouTube) com a personalidade que apresenta o próprio material. Sua voz é mais melódica, mas ele entrega também performances cheias de raiva. Que venho o próximo álbum.

Faixas
1. Ringleader
2. Freak Show
3. Skin and Bones
4. Gypsy Kiss
5. Welcome to Hell
6. Dark Days
7. Dropping the Needle
8. Step Into the Fire
9. Get on Your Knees
10. High Rule
11. Into the Dark
12. Silver Machine (bônus)


Banda
Neil Starr – vocal
Phil Campbell – guitarra
Todd Campbell – guitarra e gaita
Tyla Campbell – baixo
Dane Campbell – bateria

Lançamento: 26/01/2018

Produção e mixagem: Romesh Dodangoda

Black Label Society – Grimmest Hits

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Apesar de os fãs estarem esperando um novo trabalho para 2018, foi meio de surpresa. Quatro anos depois de Catacombs of the Black Vatican, o anúncio do novo álbum do Black Label Society teve esquema completo: enquanto os fãs ainda digeriam a turnê do Zakk Sabbath – projeto de Zakk Wylde com Rob “Blasko” Nicholson (baixo, Ozzy Osbourne) e Joey Castillo (bateria, ex- Queens of the Stone Age), cujo nome entrega o que o trio toca –, Grimmest Hits teve título (que fez muita gente achar que se tratava de uma coletânea), capa, track listing e data de lançamento divulgados de uma tacada só, tudo acompanhado do videoclipe do primeiro single, Room of Nightmares.

Um jeito bem old school, assim como é o próprio 11º disco de inéditas do BLS. Por quê? Bem, as referências ao Black Sabbath estão espalhadas por todo o trabalho, e não é só porque Wylde passou um tempo na estrada tocando joias do pai do heavy metal – algumas que o próprio Sabbath não reivindica faz tempo. Na verdade, a influência se faz presente desde o primeiro disco, Sonic Brew (1999), mas as referências do quarteto – completado por Dario Lorina (guitarra), John DeServio (baixo) e Jeff Fabb (bateria) – estão cada vez mais gritantes.


É impossível não ser atingido pelo déjà vu em The Betrayal, cujo riff de abertura deve ter sido, digamos, surrupiado do baú do Tony Iommi; All That Once Shined, um namoro com o doom metal na intenção de casar, e sabemos qual a fonte de tal subgênero; Disbelief, cujo bend inicial dá um alô a Iron Man; e Bury Your Sorrow, que apresenta o principal: aquela levada imortalizada pelo Sabbath, sem contar o vocal de Wylde pedindo bênção a Ozzy Osbourne.

Mas tudo isso é ruim? Claro que não, até porque desde sempre não é só do lado mais pesado – e do Black Sabbath – que vive o Black Label Society e, principalmente, seu líder. Assim, é muito bem-vindo, novamente, aquele lado sulista de Book of Shadows (1996) e Book of Shadows II (2016), mais calmo do que a grande parte do Pride & Glory. E plugado. The Day That Heaven Had Gone Away e The Only Words não escondem a forte orientação de The Allman Brothers Band, seja no tom da guitarra ou na interpretação vocal, como se Wylde fizessem novas homenagens a Gregg Allman e Dickey Betts . E Nothing Left to Say, por sua vez, tem um quê de Led Zeppelin.


Todas muito belíssimas, mas é o lado nervoso de Wylde que acaba mesmo se sobressaindo. Entre os vários solos de engasgar (ouça Seasons of Falter), às vezes apontando para os exageros que o guitarrista comete ao vivo, e as cacetadas de praxe (como a perfeitamente pesada e melódica A Love Unreal), o BLS ainda se saiu com uma de suas melhores músicas em 20 anos de história: Illusions of Peace tem uma levada que coloca até zumbi para bater cabeça. Coisa que desde Parade of the Dead e Godspeed Hellbound, de Order of the Black (2010), Wylde não fazia com tamanha maestria.

Faixas
1. Trampled Down Below
2. Seasons of Falter
3. The Betrayal
4. All That Once Shined
5. The Only Words
6. Room of Nightmares
7. A Love Unreal
8. Disbelief
9. The Day That Heaven Had Gone Away
10. Illusions of Peace
11. Bury Your Sorrow
12. Nothing Left to Say


Banda
Zakk Wylde – vocal, guitarra e piano
Dario Lorina – guitarra (apenas ao vivo)
John “JD” DeServio – baixo
Jeff Fabb – bateria

Lançamento: 19/01/2018

Produção: Zakk Wylde
Mixagem: John “JD” DeServio, Adam Klumpp e Zakk Wylde

Leather – II

Por Daniel Dutra | Fotos: Luciana Pires/Divulgação

Quase 30 anos depois, Leather Leone chegou ao segundo disco solo. Não exatamente solo, é verdade, porque II é um título sintomático para o sucessor de Shock Waves (1989). A passagem pela América do Sul no fim de 2016, numa turnê conjunta com Rob Rock, levou a vocalista a conhecer seus novos parceiros no crime: os brasileiros Daemon Ross (guitarra), Thiago Velasquez (baixo) e Braulio Drumond (bateria), e a formação é completada pelo guitarrista Vinnie Tex – que, naqueles shows pelo continente, se juntou aos três músicos para completar a banda que também acompanhou a voz do Impellitteri.

Resumindo, o resultado é mesmo um somatório de forças que fez de II um dos melhores discos de heavy metal de 2018. Um trabalho que, diga-se, respira os anos 80, mas com uma produção que o faz passar ao largo do datado, apesar da sonoridade ser nostálgica. Felizmente. Juggernaut, por exemplo, abre o CD com pinta de música feita para igualmente abrir os shows: é uma porrada na cara, cheia de solos cortantes (o início técnico e virtuoso parece saído de alguma sessão instrumental do Racer X ou Cacophony) e um refrão simples e bom de cantar.

The Ousider e Lost at Midnite reduzem um pouco a marcha, mas só para mostrar o lado bem tradicional do metal da época de ouro, com riffs de guitarra em destaque – a segunda, inclusive, faz bom uso do tradicional recurso de cantar em cima do riff principal. Inspirada pela passagem de Leather pela poluída Bogotá, capital da Colômbia, Black Smoke adiciona mais peso à fórmula, e The One junta todos os predicados musicais das três anteriores e volta a acelerar o ritmo.

O nível continua alto em canções como American Woman, que tem um baita instrumental, e em duas canções que mostram a garganta poderosa de Leather, Sleep Deep e Let Me Kneel, esta com uns backing vocals bem legais para o nome da música no refrão – e se você se incomodar vez ou outra com os vibratos da vocalista, então não conhece o trabalho da Voice of the Cult com o Chastain, seja nas décadas de 80 e 90, seja no retorno à ativa nos anos 2010, quando gravou mais dois álbuns com David T. Chastain, Surrender to No One (2013) e We Bleed Metal (2015).

Porque, afinal, são eles parte do charme das três melhores faixas do álbum. Quase uma ‘power ballad’, Annabelle faz bonito com um instrumental cujas quebradas comandadas pelos bumbos foram uma bela sacada – e não, a música não fala da boneca que é uma das estrelas da franquia “Invocação do Mal”, apesar de a letra ter sido baseada numa criança, digamos, assustadora; Hidden in the Dark é irmã mais bonita de Juggernaut, com refrão e solo que acompanham à altura a ótima performance da Leather; e a contagiante Give Me Reason fecha II mostrando o encontro perfeito entre o rock’n’roll e o heavy metal.

Faixas
1. Juggernaut
2. The Outsider
3. Lost at Midnite
4. Black Smoke
5. The One
6. Annabelle
7. Hidden in the Dark
8. Sleep Deep
9. Let Me Kneel
10. American Woman
11. Give Me Reason

Banda
Leather Leone – vocal
Vinnie Tex – guitarra
Daemon Ross – guitarra
Thiago Velasquez – baixo
Braulio Drumond – bateria

Lançamento: 13/04/2018

Produção: Rodrigo Scelza e Vinnie Tex
Mixagem: Stawek e Wojtek Wieslawski

Shaman

Por Daniel Dutra | Fotos: Luciana Pires

Dá para dizer sem medo: a passagem do Shaman pelo Rio de Janeiro, em sua pequena turnê de reunião com a formação original, foi o show nacional mais aguardado pelos fãs cariocas de heavy metal em 2018. Doze anos e dez meses depois da última apresentação na cidade – no dia 10 de fevereiro de 2006, no Circo Voador –, Andre Matos (vocal e piano), Hugo Mariutti (guitarra), Luis Mariutti (baixo), Ricardo Confessori (bateria) e Fábio Ribeiro (teclados) tiveram público de atração internacional, o que atualmente é um feito diante do cenário de crescente míngua – com capacidade para 4.000 pessoas, a casa podia não estar lotada, mas recebeu um grande (e exemplar) número de fãs sedentos para ouvir na íntegra os álbuns Ritual (2002), principalmente, e Reason (2005).

E ninguém foi embora arrependido. Nem com um pingo de arrependimento sequer, mesmo. Depois que o telão passou um vídeo com sessões de gravação de Reason e depoimentos de Matos, a banda entrou mandando ver com a excelente Turn Away, que instantaneamente se tornou um dos melhores momentos da primeira parte do show. Foi uma das que contaram com participação efetiva da plateia, que ainda tinha o seu refrão na cabeça. Claro, o repertório não era surpresa para ninguém, mas foi interessante notar como o segundo álbum da banda ressonou nas pessoas mais de uma década depois, porque à época do seu lançamento o rompimento com a sonoridade do disco de estreia foi um choque para quem só consegue enxergar power metal melódico pela frente.

Bom, de 2005 para o 2018 o panorama não mudou, e talvez tenha sido por isso que a banda deu dez sem sair de cima, sem falatório e intervalos que pudessem arrefecer os ânimos. A faixa-título manteve os fãs cantando o refrão – na verdade, a palavra que dá nome à canção e ao álbum – e, no fim, resultou num coro de “Shaman! Shaman” que arrancou um sorriso de Luis. More, cover do Sisters of Mercy que então havia dedurava a vibe musical mais pesada, soturna e simples da banda, ficou ótima novamente, mas foi a bela Innocence que mostrou o que os fãs realmente gostaram em Reason. De longe, a balada foi o momento de maior participação na primeira metade da noite.

Até porque o restante serviu para os fãs curtirem o fato de o Shaman estar de volta. E se a contemplação serviu para uma parte finalmente dar ao disco o devido crédito – meu amigo, Reason é bom demais! –, então está valendo. Mas deu para sacar como Scarred Forever é uma baita música? A temperatura realmente baixou em In the Night, Rough Stone e Iron Soul, mas estas duas últimas são sensacionais. Sempre foram. Trail of Tears deu uma animada, muito em parte pelo trabalho de Hugo, responsável por um solo matador e um riff fantástico na parte mais pesada da canção. Aplausos mais que merecidos, e que se repetiram ao fim de Born to Be, somados a um coro que arrancou um grande sorriso de Matos.

Novo intervalo, mais um vídeo, agora com sessões de ensaio e gravações de Ritual, antes de os fãs explodirem completamente de felicidade. Para isso, bastou a introdução Ancient Winds começar em alto e bom no PA, porque daí para frente todos terminaram de completar a viagem no tempo – muitos de volta à adolescência. Era outro show. De fato, um novo show. Here I Am foi um êxtase completo, e Distant Thunder testou a condição cardíaca de cada um presente na casa. Foi tão lindo que não deu nem para ouvir a voz de Matos nas três primeiras frases da letra, já que havia milhares de vozes na pista fazendo o mesmo. E no refrão? Foi de arrepiar.

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Os gritos de “Shaman! Shaman!” só foram silenciados porque Matos se dirigiu aos fãs pelas primeira vez naquela noite de domingo, para um agradecimento a um público, o carioca, que apoiou a banda desde o início. E quem lembra dos shows no Metropolitan sabe que isso é a mais pura verdade. Com uma flauta andina, o vocalista, maestro e mestre de cerimônias deu início a For Tomorrow, que obviamente contou com a participação ativa da plateia, assim como a sensacional Time Will Come. A melhor surpresa da noite, no entanto, ficou por conta de uma participação surpresa bem especial: Marcus Viana, devidamente reverenciado por Matos.

E a presença do violinista, compositor e mentor do Sagrado Coração da Terra em Over Your Head – que, lembre-se, contou com ele em sua gravação original de estúdio – acabou se tornando também um dos momentos mais divertidos da noite, ironicamente em virtude de problemas técnicos que quase não permitiram o encerramento da canção. “Isso foi de propósito, mas ele está preocupado pra caralho”, brincou Matos, com Viana explicando que no seu planeta esse tipo de coisa não acontece, porque a “força elétrica é substituída pela força mental”. “Vocês nunca viram uma coisa dessas”, retomou a palavra o vocalista, explicando que o público do Rio era o primeiro a assistir ao Shaman com o veterano músico mineiro nessa volta, uma vez que ele já estava na cidade quando, no dia anterior, a banda se apresentou em Belo Horizonte.

Viana permaneceu no palco para Fairy Tale, mas novamente o som do seu instrumento teimou em não sair no início da canção. “O que você faz quando isso acontece no seu planeta?”, perguntou Matos, enquanto o violinista se encaminhava em direção ao técnico de som. “Hi, vai levar um esporro!”, disse o vocalista, arrancando risos no palco e na plateia. Enfim, Fairty Tale, a balada que colocou uma banda brasileira de metal na trilha sonora de novela da Rede Globo, foi tocada. E causou uma catarse. Acredite, havia muita gente chorando de emoção.

Blind Spell até baixou um pouco a bola. Natural depois de momentos completamente espontâneos e especiais, mas Ritual e sua ótima melodia de teclado reaqueceu os privilegiados fãs cariocas, contemplados com um encerramento que entrou para a história. “Estamos chegando ao fim, mas isso não significa que não podemos voltar ao Rio”, disse Matos, pela primeira vez desde a volta deixando no ar a possibilidade de o Shaman continuar de onde parou em 2006 – e o show na cidade foi o último dos oito realizados em 2018. Imagine a cara de felicidade (e de incredulidade) dos fãs depois que a ficha caiu…

Depois da apresentação de cada músico que estava no palco, com a esperada ovação a Jesus, quer dizer a Luis Mariutti, a banda trouxe Viana de volta, e foi ele quem iniciou no violino o riff de Pride, num momento simplesmente espetacular. “É hora da porradaria, então pode abrir a roda”. Matos pediu, e os fãs atenderam com vontade redobrada. Foi uma festa que terminou com o vocalista na guitarra, e Hugo no papel de frontman. A imagem de um show inesquecível mesmo para quem anda mantinha a esperança de um retorno, e os que tinham e os que não tinham essa esperança se juntaram em uníssono no coro “Ô, o Shaman voltou! O Shaman voltou!”, um canto que saiu das arquibancadas dos estádios de futebol para uma casa de show, deixando o vocalista visivelmente emocionado e colocando um enorme sorriso de satisfação em toda a banda. Que o tempo tenha providenciado um recomeço para o Shaman, uma nova história para Hugo, Luis, Confessori e Matos. O metal brasileiro agradece.

Antes, a plateia foi entretida pelo Rec/All, banda liderada pelo vocalista Rod Rossi. Contando com um álbum na praça, homônimo e ainda com cheiro de novo para os padrões do metal nacional (foi lançado em 2017), o grupo contou com a ajuda do guitarrista Diogo Mafra e do baixista Raphael Dafras, ambos do Almah e do Rebirth of Shadows de Edu Falaschi, uma vez que, no mesmo dia, os titulares Marcelo Barbosa e Felipe Andreoli estavam com o Angra em Salvador – o batera Pedro Tinello (Almah) completa a formação. Depois de uma introdução com o tema de “The Walking Dead”, o quarteto entrou com Running in Her Veins para começar a brigar com o som.

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Era praticamente bateria e baixo soterrando o vocal e a guitarra, que até conseguiu se fazer presente no solo, uma vez que as bases eram quase inaudíveis. A situação até melhorou um pouco iHate, que tem um puta refrão, mas o que mais chegava aos ouvidos era Tinello massacrando a bateria. Difícil dizer se a plateia estava mais quieta para tentar captar as músicas ou porque a maioria não era familiarizada com o trabalho do Rec/All, mas o fato é que Angels and Demons, cover do Angra que entrou como bônus na versão japonesa do CD, animou os presentes, que cantaram a melodia principal da música.

Isso deu uma animada, na verdade, porque a canção seguinte, Blind, arrancou aplausos e gestos de aprovação. Mas ajudou o discurso de Rossi sobre o metal carioca, trazendo à memória bandas como Nordheim, Sigma 5, Thoten e Imago Mortis (as três primeiras há anos inativas, e a última dando adeus), e o convite a Luiz Syren, vocalista da Syren e velho batalhador da cena local, para um dueto que acabou se tornando o melhor momento do show. Para fechar, uma versão de Cemetery Gates, do Pantera, que ficou honesta na medida do possível, musicalmente, mas valeu a homenagem a Mário Linhares, vocalista do Dark Avenger falecido em dezembro de 2017.

O som até estava melhor, mas mesmo que estivesse perfeito o óbvio ficaria na cara de qualquer um: emular o som e o peso que Dimebag Darrel tirava da guitarra é tarefa para poucos. Ainda assim, um show que pode ter atiçado a curiosidade de quem nunca havia escutado o Rec/All, que, diga-se, acabou sendo penalizado pelo atraso de meia hora e precisou cortar três músicas do set: Indestructible; Rio Riots, que emendaria em Rainbow in the Dark, do DIO; e Pegasus Fantasy (Saint Seya) – faz sentido, acredite, uma vez que Rossi está inserido no mundos dos animes e já gravou temas de “Dragon Ball Kai” e “Cavaleiros do Zodíaco: Ômega”.

Setlist Shaman
1. Turn Away
2. Reason
3. More
4. Innocence
5. Scarred Forever
6. In the Night
7. Rough Stone
8. Iron Soul
9. Trail of Tears
10. Born to Be
Intervalo
11. Ancient Winds
12. Here I Am
13. Distant Thunder
14. For Tomorrow
15. Time Will Come
16. Over Your Head
17. Fairy Tale
18. Blind Spell
19. Ritual
20. Pride

Setlist Rec/All
1. Intro / Running in Her Veins
2. IHate
3. Angels and Demons
4. Blind
5. Cemetery Gates