Flotsam and Jetsam – The End of Chaos

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

A expectativa era alta depois do autointitulado álbum lançado em 2016, um dos melhores lançamentos daquele ano no mundo do rock pesado, e The End of Chaos não decepcionou. Muito pelo contrário. Com uma mudança na formação – a entrada do experiente Ken Mary (Fifth Angel, ex-Impellitteri, Chastain, Alice Cooper e House of Lords) no lugar de Jason Bittner, hoje no Overkill –, Eric “A.K.” Knutson (vocal), Michael Gilbert e Steve Conley (guitarras) e Michael Spencer (baixo) organizaram mais uma aula de heavy metal. Porque o 13º disco de inéditas do Flotsam and Jetsam transcende os rótulos dados à banda americana, especialmente o thrash metal.

Com uma introdução dentro da própria música, Prisoner of Time abre o CD respirando metal tradicional bem melódico, destacando a linha de baixo e a melodia vocal, porque a pancadaria só começa na faixa seguinte, a ótima Control. E é impossível esconder o sorriso no rosto com o lick inicial de Mary, que começa quebrando tudo, como numa viagem de volta ao tempo de Alice Cooper – mais precisamente de Freedom, de Raise Your Fist and Yell (1987). Como toca esse cara! E é bom demais ver o batera novamente num grupo como o Flotsam and Jetsam, no qual pode inserir doses generosas de fúria em sua técnica apurada.


Mary é, de fato, um show à parte em The End of Chaos. Quer mais uma introdução avassaladora de bateria, desta vez no meio do instrumental? Ouça Good or Bad, que tem uma levada sensacional e ainda presenteia o ouvinte com um baita trabalho de Gilbert, Conley e Spencer nas cordas. Se o dono das baquetas rouba completamente a cena em Snake Eye, no geral ele está muito bem acompanhado, porque em poucos minutos de música rolando você pode notar que os guitarristas estão matando a pau com riffs cortantes e solos, e que o baixista continua tirando um som bonitão do instrumento. Confira Slowly Insane, cuja parte instrumental pula-pula não vai deixá-lo parado.

Aliás, o que não faltam são momentos absolutamente empolgantes no novo trabalho. Primeiro videoclipe extraído do álbum, Demolition Man é um exemplo perfeito, mas a faixa deve ser bem servida ao lado de canções como Recover, que tem novo show de Mary e um refrão simples e espetacular; e Architects of Hate, por sua vez com solos matadores de Gilbert e Conley e, por último, mas não menos importante, uma intepretação raivosa de A.K., para variar marcando território com sua voz inconfundível e uma performance que equilibra muito bem emoção e técnica.


É ele, por exemplo, quem apresenta a combinação de elementos muito bem misturados pelo grupo. Seja no heavy metal de primeira linha de Prepare for Chaos, com uma rifferama das boas, e Survive, que soa ainda mais metal clássico; seja nas rápidas Unwelcome Surprise e The End, esta com um grande refrão. Em tempo: a versão japonesa vem com uma faixa bônus, a ótima Another One, que poderia muito bem resumir o disco: o vocalista guiando um instrumental poderoso, com o baixo pulsante e os riffs e solos precisos, mas com A.K., Gilbert, Conley e Spencer virando para Mary e falando “Faz aí uma daquelas entradas espetaculares para usarmos na música”. E o batera fez ainda melhor…

Faixas
1. Prisoner of Time
2. Control
3. Recover
4. Prepare for Chaos
5. Slowly Insane
6. Architects of Hate
7. Demolition Man
8. Unwelcome Surprise
9. Snake Eye
10. Survive
11. Good or Bad
12. The End


Banda
Eric “A.K.” Knutson – vocal
Michael Gilbert – guitarra
Steve Conley – guitarra
Michael Spencer – baixo
Ken Mary – bateria

Lançamento: 18/01/2019

Produção: Flotsam and Jetsam
Mixagem: Jacob Hansen

Last in Line – II

Por Daniel Dutra | Fotos: Jim Wright/Divulgação

De cover de luxo do DIO à identidade própria. Formado pelos integrantes originais da banda de Ronnie James Dio – Vivian Campbell (guitarra), Jimmy Bain (baixo) e Vinny Appice (bateria) – ao lado do vocalista Andrew Freeman, o Last in Line tem uma linha do tempo não linear, e é isso que pode explicar a diferença entre Heavy Crown (2016) e II. Agora com Phil Soussan (ex-Ozzy Osbourne) no lugar deixado pelo saudoso Bain, falecido em 2016, o quarteto se afastou da proposta inicial também musicalmente, uma vez que o novo material pouco ou nada remete aos clássicos Holy Diver (1983), The Last in Line (1984) e Sacred Heart (1985).

O início com Black Out the Sun, depois da introdução preguiçosamente chamada de Intro, até engana. Lembra aquele lado mais pesado e melódico do DIO, assim como Give Up the Ghost também resgata o peso da primeira metade dos anos 80. A rigor, é isso, porque Sword from the Stone ameaça seguir pelo mesmo caminho, mas seu refrão não tem nenhuma remissão. Pelo contrário, combina com a levada arrastada e ‘bluesy’ da canção. Ou seja, fazendo força, temos três canções respirando o passado. Pouco entre as 12 do CD, menos ainda se considerarmos que o disco de estreia tinha nada menos que seis entre as suas 11 faixas – as mid-tempo The Devil in Me, Burn This House Down e Blame it on Me; e as up-tempo Already Dead, Martyr e I Am the Revolution.


Ponto para o Last in Line, que não reinventou a roda, mas criou um disco agradável ao buscar um rumo só seu. Rumo, aliás, que acerta ao parar para abastecer a sonoridade com um pouco de hard rock. Ouça The Unknown, por exemplo. Ou Landslide, que faz uma bela fusão do hard com o heavy rock e apresenta um dos destaques do álbum: Campbell. Na verdade, o grande mérito do grupo e fazê-lo tocar de verdade, uma vez que no Def Leppard o guitarrista é basicamente peça decorativa. Claro, é por causa da banda britânica que ele paga as contas, mas é bom demais ouvir solos como o de Landslide. Quer mais? Fique com as ótimas Gods and Tyrants, que tem um toque sulista à la Lynyrd Skynyrd, e Love and War, bonita e ligeiramente psicodélica.

Nesse quesito, daria até para destacar Year of the Gun, mas esta peca pelo refrão repetido exaustivamente – algo até comum em II, mas exagerado aqui. Seria uma pena ainda maior se ela fosse a maior performance de Appice, mas o sempre excelente batera brilha também em False Flag, um bom exemplo de como o Last in Line acerta ao pisar no acelerador. Isso vale também para a empolgante Electrified, na qual Freeman é quem brilha mais. O desfecho com The Light mistura todos esses elementos, com o refrão mais cadenciando quebrando o ritmo do instrumental mais rápido. E ainda tem o solo…


II pode ser a prova definitiva de que o Last in Line quer vencer por seus méritos. Por razões óbvias, a banda nunca vai se desvencilhar da sombra de Ronnie James Dio, mas buscar o próprio caminho é tão elogiável quanto a iniciativa de lançar material autoral. Apesar de ainda ser estranho olhar para (e ouvir) Campbell revisitando o passado, justamente por causa das rusgas públicas com Dio – e de o Last in Line ter acontecido não muito depois da morte do maior vocalista da história do heavy metal –, criar é exatamente o que deveria ser um dos pontos de interseção com o Dio Disciples. E talvez seja essa uma das razões das rusgas entre os dois grupos.

Faixas
1. Intro
2. Black Out the Sun
3. Landslide
4. Gods and Tyrants
5. Year of the Gun
6. Give Up the Ghost
7. The Unknown
8. Sword from the Stone
9. Electrified
10. Love and War
11. False Flag
12. The Light


Banda
Andrew Freeman – vocal e piano
Vivian Campbell – guitarra
Phil Soussan – baixo e teclados
Vinny Appice – bateria

Lançamento: 22/02/2019

Produção: Jeff Pilson
Mixagem: Andrew Freeman, Chris Collier e Phil Soussan

Soilwork – Verkligheten

Por Daniel Dutra | Fotos: Stephansdotter Photography/Divulgação

O Soilwork é uma daquelas bandas que precisaram de pouco para entrar no rol de favoritas da casa, mas parecia que Stabbing the Drama (2005) havia fechado um ciclo de grandes trabalhos, aqueles memoráveis. Claro, não dava para cravar que período de ânimo em baixa duraria para sempre, até porque os discos seguintes – Sworn to a Great Divide (2007), The Panic Broadcast (2010) e The Living Infinite (2013) – provaram ser legais. De qualquer maneira, residia aí o problema: são apenas legais, e legal é pouco para o Soilwork. The Ride Majestic (2015) reacendeu o fogo uma década depois, mas foi justamente a parada depois do décimo álbum de estúdio e sua extensa turnê mundial que revigorou a banda sueca.

Verkligheten, a palavra sueca para “realidade”, chega às lojas e ao mundo digital de streaming quase quatro anos depois do CD anterior. Nunca o Soilwork havia levado tanto tempo para lançar um novo trabalho de inéditas, mas o descanso fez mesmo muito bem a Björn “Speed” Strid (vocal), David Andersson e Sylvain Coudret (guitarras), Sven Karlsson (teclados) e Bastian Thusgaard (bateria), obrigado – com a saída de Markus Wibom no fim de 2017, Taylor Nordberg assumiu o baixo nos shows, mas o grupo se manteve oficialmente como um quinteto, com as quatro cordas ficando a cargo de Andersson no estúdio. Revigorado, o grupo lançou um álbum que o mantém olhando para frente e resgata elementos do passado.


Os cinco acertaram de cara com a instrumental faixa-título, cujos toques de western e progressivo relaxam o ouvinte para a pancadaria. Arrival, When the Universe Spoke e Needles and Kin trazem um elemento peculiar do Soilwork: blast beats acompanhados por riffs ou temas de guitarra mais melódicos, invariavelmente com vocais limpos. E o resultado é um belo contraste, até porque as músicas possuem características diferentes: a primeira é mais heavy metal; a segunda descamba para o thrash (com um instrumental riquíssimo e os vocais mais guturais e agressivos de Strid em todo o álbum); e a terceira, com participação de Tomi Joutsen (Amorphis), dá as mãos ao death.

Mas se você quiser ouvir todos esses elementos ao mesmo tempo agora, caia dentro da empolgante Witan, uma canção rápida, brutal e melódica. Ou experimente Bleeder Despoiler, que faz perfeitamente a ponte entre o passado e o presente numa sonoridade 100% Soilwork. Outra característica do DNA da banda se faz presente em alto e bom som: os refrãos bem construídos e grudentos. Ouça The Wolves Are Back in Town, The Ageless Whisper (na qual Strid soa como vários vocalistas num só) e You Aquiver, esta com Dave Sheldon (Exes for Eyes) – a lamentar apenas que as duas primeiras pequem, por assim dizer, em pequenos detalhes: a seção instrumental do solo de The Wolves Are Back in Town é ótima, só que curta; e a intervenção do teclado antes do solo de The Ageless Whisper também poderia ter uma duração mais generosa.


Nada, no entanto, que interfira no resultado final. Até porque três músicas em especial tratariam de deixar o nível muito elevado. Preste atenção na espetacular Full Moon Shoals, levada por um grande trabalho de Thusgaard nos bumbos; em The Nurturing Glance, com um solo matador; e na joia Stålfågel, que bem soa como o Night Flight Orchestra, o maravilhoso projeto paralelo de Strid e Andersson, se enveredando pelo death metal melódico – a faixa ainda tem uma versão com a participação de Alissa White-Gluz exclusiva para o iTunes, mas dá para jurar que se ouve a voz da vocalista do Arch Enemy na que está no CD.

A edição nacional ainda traz as quatro faixas bônus que saíram no digipack europeu e como o EP Underworld no Japão: a rápida e melódica Summerburned and Winterblown, com um ótimo trabalho de guitarras e bateria; In This Master’s Tale, mais metal e com uma interpretação nervosa de Strid; The Undying Eye, com blast beats e um baita refrão melódico, além de mais um solo caprichado; e a versão original de Needles and Kin, sem a presença de Joutsen. Resumo da ópera, Verkligheten é um discaço! Essencial ao fã do Soilwork e também do gênero, o álbum já figura entre os cinco melhores do grupo – a ordem fica a gosto do admirador – e é fortíssimo candidato para entrar na lista de melhores lançamentos de metal de 2019.


Faixas
1. Verkligheten
2. Arrival
3. Bleeder Despoiler
4. Full Moon Shoals
5. The Nurturing Glance
6. When the Universe Spoke
7. Stålfågel
8. The Wolves Are Back in Town
9. Witan
10. The Ageless Whisper
11. Needles and Kin
12. You Aquiver
13. Summerburned and Winterblown (faixa bônus)
14. In This Master’s Tale (faixa bônus)
15. The Undying Eye (faixa bônus)
16. Needles and Kin (versão original) [faixa bônus]


Banda
Björn “Speed” Strid – vocal
Sylvain Coudret – guitarra
David Andersson – guitarra, baixo e piano
Sven Karlsson – teclados
Bastian Thusgaard – bateria

Convidados
Tomi Joutsen – vocal (faixa 11)
Dave Sheldon – vocal (faixa 12)
Åsa-Hanna Carlsson – violoncelo (faixas 2, 3, 4, 6, 10 e 11)

Lançamento: 11/01/2019

Produção e mixagem: Thomas “PLEC” Johansson

Inglorious – Ride to Nowhere

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Classic British rock. É assim que Nathan James se refere à sua banda, graças ao resgate da sonoridade inglesa do hard rock dos anos 70 que faz ao lado de Andreas Eriksson e Drew Lowe (guitarras), Colin Parkinson (baixo) e Phil Beaver (bateria) – ou fazia, na verdade, porque apenas o batera continua na formação. Antes mesmo do lançamento de Ride to Nowhere, um choque de egos com James fez com que Eriksson, Lowe e Parkinson pedissem as contas, e o vocalista prontamente os substituiu por Danny Dela Cruz, Dan Stevens e o brasileiro Vinnie Colla, respectivamente. O efeito do entra e sai de músicos só será sentido no próximo álbum, obviamente, mas a verdade é que o Inglorious faz aquele resgate tão bem, mas tão bem que se tornou um dos melhores nomes do hard rock nos anos 2010.

Os dois primeiros álbuns, Inglorious (2016) e Inglorious II (2017), são essenciais para quem curte o estilo, e o terceiro trabalho vai pelo mesmo caminho. Curiosamente, no entanto, mostra um grupo construindo uma identidade bem particular – que será mesmo testada no próximo disco, uma vez que o novo material tem a assinatura de James ao lado dos ex-integrantes, principalmente de Parkinson. De qualquer maneira, canções como Where Are You Now?, Queen e Liar têm estruturas que identificam imediatamente a banda inglesa, muito por causa dos refrãos e das melodias vocais. É um classic rock repaginado por uma banda nova, uma vez que o Inglorious tem apenas cinco anos de vida.


Mas por que repaginado? Bom, ouça a faixa-título. Ride to Nowhere, a música, tem mudanças de clima e passagens instrumentais interessantes, incluindo um discreto e bem encaixado Hammond, cortesia do convidado Troy Draper, responsável por todos os teclados. Porém, ela surpreende por apresentar um peso até então incomum ao quinteto. Freak Show, por sua vez, apresenta parte desses elementos, mesmo que em menor proporção, porque seu destaque é um refrão com um coro para lá de pegajoso. Mas refrão sensacional mesmo tem a ótima While She Sleeps, que ainda presenteia os fãs de guitarra com um baita trabalho de seis cordas. E é interessante notar que Eriksson e Lowe se dividiram entre os dois canais, portanto, vale a pena meter os fones de ouvido.

E com todas essas nuances, o mais legal no CD é encontrar cinco das melhores obras criadas pelo Inglorious. Comece pela ‘bluesy’ Never Alone, que tem um toque de Led Zeppelin, e depois vá direto para as suingadas Tomorrow e Time to Go. A primeira tem um baixo lindão durante o solo e (mais um) refrão grudento, enquanto a segunda arrisca uma melodia vocal funkeada, a deixa perfeita para o groove que rola solto na ponte e no refrão – reparou que os caras são muito bons nisso, né? E se o novo álbum apresenta em nove das suas 11 faixas um classic rock com peso e groove, sobra espaço para a beleza das baladas.


Com participação de Heather Leoni (Gypsy Heart), I Don’t Know You mostra James numa performance muito próxima de Glenn Hughes, especialmente no início da canção, e traz um solo matador de Eriksson – e fica a dica: o dueto ficou ainda melhor na versão piano e voz(es) que entrou como bônus na edição japonesa de Ride to Nowhere, principalmente porque Heather ganhou mais frases da letra. E ainda tem a acústica Glory Days, para mostrar não apenas que James canta uma barbaridade, mas que o inglês é, provavelmente, o melhor vocalista de rock surgido nesta década. Provavelmente só porque falta pouco para os anos 2020 começarem…

Faixas
1. Where Are You Now?
2. Freak Show
3. Never Alone
4. Tomorrow
5. Queen
6. Liar
7. Time to Go
8. I Don’t Know You
9. While She Sleeps
10. Ride to Nowhere
11. Glory Days


Banda
Nathan James – vocal
Andreas Eriksson – guitarra
Drew Lowe – guitarra
Colin Parkinson – baixo
Phil Beaver – bateria

Lançamento: 25/01/2019

Produção: Inglorious
Mixagem: Kevin Shirley

Queensrÿche – The Verdict

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Queensrÿche (2013) foi o resgate do tempo perdido, e Condition Hüman (2015), a consolidação da sonoridade clássica. Mas The Verdict é aquele novo trabalho do Queensrÿche ao qual os fãs se acostumaram nos primeiros dez anos da banda. Ou seja, é previsivelmente imprevisível. O 16º álbum de estúdio do precursor do progressive metal remete à obra-prima Rage for Order (1986), mas em sentidos bem específicos: não é uma continuação dos discos anteriores com Todd La Torre; necessita de várias audições para que o ouvinte se acostume com ele, para que absorva todos os detalhes; e poderia muito bem ser o CD recém-saído do forno de algum nome promissor, exatamente pela maneira como deixa a música da banda revigorada.

La Torre (vocal), Michael Wilton e Parker Lundgren (guitarras) e Eddie Jackson (baixo) até foram relativamente objetivos em certos momentos – em tempo: apesar de Casey Grillo (ex-Kamelot) acompanhar o quarteto nos palcos há quase dois anos, o vocalista gravou todas as baterias e mandou bem demais. Mas é claro que o extraordinário Scott Rockenfield fará falta. Ele sempre foi peça-chave no som do Queensrÿche, mas se decidiu pular fora… Enfim, há canções mais palatáveis, como o primeiro single, Man the Machine, mais tradicional e até com um pouco de Iron Maiden na mudança de andamento no fim, o que ressaltou o baixo de Jackson, um dos destaques do álbum. E há também Propaganda Fashion, que é, apesar de algumas variações, a faixa mais acessível de The Verdict. Como um filho temporão de Empire (1990).


O fato, no entanto, é que a banda usou e abusou das mudanças de andamentos, compassos compostos e convenções pouco usuais. Como na passagem da estrofe para a ponte da excelente Blood of the Levant, que ainda apresenta riffs palhetados e um conteúdo lírico que reforça a posição de ‘thinking man’s band’ – concedida ao Queensrÿche em seus primeiros anos por causa das letras muito acima da média – pela referência à guerra na Síria do ditador Bashar al-Assad. Em Bent, o grupo leva o fã a pensar em assuntos como a devastação dos ameríndios e a tomada de suas terras, além da contaminação de centenas de milhares de pessoas em Flint, no estado de Michigan, devido ao mau tratamento da água. Musicalmente, Bent tem um quê de Nevermore nos versos – especialmente na primeira parte, na qual a interpretação de La Torre remete a Warrel Dane – e instrumental e refrão impecáveis.

As nuances instrumentais ganham nova dimensão na espetacular Launder the Conscience, que vai do peso a um desfecho inusitado na forma de uma peça progressiva puxada pelo piano, com orquestrações e Eddie Jackson mostrando mais uma vez que merece muito mais crédito no mundo do heavy metal. Os arranjos orquestrais, aliás, são outro ponto alto de The Verdict. Sejam os mais tímidos, como os de Inside Out, para não soterrar a melodia indiana que permeia a música, enriquecida por um belíssimo solo em sua parte mais lenta; sejam os mais presentes, como na linda e emocionante Dark Reverie, composição de Lundgren, cujo talento o fez sair do papel de ex-genro de Geoff Tate para o de substituto definitivo de Chris DeGarmo.


Dark Reverie, diga-se, mostra uma veia progressiva que fica ainda mais forte em Portrait, que mantém a tradição de fechar os discos de maneira épica. Lenta e muito, mas muito bonita (que refrão!), tem algo de Promised Land (1994) e uma guitarra slide que pode fazer você jurar que está ouvindo as notas saírem dos dedos de DeGarmo. O trabalho de Wilton e Lundgren nas seis cordas continua resgatando o som característico do Queensrÿche, felizmente, com uma riqueza de detalhes que pode ser exemplificado na pesada Inner Unrest, cujo instrumental caprichadíssimo é acompanhado por uma bela melodia vocal.

As nove canções detalhadas aqui já seriam suficientes para dobrar o último dos reticentes, mas tem Light-years. Meu amigo, que música! O início com o peso do prog metal e os ótimos riffs compõem um instrumental completamente torto e nada a ver com um dos melhores refrãos já feitos pela banda. É o melhor exemplo das quebradas de tempo e compassos compostos que o quarteto espalhou por todo o trabalho, incluindo solos dobrados, uma aula à parte de Jackson (sério, esse cara toca demais) e La Torre fazendo aquele lick com ride e hi-hat característico de Rockenfield. Desde o homônimo álbum de estreia de La Torre, a banda vem fazendo sempre o melhor disco desde Promised Land. Agora, fez a melhor obra deste “novo” Queensrÿche, que vai ficando cada vez relevante novamente.


Faixas
1. Blood of the Levant
2. Man the Machine
3. Light-years
4. Inside Out
5. Propaganda Fashion
6. Dark Reverie
7. Bent
8. Inner Unrest
9. Launder the Conscience
10. Portrait

Banda
Todd La Torre – vocal e bateria
Michael Wilton – guitarra
Parker Lundgren – guitarra
Eddie Jackson – baixo

Lançamento: 01/03/2019

Produção e mixagem: Chris “Zeuss” Harris

Living Louder

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

O revival do rock’n’roll dos anos 70 ganhou força nos últimos anos, e um sem-número de bandas vem fazendo a alegria daqueles que cresceram sob o som do classic rock e, mais do que isso, dando a uma nova geração a oportunidade de descobrir os grandes nomes do passado – e de continuar ouvindo música de alto nível. Mas a nova turma responsável por trazer à tona aquela sonoridade não está concentrada apenas nos Estados Unidos e, principalmente, na Europa. Tem coisa muito boa sendo feita aqui no Brasil, e um dos expoentes desse resgate em território nacional é o Living Louder. Formado em 2016 por Ricardo Cagliari (guitarra e vocal), Eduardo Assef (baixo) e Gustavo Gomes (bateria), o power trio já colocou dois discos na praça: o de estreia, homônimo, em 2017, e o mais recente, Corsair, em 2018 – este, diga-se, é um dos trabalhos lançados ano passado que você tem a obrigação de conferir (clique aqui para ler a resenha). Para falar sobre o novo álbum, a trajetória até aqui e outras coisas mais, conversei com os três músicos, então abra a cerveja, coloque o som para rolar (os CDs estão disponíveis nas plataformas de streaming) e curta o papo!

O Living Louder é uma banda ainda bem jovem, que vai completar o terceiro ano de vida em maio deste ano, então podemos começar falando sobre o que uniu vocês três para montar a banda. E como foi…
Ricardo Caglieri: Acabamos nos unindo por intermédio do Franco Mattos, um amigo em comum, também músico, com quem cada um de nós conviveu em diferentes épocas de nossas vidas. A afinidade foi instantânea, tanto pessoal quanto musical. Resolvemos nos reunir e fazer uns sons para sentir como seria a química, então vimos que não poderia ser melhor. Imediatamente passamos a compor o material que, alguns meses depois, viria a fazer parte do nosso primeiro disco.
Gustavo Gomes: Foi tudo, de fato, muito espontâneo e empolgante, e é esse entusiasmo genuíno que buscamos transmitir ao ouvinte. É importante dizer que, embora a banda seja nova, somos todos músicos experientes, cada um com pelo menos três décadas na música, então são muitas influências depuradas e plasmadas neste som original, que vem sendo muito bem recebido mundo afora.
Eduardo Assef: É tudo realmente recente, e os resultados são muito positivos, felizmente, impulsionados pelo objetivo comum de fazer algo muito próximo daquilo que crescemos ouvindo.

E tem o nome da banda. Em inglês e mesmo traduzido para o português, ele tem um sentimento bem rock’n’roll, afinal, é assim que se deve viver e ouvir a música. Mas qual o significado para vocês?
Ricardo: Exatamente o que você mencionou! O recado da banda é esse: ‘play it loud!’ Toque no talo, escute no talo e viva no talo! O morno nos faz vomitar.
Gustavo: Batizar é a parte mais difícil de formar uma banda, não? (risos). Mas você captou perfeitamente a ideia, pois queríamos um nome forte e sonoro, que passasse a sensação de rock’n’roll tocado alto e vivido 24 horas por dia. Afinal, para que procurar definir um estilo em termos de gênero e subgênero se no fundo, como bem resumia o saudoso Lemmy, ‘we play rock’n’roll’?
Eduardo: E é tocar como se cada ‘gig’ fosse a última, fazer um rock’n’roll sincero, sem pasteurização ou artifícios tecnológicos. Tudo no melhor estilo ‘plug & play’.


Há outra coisa que acredito tenha sido bem pensada logo na fase embrionária, o fato de o Living Louder ser um power trio. É isso mesmo?
Ricardo: Aí há três questões envolvidas. Primeiramente, a conexão entre nós três foi tão rápida e produtiva que nem sentimos necessidade de mais um integrante. Segundo, é melhor em termos pragmáticos, mais simples de administrar ideias e obter resoluções a respeito de todas as questões artísticas e empresariais. E isso, no nosso caso, acontece sempre em consenso. Por fim, temos um especial carinho por power trios, como Cream, Motörhead e Gov’t Mule do inicio da carreira.
Gustavo: Foi realmente um misto de coincidência com gosto pessoal, pois nos reunimos fortuitamente, e com a capacidade do Ricardo de também cantar, além de tocar guitarra, a banda estava completa. Isso foi ao encontro do nosso gosto por formações compactas e poderosas, a exemplo de ídolos como Jimi Hendrix, Cream, Rush e tantos outros dos anos 60 e 70, nas quais há espaço para o músico desenvolver sua expressividade e buscar preencher as lacunas. O trabalho é dobrado e desafiador, mas o resultado compensa.
Eduardo: Como bem apontado pelo Ricardo, a coisa fluiu tão bem que não sentimos necessidade de incorporar mais integrantes à banda. Além disso, como mencionado pelo Gustavo, esse formato nos remete a grandes ídolos como Cream e Rush.

A sonoridade do Living Louder é calcada naquele heavy rock clássico, mas o mais interessante é que se trata de uma união de diferentes influências pessoais, certo?
Ricardo: Sem dúvida. Há tantas influências que eu nem conseguiria elencar. Eu e Gustavo sempre fomos, desde garotos, mais ligados ao metal, mas também apreciamos bastante diversos outros gêneros musicais. O Edu já é um cara que tem toda a sua formação diretamente calcada no soul, no jazz e no blues, embora também curta rock. Os artistas que nos informam e nos inspiram, dentro de cada um desses gêneros, são inúmeros.
Gustavo: Temos backgrounds distintos, mas todos estudamos música e somos bastante ecléticos, ouvindo desde música clássica até jazz e muito blues. No entanto, acabou sendo no terreno das bandas clássicas dos anos 70, como Allman Brothers Band, Lynyrd Skynyrd, Black Sabbath, Deep Purple, Motörhead et cetera, que se deu a liga de nossas composições. E de maneira bem espontânea, unindo o southern rock americano ao heavy rock britânico. Foi, portanto, com grata surpresa que algum tempo depois notamos que se tornou uma verdadeira onda mundial o revival desse estilo visceral e cru, mas energético e extremamente bem tocado, daquela década, como comprovam bandas como Blues Pills, Vintage Caravan, Graveyard, Lucifer, Kadavar, Willow Child e muitas outras. É um estilo “orgânico”, como dizem hoje em dia.
Eduardo: Exatamente. Penso que esse seja um dos nossos principais ingredientes e um grande diferencial. Cada um de nós tem as suas bandas de cabeceira, mas há um ponto de convergência bastante claro, que é a paixão pela sonoridade dos anos 70 das grandes bandas de heavy rock. Talvez por esse motivo tenhamos optado pelo formato trio que você mencionou na pergunta anterior.


Eu fico imaginando o quão interessante deve ser para vocês três se juntar para compor. Como cada um absorve a influência do outro? Até mesmo em termos de aprendizado, de expandir os horizontes musicais…
Ricardo: Influenciamo-nos mutuamente muito mais do que se possa imaginar. Moramos em cidades diferentes, porque Edu e Gustavo estão em São Paulo, e eu, em Londrina, mas nos falamos diariamente, varias vezes ao dia, e na maior parte das vezes nem é diretamente sobre o Living Louder. Trocamos ideias sobre bandas, músicas, literatura e artes em geral. Um sempre aponta para o outro alguma obra, musical ou não, que acha muito bacana e que merece ser apreciada com carinho. E sempre somos muito francos sobre como gostaríamos de moldar nosso som. Nessa dinâmica, invariavelmente os gostos de cada um acabam influenciando os demais, e isso se reflete imediatamente no processo de composição, no qual as preferências pessoais de cada um são respeitadas e levadas em conta, sendo ajustadas à natureza do som que queremos tocar, obviamente.
Gustavo: Toda a experiência de criação é extremamente prazerosa para nós, é o que mais nos motiva. Mas, por incrível que pareça, nosso processo de composição se dá a distância, porque moramos em cidades diferentes e, sobretudo em razão de nossos diversos compromissos, é difícil nos encontrarmos pessoalmente com grande frequência. A tecnologia, definitivamente, é uma grande aliada, com a troca de arquivos que resultam, sempre com grande rapidez, em novas músicas. Mas é importante frisar que nunca deixamos a facilidade da tecnologia matar a vitalidade e a espontaneidade das nossas criações. O mais importante é que a música tem de ser cativante, boa para colocar alto no som do carro e conduzir o ouvinte a territórios antes inexplorados.

Vamos falar um pouco de Corsair, e gostaria de começar pela ótima produção. É um dos pontos mais fortes da evolução da banda, principalmente levando em consideração que o novo álbum saiu um ano depois do trabalho de estreia.
Ricardo: De fato, foi algo completamente diferente do que tivemos no primeiro disco. Gostamos da produção de Living Louder, e o Thiago Bianchi, responsável pelo trabalho, dispensa qualquer tipo de apresentação. Mas tínhamos muito bem definido em nossas cabeças como deveria soar um álbum do Living Louder, e esse foi um ponto importantíssimo. Saber onde se quer chegar é fundamental. Sabíamos que o que queríamos seria muito difícil de obter com alguém fora da banda nos produzindo, seja em razão dos custos altíssimos envolvidos, seja porque provavelmente não conseguiríamos nos fazer entender quanto ao que tínhamos em mente. Decidimos, então, encarar a épica tarefa por nós mesmos. Gustavo, que é um grande curioso e estudioso de engenharia de som, ficou naturalmente encarregado do assunto. Era seu primeiro trabalho nessa condição, e isso sem dúvida gerou muita pressão nele. Por outro lado, usufruímos de uma liberdade sem igual para podermos refazer as coisas quantas vezes fossem necessárias até que tudo ficasse do nosso gosto. Gastamos o fim de 2017 e quase 2018 inteiro envolvidos nesse processo, mas o resultado final não poderia ter sido mais satisfatório para nós. Gustavo fez um trabalho fantástico dando ao álbum uma sonoridade extremamente fiel à que levamos ao vivo.
Gustavo: Fico particularmente feliz com essas generosas palavras, porque, de fato, tomei as rédeas da produção em Corsair, pois sabíamos exatamente o que queríamos, tanto em termos de clima, composição e sonoridade como até de visual. O Ricardo assina também os desenhos do encarte, e eu, o design gráfico, valendo destacar que a arte da capa foi elaborada a partir de trecho de uma magnífica pintura a óleo do artista Ricardo Colombera. Tudo deveria se encaixar e transmitir, com unidade, a sonoridade crua, vintage e, ao mesmo tempo, as composições mais refinadas da banda nesta fase. Elas são repletas de dobros, slides, coros, solos, efeitos e arranjos bastante pensados, fruto de muita pesquisa sonora por parte do Ricardo e do Edu. Pela excelente repercussão, acho que conseguimos. Estamos muito felizes com o resultado.
Eduardo: Como já tivemos oportunidade de expressar em alguns veículos, não poderíamos estar mais satisfeitos com o resultado da produção de Corsair. Gustavo fez um trabalho primoroso tanto com as baquetas quanto como encarregando da produção do álbum. Essa experiência de ter a produção do disco capitaneada por um dos membros da banda foi determinante para alcançarmos o resultado que tínhamos em nossas cabeças.


Aliás, permitam-me dizer: aquela sonoridade orgânica ficaria ainda melhor vinil, caso exista a chance de trabalhar no formato analógico. Até a capa seria enriquecida no tamanho do LP. Estou soando com um velho aqui, apesar de não ser tanto assim, mas há planos para isso?
Ricardo: Sem dúvida nenhuma! E para ser bem sincero, toda a concepção artística do álbum, musical e gráfica, foi feita pensando no formato vinil.
Gustavo: Você tem toda razão! E pensamos mesmo em tudo como se estivéssemos literalmente gravando um disco nos anos 70, destinado ao vinil. É por ora um sonho, mas temos planos nesse sentido. Pena que hoje em dia se consome música majoritariamente no formato digital, péssimo em qualidade sonora e visual, e até mesmo o CD está sofrendo. Imagine, então, viabilizar uma tiragem mínima de algumas centenas de vinis, com custo unitário muitas vezes elevado para o consumidor final, que talvez nem tenha o toca-discos em casa. Mas o vinil está voltando e ganhando tração, assim como o som dos anos 70, e temos inclusive recebido muito incentivo dos fãs para lançar o disco nesse formato, então estamos estudando neste momento a possibilidade de lançar o Corsair também em vinil num futuro próximo.
Eduardo: E não há nada de velho nessa sua observação. Essa sempre foi a nossa vontade, mas os custos para lançarmos em vinil são um tanto elevados. Talvez esse sonho se concretize mais adiante.

E não foi apenas a produção uma agradável novidade. O básico do bom e velho rock’n’roll continua presente, como os riffs de guitarra bem construídos, por exemplo, mas as músicas ganharam muito groove, o que ressaltou o trabalho de baixo e bateria. Como foi essa virada de chave de um disco para o outro?
Ricardo: Nosso primeiro disco foi composto e gravado com extrema rapidez, porque sentíamos a necessidade de nos inserirmos no circuito o quanto antes. Embora gostemos muito das primeiras composições, estávamos cientes de que poderíamos avançar ainda mais em termos de arranjo. Quando se iniciou o processo de composição das novas músicas, pudemos nos debruçar com mais calma sobre cada uma delas de modo a dar-lhes a exata feição que queríamos. Acrescentamos groove, melodia e agressividade necessários para que sentíssemos vontade de ouvi-las muitas e muitas vezes depois de prontas. E nosso objetivo, de fato, é fazer com que a cada audição você bata o pé acompanhando o ritmo de cada compasso, que faça cara de quem acabou de dar o primeiro gole de uísque depois de um dia de trabalho duro.
Gustavo: Como temos dito no release do Corsair, ele representa a banda com muito mais “groove e fúria”. Trata-se de um amadurecimento natural da banda e da forma de compor dos integrantes, algo bem espontâneo, mas muito consciente. Desta vez, a produção permitiu salientar mais o baixo, por exemplo, um destaque não muito comum em bandas de rock, principalmente as mainstream. A qualidade das linhas de baixo do Edu e os timbres refinados que ele extrai do instrumento, isso tudo associado a uma divisão bastante incomum e um suingue próprio que sempre procuro incorporar nas minhas partes de bateria, sobretudo neste álbum, se mostraram realmente um ponto de inflexão em relação ao primeiro disco. Isso compôs um todo bem harmonioso com as guitarras sempre fortes e sofisticadas do Ricardo, assim como os vocais, muito mais encorpados e harmonizados agora.
Eduardo: É outro ganho da produção do Gustavo. Neste álbum, talvez tivemos a oportunidade de expressar ainda mais as nossas inclinações como músicos. As composições de Corsair abriram mais espaço para um trabalho de baixo e bateria com muito mais groove e liberdade, algo que sempre deixa o pessoal da cozinha muito feliz.

Particularmente, esse groove realmente me pegou, porque é algo muito presente numa das minhas bandas favoritas, o Grand Funk. Vocês chegaram a buscar alguma inspiração específica para canções como An Ace Up My Sleeve, Raw Meat e Shoot to Kill Me?
Ricardo: Grand Funk é mais uma de nossas influências. Mas eu diria que, para An Ace Up My Sleeve e Raw Meat, a inspiração mais direta veio de Gov’t Mule e Allman Brothers. Shoot to Kill Me acaba sendo um apanhado de influências da New Wave of British Heavy Metal e também do Motörhead, bastante evidente nas partes mais rápidas.

Gustavo Gomes, Eduardo Assef e Ricardo Cagliari


A propósito, An Ace Up My Sleeve e Raw Meat nasceram para ser tocadas ao vivo, porque têm espaço ideal para jams em cima do palco. A primeira com uma extensão do duelo entre guitarra e baixo, e fico imaginando a segunda com um solo mais longo enquanto a cozinha enlouquece e sai aprontando…
Ricardo: Exatamente! Nao é à toa que a grande inspiração para elas foram os primeiros trabalhos do Gov’t Mule, uma das melhores ‘jam bands’ do planeta. Mais uma vez você captou com precisão o espírito de nossa música!
Eduardo: Sugestão anotada para extensão do duelo entre guitarra e baixo ao vivo! Diversão garantida.

Apesar de o ouvido às vezes pregar peças, eu tenho mania de ficar buscando referências nas músicas, e não pejorativamente. Assim, gostaria de colocar algumas que estão na resenha do CD para vocês comentarem e, se for o caso, cornetarem mesmo. A começar por Corsair, que tem algo de Led Zeppelin.
Ricardo: Led Zeppelin, Tower of Power e até Rage Against the Machine! Essa música ganhou um groove e uma linha de riffs bem marcantes para que ficasse agressiva e surpreendente na medida certa. Feita para ferver o sangue, é a trilha sonora perfeita da própria letra.
Gustavo: Para mim, em termos rítmicos, o início de Corsair soa como algo cajun vindo direto dos pântanos da Louisiana. Temos o comecinho suingado à la The Meters, que vai encorpando e deixando a música pesada até culminar, mais para o fim, num um groove de dois bumbos de inspiração meio math metal de bandas como Meshuggah. Tudo adaptado, claro, ao contexto mais grooveado e rock’n’roll que a música pedia.

Em seguida, cito Deliver Us from Evil, por causa do Black Sabbath.
Ricardo: A música fala de alguém que vive em crime de sangue, mas sem abrir mão da fachada de bom moço. A aura sabática vem principalmente na segunda metade e, sem dúvida, foi a grande referência para que pudéssemos pintar todo o drama da letra com as cores mais berrantes possíveis.
Gustavo: Esta é uma das minhas preferidas. De fato, e você sacou bem!, o começo meio arrastado e o fim mais cavalgado e pesado evocam muito a sonoridade do Black Sabbath, que, aliás, é minha banda preferida de todos os tempos.

A penúltima é My Private Wallontown, porque ou eu imaginei coisas ou ela tem um pouco de Na Na Hey Hey Kiss Him Goodbye, do Steam, e Layla, do Derek and the Dominos, logo no início.
Ricardo: Eric Clapton é, sem dúvida, uma de minhas maiores influências, especialmente na época do Cream. De minha parte, acho que essa música tem um ar meio anos 90, me lembra de algo do Alice in Chains. Realmente não foi intencional, simplesmente acabou soando assim ao término da gravação, ao menos para meus ouvidos. Provavelmente em razão da afinação bem baixa e do refrão.


Para terminar, Running Errands With Mr. D, uma das minhas favoritas. Na verdade, a minha canção favorita do Living Louder, porque o instrumental, o groove, as melodias vocais, especialmente a final… O casamento musical é perfeito, e talvez eu tenha dado mais corda à imaginação ao ouvir algo de Primus e Metallica.
Ricardo: Também é a minha favorita. Outro apanhado de influências, incluindo essas que você citou, e neste caso eu incluo o Helmet, uma de minhas bandas favoritas. Page Hamilton explora acordes que sempre me soaram muito expressivos. Essa música começou a ser desenhada antes do nosso primeiro disco. Edu apareceu com uma letra fantástica e com esse título misterioso, sugerindo que pensássemos em algo mais declamado do que cantado. Foi um desafio criar algo exótico o suficiente para casar com esses conceitos, mas no fim acho que conseguimos. Há até uma pitada meio thrash no fim, para dar o necessário toque de ecletismo e brutalidade que o som pedia.
Gustavo: Que bom que você a curtiu tanto quanto nós! Essa também é uma das prediletas da banda, e nem sempre o ouvinte tem todas essas referências, então pode estranhar num primeiro momento, pois ela realmente bebe em todas as influências da banda, compondo um arco musical que vai desde o classic rock, o funk, o prog, o hard e o heavy até o thrash metal no fim. Então, sim, você captou muito bem as referências, e as bandas que você citou definitivamente estão dentro do contexto.

Com pouco mais de dois anos de estrada, o Living Louder já lançou dois discos. Ambos independentes, mas num esquema bastante profissional que também vai das redes sociais a videoclipes bem produzidos. A internet proporciona essa facilidade, mas quais as vantagens e desvantagens de controlar tudo isso vocês mesmos?
Ricardo: A vantagem, sem dúvida, é ter o controle absoluto do processo criativo e do produto final sem qualquer tipo de influencia externa, facilitando ao máximo nossa satisfação plena. A desvantagem, obviamente, fica por conta da necessidade de você ser obrigado a carregar o piano sozinho, e isso, num pais onde a cultura é precária, pode ser um fardo por vezes insuportável. Mas, como você bem frisou, a banda ainda é nova, então quem sabe o que o futuro nos reserva?
Gustavo: A grande vantagem é mesmo a liberdade criativa e a possibilidade de entregar, ao público final, algo que esteja o mais próximo possível do objetivo expressivo do artista, coisa que antes era uma quimera, quando as gravadoras controlavam todo o processo produtivo de um disco e de sua divulgação. Por outro lado, isso é extremamente cansativo e oneroso, correndo pela banda todos os esforços e despesas. Por essa razão, não descartamos no futuro, se a liberdade for mantida e a proposta for interessante, lançar discos por meio de um selo, sobretudo para expandir a distribuição física de nosso material. Porque a digital já é de âmbito mundial.
Eduardo: É um esquema muito mais trabalhoso, sem dúvida. Pensando no lado das vantagens, certamente a maior delas é a liberdade artística que possuímos, o que nos deixa cada vez mais autocríticos.

O site do grupo, por exemplo, é preciso nas informações para quem quer conhecer o trabalho, e há também uma louvável preocupação com o mercado internacional, com um público em potencial que pode descobrir o Living Louder. Quais os resultados até o momento?
Gustavo: Muito obrigado pela sua avaliação. De fato, nos preocupamos muito com a comunicação da banda e em atender os fãs com informações precisas, atuais e, sobretudo, bacanas. O mesmo se dá com o material gráfico e audiovisual. O resultado desse esforço já é bastante visível, tanto em termos da divulgação da banda na mídia impressa e virtual quanto na extensiva veiculação de nossas músicas e videoclipes em rádios, webradios, blogs, sites e canais de rock e metal de todo o mundo, como por exemplo dos EUA, Alemanha, Portugal e Inglaterra.
Eduardo: Há muita preocupação com o mercado internacional, pois há países em que o rock ainda tem bom espaço. Nossas músicas chegaram a ser tocadas em rádios na Alemanha e nos EUA, e temos recebido bastante contato de fãs de países como Polônia, França e Espanha. Isso nos deixa extremamente satisfeitos!

Eduardo Assef, Gustavo Gomes e Ricardo Cagliari


Dito tudo isso, é muito claro que há talento e potencial de sobra. Então, o que falta para o Living Louder romper a barreira especializada no Brasil? Porque sabemos como isso é difícil num país onde existe uma aversão explícita, de grande público e grande mídia, a artistas direta ou indiretamente ligados ao som mais pesado…
Ricardo: Muito obrigado! Penso que ainda falta o despertar da curiosidade das pessoas. Não há duvida de que, para isso acontecer, sua música deve ser absolutamente surpreendente, e sua imagem e marca devem se tornar mais conhecidas possíveis. Realizar esses dois feitos, todavia, acaba sendo tarefa para poucos, em especial por conta das adversidades que você citou, mas sou convicto de que temos os elementos certos para isso, bastando-nos muito trabalho e paciência.
Gustavo: Nós todos, que batalhamos pela música de qualidade, sofremos com a banalização da vulgaridade neste país, de norte a sul, de leste a oeste. É preciso ter repertório, bagagem intelectual para compreender um som que não é aquele que toca no Faustão, não aparece na Veja e tampouco toca em micareta ou baile funk. Mas a boa música, principalmente no que tange ao rock e ao metal, sempre foi em alguma medida underground. Mesmo o jazz sempre foi de nicho e sempre sobreviveu de alguma forma, principalmente com o apoio fundamental de jornalistas e curadores experientes, como você no Resenhando e de veículos perseverantes como a Roadie Crew. Como já ouvi de um grande produtor, ganhador de Grammy, o rock vai voltar com tudo, e já estão as camisetas do Slayer nos peitos das Kardashians aí para provar! (risos) Por mais bizarro que seja, isso mostra a força icônica que a música pesada carrega, com todo o seu impacto cultural. “Prestigiem as bandas, vá aos shows!” é o mantra que falta ser entoado com mais vigor.

Para terminar, duas perguntas em uma: a viagem mal começou, mas como tem sido até agora? E quais os próximos passos do Living Louder?
Gustavo: ‘What a ride’! Não há nada melhor do que compor músicas poderosas, nas quais acreditamos, e ser reconhecido por isso. Tudo tem sido ótimo, e o melhor está por vir! Estamos na fase de divulgação do Corsair, com shows em diversas cidades, mas em muito breve já voltaremos a compor, pois o estoque de riffs já está explodindo a gaveta! (risos)
Eduardo: O famoso ‘so far so good’ se aplica em nossa trajetória. Ainda temos muito chão pela frente e muita lenha para queimar.

Obrigado pela entrevista, e o espaço final é todo de vocês.
Ricardo: Nós agradecemos muito esse imenso apoio! Estamos em todas as plataformas digitais, portanto, ouçam-nos urgentemente! E também comprem nossos CDs! Estão à venda na Die Hard, então é só entrar no site e buscar! Por fim, acompanhem-nos nas redes sociais e fiquem ligados em nossa agenda de shows. Vocês não vão se arrepender de conferir a energia da banda ao vivo!
Gustavo: Muitíssimo obrigado a você! Suas análises detalhadas e considerações certeiras sobre a nossa banda e todas as demais, sempre excelentes, que recheiam o Resenhando têm sido um bálsamo para nós como músicos e consumidores de boa música. Parabéns. Sentimo-nos muito honrados. E muito obrigado também aos leitores e ouvintes, porque sem eles não somos nada. Entrem na nossa página no Facebook para saber mais e curtir um material sonoro e visual bacana. Grande abraço e até breve!
Eduardo: Muito obrigado, Daniel! Além das excelentes perguntas, nos deixa muito feliz o fato de você ter sacado muito bem a essência do nosso som! ‘The road goes on forever’!

Avantasia – Moonglow

Por Daniel Dutra | Fotos: Alex Kuehr/Divulgação

“É meio modinha começar com uma grande fanfarra, tipo ‘Senhoras e senhores, aqui estamos nós! A maior banda do planeta blá-blá-blá’ (risos). Ghost in the Moon é uma ótima maneira de dar partida no álbum, porque faz o ouvinte mergulhar no conceito”, disse Tobias Sammet durante a entrevista que fiz com o vocalista para a edição de fevereiro da Roadie Crew. Não dá para acusar o mentor do Avantasia de ter feito fama e deitado na cama, e Moonglow foi feito especialmente com aversão ao lugar-comum. A canção que abre o CD é um dos dois maiores exemplos.

Literalmente. Com quase dez minutos, Ghost in the Moon é bela no piano e voz do início, é grandiosa nas orquestrações e é bombástica no refrão que tem vocais de apoio especiais. “Contratamos um coral gospel que costuma cantar em adaptações musicais da Broadway na Alemanha. É um grupo formado por americanos, africanos e holandeses, todos com vozes grandiosas. Quando eles começaram a cantar, o teto do estúdio tremeu!”, contou Sammet, coberto de razão.


E tem The Raven Child, com Jørn Lande e o estreante Hansi Kürsch. A primeira amostra do oitavo álbum de estúdio do Avantasia tem elementos de música celta e muitas variações distribuídos em seus épicos 11 minutos, mas há muito mais em Moonglow. E até melhor. Como Requiem for a Dream, que traz Michael Kiske e escancara um groove de baixo que não aparece toda hora no power metal, além de um corinho pronto para o público cantar junto. Assim como o “Uô ô! Uô ô ô!” viciante de The Piper at the Gates of Dawn, que reúne cinco dos vocalistas convidados: Ronnie Atkins, Lande, Eric Martin, Bob Catley e Geoff Tate – o instrumental ficou a cargo de Sascha Paeth (guitarra e baixo, este dividido com Sammet), Michael Rodenberg (teclados) e Felix Bohnke (bateria).

Em relação ao ex-vocalista do Queensrÿche, vale a pena falar de novo o que está no bate-papo com Sammet: Invincible tem a sua melhor performance em mais de 15 anos – mais precisamente, desde Tribe (2003) –, numa interpretação recheada de técnica e emoção numa canção que remete, em alguns momentos, a Someone Else?, além de ser uma belíssima entrada para Alchemy, que mistura metal tradicional e pop até um refrão 100% metal melódico. As misturas, aliás, dão um charme ao disco. Pegue Lavender, com Catley, por exemplo: é um ótimo encontro do hard rock com o power metal.


Mas não é tudo que empolga. Starlight, com a voz de Atkins, é tão comum que você não vai incluí-la numa playlist do Avantasia. A faixa-título, por sua vez, é bonita e mostra um lado mais palatável ao grande público, mas vale mesmo por mais uma estreia: Candice Night. Agora, duas músicas valem o repeat incessante: com Martin, o cover de Maniac, aquela mesma da trilha sonora de “Flashdance”, ficou sensacional; e Book of Shallows… Meu amigo, a parte pesadona com Mille Petrozza, o terceiro e último debutante da vez, é uma obra de arte. Que riff! E o líder do Kreator ainda conseguiu ofuscar Kürsch, Atkins e até mesmo Lande

Faixas
1. Ghost in the Moon
2. Book of Shallows
3. Moonglow
4. The Raven Child
5. Starlight
6. Invincible
7. Alchemy
8. The Piper at the Gates of Dawn
9. Lavender
10. Requiem for a Dream
11. Maniac
12. Heart (faixa bônus)


Banda
Tobias Sammet – vocal, baixo e teclados
Sascha Paeth – guitarra e baixo
Michael Rodenberg – teclados e orquestração
Felix Bohnke – bateria

Vocalistas convidados
Bob Catley (Magnum) – faixas 8 e 9
Candice Night (Blackmore’s Night) – faixa 3
Eric Martin (Mr. Big) – faixas 8 e 11
Geoff Tate – faixas 6, 7 e 8
Hansi Kürsch (Blind Guardian) – faixas 2 e 4
Jørn Lande (Jorn) – faixas 2, 4 e 8
Michael Kiske (Helloween) – faixa 10
Mille Petrozza (Kreator) – faixas 2
Ronnie Atkins (Pretty Maids) – faixas 2, 5 e 8

Lançamento: 15/02/2019

Produção: Sascha Paeth e Tobias Sammet

2018 in review

Depois de agrupar os cinco discos nacionais favoritos da casa em 2018 (veja e leia aqui), é hora de os 20 álbuns internacionais ganharam o seu espaço conjunto, com links para as respectivas resenhas e um videoclipe para cada um dos dez primeiros. Um total de 25 CDs que dão um panorama mais abrangente da minha lista de melhores de ano publicada na edição de janeiro da Roadie Crew – não à toa, e por motivos óbvios, os dez discos marcados como obrigatórios formam o Top 10 que enviei para a revista, mas o método de avaliação, a partir desta eleição um padrão do Resenhando, está explicado mais lá embaixo. Sem mais delongas…

#10 The Sea Within (THE SEA WITHIN) – Com integrantes do The Flower Kings, Pain of Salvation e The Aristocrats, o supergrupo foi responsável por um grande disco de rock progressivo. Ou “a new art rock collective”, como se autodenomina a banda (clique aqui para ler a resenha completa).


#9 Original Human Music (ULTRAPHONIX) – O que esperar da união musical entre o vocalista Corey Glover e o guitarrista George Lynch? Um álbum que presta homenagem a Living Colour e Dokken, mas com molho engrossado por vários outros sabores (clique aqui para ler a resenha completa).


#8 Set the World on Fire (GIOELI – CASTRONOVO) – Depois de 25 anos, Johnny Gioeli e Deen Castronovo relembram a época de Hardline com um disco sob medida para quem curte ótimos vocais e aquele hard rock melódico com toques de AOR (clique aqui para ler a resenha completa).


#7 The Shadow Theory (KAMELOT) – Terceiro disco com Tommy Karevik, e o melhor desta já não mais tão nova fase da banda americana. Mais uma vez, um sopro de vida inteligente no metal sinfônico, incluindo o conceito lírico para mentes nada preguiçosas (clique aqui para ler a resenha completa).


#6 Damned if You Do (METAL CHURCH) – Tem algo da era David Wayne; tem bastante da versão Mike Howe, o vocalista definitivo do Metal Church; e tem muito de anos 80, incluindo a produção completamente orgânica. E é mais uma aula de heavy metal (clique aqui para ler a resenha completa).


#5 Burn it Down (THE DEAD DAISIES) – Banda veterana é que faz música boa. Aqui, músicos tarimbados e incrivelmente talentosos que se juntaram para mostrar como se faz rock’n’roll e heavy rock clássico de verdade. E os Daisies acertaram novamente (clique aqui para ler a resenha completa).


#4 The Ghost War Diaries (ELECTRIC BOYS) – O grupo sueco já havia lançado uma joia em 2014, e o terceiro disco desde a volta em 2009 confirma as novas expectativas. De novo, a fusão perfeita do vigor do hard rock com o groove do funk (clique aqui para ler a resenha completa).


#3 Patina (RED DRAGON CARTEL) – Se o primeiro disco valeu pela volta de Jake E. Lee à ativa, depois de 20 anos longe dos holofotes, o segundo é um presente para os fãs que ansiavam pelo retorno do genial guitarrista ao estilo que o consagrou (clique aqui para ler a resenha completa).


#2 For the Love of Metal (DEE SNIDER) – Os fãs reclamaram de We Are the Ones, um desvio no caminho do vocalista. Mas se os fãs queriam heavy metal, então ganharam o melhor disco do estilo em 2018. E Dee Snider só precisou abrir a boca e cantar (clique aqui para ler a resenha completa).


#1 Sometimes the World Ain’t Enough (THE NIGHT FLIGHT ORCHESTRA) – Com discos em 2017 e 2018, a banda deve segurar a onda em 2019. Melhor para a concorrência. O NFO poderia virar hors-concours ao ficar em 1º pelo terceiro ano consecutivo (clique aqui para ler a resenha completa).


Segundo tempo (clique no nome do disco para ler a resenha)

#11 Family Tree (BLACK STONE CHERRY)
#12 Prequelle (GHOST)
#13 Thunderbolt (SAXON)
#14 Steelfactory (U.D.O.)
#15 Firepower (JUDAS PRIEST)
#16 Volume II – Power Drunk Majesty (METAL ALLEGIANCE)
#17 Resurrection (MICHAEL SCHENKER FEST)
#18 The Age of Absurdity (PHIL CAMPBELL AND THE BASTARD SONS)
#19 Grimmest Hits (BLACK LABEL SOCIETY)
#20 II (LEATHER)

MÉTODO DE AVALIAÇÃO

Quebre, Passe longe, Vale a audição, Divirta-se, Pode comprar e Obrigatório. O que isso quer dizer para quem lê as resenhas publicadas visando à retrospectiva 2018 (e todas as outras a partir de agora)? Que o leitor deve decidir por ele mesmo se o CD deve passar batido ou ir direto para a sua coleção. Por quê? Porque a resenha traduz a opinião de quem escreve. Goste ou não o fã, resenha de disco sempre foi, continua sendo e sempre será a opinião do autor. No entanto, como dar nota é algo que nunca foi do agrado da casa, a saída foi arrumar alguns quesitos. Com um toque de diversão.

Quebre é apenas figura de linguagem, obviamente, e Obrigatório não significa necessariamente que o álbum é nota 10. Levando-se em consideração os dois extremos da avaliação, são apenas dicas de que ou o trabalho serve apenas para pegar poeira na estante, no caso de você fazer questão de ter a coleção completa, ou é indispensável para quem curte o estilo e/ou a banda. E as outras quatro categorias? Com as plataformas de streaming, você pode conferir o disco e aí concordar ou discordar. No entanto, sempre que puder, compre o produto físico e original. Quem faz música e vive dela agradece.

The Night Flight Orchestra – Sometimes the World Ain’t Enough

Por Daniel Dutra | Fotos: Emelie Lager/Divulgação (capa) e Carlos Holmberg/Divulgação (interna)

The Last of the Independent Romantics é uma música com muitos elementos progressivos, no sentido de que há surpresas e mudanças em seu andamento. É para mostrar do que a banda é capaz, porque sempre vamos além daquilo que decidimos fazer. Se você tenta adivinhar o que virá a seguir, será novamente surpreendido”, disse Björn “Speed” Strid, durante o bate-papo que resultou na entrevista que está na edição 235 (agosto) da Roadie Crew, ao comentar a canção que encerra Sometimes the World Ain’t Enough. “O elemento surpresa é sempre algo muito bonito, mas precisa fazer sentido, e ela faz sentido. Leva você a uma viagem, porque é praticamente um álbum inteiro numa única música. É muita longa, mas com várias nuances que servem para tirar o fôlego, porque nossa ideia era deixar o ouvinte se perguntando ‘Que diabos aconteceu?’ assim que ela e, consequentemente, o disco acabam.”

E há uma razão muito boa para começar desta maneira, meio que pelo fim, a resenha do novo álbum do The Night Flight Orchestra: o vocalista e seus parceiros de crime – David Andersson (guitarra), Sharlee D’Angelo (baixo), Richard Larsson (teclados), Sebastian Forslund (percussão e guitarra) e Jonas Källsbäck (bateria) – conseguiram novamente. Basta uma audição de Sometimes the World Ain’t Enough para você se pegar pensando como é possível os caras terem feito um trabalho ainda melhor que o espetacular Amber Galactic (2017). Pois bem, um ano depois, eles fizeram. O que surpreende em The Last of the Independent Romantics é o progressive AOR, porque não há maneira melhor de definir os nove minutos de uma canção recheada de belas passagens instrumentais, incluindo solo de teclado e um fim acústico com violoncelos.


Tudo com aquela aura mágica dos anos 80 que permeia todo o CD, mas ainda assim uma música diferente das demais. Como a primeira faixa, a empolgante This Time, mais rock’n’roll, empolgante como os solos de piano e guitarra. Ou como o molho extra que as vozes de Anna-Mia Bonde e Anna Brygård dão a Turn to Miami, um baita AOR levado pelos teclados, a Moments of Thunder e ao lado groove e hard rock da faixa-título. Groove, aliás, que é mérito total de D’Angelo, que brilha como nunca antes, porque é surpreendente e muito agradável ouvi-lo tocando com os dedos e emprestando um suingue formidável a Paralyzed, uma daquelas canções nascidas de alguma inspiração divina. Que refrão absurdo!

É tão maravilhoso quanto os de Speedwagon e Can’t Be That Bad, joias que têm nas contagiantes Barcelona e Winged and Serpentine, ambas mais AOR com hard rock, semelhantes do mesmo quilate. Aí você que ainda não ouviu o CD pode pensar que não dá para ficar melhor. Sim, dá. Pretty Thing Closing in é a união perfeita de AOR com disco music, e Lovers in the Rain… Meu amigo, que música é essa!? Hino ou hit, como queira, ela seria um sucesso gigantesco 30 anos atrás, e isso diz muito sobre o NFO, a melhor banda surgida nos anos 2000, e Sometimes the World Ain’t Enough, o álbum de 2018. Porque, acredite, a música tem salvação.


Faixas
1. This Time
2. Turn to Miami
3. Paralyzed
4. Sometimes the World Ain’t Enough
5. Moments of Thunder
6. Speedwagon
7. Lovers in the Rain
8. Can’t Be That Bad
9. Pretty Thing Closing in
10. Barcelona
11. Winged and Serpentine
12. The Last of the Independent Romantics

Banda
Björn “Speed” Strid – vocal
David Andersson – guitarra
Sharlee D’Angelo – baixo
Richard Larsson – teclados
Jonas Källsbäck – bateria
Sebastian Forslund – percussão e guitarra
Anna-Mia Bonde – backup vocal
Anna Brygård – backup vocal


Lançamento: 29/06/2018

Produção: The Night Flight Orchestra
Mixagem: Sebastian Forslund