Lacuna Coil

Por Daniel Dutra | Fotos: Zona13/Divulgação

Comalies ainda não havia chegado às lojas quando rolou a oportunidade de entrevistar a vocalista daquela banda italiana que vinha chamando bastante atenção com seu gothic metal. Assim era rotulado o Lacuna Coil, e este foi um dos assuntos da conversa com Cristina Scabbia para promover o terceiro trabalho do então sexteto – Andrea Ferro (vocal), Marco Coti Zelati (baixo), Marco “Maus” Biazzi e Cristiano “Pizza” Migliore (guitarras) e Cristiano “Criz” Mozzati (batreria) completavam a formação à época, sendo que hoje estes três últimos não estão mais no grupo. O papo incluiu temas como a presença cada vez maior das mulheres no cenário heavy metal e as respostas firmes da vocalista – 16 anos depois, pare e pense no que realmente mudou de lá para cá. Curioso? É só conferir a íntegra da conversa, que aqui está disponível em sua versão original. Pela primeira vez.

O Lacuna Coil se destaca pelas melodias instrumentais e, principalmente, vocais, o que compensa em parte a quase ausência de solos de guitarra. É essa a intenção?
Eu apenas posso imaginar o que se passa na cabeça e no coração do Marco ao criar as estruturas básicas de uma canção, e isso inclui as partes de guitarra e bateria, porque ele é o principal responsável por nossa música. Não sou a responsável pelo processo, uma vez que não sou capaz de tocar algum instrumento, mas diria que apenas não aconteceu desta vez, porque tivemos solos em algumas canções no passado. De qualquer maneira, não existe receita para o material que compomos. Em alguns casos, queremos mesmo voltar nossas atenções aos vocais ou a uma melodia guiada pelas duas guitarras, então é realmente por isso que não precisamos sempre colocar solos nas músicas.

Outra coisa interessante é o uso do italiano, como foi feito em Senzafine (N.R.: de Unleashed Memories, de 2001). Obviamente, por uma questão de mercado, o inglês é primordial, mas vocês pensam em explorar mais a língua natal conforme a banda for crescendo?
Incluímos no novo álbum uma música cuja letra é metade em inglês, metade em italiano. Exatamente a faixa-título, Comalies. Optamos por misturar as duas porque o verso era perfeito para ser cantado em italiano, enquanto o refrão era ótimo em inglês. A língua inglesa não é apenas uma questão de mercado, mas também uma maneira mais fácil de dar à canção um bom significado usando palavras simples. Fazer boas letras em italiano requer uma enorme pesquisa, porque as palavras mais musicais têm um significado muito bobo. Gostaríamos até de experimentar outras línguas, como francês e espanhol, mesmo que eu me sinta verdadeiramente confortável cantando em inglês.

O Lacuna Coil é rotulado como gothic metal, e é comum as pessoas associaram a palavra gótico à tristeza. Como a banda nem de longe é para baixo, como você a definiria?
Eu não diria que gótico significa tristeza. Não mesmo. Vejo esse lado gótico como um componente melancólico na própria música, mas não é algo triste. Para mim, o Lacuna Coil é uma mistura de gótico, rock e heavy metal com um toque moderno. O fato é que todos na banda gostam de diferentes estilos, da música clássica ao metal extremo, então colocamos todas as nossas influências nas composições que elaboramos. É por isso que você encontrará rock e metal misturados com arranjos que nada têm a ver com o gótico. Não somos apenas gothic metal, então é muito difícil dar um nome ao estilo do Lacuna Coil. Claro, isso se a pessoa não for ignorante a ponto de nos considerar gothic metal apenas porque há uma mulher cantando ou porque nos vestimos de preto (risos).


Independentemente disso, em pouco tempo o Lacuna Coil virou uma referência no que faz. Grupos como Flowing Tears fazem um som similar e são nitidamente influenciados por vocês. Você se sente confortável nessa posição?
O problema é quando, na maior parte do tempo, é mais fácil nos comparar a bandas com as quais não temos nada em comum. E parece que há muitos grupos novos que vêm sendo associados a nós apenas porque têm uma mulher nos vocais. Isso não faz nenhum sentido, mas, no geral, fico feliz e orgulhosa quando ouço bandas dizerem que são inspiradas por nós. Tenho certeza de que encontrarão em breve um caminho próprio, então desejo a elas tudo de bom.

E quais eram as influências do Lacuna Coil?
Quando começamos, em 1997, fomos provavelmente influenciados pelos álbuns Icon (1993) e Draconian Times (1995), do Paradise Lost, mas ao longo dos anos desenvolvemos nosso próprio estilo. E um estilo bem distante daquelas sonoridades mais cruas, porque as guitarras distorcidas vão de encontro à melodia. Atualmente somos influenciados por nós mesmos, porque são os nossos sentimentos que traduzimos em palavras e música.

Mas que tipo de música e quais bandas você tem escutado atualmente?
Ah, ultimamente tenho escutado Korn, Garbage, Linkin Park, Meshuggah… Sempre tive um largo espectro de gostos musicais, pouco importa o tipo de música que eu mesma faço. Considero-me uma pessoa com a mente bem aberta, amo bandas que vão do clássico ao extremo. Acredito que em qualquer estilo é possível descobrir algo que possa trazer uma nova vibração ao seu próprio trabalho.

O heavy metal não é mais popular como foi na década de 80, mas vem ascendendo novamente com o passar dos últimos anos. Como fã, não apenas como artista, qual a sua perspectiva?
O heavy metal sempre esteve presente, mas as pessoas não percebem porque se trata de um estilo que mudou o próprio rosto milhares de vezes. Hoje em dia, muitas bandas mainstream usam sonoridades do gênero, como guitarras distorcidas e baterias realmente pesadas, enquanto grupos de metal estão absorvendo elementos mais experimentais. Ouça, por exemplo, All the Things She Said, do t.A.T.u, novo nome do pop. A música, com loops de bateria e acordes em tons mais altos, é exatamente o que fizemos em Falling Again, uma canção que compusemos em 1998! (N.R.: e está no disco de estreia, In a Reverie, lançado no ano seguinte) À exceção da linha vocal, é a mesma coisa, só que um pouco mais rápida. Honestamente, gosto dessa mistura de diferentes gêneros musicais, porque estar aberto a novidades é a única maneira para o metal, o rock e o gótico crescerem.

Curiosamente, o t.A.T.u é um duo formado pelas russas Lena Katina e Julia Volkova, e o heavy metal nunca teve tantas artistas mulheres como agora. É uma situação bem diferente da dos anos 80, quando Lita Ford e Doro Pesch eram os principais nomes, porque hoje temos você, Angela Gossow, Liv Kristine, Sharon Den Adel e Tarja Turunen, entre outras, à frente de bandas de estilos diversos. Há uma mudança de mentalidade, não?
Acredito que ainda há muito trabalho a ser feito. Uma mulher sempre vai despertar mais atenção, especialmente num meio predominantemente masculino como o heavy metal, só que o preconceito ainda é forte. Vou lhe dar um exemplo: há situações em que pessoas pensam que uma mulher só está na capa de uma revista porque é bonita, mas essas mesmas pessoas não pensam desse modo estúpido quando é um homem na capa. No passado, as mulheres no metal tinham uma imagem mais agressiva, talvez porque fosse mais complicado fazer parte da cena. Hoje, no entanto, é definitivamente mais fácil fazer parte desse meio, apesar dos casos em que bandas não se preocupam com o talento, afinal, querem uma mulher apenas por causa da imagem. Mas todas as vocalistas que você citou são extremamente talentosas e uma prova definitiva de que existe algo por trás da imagem. Mesmo que algumas pessoas às vezes se esqueçam disso.


E quais são as mulheres que a influenciaram?
Eu realmente gosto da Madonna, só que mais por causa de sua personalidade do que pela voz. Nunca tive uma cantora favorita, mas adoro as vocalistas negras de rhythm and blues e soul, porque muitas vezes elas são capazes de expressar seus sentimentos sem precisar recorrer a uma grande técnica vocal. Prefiro o erro humano à perfeição fria, e é isso que estou tentando fazer no Lacuna Coil.

Depois de tudo o que falamos, podemos dizer que, a despeito de atrair mais atenção do público, ter uma ‘frontwoman’ não é uma apenas uma moda, como alguns críticos vêm alardeando.
Nunca confie nos críticos, mas sim no gosto das pessoas! (risos) Sim, como disse antes, ainda existe muita hipocrisia em relação ao uso da imagem de uma mulher na cena metal. É algo muito infantil, mas acontece porque provavelmente há muita inveja em torno das mulheres que podem facilmente roubar a cena dos homes (risos). Hoje muito mais do que antes. Basicamente, o que eles dizem realmente não importa para mim. Eu já aprendi que quanto mais popular você se torna, mais merda vão falar de você.

Então, vamos falar do contraste entre a sua voz e a de Andrea Ferro, que é mais agressiva. Em Comalies, porém, a sua interpretação às vezes é mais energética do que a apresentada nos álbuns anteriores. Há um maior uso de tons mais baixos. É minha impressão ou foi intencional?
Tentei fazer algo diferente, mas sem um real propósito, porque sempre recebo as melodias vocais depois que as músicas estão prontas. Eu não tenho como planejar nada, realmente, mas amo entrar no clima da canção e expressar aquilo que o meu coração diz para mim. Em uma faixa como Angel’s Punishment foi perfeito cantar com uma voz fria e num registro mais baixo, porque eu queria interpretar um apresentador lendo o noticiário na televisão. Tinha que ser algo bem neutro, então não colocamos nenhum efeito na minha voz. Trata-se de uma música dedicada a todas as vítimas inocentes de qualquer guerra e revoluções, então não fazia sentido cantar de maneira alegre.

Unleashed Memories se tornou um dos meus discos favoritos nos últimos dois anos, mas Comalies causou uma impressão ainda melhor. Músicas como Heaven’s a Lie, Tight Rope e a faixa-título fazem dele o melhor trabalho do Lacuna Coil até então. Isso causa alguma expectativa na banda? Houve alguma pressão depois de o álbum anterior ter sido tão bem falado?
Nunca tivemos nenhuma expectativa especial, apenas nos interessamos em ter a vibração certa para cada música que compomos. Se uma banda se deixa levar por pressões externas, então é porque ela está preocupada com a opinião do resto do mundo. Nós não estamos. Apenas esperamos ter inspiração e, assim que isso acontece, começamos a trabalhar as deias que tivemos. Mas nunca estamos interessados no que as pessoas querem, porque compomos para nós mesmos e simplesmente ficamos felizes compartilham seus sentimentos conosco. Nunca vou virar as costas para os discos anteriores, mas Comalies é elegante, realmente o nosso melhor álbum até agora. É mais maduro e mais pesado, cheio de boas energias e atmosferas. É um trabalho completo, mas nunca planejamos o que vamos fazer no próximo disco, porque existe o risco de perder a espontaneidade, e aí o trabalho pode soar frio e não ser honesto. É exatamente por isso que não sofremos nenhuma pressão exterior, porque somos artisticamente livres para fazer o que quisermos. Posso dizer que não mudamos nosso modo de trabalhar, mas, comparando ao que fizemos no passado, estamos mais concentrados para ir direto ao ponto, evitando coisas desnecessárias que vez ou outra podem parar numa canção apenas para preencher espaço. Algumas vezes menos e mais, e isso não significa menos ideias ou menos paixão na música que fazemos. Significa que aprendemos a ser simples nas composições ao tomar cuidado com detalhes que importam, como a escolha de como cada arranjo vai sair. Por isso, Comalies é verdadeiramente mais pesado do que qualquer coisa que fizemos antes.


Vocês já consideraram lançar um álbum ao vivo depois da turnê?
Não pensamos nisso, honestamente, apesar de eu acreditar que um dia eventualmente iremos fazer. Pessoalmente, para mim é muito melhor ir a um show para assistir à banda diretamente. Não vejo uma real necessidade de lançar discos ao vivo, para qualquer grupo. Para nós, é mais interessante escrever material novo a partir do momento em que temos várias ideias frescas.

E a banda vem crescendo bastante. Você e o Marco têm um relacionamento, mas é algo que não transparece nos palcos, no estúdio, nos discos… Há todo um respeito e uma aura profissional na imagem do Lacuna Coil, o que deveria ser via de regra para todas as bandas.
Eu e Marco ainda não somos casados, apenas noivos, mas aprendemos a separar o lado profissional da vida particular. E há muito respeito entre os integrantes do Lacuna Coil, mesmo. A formação está estável desde 1998, e nos conhecemos muito bem. Sabemos pontos bons e ruins uns dos outros e estamos trabalhando em busca do mesmo objetivo. Sentimo-nos como se fôssemos uma família em que todos têm os mesmos direitos, mas, ao mesmo tempo, todos têm de trabalhar duro para que essa família siga em frente da melhor forma possível.

A primeira versão desta entrevista, editada e adaptada, foi publicada na edição 89 do International Magazine, em novembro de 2002.

Sepultura – Under a Pale Grey Sky / Chaos…

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Não há dúvida que uma das coisas mais chatas para os membros de uma banda é falar das mudanças ocasionadas pelo entra e sai de músicos, principalmente ter de conviver com o que chamam de fase clássica. E passados quase seis anos da saída de Max Cavalera, o Sepultura conseguiu manter-se como o maior nome brasileiro do heavy metal em todos os tempos. Com Derrick Green nos vocais, gravou dois discos – o bom Against (1998) e o ótimo Nation (2001) –, está preparando o terceiro e encontra-se próximo do lançamento do EP de covers chamado Revolusongs, previsto para o fim do ano.

Apesar do status atual, não há como negar que a banda viveu um período de ouro no meio dos anos 90, quando chegou a ser considerada a maior banda de metal do planeta. E dessa época surge o CD duplo ao vivo Under a Pale Grey Sky, gravado durante a turnê da obra-prima Roots (1996), tendo como acompanhamento Chaos DVD, um achado que contém os três home videos lançados na década passada. Chegando ao mercado brasileiro via Sum Records, ex-gravadora da banda aqui, os dois itens são obrigatórios e mostram o porquê de o Sepultura ser o maior produto de exportação da história do rock brasileiro.

Um CD que nasceu discoteca básica

Gravado na Brixton Academy, em Londres, no dia 16 de dezembro de 1996, Under a Pale Grey Sky é o registro do último show com Max. Independentemente de não dar aval ao disco – nas prateleiras à revelia do grupo, que não teria sido consultado ao menos para opinar sobre a arte da capa –, porque o guitarrista Andreas Kisser lembrou recentemente que o clima interno já não era bom. Tudo bem, mas há o outro lado da moeda. Os entraves com Gloria Cavalera, mulher de Max e então empresária da banda, deram no que todos sabemos, mas ao vivo o papo era outro. O CD mostra como (até hoje) é um show do Sepultura: energia para dar e vender. Mas o que fazer se justamente naquele ano a fase era não menos que brilhante? E o disco é isso mesmo: brilhante.


Esqueça todo o falatório e ouça o que Kisser, Max, Igor Cavalera e Paulo Jr. deixaram registrado. Impossível ficar indiferente a um repertório simplesmente devastador. Em mais de duas horas de música você encontra (quase) todos os clássicos num show inesquecível (sabem do que estou falando aqueles que assistiram a uma apresentação ao menos da turnê). As boas-vindas ao público inglês é sintomático: “Greetings from the Third World”, berra Max. A saudação do Terceiro Mundo vem na forma espetacular de Roots Bloody Roots, Spit, Territory, Breed Apart, Attitude, Cut-Throat (com um trecho de Cornucopia, do Black Sabbath), o medley Beneath the Remains/Mass Hypnosis, Troops of Doom e Desperate Cry. E no primeiro disquinho há mais, incluindo Monólogo ao Pé do Ouvido, de Chico Science.

Nos intervalos dos momentos em que você se pega cantando e com vontade de sair pogando, percebe que Igor estava numa noite inspirada, tocando uma barbaridade. Clima ruim? O segundo CD esconde o fato para os fãs. Parecia mesmo estar tudo muito bem. We Who Are Not as Others, Straighthate, Dictatorshit, Refuse/Resist, Arise/Dead Embryonic Cells, Slave New World, Biotech is Godzilla e Inner Self aparecem em versões absolutamente matadoras. A veia regional, presente em diversos momentos do show, chega ao momento máximo em Kaiowas e Ratamahatta (para quem não sabe, composta e gravada com Carlinhos Brown). Fácil imaginar a reação de um público pouco acostumado a uma riqueza musical como a brasileira.


Como se ainda precisasse de mais alguma coisa, a banda ataca de Polícia (Titãs, com menção ao Bad Brains em Gene Machine/Don’t Bother Me), We Gotta Know (Cro-Mags) e a apoteose de sempre com Orgasmatron (Motörhead). A única coisa a lamentar é que o set list não tem nada do álbum Schizophrenia (1987), que catapultou o grupo para seu primeiro contrato com uma gravadora estrangeira (Roadrunner). Mas são vários os motivos para Under a Pale Grey Sky entrar com méritos na discografia oficial do Sepultura. É para ser escutado sempre, com o volume mais alto possível. Fazer história é motivo de orgulho para qualquer um.

Chaos DVD, o vídeo 3×1

Mais do que um aperitivo, Chaos DVD é um trabalho que mostra a evolução do grupo do período em que deixava de virar promessa fora do Brasil até a separação da formação clássica. Under Siege (1992), Thirld World Chaos (1995) e We Are What We Are (1997) abrangem os períodos de Arise (1991), Chaos A.D. (1993) e Roots (1996), respectivamente, e num mesmo pacote são um atrativo ainda maior para aqueles que pouco conhecem a trajetória da banda.

Under Siege é pura e simplesmente uma hora do show realizado no Zeleste, em 31 de maio de 91. A casa de shows em Barcelona, Espanha, abrigava a primeira grande turnê do grupo como headliner. No outro extremo, We Are What We Are traz em 20 minutos depoimentos dos integrantes sobre o sucesso de Roots, além dos clipes de Roots Bloody Roots, Ratamahatta e Attitude.


Mas o filé é mesmo Third World Chaos, que conta com imagens antológicas. Não faltam clipes (Slave New World, Refuse/Resist, Territory, Arise e Dead Embryonic Cells), e as cenas de bastidores são ótimas, mas as performances ao vivo já valem todo o DVD. Três momentos são marcantes, a começar por 1992, com a jam de Andreas e Igor com Jello Biafra em São Paulo, onde tocaram Holiday in Cambodia, do Dead Kennedys. Dois anos depois, no Castle Donnington, na Inglaterra, uma onda humana agitando sem parar em Kaiowas e Polícia. Para terminar, João Gordo e Jão subindo ao palco do Hollywood Rock para uma versão de Crucificados pelo Sistema, clássico do Ratos do Porão. Ah, sim! De bônus o DVD só tem a discografia, mas…

O futuro

Depois de um bom tempo morando em Phoenix (Arizona), Andreas, Igor, Paulo voltaram ao Brasil e, com Derrick de mala e cuia, fizeram algo impensável há alguns anos: levaram a turnê do Nation não apenas às grandes capitais do país. Algumas coisas, no entanto, continuam as mesmas: os quatro nem precisam dos primeiros acordes para ter o público nas mãos (lembram do Rock in Rio 3?). Afinal, o show continua o mesmo. Chaos DVD e Under a Pale Grey Sky são capítulos maravilhosos da mais bem-sucedida banda brasileira no exterior. À parte, porque a história ainda está longe de terminar.

Revolusongs será lançado em dezembro no Brasil (FNM/Universal), Japão (JVC) e Europa (SPV), ainda sem previsão para os Estados Unidos, e contará com versões de músicas do Exodus (Piranha), Jane’s Addiction (Mountain Song), Devo (Mongoloid), U2 (Bullet the Blue Sky), Hellhammer (Messiah) e Public Enemy (Black Steel in the Hour of Chaos), além da possível inclusão de duas músicas inéditas (uma delas, Corrupted, presente nos últimos shows). Indo além, dez canções do próximo trabalho já estão em fase de finalização. Que seja a hora de reconquistar terreno perdido. Não por ser um produto nacional, mas porque o rock precisa de mais grupos como o Sepultura.

Resenha publicada na edição 89 do International Magazine, em novembro de 2002.

Bon Jovi – Bounce

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Cinco anos separaram These Days (1996) de Crush (2001), um passado que se torna distante quando nos deparamos com o novo trabalhado do Bon Jovi, Bounce. E olha que o grupo lançou ano passado seu primeiro álbum ao vivo, One Wild Night. Assim, não parece que faz pouco tempo que Jon Bon Jovi aproveitou o tal hiato para lançar Destination Anywhere (1997), fazer nascer o filme tendo o CD como tema e ainda passar um tempo em Hollywood atuando em filmes que, sinceramente, não merecem muita atenção.

O guitarrista Richie Sambora foi menos ambicioso e soltou apenas seu segundo disco longe da banda, o ótimo Undiscovered Soul (1998). Os outros integrantes… Bom, fiquemos apenas com quem assina as composições. Mas e daí? Para alegria dos fãs – principalmente das fãs – o Bon Jovi está de volta… E dessa vez nem demorou muito. Décimo disco da carreira – incluindo também a coletânea Crossroads –, Bounce não decepciona, mas sua chegada às lojas pode encontrar razão nos atentados terroristas de 11 de setembro.


O conteúdo não é tão explícito como The Rising, recente trabalho de Bruce Springsteen que, segundo o próprio, não existiria não fossem as vítimas do World Trade Center, do Pentágono e do avião que (teoricamente) teria a Casa Branca como alvo. As coincidências ficam mesmo nas referências e no fato de ambos os artistas residirem em Nova Jersey, estado-subúrbio de Nova York. Em Bounce, o dia de horror é lembrado com mensagens positivas em músicas como The Distance, a faixa-título e Undivided, canção que abre o CD.

No impacto inicial não há lugar para meio termo. Da primeira estrofe (“Aquele era meu irmão perdido nos escombros / Aquela era minha irmã perdida no choque / Aquelas eram nossas mães, nossas crianças / Eram nossos pais, eram cada um de nós”) ao refrão (“Um pelo amor / Um pela verdade / Um por mim / Um por você / Onde antes estávamos divididos / Agora nos erguemos unidos / Como um só…”), respira-se uma ode ao sentimento americano. O discurso objetivo para aí, e o que encontramos no restante do álbum é aquilo que a banda faz de maneira absolutamente eficiente: rock de arena com qualidade da primeira à última nota.


Claro, se o ouvinte se despir de preconceitos terá em mãos um ótimo disco de rock. Everyday, primeiro single, mostra o talento de Jon Bon Jovi, inegavelmente um bom vocalista, e Sambora, um guitarrista de mão cheia. A fórmula é enxuta, com refrão grudento e peso na medida certa. Mas nem comemore muito, pois as baladas não foram esquecidas, e são quatro em 12 músicas. À exceção de You Had Me from Hello, intimista e realmente bonita, não fariam falta. Mas quem o grupo – que ainda tem Tico Torres (bateria), David Bryan (teclado) e Hugh McDonald (o baixista que grava, faz os shows e nunca aparece nas fotos promocionais) – tentaria enganar depois de quase 20 anos de estrada? Enfim, as meninas vão adorar.

Por outro lado, Joey, Misunderstood e Hook Me Up (lembrando o The Cult da fase Sonic Temple no refrão) se juntam às já citadas Undivided, Everyday e Bounce para fazer a balança pender a favor da banda. Na verdade, nem é necessário muito esforço. O showcase realizado em outubro, para o Fantástico, da Rede Globo, é a prova concreta. Cinco músicas – You Give Love a Bad Name, Misunderstood, Everyday, Bounce e It’s My Life, as três últimas em dose dupla – e muita, muita histeria.


Em tempo: a Universal coloca o disco no mercado com um atrativo a mais na luta contra a pirataria. Antes mesmo de adotar a proteção contra cópias, a gravadora achou uma boa estratégia para fazer com que o público compre o CD original. Cada unidade de Bounce vem com um número diferente que possibilita ao fã associar-se gratuitamente ao American XS, clube que traz uma série de benefícios exclusivos. Pois é, quem disse que numerar é inviável? A ideia é ótima, e Lobão deve estar rindo.

Resenha publicada na edição 89 do International Magazine, em novembro de 2002.

Black Sabbath – Past Lives

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Alguém lembra que o último trabalho inédito do Black Sabbath, chamado Forbidden, lançado em 1995? Que o álbum foi gravado por Tony Martin (vocal), Neil Murray (baixo), Cozy Powell (bateria) e, claro, Tony Iommi? Talvez não, mas certamente muitos se lembram de Reunion, duplo ao vivo lançado três anos depois para celebrar a turnê realizada pela formação original da maior banda de heavy metal de todos os tempos.

Como é inegável a importância do que fizeram juntos Iommi, Ozzy Osbourne, Geezer Butler e Bill Ward, foi lançada mais uma pérola para os fãs. No dia 20 de agosto chegou às lojas o CD duplo Past Lives, com gravações ao vivo da década de 70, ou seja, diversão garantida. O álbum saiu ainda numa versão limitada, em digipack, com pôster colorido e uma palheta que obviamente nunca chegou perto de Iommi ou Butler. Mas o que importa mesmo é a música. Então, vamos a ela.

O primeiro CD nada mais é que a remasterização de Live at Last, disco lançado em 1980 e que não contou com o aval da banda. À época, o Sabbath colhia os frutos do excepcional Heaven and Hell, primeiro trabalho sem Ozzy nos vocais, e sua ex-gravadora, NEMS, resolveu lançar ao vivo em questão e relançar a discografia do grupo, tirando proveito de sua renovada popularidade. Com Ronnie James Dio na voz principal, a banda não se fez de rogada e declarou que o trabalho era um bootleg, eufemismo escolhido a dedo para dizer que não fazia parte da discografia oficial.


Hoje, nada disso importa. Os fãs têm Live at Last em suas coleções, mas mesmo assim não pularão direto para o outro CD de Past Lives. O disco é ótimo não apenas por conter eternos clássicos da banda. Sweet Leaf, Children of the Grave, War Pigs e Paranoid são sempre destaques, mas o que dizer de músicas como Tomorrow’s Dream, Cornucopia e Wicked World, na qual a banda se aventura pelo jazz? Se alguém ainda não conhece o show realizado em 1973, em Manchester, na Inglaterra, a oportunidade bate à porta.

Um dos grandes méritos de Past Lives é logo percebido no CD 2. Não há músicas repetidas, nada de incluir outra versão de Paranoid apenas por se tratar de um grande marco. Claro, a história da banda é recheada de clássicos, então encontramos mais alguns deles: Sympton of the Universe, Iron Man, Black Sabbath, N.I.B. e Fairies Wear Boots. No entanto, as músicas que completam o trabalho nunca poderão ser relegadas ao rótulo de “lado B”, já que são infinitamente melhores que o trabalho de bandas que pretensamente – culpa da mídia ou não, pouco importa – carregam a palavra “metal”.

O disquinho abre com uma ótima versão para Hand of Doom, da obra-prima Paranoid (1970), segundo disco do grupo. Do primeiro álbum (1969), homônimo, temos Behind the Wall of Sleep, enquanto Sabotage (1975) é representado também por Hole in the Sky e pela sensacional Megalomania, que finalmente saiu do circuito de bootlegs para um lançamento oficial. Infelizmente, Technical Ecstasy (1976) e Never Say Die! (1978) foram ignorados, sendo que ao menos a faixa-título do último merecia registro.


Em cima de um palco, todos sabemos do potencial dos hoje senhores de Birmingham. Das interpretações alucinadas de Ozzy aos riffs maravilhosos do mestre Iommi, passando pela intuição de Ward e a técnica de Butler, os fatos se juntam para torná-los insuperáveis. Apesar de os quatro lembrarem do Black Sabbath como uma banda de hard rock, principalmente por causa das influências de blues, Past Lives é a prova definitiva que o grupo definiu o caminho do heavy metal. O estilo não seria nada e muito menos teria metade das bandas surgidas nas últimas três décadas não fosse o que eles começaram em 1969.

Resenha publicada na edição 88 do International Magazine, em outubro de 2002.

Shaman – Ritual

Por Daniel Dutra | Fotos: Mario Alberto e Divulgação

Foram pouco mais de dois anos até o lançamento de Ritual, um trabalho aguardado não apenas por ser a estreia do Shaman em CD, mas principalmente por se tratar da banda dos ex-Angra Andre Matos (vocal), Luis Mariutti (baixo) e Ricardo Confessori (bateria). E para quem está se perguntando se valeu a pena, a resposta é simples: o Brasil ganhou duas bandas superiores a qualquer outra de metal melódico em todo planeta. Fim das comparações.

Apesar do infeliz rótulo de mystic metal, o Shaman cumpriu o que prometeu. Ritual é um belo disco de heavy metal, com grande riqueza sonora e detalhes que prendem a atenção a cada audição. Tudo é absolutamente bem feito, e a produção de Sascha Paeth com a banda, impecável. O disco abre com a bela instrumental Ancient Winds, e logo a ótima Here I Am chega para se tornar um daqueles clássicos instantâneos para começar um show ou futuramente ser a primeira do bis. É aqui que o guitarrista Hugo Mariutti começa a mostrar serviço: um riff bem sacado com uso moderado do harmônico.

Em um disco coeso do início ao fim, sem maiores exibições individuais, há de se destacar For Tomorrow (ótimo trabalho acústico do Grupo Terra América aliado ao peso das guitarras), Ritual e as excelentes Time Will Come (destaque para o melhor refrão do disco e, mais uma vez, para Hugo) e Over Your Head (grande trabalho com a melodia indiana e ótimo solo de Derek Sherinian, ex-tecladista do Dream Theater).


As participações especiais não param por aí. Fábio Ribeiro, que acompanha a banda ao vivo, é o convidado em Blind Spell. Marcus Viana (Sagrado Coração da Terra) aparece em três faixas, enquanto Tobias Sammet (Edguy) divide os vocais em Pride, a música mais anos 80 e que lembra bastante o Helloween da fase Keepers of the Seven Keys. Como infelizmente nem tudo são flores, Fairy Tale, na trilha sonora da novela O Beijo do Vampiro, da Rede Globo, é uma balada muito agradável, mas a ponte “Life is good…” é feia. Nada que desabone Ritual, obviamente.

O Shaman no palco: o show

A banda esteve no Rio de Janeiro no dia 27 de setembro, quando se apresentou no ATL Hall para um público que se não foi dos mais agitados nas músicas da banda, mostrou que está com as letras na ponta da língua e ficou mesmo prestando atenção nas “novidades”. A única de Ritual que ficou fora da apresentação foi Blind Spell, substituída com maestria não apenas por material do Angra, mas também por um festival de covers muito bem escolhidos.

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Nothing to Say e Carry on, claro, levaram os fãs ao delírio. As desnecessárias Wings of Reality e Lisbon também, com a última sendo cantada em uníssono. Não faltou Painkiller (Judas Priest), mas houve surpresas: com Matos na bateria e Confessori na guitarra e vocal, a banda emendou Paranoid (Black Sabbath). Luis incorporou Lemmy Kilmister de maneira hilária e funcional para cantar Ace of Spades (Motörhead), enquanto Burn (Deep Purple) ficou excelente.

Mas a compostura foi mesmo para as cucuias quando Yves Passarel (guitarrista do Capital Inicial) subiu ao palco para tocar Living for the Night, clássico do Viper (ex-banda de Yves e Matos) e do metal nacional. Foi a hora de relembrar os dias de Caverna II e cantar a plenos pulmões.

Resenha publicada na edição 88 do International Magazine, em outubro de 2002. A análise do disco veio acompanhada de um relato sobre o show de lançamento.

Deep Purple – Perihelion

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Há quatro anos sem lançar um disco de estúdio, o Deep Purple pode fazer com que os desavisados imaginem que a banda tem precisado de alguns anos para recuperar o fôlego. Porém, o que o grupo mais tem feito é soltar CDs e DVDs ao vivo no mercado para saciar a fome dos fãs. Estes, por sua vez, não estão nem um milímetro errados. Se há dinheiro no bolso, vale sempre a pena conferir o porquê de o Purple ser um dos melhores grupos da história do rock também em cima do palco.

O último lançamento é o DVD Perihelion, com a íntegra da apresentação realizada no Sunrise Theatre, na Flórida, em 5 de junho de 2001. O vídeo traz um atrativo a mais para o fã, já que provavelmente é o último lançamento com Jon Lord na banda. Aos 61 anos, o tecladista aproveitou a deixa de uma cirurgia no joelho para decidir ficar mais tempo com a família, se afastando das longas turnês do Purple. Em seu lugar entrou o experiente Don Airey, ex-Colosseum II, Whitesnake, Ozzy Osbourne e um sem-número da artistas.

Em aproximadamente uma hora e 40 minutos, o Purple faz um apanhado de sua história, obviamente das fases em que Ian Gillan é o vocalista, num show simples e ao mesmo tempo empolgante. Mais uma vez fica a prova do bem que a saída de Richie Blackmore fez ao grupo. “É ótimo estar numa banda feliz. Eu recomendo a todo mundo”, já dizia o baixista Roger Glover. Completando, é também evidente que o genial Steve Morse trouxe novo ânimo, revigorando o Purple mesmo musicalmente, como provam Purpendicular (1996) e Abandon (1998).


Sem comparações técnicas entre Morse e Blackmore, é certo que o primeiro provavelmente riu mais em Perihelion que o segundo em toda sua vida. E daí? Talvez isso sirva para explicar o fato de o Purple, em alto astral com Morse, estar resgatando muitas de suas músicas da década de 70, todas com o dedo de Blackmore. Foi assim como Maybe I’m Leo, Pictures of Home e Bloodsucker em turnês passadas, continuando com No One Came e a belíssima When I Blind Man Cries (sempre um show à parte de Morse nas seis cordas) até hoje. Agora, foi a vez de tirar Fools (Fireball, de 1971) e Mary Long (Who Do We Think We Are!, 1973) do fundo do baú. Pontos, muitos pontos para a banda.

Não é de hoje que o Purple é facilmente colocado entre as melhores bandas ‘on stage’, independentemente de seus integrantes serem músicos conceituados. Ian Paice não é mais o baterista extraordinário de álbuns como Burn, muito menos Gillan é o mesmo vocalista capaz de arrancar lágrimas com suas interpretações em Child in Time. Pouco importa. A idade pesa de um lado, mas traz experiência de outro. Por isso mesmo, as apresentações dos ingleses são sempre empolgantes.

Em Perihelion, músicas que têm lugar marcado na história – Woman from Tokyo, Lazy, Perfect Strangers, Smoke on the Water, Speed King, Hush e Highway Star – convivem muito bem com a “nova” fase. Ted the Mechanic e a maravilhosa Sometimes I Feel Like Screaming (inevitável dizer que Morse emociona até defunto aqui) não saem mais do repertório. E os fãs aplaudem de pé.

Infelizmente, o DVD só é encontrado em versão importada e não há previsão alguma de lançamento no Brasil. Mas assim como os CDs Live at The Olympia ’96, Total Abandon – Australia ’99 e Live at the Rotterdam Ahoy, é obrigatório aos fãs e essencial a quem gosta de rock. Em versão nacional, você pode adquirir tanto o CD como o DVD de In Concert With the London Symphony Orchestra, versão anos 90 do Concerto for Group and Orchestra. Ambos saíram em versão nacional pela Sum Records.

Resenha publicada na edição 88 do International Magazine, em outubro de 2002.

Halford – Crucible

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Se alguém ainda tinha dúvidas de que Rob Halford se arrependeu de seu projeto tecnoindustrial Two – levado a cabo com Trent Reznor, do Nine Inch Nails –, o novo trabalho do Halford, Crucible, acaba com todas elas. O disco é heavy metal puro, mesclando anos 80 com uma sonoridade moderna (nada de alterna metal, por favor) e com tudo para agradar em cheio aos fãs mais puristas do estilo.

Como em time que está ganhando não se mexe, o vocalista manteve o ótimo time de músicos dos dois últimos trabalhos – Resurrection (2000) e o duplo ao vivo Live Insurrection (2001). Além dos guitarristas Pat Lachman e Mike Chlasciak, do baterista Bobby Jarzombek e do baixista Ray Riendeau, à frente da produção continua Roy Z, e a qualidade fica 100% garantida. A gravação de Crucible não deixa buracos para críticas.

Curiosamente, para delírio dos fãs, Halford mais uma vez se mantém fiel ao som do Judas Priest, mais ainda que sua própria ex-banda. One Will e Betrayal (com vocais um tanto quanto cansativos) são bons exemplos de como o grupo inglês soava na década de 80 e hoje, com o excelente Tim “Ripper” Owens nos vocais, se descaracterizou com os apenas bons Jugulator (1997) e Demolition (2001).


Mas Halford não se prende totalmente ao passado com o Judas, porque lembra seus momentos com o Fight em Handing Out Bullets e Hearts of Darkness. Apesar do visual mezzo heavy metal, mezzo Village People, Crucible traz algumas pérolas do rock pesado: Golgotha, Weaving Sorrow, Heretic, Trail of Tears e a faixa que dá nome ao disco são grandes composições, com riffs espertos e uma cozinha dominada por Jarzombek, que rouba a cena em vários momentos.

Acabou? Claro que não. A pesadíssima Wrath of God, Crystal e Sun mostram que Halford ainda tem muito pano para manga e continua sendo um vocalista de primeiro escalão (mais ainda quando não se esgoela). Esperto, aposta no tradicionalismo ao mesmo tempo em que incorpora mais peso às músicas. Ainda que felizmente não tenha sofrido com o preconceito por ter assumido ser homossexual, Halford recebeu pesadas críticas por causa do Two e soube dar a volta por cima.

Fazendo aquilo que sabe fazer melhor, precisava apenas acertar o primeiro tiro. Conseguiu com Ressurrection (2000) graças à reputação de “Metal God” adquirida por escrever um capítulo à parte na história do metal. Assim vieram a participação de Bruce Dickinson – mais do que nunca em alta por causa da volta ao Iron Maiden – na excelente The One You Love to Hate e, merecido reconhecimento, a ajuda providencial de Roy Z. Guitarrista, compositor e produtor de mão cheia, foi ele um dos responsáveis por também levantar a carreira solo de Dickinson depois do fracasso com Skunkworks (1996). No Halford, assinou várias músicas do primeiro disco e algumas de Crucible. Só faltou mesmo ser músico efetivo.


Felizmente para uns, infelizmente para outros, Rob Halford e sua banda podem ter sua vida encurtada. A dedicação full time do vocalista acabou sendo um dos empecilhos para que o aguardado projeto com Dickinson e Geoff Tate (Queensrÿche) não saísse do papel. Muito gente sonhou com o dia em que seria lançado o CD Three Tremors – ou Trinity, como queiram –, a união de três das maiores vozes do rock em todos os tempos.

Agora é a vez de os boatos dando conta de uma possível volta do vocalista ao Judas Priest tomarem conta do cenário. Tudo bem, é assunto antigo, mas a fonte vem do grupo Halford. Em entrevista à revista Roadie Crew, o líder do Riot, Mark Reale, comentou a possibilidade de Jarzombek retornar ao seu posto no grupo. O motivo? O batera teria dito que não há muito mais o que fazer na banda de Rob Halford, já que o mesmo não estaria escondendo seu desejo de ser parte integrante de mais uma reunião no metal. Enquanto isso, fique com Crucible. É muito mais seguro.

Resenha publicada na edição 88 do International Magazine, em outubro de 2002.

Nuclear Assault

Por Daniel Dutra | Fotos: S. Bollmann/Divulgação

Um dos ícones do thrash metal nos anos 80, o Nuclear Assault está de volta com sua formação original. Onze anos depois de gravarem Out of Order, John Connelly (guitarra e vocal), Dan Lilker (baixo), Anthony Bramante (guitarra) e Glenn Evans (bateria) estão juntos novamente. Por telefone, Lilker concedeu uma rápida e divertida entrevista.

Como e por que se deu a volta?
Tudo começou no início deste ano. Eu havia deixado a banda há dez anos porque queria me dedicar ao Brutal Truth, que acabou em 1998. Aí o S.O.D. voltou com um novo disco e eu não queria mesmo tocar em dois grupos. Recentemente, no entanto, perguntei aos outros integrantes do Nuclear se eles queriam fazer alguns shows, pois certamente seria divertido como antes. Entramos em contato com alguns produtores e voltamos em abril, no Metal Fest, em Nova Jersey (EUA).

A ideia partiu de você, então?
Sim. Há alguns anos eles queriam voltar, e eu disse não. Agora foi minha vez de perguntar se eles topavam, e eles disseram que sim (risos).


E como têm sido os shows até agora?
Tocamos no CBGB, em Nova York, e gravamos nosso show em Massachusetts para um álbum ao vivo, mas não lembro o nome dele agora (risos). Estivemos no Wacken Open Air, na Alemanha, e agora chegamos ao Brasil.

Por que apenas um show no país?
Infelizmente, não é uma decisão apenas nossa. Recebemos o convite e aceitamos, mas seria maravilhoso tocar no Rio de Janeiro e até na Amazônia (risos).

E há planos para um disco de estúdio?
Eu e John já escrevemos umas oito músicas novas, mas tudo parou há uns dois meses porque eu e minha esposa nos mudamos de Nova York. Temos de voltar a nos reunir para compor mais um pouco, pois tenho certeza de que o disco ficará excelente. Arrumar uma boa gravadora não será difícil, pois as pessoas estão mostrando bastante interesse na volta do Nuclear Assault.

Isso é muito bom, porque o cenário hoje é muito diferente dos anos 80.
Hoje nós temos um underground forte com o death e o black metal, mas existem coisas populares como o new metal que não me agradam. Na verdade, acho uma merda (risos). Chamar isso de heavy metal é besteira. Quando as pessoas me perguntam por que voltamos, eu digo que foi para acabar com o new metal (risos). Se você quer ouvir boa música, então tem de fazê-la. Está na hora de mostrar às pessoas o verdadeiro metal. O estilo está voltando à mídia porque todos estão ficando de saco cheio desse lixo de rap metal (risos).


A banda chegou a lançar um disco, Something Wicked, depois que você saiu. O que você acha dele?
Você ouve e percebe que minhas influências não estão lá. É legal, mas é algo que eu provavelmente não faria. O grupo continuou por mais um ano ou dois, mas o antigo feeling não existia mais. O material que estamos escrevendo lembra a época do Handle With Care (1989). Acredito que você dirá “sim, é isso mesmo!” quando escutar.

Para terminar, o que houve com o S.O.D.? Muito se falou em problemas com Billy Milano.
O que eu posso dizer? Scott Ian (guitarra) e Charlie Benante (bateria) estavam ocupados com o Anthrax, e os outros membros da banda ficaram enciumados com toda a atenção que o S.O.D. despertou com o Bigger Than the Devil (N.R.: terceiro disco, de 1999). Billy acabou demitindo os dois, que não teriam tempo para os shows que nós pretendíamos… Bom, Billy gosta de falar mais alto que todo mundo (risos). Para mim não houve problema, pois acredito que mais um disco arruinaria a magia.

O Nuclear Assault estava no Brasil para se apresentar em São Paulo depois de 13 anos – a primeira e até então última vez havia sido em 1989. Eu estava colaborando com o International Magazine fazia cinco meses quando soube da possibilidade de falar com Dan Lilker, tipo “ele tem dez minutos para falar ainda hoje. É por telefone. Topa?” Não deu para preparar pauta. Foi pensar em meia dúzia de tópicos e ligar. E valeu a pena. Publicada na edição 88 do jornal, em outubro de 2002, foi a segunda entrevista que fiz depois que comecei a escrever sobre música. E foi ela que inaugurou a seção Disconnected, assinada por mim no tabloide.

Gary Moore está de volta!

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Sabe aquele disco que não traz nada de novo e mesmo assim nos deixa absolutamente satisfeitos logo ao fim da primeira audição? É justamente o que acontece com Scars, nova obra de Gary Moore. Como o tempo voa, só agora percebemos que o guitarrista levou 13 anos para voltar ao bom e velho rock’n’roll. No início da década, Moore se rendeu ao blues e, apesar da crítica dos mais puristas, esteve longe de fazer feio. Independentemente da acusação de comercializar o som – ora bolas, vejam só! –, ele lançou ótimos trabalhos, como Still Got the Blues (1990) e o ao vivo Blues Alive (1993), este com as participações de Albert King, B.B. King e Albert Collins.

A coisa começou a ficar ruim com Dark Days in Paradise, de 1997, trabalho repleto de um pop rock insosso. O tiro saiu pela culatra dois anos depois, com o horroroso e autoexplicativo A Different Beat. Moore acabou se rendendo ao som eletrônico, seguindo uma tendência iniciada por Jeff Beck no mesmo ano, com o álbum Who Else!, e que atingiu Joe Satriani e Steve Vai, estes com melhores resultados. O lançamento de Back to the Blues em 2001 era um indício de que as coisas entrariam nos eixos.

Sem apelar para mais uma coletânea – foram três de 1994 para cá –, Moore se juntou ao baixista Cass Lewis (ex-Skunk Anansie) e ao baterista Darrin Mooney (Primal Scream). Atendendo pelo nome de Scars, o power trio lança seu primeiro disco, homônimo, e traz o guitarrista com um som mais pesado do que nunca. Se o álbum não é nenhuma novidade – e onde está a novidade no rock? –, por outro lado não esconde duas grandes influências: Jimi Hendrix e Stevie Ray Vaughan.

As referências são tantas que é impossível não imaginar que o disco é, no fundo, uma homenagem. Da sonoridade da guitarra aos riffs e solos, passando pelas melodias, quase todo o trabalho aponta para Hendrix, o maior guitarrista da história da música, e Vaughan, o melhor, perdoem-me os xiitas, de todos os que já comandaram as seis cordas no blues. Abrindo o álbum, When the Sun Goes Down mostra que Moore aprendeu direitinho as lições de wah-wah e aponta o que vem pela frente.


Stand Up traz um riff da escola hendrixiana, enquanto World of Confusion é, guardadas as devidas proporções, a Manic Depression de Moore. Em Ball and Chain, um blues no tradicional compasso 4/4, as melodias vocais são feitas em cima das frases de guitarra, recurso bastante usado por Hendrix. A veia blues volta a dar as caras em Just Can’t Let You Go, linda balada com um trabalho impecável de Moore em momento de muita inspiração e feeling. World Keep Turnin’ Round lembra Crosstown Traffic no andamento e tem SRV saindo pelos amplificadores.

Fechando as homenagens, My Baby (She’s So Good to Me) traz à memória dois grandes clássicos de Vaughan: Cold Shot e Pride and Joy. Depois de se espelhar em duas das maiores influências do instrumento – algo digno de aplausos, levando em consideração que Moore já é um cinquentão –, sobra espaço para canções mais pessoais. É o que se houve com o groove de Wasn’t Born in Chicago, em Rectify e na excelente Who Knows (What Tomorrow May Bring)?.

Vigésimo primeiro trabalho capitaneado por Moore – incluindo G-Force, The Gary Moore Band e coletâneas –, Scars é um oásis para quem espera por um bom disco de rock e está cansado das novas sensações do estilo. Na verdade, deveria servir de referência para aqueles que pregam o fim do virtuosismo e acham que The Strokes é a salvação. Ou então que criem a próxima novidade.

Um irlandês talentoso e versátil

Nascido em Belfast, na Irlanda do Norte, no dia 4 de abril de 1952, Gary Moore se interessou pelo rock da mesma maneira que muitos de sua geração: ouvindo Elvis Presley e Beatles. O interesse pela guitarra surgiu ao mesmo tempo em que se apaixonou pelo blues, admirando Jimi Hendrix e o John Mayall’s Bluesbreakers nos anos 60, mas foi seu mentor que deu o primeiro impulso na carreira.

Apontado como menino-prodígio, despertou a atenção de Peter Green, guitarrista que tocou com John Mayall e Fleetwood Mac. Apesar de apenas cinco anos mais novo, Moore homenageou seu ídolo décadas mais tarde, em 1995, quando lançou o álbum Blues for Greeny. Dado o empurrão, em 1971 tinha seu trabalho registrado pela primeira vez, no disco de estréia do Skid Row (não, não é a ex-banda de Sebastian Bach). Durou muito pouco.

Em 1973, formou a Gary Moore Band e lançou Grinding Stone. Ao mesmo tempo em que dava os primeiros passos em sua carreira solo, gravou três discos com o excelente Colosseum II – Strange New Flash (1976), Electric Savage (1977) e Wardance (1978) – e emprestou seu talento ao Thin Lizzy, banda liderada pelo saudoso Phil Lynott e um dos melhores nomes do hard rock. Em duas breves passagens, substituindo primeiramente Eric Bell e depois Brian Robertson, marcou presença no ótimo Black Rose (1979).


Ainda em 1979, conheceu um pouco do sucesso comercial com o hit Parisienne Walkways, ajudando a impulsionar as vendas de Back on the Streets, lançado no ano anterior. O início dos anos 90 reservou o blues para o guitarrista. Além de seu trabalho próprio, participou em 1993 do projeto Muddy Waters Blues: A Tribute, encabeçado por Paul Rodgers, vocalista do Bad Company. No ano seguinte, juntou-se a Ginger Baker e Jack Bruce no BBM. A versão moderna do Cream parou no trabalho de estréia, Around the Next Dream.

Em 2001, antes do lançamento de Scars, Moore carregou as baterias não apenas lançando Back to the Blues, mas colocando sua guitarra em discos de amigos: Living on the Outside, de Jim Capaldi; Shadows in the Air, de Jack Bruce; e Along for the Ride, de John Mayall. Enfim, Gary Moore está de volta!

Resenha publicada na edição 88 do International Magazine, de outubro de 2002. Como não há vídeos oficiais de Scars, a nova versão da matéria traz clipes de Foxey Lady, cover de Jimi Hendrix, e de Parasienne Walkways, porque são canções relacionadas ao texto.