Dio – Killing the Dragon

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Ronnie James Dio é quase uma unanimidade entre os fãs de heavy metal. Respeitado por todos e considerado por muitos o melhor vocalista do estilo em todos os tempos, já emprestou seu talento ao Black Sabbath – com o qual gravou a obra-prima Heaven and Hell, por exemplo – e ao Rainbow, do ex-Deep Purple Ritchie Blackmore – nos três primeiros álbuns e no soberbo ao vivo On Stage.

Em sua carreira solo, com a banda sob a alcunha de Dio, começou lançando dois álbuns indispensáveis à coleção de qualquer banger que se preze: Holy Diver e The Last in Line. Mesmo depois da saída do guitarrista Vivian Campbell (hoje no Def Leppard), com Craig Goldy e Rowan Robertson passando pelas seis cordas, o vocalista manteve uma sequência de bons trabalhos. Mas…

Ao fim de sua segunda passagem pelo Sabbath, em 1993, Dio retomou seu grupo mas não foi feliz. Com o questionável Tracy G na guitarra, para muitos os discos Strange Highways e Angry Machines servem apenas para acumular poeira na estante. A parceria chegou ao fim e o trem voltou para os trilhos com Magica, que trouxe Goldy de volta à banda. O álbum recebeu elogios de crítica e fãs, mas estes ainda reclamaram – sem razão, diga-se de passagem – do ritmo arrastado das músicas.


Agora, com Killing the Dragon, todos estão felizes. Dio retoma o estilo dos primeiros álbuns e brinda a todos com seu melhor trabalho desde Sacred Heart, de 1985. Nem mesmo a saída de Goldy, que preferiu ficar fora do esquema gravações/turnê para se dedicar à família, atrapalhou. Doug Aldrich (ex-Lion, House of Lords, Hurricane e Bad Moon Rising), responsável por ótimos riffs e solos melhores ainda, assume tranquilamente o posto de melhor guitarrista que Dio já teve em sua banda.

Se não trazem nada de extraordinário, as dez faixas do trabalho ao menos são um oásis dentro da mesmice que impera no rock pesado, pois têm propriedade. Along Comes a Spider, Scream (lembrando Holy Diver), Rock & Roll (à la Led Zeppelin), Better in the Dark, Push, Before the Fall (com ótima participação do tecladista Scott Warren, que poderia ter sido mais bem aproveitado), Guilty e a faixa-título são absolutamente contagiantes.

Killing the Dragon traz a mesma cozinha do álbum anterior, o baixista Jimmy Bain e o batera Simon Wright (ex-AC/DC), mas, como sempre, a voz de Dio é o maior destaque. Do alto de seus 60 anos – discutíveis, pois muitos afirmam que o vocalista nasceu em 10 de julho de 1940, não 1942, mas o próprio não confirma nem desmente –, ele continua dando um show. Mestre ontem, hoje e sempre, Dio mostra que cantar não se resume a falsetes e agudinhos cada vez mais desnecessários e irritantes.

Resenha publicada na edição 86 do International Magazine, em agosto de 2002.

Angra – Hunters and Prey

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

A primeira coisa a fazer depois de ouvir Hunters and Prey é lamentar o fato de o novo trabalho do Angra ser um miniálbum. Sim, porque o gosto de quero mais é inevitável. No entanto, é um prazer ratificar de vez que Edu Falaschi (vocal), Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt (guitarras), Felipe Andreoli (baixo) e Aquiles Priester (bateria) mantêm o alto nível de Rebirth, o ponto de partida da “nova” formação da banda. Melhor ainda que as surpresas se fazem presente de forma mais do que convincente.

O disco abre com Live and Learn, a tradicional faixa mais rápida e que tem tudo para virar um clássico instantâneo entre os fãs, com um trabalho impecável de guitarras. Traz a qualidade de sempre, mas até aí nada de novo. É a partir de Bleeding Heart que as coisas começam a ficar muito interessantes. A música, apesar de ter saído com bônus de Rebirth no Japão, é uma balada como o Angra há muito não faz. Na verdade, desde Reaching Horizons, que saiu no EP Freedom Call, de 1996, mas é do início dos anos 90 e deu nome à primeira demo tape do grupo.

Com a excelente faixa-título o jogo já está ganho. Hunters and Prey conta com arranjos elaborados e várias doses de música regional do Brasil – principalmente do Nordeste, como o baião –, enaltecendo ainda mais o excepcional trabalho de Priester e as belas linhas de baixo de Andreoli. A música ainda ganhou uma versão em português, Caça e Caçador, que surpreende pela boa adaptação da letra ao ritmo. Eyes of Christ vem logo em seguida e mostra uma faceta inédita do Angra, um som mais hard e que remete aos dois primeiros discos de Ronnie James Dio, Holy Diver e The Last in Line. E dá-lhe mais uma excelente performance de Edu.

Rebirth e Heroes of Sand (por que não também Millennium Sun?) aparecem em belíssimas versões acústicas. Mama, cover do Genesis, completa o disco apresentando uma versão bem fiel à original. Como bônus, uma faixa interativa com screensaver, wallpapers, muitas fotos e o videoclipe da música Rebirth. Enfim, desde já Hunters and Prey é candidato a um dos melhores CDs de 2002, provando o porquê de o Angra ser considerado por muitos a melhor banda de metal melódico do mundo, por mais que existam várias do estilo em cada esquina dos países europeus.

Um show para o Rio de Janeiro ver e aplaudir

Dando sequência aos shows que já foram parar na Europa e na Ásia, o Angra chegou ao Rio de Janeiro pela segunda vez desde o lançamento de Rebirth – sétimo show na cidade desde 1992. No dia 20 de julho, mais de 2.500 fãs – recorde da banda em palcos cariocas – compareceram ao Clube Aliados Campestre, em Campo Grande, Zona Oeste da cidade, e assistiram a um show com poucas mudanças em relação ao de dezembro do ano passado, no falecido Garden Hall.

De novidade, a esperada inclusão de Hunters and Prey e as belas versões de Reaching Horizons, apenas com Rafael Bittencourt no violão e voz, e Bleeding Heart, com Edu Falaschi cantando acompanhado por Kiko Loureiro nos teclados. Fora isso, o de sempre. O público com as músicas novas na ponta da língua, a desnecessária Metal Icarus (do erro chamado Fireworks) e o fim apoteótico com Nothing to Say e Carry on, além de The Number of the Beast, o cover da vez do Iron Maiden.

Mais do que o show corretíssimo e empolgante, as constatações de sempre. É uma pena que Loureiro, guitarrista de extremo bom gosto e técnica invejável, não acompanhe o pique dos outros membros da banda (foi constrangedora sua falta de ânimo ao apresentar Falaschi). Enquanto isso, Rafael Bittencourt, corretamente apresentado como maestro; Aquiles Priester, mais uma vez inacreditável; Felipe Andreoli, matando a pau com o baixo de seis cordas; e Falaschi, cantando muito e bem mais à vontade, mostraram como se faz.

No mais, que o sucesso do show faça com que a Hora Alternativa, produtora do evento, traga mais bandas para tocar no Rio, que está à beira da falência no que diz respeito ao heavy metal. Ironicamente, ficou provado que há e sempre houve público na cidade, mas que os bangers cariocas colaborem e façam da elogiável iniciativa dos novos promotores algo frequente.

Resenha publicada na edição 86 do International Magazine, em agosto de 2002. Aqui, a análise do disco veio acompanhada de um relato sobre o show de lançamento. Breve e sem fotos.

Hannibal

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

O Infierno não existe mais. Depois de lançar seu primeiro e ótimo CD homônimo, abrir a turnê brasileira do Sepultura e ser um dos destaques do Abril Pro Rock em 2001, a banda formada por Henrique Zumpichiatti (vocal), Denner Campolina (baixo), André Moraes (guitarra) e Alex Fonseca (bateria) entra numa nova fase. Sob o nome Hannibal, o som perdeu peso, mas manteve a qualidade, e consequentemente o momento é ideal para que venha o sucesso e o reconhecimento. Uma resposta ao preconceito que cercou o grupo, começando com o contrato assinado com a Seven Music, distribuído pela Sony, para o lançamento de duas músicas, Contato e a nova Estrangeiro, numa coletânea.

“O nome era um problema à parte, mas nós mesmos já queríamos a mudança. Gente muito importante no cenário havia falado que não chegaríamos a lugar algum se continuássemos como Infierno, ficaríamos sempre no underground”, disse André em entrevista no início de julho, quando a banda estava quase adotando o nome Insomnia. “Quando começamos, a ideia era ter algo associado a tecnologia e modernidade do nosso som. Pensávamos que a música seria o mais importante, mas aconteceu o contrário. Todos os paradigmas referentes a inferno ganharam mais destaque. Teve gente que pensou que a banda era de black metal”, completou Henrique.

Além do nome, outra polêmica que envolvia o grupo era a constante associação ao new metal, estilo adorado e detestado com a mesma intensidade pelos fãs de heavy metal. “Isso só incomodava a partir do momento em que rolava preconceito, porque existe mesmo, principalmente em São Paulo”, diz Denner, referindo-se ao estado que mais consome rock pesado no Brasil. “Eu fiquei surpreso quando soube que não tínhamos entrada lá, pois sempre fomos bem recebidos quando tocamos na cidade”.

André mostra que também não se preocupava com o rótulo. “Nós não somos uma banda de metal. Temos uma bagagem musical não apenas de música pesada. Todos têm experiência em outras frentes, por isso há uma união de estilos”, diz o músico responsável por trilhas sonoras como as dos filmes “Avassaladores” e “No Coração dos Deuses”, este com a participação de Andreas Kisser e Igor Cavalera, do Sepultura, e Mike Patton, ex-Faith No More. Além disso, Denner é contrabaixista do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, além de já ter gravado com Legião Urbana e o próprio Sepultura, entre outros; e o exímio e respeitado batera Alex já acompanhou Pepeu Gomes e Lobão, por exemplo, além de ter feito parte do excelente Cheiro de Vida.


A justificada segurança que a banda tem em seu trabalho é mostrada quando o assunto é a aliviada no som. “Nós somos músicos, queremos ganhar a vida fazendo música, atingir o maior número possível de pessoas. Mas isso não significa que vamos nos vender na intenção de ficarmos milionários da noite para o dia“, diz Henrique. “Se vender é tocar pagode. Nada contra o estilo, mas é o caminho mais fácil para o sucesso”, provoca André, entre risos e aprovação de todos.

“Imagine se o Los Hermanos tivesse sempre de gravar uma nova Ana Júlia. As pessoas criam expectativas, mas o músico precisa de liberdade para criar”, Denner dá o exemplo. “O que nós fizemos antes saiu naturalmente, assim como agora. Há músicas que lembram o Infierno (N.R.: Gol e Rumba), assim como outras são mais acessíveis (N.R.: Estrangeiro e a excelente Eu Não Sei)”.

As mudanças, no entanto, foram mesmo por causa do mercado. “A pior nota que recebemos foi o 7,5 da Rock Brigade, que é uma revista conservadora. O jornal O Globo nos deus quatro dos cinco quadradinhos, e fomos eleitos pelo GloboNews.com (N.R.: na editoria Diversão & Arte) como banda revelação do ano passado”, lembra André. “Tanto que faremos uma versão em inglês do primeiro disco. Foi uma ideia que eu passei ao Carlos Trilha e ao Fernando Morello, nossos produtores, porque eles têm um caminho para mandar o trabalho para o exterior”, finaliza Denner, comprovando que qualidade não faltava ao Infierno. Qualidade esta que agora está a serviço do Hannibal.

Entrevista originalmente publicada na edição 86 do International Magazine, em agosto de 2002.

Jerry Cantrell – Degradation Trip

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Quando Jerry Cantrell lançou seu primeiro disco solo, Boggy Depot, em 1998, o Alice in Chains já se encontrava em stand by em decorrência dos problemas do vocalista Layne Staley com as drogas. Quatro anos depois, Cantrell retorna com o ótimo Degradation Trip, e o disco é dedicado Staley, encontrado morto em sua residência, em Seattle, no dia 19 de abril. O motivo? Um coquetel de cocaína e heroína.

A estreia solo de Cantrell, no entanto, aconteceu em 1996, quando contribuiu com a música Leave Me Alone para a trilha sonora do filme “O Pentelho” (com Jim Carrey). No mesmo ano, o ainda em atividade Alice in Chains lançava seu último registro, o Unplugged gravado pela MTV. Resumindo a viagem no tempo, o guitarrista dá sequência ao legado sonoro da melhor banda da famigerada safra grunge.

Degradation Trip não foge do estilo pesado e arrastado, que, claro, tem como referência aquilo que foi criado pelo Black Sabbath. Mas a veia Alice in Chains é latente nas harmonias vocais, como em Psychotic Break, Mother’s Spinning in Her Grave (Glass Dick Jones) e Hellbound. Nenhuma surpresa, já que Cantrell era a força por trás do instrumental e das melodias do grupo.


As lembranças de Staley, assim como seu vício em heroína, ainda vêm implícitas nas letras de Locked on – “Locked on – what’s the deal / Faded rock star, push and needle / You don’t know, well that’s right / You do your thing / I’ll live my life” – e Bargain Basement Howard Hughes – “Stubborn bastard, hard head knocking / We had our good years too / Though apart, you’re still in my heart / I’d give anything for you”. Mas as 14 faixas que compõem o trabalho não são, digamos, depressivas.

As belíssimas Solitude e Give it a Name, esta com um quê de Beatles, se distanciam da melancolia, assim como Gone, que passa raspando de ter um maior acento country. She Was My Girl tem uma levada bem para cima, e Spiderbite é heavy metal de primeira linha. Anger Rising, com a participação do ex-guitarrista do Queensrÿche Chris DeGarmo, e Angel Eyes são mais dois destaques num trabalho recheado de bons momentos.

Em vez de se cercar de vários convidados – como os baixistas Les Claypool (Primus) e Rex Brown (Pantera), que participaram de Boggy Depot –, Cantrell teve em Mike Bordin (bateria) e Robert Trujillo (baixo), da banda de Ozzy Osbourne, a cozinha perfeita para poder desfilar seu talento como guitarrista e compositor. No fim das contas, mais um motivo para fazer de Degradation Trip uma ótima pedida para quem gosta de boa música.

Resenha publicada na edição 86 do International Magazine, em agosto de 2002.

Ozzy Osbourne em todas as frentes

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

Ozzy Osbourne certamente não precisava do reality show The Osbournes, sucesso incomparável da MTV americana, para se tornar, digamos assim, mais conhecido. Arrancar com os dentes a cabeça de um morcego semimorto pensando que o mesmo fosse de borracha – perguntem se ele estava doidão em cima do palco… – foi o suficiente para fazê-lo ter seu nome gravado na memória de qualquer um, até daqueles que não lembram ao menos se já escutaram alguma de suas músicas.

Príncipe das Trevas e Madman são exemplos de como as pessoas carinhosamente se referem a Ozzy. Com o cheiro de hipocrisia no ar, há os que o consideram o anticristo e gostariam mesmo que ele fosse para o quinto dos infernos. Mas estes são os mesmos que dizem que KISS significa ‘kids in Satan Service’ – sim, pode rir – e acusam a banda de pregar o nazismo por causa dos “SS” em seu logo – claro, eles não lembram que Gene Simmons é judeu e sua mãe escapou de um campo de concentração durante a II Guerra Mundial. Só bate palmas para esse tipo de coisa quem acredita que maçã é fruto proibido.

The Osbournes não serviu apenas para comprovar que Ozzy está pagando pelos excessos cometidos com as drogas e o álcool durante anos e anos a fio. Mais do que isso, mostrou que ele é um pai de família como outro qualquer, muitas vezes tão bobo – e não por causa das sequelas, que fique bem claro – que muita gente deve ter se perguntado como ele pode ser tão ordinário, e digo isso sem ser pejorativo. Em cima do palco Ozzy é louco, mas apenas por causa dos fãs, da interação que faz nascer toda essa loucura. E os fãs são sinceros: Ozzy Osbourne é foda!

O (novo) interesse que o reality show fez despertar já rendeu frutos. Para a família Osbourne, especula-se que US$ 20 milhões por uma nova temporada de dez episódios. Para a imensa legião de fãs, o CD e o DVD Live at Budokan, que capturam um dos shows da turnê de Down to Earth, mais precisamente o gravado em 15 de fevereiro deste ano na tradicional casa de shows em Tóquio, no Japão. E independentemente de qual formato você escolher – o álbum tem uma música a menos, Suicide Solution –, pode ter certeza de que vale cada centavo investido.


O show, apesar de mais curto que o habitual, é simplesmente espetacular. Claro que as 14 músicas não são suficientes, falta muita coisa, mas esse é um preço a se pagar quando se tem repertório para três horas de show… E com os fãs cantando a plenos pulmões. De Down to Earth temos Junkie e as excelentes That I Never Head e Gets Me Through – não, não tem Dreamer –, e da fase anos 90, as indefectíveis Mama I’m Coming Home e I Don’t Wanna Change the World, além, é claro, da obrigatória e maravilhosa No More Tears. Pois é, nada do Ozzmosis (cadê Perry Mason? Ou My Jekill Doesn’t Hide?), e, voltando alguns anos, mesmo o irregular No Rest for the Wicked poderia ser representado com Miracle Man ou Crazy Babies.

Mas reclamar para quê? O show começa com I Don’t Know e termina com Paranoid, única música do Black Sabbath no set list e, óbvio, responsável por um encerramento apoteótico. No recheio, a agradável surpresa Believer, que não era tocada ao vivo há mais de dez anos, e as óbvias Mr. Crowley, Bark at the Moon e Crazy Train, que levam os japoneses ao delírio. Além disso, é Ozzy quem as está cantando… Bom, 99% overdub, mas quem se importa? As mãos tremem, ele não fica mais se arranhando alucinadamente e, mais do que nunca, o teleprompter o auxilia com as letras das músicas. Mas o Madman ainda se diverte, arrisca os tradicionais “pulos do sapo”, não cansa de berrar ‘go fucking crazy!’ e domina a plateia como poucos.

Ozzy é Ozzy, e isso significa que de bobo ele não tem nada. Sempre cercado de músicos no mínimo competentes, desde 1996 é acompanhado pelo baixista Robert Trujillo (ex-Suicidal Tendencies) e pelo baterista Mike Bordin (ex-Faith No More). Sóbrio na parte musical, Trujillo tem uma presença de palco, digamos, peculiar, enquanto Bordin massacra a batera e enche os olhos (o que não é novidade para quem o conhece do FNM). Mas não há como fugir do óbvio, que neste caso atende pelo nome de Zakk Wylde.

Ozzy sempre revelou guitarristas extraordinários, como Randy Rhoads – gênio que morreu prematuramente em 19 de março de 1982, aos 25 anos – e Jake E. Lee. Em 1988, então com 21 anos, Wylde foi o escolhido para substituir Lee e ocupou o espaço de Rhoads junto a Ozzy numa “relação de pai e filho”, como o próprio Wylde costuma dizer. Apesar de ter ficado fora da banda de 1994 a 2000, período em que foi substituído por Joe Holmes, gravou todos os discos de estúdio de Ozzy, já que no hiato mencionado houve apenas turnês. Depois de 14 anos – incluindo seus projetos solos, como o excelente Black Label Society, que já chegou ao quarto disco, sendo um ao vivo –, Zakk Wylde construiu, com toda justiça, a reputação de melhor guitarrista de heavy metal da atualidade. Assista ao show e descubra o porquê.

Relançamentos e lavagem de roupa suja

O sucesso de The Osbournes não fez apenas com que Live at Budokan pegasse carona, já que o DVD tem como extra um ‘behind the scenes’ de meia hora com imagens dos passeios de Ozzy, banda e família no Japão. Além disso, a Sony Music relançou toda a discografia do Madman, incluindo fotos inéditas, letras e as eventuais bonus tracks. Para completar, os dois primeiros álbuns, Blizzard of Ozz e Diary of Madman, tiveram bateria e baixo regravados por Bordin e Trujillo, o que resultou em mais um capítulo da briga que envolve Bob Daisley e Lee Kerslake, baixista e baterista que originalmente participaram dos discos.

Daisley e Kerslake – que depois do lançamento do segundo álbum foram substituídos por Rudy Sarzo e Tommy Aldridge, respectivamente – movem uma ação judicial contra Ozzy Osbourne, alegando que não receberam os valores corretos dos royalties pelas vendagens dos discos e pela execução das músicas (das quais também são autores) em rádios, programas de TV e shows. A decisão de regravar suas partes nos relançamentos, evitando assim que ambos tivessem maior participação financeira, revoltou Daisley, que em comunicado oficial resolveu jogar muita coisa no ventilador.


“Eu já esperava que fizessem algo para nos desrespeitar, mas não que insultassem à memória de Randy Rhoads. É uma vergonha, pois ele não está entre nós para opinar sobre o que deveria ser feito. É o vigésimo aniversário de sua morte e os álbuns saem dessa maneira. Sua mãe (N.R.: Delores Rhoads) está decepcionada”, afirma Daisley, que volta sua carga contra Ozzy. “Ele não sabe tocar um instrumento sequer, não é o músico que todos pensam. No máximo aparecia com boas ideias de melodias, mas geralmente as músicas já estavam prontas. Nem as letras ele escreve. No Black Sabbath era o Geezer (N.R.: Butler, baixista), e na sua banda, como Randy e Lee não cuidavam dessa parte, eu era o responsável.”

Daisley não só afirma que as músicas de Blizzard of Ozz foram escritas por ele e Rhoads, com Lee ajudando em Diary of a Madman, mas que escreveu todas as letras destes dois discos mais as de Bark at the Moon (cujas músicas são de autoria de Jake E. Lee, apesar de o guitarrista não ter sido creditado) e The Ultimate Sin. O baixista encerra a nota mais uma vez mostrando sua revolta com os relançamentos. “Eles não colocaram ao menos um adesivo dizendo que não é a banda original, que não são as gravações originais! As pessoas podem comprar os discos por ignorância, por não saberem de nada, mas perguntarão ‘mas que porra é essa?’ quando escutarem em casa.”

Da parte de Ozzy e Sharon Osbourne, sua mulher e empresária, não houve nenhum pronunciamento. Com os problemas de saúde de Sharon, operada em 3 de julho de um câncer no cólon e submetendo-se a tratamento de quimioterapia, Ozzy não está mesmo preocupado com tanta baixaria. “Sempre pedi a Deus que eu morresse antes da minha mulher, mas a vida sempre encontra uma maneira de lhe sacanear”, disse o Madman, em estado de choque, depois de receber a notícia.

Matéria originalmente publicada na edição 86 do International Magazine, em agosto de 2002.

As muitas faces do heavy metal

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

O heavy metal vem mantendo sua força junto a um público fiel, que continua crescendo independentemente de o estilo estar longe do êxito comercial do fim dos anos 80 e início dos 90. Afirmar que o rock pesado continua como alvo de preconceito é chover no molhado, pois sempre existirá quem prefira logo falar mal em vez de adquirir conhecimento de causa.

No entanto, provando que nem sempre é menosprezo ao potencial do heavy metal no Brasil, não é à toa que cada vez mais títulos são lançados no país, com gravadoras longe do esquema das majors fazendo um trabalho de primeira linha. E mesmo com tantas subdivisões – muitas delas irrelevantes e que acarretam num sem-número de bandas soando da mesma maneira – há material para todos os gostos. Aqui você tem um resumo de sete CDs recomendados a fãs dos mais variados gostos.

Formado pelos ex-Whitesnake Bernie Marsden, Mick Moody e Neil Murray, o The Company of Snakes lança seu primeiro álbum de estúdio, o ótimo Burst the Bubble, apostando na boa e velha mistura de rock’n’roll com blues, bem próximo dos primeiros discos da eterna banda de David Coverdale. Nada mais óbvio vindo dos guitarristas Marsden e Moody, coautores de clássicos como Walking in the Shadow of the Blues e Fool for your Loving, por exemplo. Com o competente vocal de Stefan Berggren e a providencial ajuda do tecladista Don Airey (hoje substituindo Jon Lord no Deep Purple), é um prazer ouvir músicas do calibre de Labour of Love, Sacrificial Feelings, What Love Can Do, Kinda Wish You Would e All Dressed Up. Agora é esperar que o duplo Here They Go Again Live também pinte em versão nacional.

Com Shadow Zone, o guitarrista alemão Axel Rudi Pell chega ao 13º trabalho – incluindo três coletâneas e um ao vivo – mais uma vez sem fugir do seu eficiente power metal. Apesar de Yngwie Malmsteen ser uma influência assumida, Pell é esperto o suficiente para não passá-la às composições, todas de sua autoria, sem contar o fato de ser mais contido nos solos, uma economia bem agradável aos ouvidos. Como nos últimos dois discos – Oceans of Time e The Masquerade Ball –, o grande destaque é o ótimo vocalista Johnny Gioeli, mas Pell manda ver em riffs e refrãos muito bem sacados. A parceria comprova mais uma vez dar resultado em Coming Home (com um quê de Scorpions), Live for the King e nas excelentes Time of the Truth e Under the Gun.

Com Virgil Donati (bateria, Steve Vai e Planet X), Philip Bynoe (baixo, ex-Steve Vai), George Bellas (guitarra) e Vitalij Kuprij (teclados, Artension), o bom vocalista Mark Boals lidera um time de primeira linha em seu Ring of Fire. E para quem não aguenta mais a mesmice que impera no metal melódico, o álbum de estreia, The Oracle, é um prato cheio. Boals não nega seu passado como membro da banda de Malmsteen, mas leva vantagem sobre o sueco ao adotar passagens bem progressivas, com uma presença maior de teclados e músicas não voltadas apenas para a guitarra. Ao deixar as composições a cargo de Kuprij, acertou em cheio. A bela performance do tecladista enriquece o trabalho, com inspirados solos dobrados junto a Bellas. Confira Circle of Time, Vengeance for Blood, Interlude, Face the Fire e a faixa-título.

Outra grata surpresa é o Rage, que lança o excelente Unity. O trio formado por Peter “Peavy” Wagner (baixo e vocal), Victor Smolski (guitarra e teclados) e Mike Terrana (bateria) fez bom uso dos clichês e gravou um exemplar disco de heavy metal, com doses corretas de virtuosismo num trabalho direto e objetivo. All I Want (que refrão!), Insanity e Down formam uma arrasadora trinca de abertura, mas é impossível não citar Dies Irae, Living My Dream e a ótima instrumental que dá nome ao disco. Por mais que Wagner mostre-se outra vez um talentoso compositor e que Terrana tenha trazido mais qualidade à cozinha da banda, o destaque mesmo é Smolski. Com solos e riffs de extremo bom gosto, ele realiza um trabalho impecável.


Elevado a status de grande promessa do thrash metal em 1989, depois do lançamento do ótimo Alice in Hell, o Annihilator acabou sofrendo com as constantes mudanças de formação, principalmente de vocalistas, e por pouco não se perdeu no meio do caminho. Sorte que Jeff Waters – guitarrista, único compositor e, claro, dono da banda – é um sujeito persistente. Décimo disco do grupo, Waking the Fury não nega o nome: é uma porrada só! E muito bem feita! Ultra-Motion, Torn (bem Judas Priest), My Precious Lunatic Asylum, The Blackest Day e Nothing to Me mesclam passagens rápidas, pesadas e melódicas, mostrando que Waters tem uma mão direita de respeito. O cara despeja uma sequência de grandes riffs e é ajudado pelo vocalista Joe Comeau (ex-guitarrista do Overkill), que repete o ótimo trabalho iniciado em Carnival Diablos.

“We’re taking back the metal!”… Não, a frase não é do novo disco do Manowar, mas do Seven Witches, banda do ex-Savatage Jack Frost. Bom que o álbum Xiled to Infinity and One não demore a fazer esquecer a conotação presunçosa daquela afirmação, porque é mais um trabalho de heavy metal na concepção mais pura do estilo, mesmo que nada traga de novo. Isso, no entanto, cada vez menos pode ser motivo para críticas, já que encontrar alguma novidade no rock está cada vez mais difícil (tente agora Radiohead, System of a Down e Pain of Salvation, ou mais tarde, quem sabe?, o novo CD do Living Colour, aquele que não sai nunca…). Saindo da condição de simples coadjuvante de Chris Caffery no Savatage, Frost revela ser um guitarrista de primeira, menos pelos solos e mais pelas bases, com uma palhetada muito boa. Ouça Metal Tyrant, Incubus, Warmth of Winter, Eyes of an Angel e a faixa-título. E ainda tem Jon Oliva cantando em The Burning e a regravação de See You in Hell, clássico do Grim Reaper. Metal oitentista como pouco se faz hoje em dia.

Para fechar o pacote temos o Arch Enemy, com o lançamento do maravilhoso Wages of Sin. A banda dos irmãos Michael e Christopher Amott dá continuidade ao death metal melódico que tem como referências obrigatórias os álbuns Individual Thought Patterns (Death, 1993) e Heartwork (Carcass, 1994). Natural, pois Michael foi peça importante em determinado período do Carcass. Em Wages of Sin, porém, o estilo chega ao seu melhor momento. Michael e Christopher são responsáveis por um soberbo trabalho de guitarras, enquanto o baixista Sharlee D’Angelo (Mercyful Fate) segura as bases com competência para o excelente batera Daniel Erlandsson. De Enemy Within a Lament of a Mortal Soul, passando por Burning Angel, Heart of Darkness, Ravenous, Dead Bury Their Dead, Web of Lies e Behind the Smile, todas as faixas são simplesmente arrasadoras.

Mas não há como deixar de ficar impressionado com Angela Gossow. Se o instrumental faz corar de vergonha muita banda metida a fazer som pesado e intrincado, Gossow deixa muito marmanjo no chinelo com seus vocais agressivos e guturais. A bela loura canta como se tivesse um alien no estômago. Em tempo: a edição nacional saiu com um CD bônus contendo faixas raras, todas com o ex-vocalista do grupo, Johan Liiva. Vale citar os covers de Starbreaker (Judas Priest), Aces High (Iron Maiden) e, pasmem!, Scream of Anger (Europe). Mais um motivo para Wages of Sin ser presença certa entre os melhores discos do ano.

Matéria publicada na edição 85 do International Magazine, em julho de 2002. Na verdade, uma breve análise de alguns lançamentos, porque à época comecei a receber CDs das gravadoras – hoje em dia os lançamentos vêm com link para streaming ou download dos arquivos digitais, e quem é colecionador fica lamentando. Uma análise bem didática, digamos assim, porque, apesar das portas sempre abertas para o heavy metal, o principal público do jornal não era do estilo.

Angra

Por Daniel Dutra | Ilustração: Mario Alberto | Fotos: Guilherme Andrade/Divulgação

Desde o lançamento de Rebirth, em outubro de 2001, que o Angra não para. O grande nome brasileiro na atual cena do heavy metal vem colhendo os frutos do bom momento por que atravessa – merecidamente, diga-se de passagem. Uma bem-sucedida turnê nacional e apresentações na América do Sul (Argentina e Chile) e Europa (Alemanha, Bélgica, Espanha, França, Itália, Holanda e Suíça) vieram na sequência do disco de ouro, com 50 mil cópias vendidas em pouco mais de um mês no Brasil. Na TV, a banda se apresentou no Musikaos, Altas Horas e Programa do Jô, além de ter gravado uma versão de Pra Frente Brasil – tema da seleção brasileira tricampeã mundial em 1970, no México – para o programa Tá Na Área, do SporTV. Agora é a vez do miniálbum Hunters and Prey, que chegou às lojas há pouco mais de um mês e já foi seguido por uma temporada de shows no Japão. A continuação promete ser ainda mais interessante, com a presença do grupo em festivais no exterior e o lançamento do primeiro DVD. E foi para comentar a ótima fase do Angra que o vocalista Edu Falaschi e o baterista Aquiles Priester concederam uma entrevista ao International Magazine. Em um papo descontraído, os músicos falaram do novo disco, do sucesso e até mesmo de influências pessoais. Aqui você tem os melhores momentos da conversa.

Lançar um EP logo depois de um CD não é novidade para o Angra. A banda já havia feito isso com Evil Warning (1994), Holy Live (1997) e Freedom Call (1996). Há alguma diferença do Hunters and Prey para esses trabalhos?
Edu Falaschi: Na verdade, os outros discos foram uma continuação do oficial, tinham menor duração e eram considerados EPs. O Hunters and Prey é um trabalho mais longo, então o chamamos de miniálbum, já que tem oito músicas e uma faixa interativa riquíssima em detalhes. Agora, o mais legal nesse tipo de lançamento é que você pode mostrar outro lado, inovar e colocar algumas coisas inusitadas. Achamos que foi um bom momento para fazer isso, até porque foi um pedido dos fãs.

E no novo trabalho isso fica bem claro. Os ritmos brasileiros estão mais evidentes, já que em Rebirth foram colocados de forma mais tímida, e há até mesmo uma música mais arrastada, Eyes of Christ, que lembra bastante os primeiros trabalhos do Dio.
Edu: Exatamente. O que nós quisemos mostrar foi um lado de originalidade, diferenças e variedade. O Rebirth foi um álbum muito bem pensado, o trabalho da provação por causa da mudança de formação na banda. Queríamos gravar algo para mostrar aos fãs que o Angra continuava o mesmo, que nossa essência e som continuavam os mesmos.

Inclusive foi um trabalho que remeteu a Angels Cry (1993).
Edu: Nos tínhamos a preocupação e obrigação de provar que o Angra não tinha mudado. Poderíamos ter feito tudo diferente ou continuar com o som que gostamos de fazer, com as origens da banda. Como estamos muito mais consolidados no mercado e, principalmente, com os fãs antigos, com o novo disco pudemos fazer um trabalho mais diferenciado. Com isso, o público brasileiro acabou ficando com quatro inéditas do Angra, pois a balada Bleeding Heart foi bônus da versão japonesa do Rebirth.


A faixa-título, então, foi uma agradável surpresa. O trabalho de percussão é muito bom, dando mais vida aos ritmos nordestinos, e a letra da versão em português encaixou bem.
Edu: O Douglas (Las Casas, percussionista) é muito bom, e a transcrição para o português ficou ótima. Tudo encaixou perfeitamente, mesmo, porque a música é bem brasuca, um super baião. É um exemplo da variedade que tivemos no disco, com as músicas novas, as duas faixas acústicas e gravadas em estúdio especialmente neste formato, algo que o Angra também não fazia.

Isso sem falar no cover de Mama, do Genesis. Mas por que uma música da fase Phil Collins, em vez de algo do Peter Gabriel?
Edu: Temos mais a ver com a fase do Peter Gabriel, realmente, mas seria muito óbvio, fácil e mais bem aceito. Escolhemos Mama porque é uma música meio sombria e com uma letra muito louca, além de ser de uma época em que o Genesis estava mais popular. E o Phil Collins é um mestre, um grande compositor e músico. No fim, resolvemos tocar essa música para fazer algo diferente, para não cair no lugar-comum.

E por que Kashmir, que a banda gravou para um tributo ao Led Zeppelin, não entrou no Hunters and Prey? Vocês optaram por deixá-la fora do disco ou houve algum problema contratual?
Edu: Cara, isso foi muito triste, pois a versão ficou maravilhosa. Dá até dor no coração tocar no assunto (risos). A gravadora espanhola que irá lançar o tributo ao Led pediu que gravássemos uma música, então escolhemos Kashmir. Queríamos colocá-la no miniálbum, mas não pudemos.

O que é uma pena, pois ela combina bem com atual momento musical da banda, em particular com sua voz.
Edu: Sem dúvida. Você verá como ficou legal, pois nós fizemos uma versão que ficou bem progressiva. Claro que a base principal foi mantida, mas colocamos algumas percussões, tipo Olodum mesmo, e a música ficou com um peso a mais também por causa das guitarras, com timbres mais modernos (N.R.: Edu refere-se ao avanço tecnológico do instrumento, não ao estilo new metal). Ela será lançada ainda este ano, mas a gravadora não liberou para o Hunters and Prey. Foi uma pena.

Na gravação da bateria, você manteve aquela linha reta do John Bonham ou improvisou algumas coisas como em Perfect Strangers (N.R.: cover do Deep Purple lançado como bônus do CD Inside Your Soul, do Hangar, banda na qual Aquiles Priester tocava antes de entrar para o Angra)?
Aquiles Priester: Mantive, mas improvisei algumas coisas. Cheguei a pensar que as pessoas mais familiarizadas com o Led não iriam gostar, mas todos os que ouviram até agora aprovaram, falaram que deu uma cara nova à música, que é um clássico. Tocar algo do John Bonham é uma responsabilidade muito grande, tanto quanto do Ian Paice, por isso não mudei a essência de Kashmir, aquele lance pesado e arrastado. O Bonham conseguia ser, ao mesmo tempo, um batera econômico, de muito bom gosto e bastante pessoal. Você ouve e sabe que quem tocou foi ele.

Em relação a covers, a banda recentemente foi criticada por sempre tocar músicas do Iron Maiden nos shows (N.R.: no caso, The Number of the Beast). O que você pensa disso?
Aquiles: Na verdade, já temos material suficiente para não tocar mais nenhum cover. Mas quando fazemos isso, estamos dando um bônus para os fãs. O show do Angra acaba em Carry on, que é sempre a última música do set. Não sei se continuaremos a tocar Iron Maiden ou se voltamos com Painkiller, do Judas Priest, por exemplo, mas sempre faremos algum cover, pois é mais um momento de alegria e descontração com o público.

Tem alguma de outro artista que você gostaria de tocar ao vivo?
Aquiles: Se eu fosse escolher? (pensativo) Nossa, isso é difícil. O legal de tocar Iron Maiden é que não importa a música, a galera vai conhecer. The Number of the Beast, por exemplo, nós sequer chegamos a ensaiar. Outra coisa legal é que o Edu canta muito bem as músicas do Iron. O que seria um problema, ter um vocalista com capacidade de levar as músicas, é uma facilidade para nós.

No Hunters and Prey você está bem mais solto, com arranjos mais quebrados. Isso foi proposital? Você segurou mais no Rebirth e agora teve mais liberdade?
Aquiles: Antes, talvez por eu ter sido o primeiro a entrar na banda, já que quando o Edu chegou nós já tínhamos quatro músicas prontas (N.R.: Rebirth, Acid Rain, Running Alone e Unholy Wars). Mas quando começamos a pré-produção, vimos que o Dennis Ward (N.R.: produtor do Rebirth e Hunters and Prey) estava mais acostumado a gravar hard rock, coisas mais simples. Ele disse que deveríamos ter um cuidado especial na hora de gravar, pois eu usava muito mais notas do que ele estava acostumado. Enquanto ele descobria a maneira como eu toco, eu aprendia a ser gravado por alguém me dizendo o que fazer, um produtor musical de verdade. O Dennis ajudou muito a definir os arranjos, a colocar os licks e as próprias viradas nos lugares certos. Foi um aprendizado imenso, e posso dizer que minha concepção de arranjos mudou depois de tê-lo conhecido.

E o Angra nunca teve discos tão bem produzidos como os dois últimos. Houve alguma diferença nas gravações dos trabalhos?
Aquiles: Gravar o Hunters and Prey no Brasil foi bem diferente. Na Alemanha, onde fizemos o Rebirth, nós ficamos muito isolados, e ainda tinha o fuso horário para complicar. Pensamos que isso não faria diferença, mas fez muita. Imagine ter de tocar todo dia, durante uma semana, num horário ao qual você não está acostumado. Chega uma hora em que você fica arrasado. Aqui foi muito mais solto, até pelo fato de ser um miniálbum e por termos passado pelo teste do primeiro trabalho, de as pessoas terem aprovado o novo Angra em estúdio e ao vivo. Gravamos num clima mais livre, e eu mesmo toquei mais solto. No Rebirth, em função das composições, resolvemos tirar muita coisa que eu achava importante. Agora, todos os arranjos que fiz permaneceram.

Vocês estão indo para o Japão no dia 10 de junho. Mas haverá alguma turnê de divulgação do Hunters and Prey no Brasil, já que recentemente a banda fez alguns shows em cidades do interior?
Edu: Estamos indo para um turnê de vinte dias pelo Japão, mas passaremos antes por Taiwan, sendo que o Angra será a primeira banda sul-americana de heavy metal a tocar lá. Faremos alguns shows no interior de São Paulo quando voltarmos e, no fim de julho, iremos para a Europa participar de alguns festivais, como o Rock Machina, na Espanha, e o Wacken, na Alemanha. Na volta será a vez das grandes capitais, como São Paulo e Rio de Janeiro.

Falando em festivais, em novembro o Angra tocará pela primeira vez no Estados Unidos.
Edu: Isso mesmo! Fomos convidados para tocar no Prog Power, que é um grande festival americano. Vamos aproveitar também a passagem pelos EUA para uma turnê com o Blind Guardian, que deve chegar também ao Canadá. Retornando ao Brasil, no fim do ano, começaremos a pensar no novo disco.

Vocês já têm alguma música pronta? Há alguma definição em termos de estilo, já que o Rebirth é basicamente um disco de power metal melódico, mas com o Hunters and Prey já houve uma maior diversificação?
Edu: Bom, o próximo trabalho deve ser lançado no início de 2003, mas, na verdade, não estamos pensando muito nisso. Mesmo porque não estamos encontrando tempo (risos).

E depois de a banda ter vivido um ano de incertezas, impossível acontecer algo melhor.
Edu: Isso é muito bom. Estamos muito satisfeitos, todos falam que o Angra nunca trabalhou tanto como agora (risos). Em quase dez anos, a banda havia lançado três discos (N.R.: sem contar os três EPs, um deles apenas para o Japão), sendo que em um ano e meio estamos lançando o segundo trabalho, mesmo que um deles seja um miniálbum. Em dois anos já estaremos com o terceiro CD. Isso é um reflexo da alegria que estamos sentindo e do contato constante com os fãs, que é o mais importante.

Prova também que a repercussão não tem sido boa apenas no Brasil, mas também no exterior.
Edu: No Japão, então, é impressionante! O Hunters and Prey foi lançado em maio e vendeu quinze mil cópias em menos de vinte dias. Sentimos que estamos tendo uma grande receptividade não apenas porque o Angra tem uma nova formação, o que vira novidade, mas porque os fãs realmente gostaram. Eles perceberam que o Angra não mudou e ainda ganhou com a energia dos novos integrantes.

A boa vendagem do Rebirth, num primeiro momento, poderia até ser associada à nova formação. Mas o fator novidade já passou.
Edu: Sem dúvida. Poderia acontecer de os fãs comprarem um disco apenas para saber como as coisas ficaram, então ficaríamos sem sabermos se vendeu bem porque eles gostaram de verdade. Com o Hunters and Prey, tivemos mais uma vez a certeza de que não foi isso, já que na Europa também está vendendo muito bem. No Brasil, a primeira tiragem foi de dez mil cópias e já esta esgotada.

Além de o Angra não ter perdido espaço e estar conquistando uma posição de destaque cada vez maior, você também foi muito bem aceito pelos fãs. A saída do vocalista é sempre um trauma, ainda mais no caso do Andre Matos, um frontman e vocalista carismático e muito respeitado. Mas você até agora não teve problema algum com isso.
Edu: Eu só tenho a agradecer, mesmo porque foram os fãs que me colocaram no Angra, mandando muitos e-mails e cartas para o Rafael e o Kiko pedindo que eu fosse o substituto do Andre. Para mim é uma alegria e uma satisfação muita grande estar substituindo alguém bem conceituado, mas eu não comecei ontem. Tenho uma história de quase dez anos no underground (N.R.: com as bandas Mitrium e Symbols), sempre trabalhei muito e nunca tive medo de encarar desafios. Cheguei contando com o apoio de todos e mostrei o que sei fazer, sem querer imitar ou ser melhor que alguém.

Sim, ter um passado dentro do metal nacional foi fundamental para chegar sem ser um desconhecido qualquer.
Edu: Claro! Essa proximidade com os fãs ajudou bastante e é algo que gostamos de fazer. Não apenas eu, mas o Aquiles e o Felipe também, independentemente de sermos os novos integrantes do Angra. A banda sempre está em contato com o público, seja pelo nosso site ou durante as turnês. Particularmente, sempre gostei de conversar com os fãs, saber o que pensam, pois são eles que fazem as coisas acontecerem. Não consigo ter uma postura diferente, de pop star, de dar um autógrafo e ir embora. Muita gente me influencia não apenas artisticamente, como o Ronnie James Dio, que é um cara muito humilde.

Sem dúvida. É o maior vocalista do heavy metal em todos os tempos, mas que não tem nada de estrelismo e deixa os fãs tão à vontade que as pernas param de tremer alguns minutos depois que você o conhece (risos).
Edu: O cara não é apenas um monstro do rock, mas alguém que faz campanhas beneficentes, que se preocupa com o que acontece no mundo. Não é um idiota qualquer, metido apenas porque canta muito bem. São pessoas como ele, pelo carisma e respeito ao fã, que deveriam ser referência. Todo mundo já foi fã de alguma banda. Eu já fui e sei como é importante ser bem recebido pelo seu ídolo.

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Ilustração: Mario Alberto
Kiko Loureiro, Felipe Andreoli, Rafael Bittencourt, Aquiles Priester e Edu Falaschi
Kiko Loureiro, Felipe Andreoli, Aquiles Priester, Rafael Bittencourt e Edu Falaschi
Edu Falaschi, Felipe Andreoli, Aquiles Priester, Rafael Bittencourt (agachado) e Kiko Loureiro

Lembrando que o Dio é uma de suas maiores influências, você tem um estilo bem diferente do Andre Matos, com uma região mais grave, sem utilizar falsetes. Como está sua adaptação às músicas antigas?
Edu: Não uso falsete nas músicas que gravo, realmente. Não é muito a minha praia. Só que nas antigas eu tenho de fazer, pois é impossível alcançar os tons com voz normal, e incorporo o falsete para ficar o mais próximo possível do original. Mas é algo que eu nunca faria em estúdio, pois não quero imitar ninguém. E para o fã também ficaria estranho se ao vivo eu fizesse de outra forma. Senti isso no Iron Maiden com o Blaze Bayley, ou seja, assistir a um cara cantar as músicas que você conhece de maneira totalmente diferente. Respeito muito o que os fãs querem ouvir, por isso ao vivo eu procuro cantar como está no disco, com as mesmas notas e agudos. Mas em estúdio eu tenho de mostrar o meu estilo, já que com o passar do tempo será natural o set list ter mais músicas originalmente cantadas por mim, restando apenas os clássicos como Carry on e Nothing to Say, por exemplo.

Você diria que a receptividade em relação aos novos integrantes e o sucesso do Rebirth formam um caso único, já que muita gente vem falando que a atual formação do Angra é tecnicamente melhor que a anterior?
Edu: Olha, sou suspeito para falar (risos). Os antigos membros são excelentes músicos, de grande técnica. Mas o que acontece, por exemplo, é que quando você assiste ao Aquiles tocar, percebe que ele tem um lance a mais, é diferenciado. Ele preenche os espaços sem ser exagerado, de uma maneira que poucos bateristas conseguem, tipo Gene Hoglan ou Deen Castronovo, que tocam e você não consegue imaginar o que eles estão fazendo.

Falando nisso, Aquiles, quantas vezes você assistiu à videoaula do Deen Castronovo (N.R.: High Performance Drumming, de 1991)?
Aquiles: Pô, descobriu meu segredo! (risos) Comprei o vídeo em 95 e fiz uma cópia para não correr o risco de estragar o original (risos). Deen Castronovo é uma das minhas maiores influências. O primeiro trabalho que ouvi com ele foi o Maximum Security, do Tony MacAlpine, em 94, e eu pirei! Um pouco tarde, pois o disco é de 87 e ele já roubava a cena. Depois ouvi o Infra-Blue (1990), do Joey Tafolla, e fui atrás dos outros trabalhos.

Dá para perceber. No seu solo você chegar a usar um trecho do vídeo, que é aquele trabalho de repetição de caixa e bumbo em sequência.
Aquiles: Totalmente! Mdei pouca coisa, mas a ideia veio do lick dele mesmo, que é muito difícil. Para quem ouve pode até parecer simples, mas é bem complicado ficar repetindo uma técnica de rudimento de flam (N.R.: duas notas no bumbo, sendo a segunda mais acentuada. Na videoaula, Castronovo faz variações com outras notas em tempos diferentes).

Você chegou a assistir ao Ozzy Osbourne com o Castronovo em 98, no Monsters of Rock, em São Paulo ou no Rio de Janeiro? Ele foi um show à parte.
Aquiles: Cara, eu não fui e quase morri por isso. Tinha de estar lá só para respirar o mesmo ar que ele (risos). Depois eu consegui a fita e pude ver que em músicas completamente retas ele conseguia destruir.

O engraçado é que ele foi demitido por isso. Até na hora de pisar na bola o Ozzy é um mestre. Ele justificou a demissão dizendo que o Castronovo tocava de um jeito muito complexo (risos).
Aquiles: O Ozzy perdia direto o tempo das músicas por causa do Castronovo. Menos a banda (N.R.: o baixista Geezer Butler e o guitarrista Joe Holmes), claro, já que ele sempre tem os melhores músicos a seu lado. Tem uma hora em que ele vira para a bateria e pede ao Castronovo para segurar a onda (N.R.: a cena, hilária, aconteceu no show de São Paulo, depois do solo de guitarra em Paranoid).

O próximo lançamento do Angra será um DVD (N.R.: Rebirth World Tour – Live in São Paulo), algo inédito para a banda. Como ele vem sendo trabalhado?
Edu: Nós gravamos todo o show do Via Funchal, no dia 15 de dezembro de 2001, e estamos em fase de produção, trabalhando nas cenas de backstage e nos bônus. Vamos incluir trechos de outros shows, inclusive os do Japão, algo mais simples. Não terá a mesma qualidade da atração principal, pois tínhamos sete câmeras e uma superprodução em São Paulo. Será lançado no segundo semestre e será algo muito legal, provando mais uma vez que o negócio do novo Angra é trabalho, mesmo. Não tem essa de ficar três anos sem gravar nada. Estamos trabalhando com bastante satisfação e alegria, fazendo o que mais gostamos: música.

Entrevista realizada no dia 6 junho de 2002, por telefone, e publicada na edição 85 do International Magazine, em julho do mesmo ano. Foi o terceiro número do jornal com material meu, e o papo com Edu Falaschi e Aquiles Priester foi a primeira entrevista que fiz depois que comecei a escrever sobre música – profissionalmente, digamos assim, porque os textos em fanzines do KISS, ainda adolescente, e do fã-clube do Queensrÿche, já na faculdade de jornalismo, obviamente não contam.

Os tributos aos Dinossauros do rock III

Por Daniel Dutra | Fotos: Divulgação

parte I | parte II | parte III

Assim como os bons resultados obtidos pela dupla Bob Kulick e Billy Sherwood (confira no International Magazine de junho), no mundo dos tributos a gravadora americana Magna Carta também merece destaque. Com seis trabalhos lançados até o momento, cinco bandas essenciais do rock progressivo já foram homenageadas: Pink Floyd, Genesis, Yes, ELP e Jethro Tull. Completando o time, mas longe de ser caracterizado como membro exclusivo do estilo, o trio canadense Rush.

Os momentos apenas razoáveis em The Moon Revisited – Another Perspective on The Dark Side of the Moon e Supper’s Ready deixaram fãs de Pink Floyd e Genesis, respectivamente, com a sensação de que faltou alguma coisa, ainda mais pela excelência dos dois grupos. Mas os outros trabalhos gradativamente ganharam melhor forma, a começar com a homenagem ao Yes. Em Tales from Yesterday a fórmula dos CDs anteriores – sem a formação de supergrupos – ganhou uma injeção de ânimo. Além de bandas como Magellan e o excelente Shadow Gallery, o álbum tem o reforço dos ex-Yes Peter Banks (Astral Traveler) e Patrick Moraz (Soon).

Mas as participações especiais não param por aí. Steve Morse (Deep Purple e Dixie Dregs) reverencia Steve Howe e dispensa comentários em Mood for a Day e The Clap. Não bastasse ser homenageado, Howe juntou forças com Annie Haslam (a belíssima voz do Renaissance), e o resultado foi Turn of the Century, a melhor gravação do álbum. Curiosidade: Wonderous Stories ficou a cargo do World Trade, banda de Billy Sherwood (sim, ele mesmo!), que mais tarde entraria no Yes e participaria dos discos Open Your Eyes e The Ladder.

Foi com o tributo ao Jethro Tull, To Cry You a Song – A Collection of Tull Tales, que as participações individuais aumentaram. John Wetton, Derek Sherinian, Glenn Hughes e Keith Emerson são quatro dos nomes mais conhecidos do grande público. Infelizmente, o resultado final não condiz com a grandeza da obra de Ian Anderson e companhia. Em 1996, com o lançamento de Working Man, o tributo à música de Alex Lifeson, Geddy Lee e Neil Peart, o jogo estava ganho. À exceção de Natural Science, apenas e tão somente pelos vocais exagerados de Devin Townsend, o CD voltado para o Rush é espetacular. Destaques para Closer to the Heart, com o Fates Warning; La Villa Strangiato, com a cozinha formada por Billy Sheehan e Mike Portnoy (Dream Theater); Anthem, com Lee baixando em Mark Slaughter; e YYZ, com Deen Castronovo conseguindo melhorar o que já nasceu perfeito.

Para terminar, Emerson, Lake & Palmer sendo homenageado com Encores, Legendes & Paradox, o melhor dos seis tributos lançados pela gravadora. Karn Evil 9 (1st Impression), The Barbarian e Tarkus são escolhas óbvias, mas e daí? Ficaram ótimas! Mesmo com Jordan Rudess (Dream Theater) roubando a cena ao encarnar Keith Emerson em Karn Evil 9 (1st Impression) e Hoedown, impossível não destacar John Novello em A Time and a Place, além de Glenn Hughes em Knife Edge e as atuações gerais de Portnoy e Simon Phillips nas baquetas.

Do rock progressivo para o heavy metal. Não bastassem os vários times dos sonhos, vários tributos contendo bandas, consagradas ou não, foram despejados no mercado. É impossível ouvir todos, mas apostaria que o melhor deles seja o duplo Holy Dio – A Tribute to the Voice of Metal, que faz um apanhado da carreira de Ronnie James Dio com Rainbow, Black Sabbath e, claro, sua banda solo. Dio gravou tanta coisa boa que fica complicado estragar alguma coisa, e Gamma Ray (Long Live Rock’n’Roll), Stratovarius (Kill the King) e Hammerfall (Man on the Silver Mountain) não fizeram feio. Méritos não apenas para Ritchie Blackmore (as três músicas citadas são do Rainbow), porque mesmo o Blind Guardian saiu-se muito bem com Don’t Talk to Strangers, provavelmente a melhor coisa que fez até hoje. Ah! Claro, o Fates Warning é responsável pelo grande momento do CD: Sign of the Southern Cross, do Black Sabbath.

Outro medalhão do metal entrou no esquema. Nos dois volumes de Legends of Metal, o Judas Priest esteve representado por nomes da velha e jovem guarda do estilo. O resultado não foi tão bom quanto o de Holy Dio – A Tribute to the Voice of Metal, mas Helloween (The Hellion/Electric Eye), Fates Warning (Saints in Hell), Mercyful Fate (The Ripper), Testament (Rapid Fire), Saxon (You’ve Got Another Thing Comin’) e Overkill (Tyrant) não deixam a peteca cair.

Com seguidores desconhecidos e iniciantes, Rebellion e Warning: Minds of Raging Empires… foram os presentes para o Queensrÿche, pioneiro do progressive metal. Claro que o repertório privilegia até Promised Land (1994), já que a partir daí a banda simplificou seu som e deixou de ser referência. Ao mesmo tempo em que há versões muito boas, como Deliverance (Black Symphony, presente com a mesma música nos dois CDs) e Anybody Listening? (Moon of Steel), encontramos verdadeiros atentados fonográficos, como a versão do Darkside para Someone Else?. A banda brasileira Karma, que teve a foto trocada no encarte, comparece com I Am I, que teria ficado melhor não fosse o desnecessário apelo com berimbau e tudo mais no fim da música. Não combinou.

A ideia acabou se popularizando, e grupos começaram a lançar trabalhos com algumas de suas músicas favoritas de seus artistas prediletos. De Ramones a Helloween, o extremo musical é atestado com o ex-Marillion Fish. E ainda temos Pat Boone (sim! Alguém lembra?), The Jeff Healey Band, Yngwie Malmsteen et cetera. Um pouco mais recente, Renegade (com músicas de Bob Dylan, Rolling Stones, MC5, The Stooges, entre outros) foi o canto dos cisnes de Zack de la Rocha no Rage Against the Machine.

Ao contrário dos estilo Ramones presente em todas as faixas de Acid Eaters, o Helloween equilibrou as influências díspares com versões distintas em Metal Jukebox (1999). Locomotive Breath (Jethro Tull) e He’s a Woman, She’s a Man (Scorpions) ficaram ainda melhores com o excelente trabalho do batera Uli Kusch, enquanto From Out of Nowhere (Faith No More) e Space Oddity (David Bowie) permaneceram intactas. Hocus Pocus (Focus) ficou no meio termo e foi uma agradável surpresa. Para fechar a mistura, All My Love, dos Beatles, ganhou a roupagem da banda alemã que certamente fará os puristas torcerem o nariz.

Emerson, Lake & PalmerJimi HendrixJoe SatrianiJudas PriestQueensrÿcheRonnie James DioRushSteve VaiYes

Em Songs from the Mirror, Fish manteve a alta qualidade de sua carreira solo. Rock progressivo? Sim, em Time and a Word (Yes), Fearless (Pink Floyd) e, claro, I Know What I Like (Genesis). Regravações do Marillion? Apenas nos discos “convencionais” (e não foram poucas, aliás). Outros dois trabalhos bem interessantes são Cover to Cover, da banda de Jeff Healey, e Inspiration, do sueco Yngwie Malmsteen. Bem verdade que o primeiro é mais agradável aos ouvidos. Badge (Cream), Communication Breakdown (Led Zeppelin) e Freedom e Angel (Jimi Hendrix) já valem qualquer álbum, ainda mais com o talento e o feeling de Healey. No entanto, Malmsteen merece respeito (goste-se ou não, é inegável que a história da guitarra é dividida em antes e depois dele – tudo por causa da obra-prima Rising Force, de 1984). Apesar de ter estragado Child in Time (Deep Purple) e Anthem (Rush) – e apenas Jeff Scott Soto consegue salvar Mistreated (também do Purple) –, o guitarrista acerta a mão em Carry on My Wayward Son (Kansas), Gates of Babylon (Rainbow), In the Dead of Night (UK) e The Sails of Charon (Scorpions).

Nessa leva, um trabalho que deveria ser encarado como uma gozação acaba sendo o mais interessante. No More Mr. Nice Guy – In a Metal Mood traz não apenas Pat Boone fazendo pose caricata de roqueiro, mas também versões impagáveis no melhor estilo big band. Ficaram simplesmente irresistíveis as releituras de Smoke on the Water (do Deep Purple, com participação de Ritchie Blackmore), Panama (Van Halen), Enter Sandman (Metallica), Holy Diver (Dio, contando com o próprio) e Crazy Train (Ozzy Osbourne). Esta última, aliás, é o tema de abertura do reality show The Osbournes.

Joe Satriani e Steve Vai tiveram seis de suas músicas divididas em Lords of Karma. Ou quase, pois 50% do material de Vai foi tirado da fase em que ele tocava com o ex-Van Halen (?) David Lee Roth. Não importa muito, pois apenas o desconhecido Toni Janflone Jr. se sobressai, com uma boa regravação de Tender Surrender. Ah, claro, não podemos esquecer-nos de Satriani. Mas quem lembrou melhor do que ninguém foi Bruce Kulick (Grand Funk, ex-KISS), que fez uma belíssima versão acústica de Always With Me, Always With You.

Ao ser dispensado do KISS junto a Kulick em 1996, quando a banda voltou com a formação original, o batera Eric Singer chamou o companheiro para o ESP (Eric Singer Project), ao lado de John Corabi e Karl Cochran. O ótimo CD homônimo é acima de tudo um tributo ao bom e velho rock’n’roll, com Four Day Creep (Humble Pie), Changes e Foxy Lady (Jimi Hendrix), Never Before (Deep Purple) e Won’t Get Fooled Again (The Who), entre outras.

Para fechar com chave de ouro, nada melhor que Jimi Hendrix, o melhor e mais importante e influente guitarrista da história da música (o clichê, quando verdade, é inevitável). Entre vários tributos a Hendrix – Paul Rodgers e o ótimo Hendrix Set, a banda alemã The Hamsters com um surpreendente duplo ao vivo et cetera –, dois merecem destaque: Stone Free e In from the Storm. No primeiro, Eric Clapton (Stone Free), Buddy Guy (Red House), Seal and Jeff Beck (Manic Depression) e Living Colour (Crosstown Traffic) obrigam você a sair correndo atrás do CD.

Mas o prato principal está em In from the Storm. Sem perda de tempo: Have You Ever Been (To Electric Ladyland), com Buddy Miles, Steve Lukather e Stanley Clarke; Spanish Castle Magic, com Santana e, mais uma vez, Clarke no baixo; The Wind Cries Mary, com Sting, John McLaughlin e Vinnie Colaiuta; In from the Storm, com Corey Glover e Billy Cox; Drifting, com Steve Vai e novamente Glover; Bold as Love, com Paul Rodgers e Vai; e a participação da London Metroplitan Orchestra, cujos arranjos enriqueceram o trabalho. Essencial.

Infelizmente, é (quase) impossível ter acesso a todos os tributos, principalmente porque já foram lançados um sem-número deles. E há mesmo espaço para todos: Accept, Dream Theater, Grand Funk, UFO, Thin Lizzy, Helloween, Savatage, Creedence Clearwater e Whitesnake, entre outros, já foram homenageados. Até bandas de black e death metal, em iniciativa da Dwell Records, deixaram fãs de KISS, Rush e Iron Maiden com ânsia de passar um prego nos CDs. O segredo é simples: ouça antes de desembolsar o dinheiro.

Matéria publicada na edição 85 do International Magazine, em julho de 2002. Em três partes, um passeio pelos discos de vários artistas homenageando grandes bandas. Um enorme filão à época e em alguns anos seguintes, por isso pede uma nova trilogia a ser publicada aqui em algum momento de 2018.

Angra – Rebirth World Tour Part 1

Por Daniel Dutra | Fotos: Guilherme Andrade/Divulgação

Lançado no mês de abril, o primeiro home video do Angra, Rebirth World Tour Part 1 – Live in Rio de Janeiro 2001, tem de ser analisado sob a perspectiva do fã. Principalmente dos 1.500 que lotaram o Garden Hall no dia 16 de dezembro, quando assistiram ao único show da turnê do excelente Rebirth na Cidade Maravilhosa. Produzido pelo fã-clube da banda, o trabalho nada mais é que um pirata oficial, com o indispensável “for fans only” na capa. Não poderia ser de outra maneira.

Depois do insosso Fireworks e das dúvidas em relação ao futuro, em consequência da saída de três integrantes, principalmente a do vocalista André Matos, o Angra se recuperou e retomou o posto que é seu por direito – o de umas das melhores bandas de heavy metal melódico do mundo – e certamente merecia algo de melhor qualidade. Mas vá explicar isso para quem colocou a banda no topo em diversas categorias das eleições de melhores do ano passado…

Além de cenas de backstage – algumas hilárias, como Kiko Loureiro imitando a postura de palco de Edu Falaschi –, o video, gravado apenas com uma câmera, com visão do público, vem apenas com músicas do último trabalho – apenas Judgement Day e Visions Prelude ficaram fora. No fim das contas, serve para atestar que poucas bandas hoje em dia têm um time de músicos com a qualidade técnica da atual formação do Angra (goste-se ou não de virtuosismo, há de se convir que é imprescindível para o estilo).

Nas guitarras, Kiko Loureiro mostra o porquê de ser um dos mais respeitados do país, enquanto Rafael Bittencourt evoluiu sensivelmente, atingindo a excelência de suas composições. Com apenas 21 anos, o baixista Felipe Andreoli prova ser o menino-prodígio que todos falavam (pena que seu duelo com Kiko não esteja presente). O vocalista Edu Falaschi, com a pior de todas as missões, cada vez menos precisa provar alguma coisa, e sua grande performance em Heroes of Sand e Millennium Sun é fato comprovado. Quanto a Aquiles Priester, sejamos mais uma vez sinceros: o cara é o clone do Deen Castronovo, e este é um dos maiores elogios que um baterista pode receber. Não há como não ficar impressionado com sua técnica, criatividade e trabalho nos dois bumbos (seu solo consegue arrancar aplausos até dos mais leigos).

Enfim, o vídeo serve mesmo como aperitivo. Agora, o senso crítico aguarda o lançamento do EP Hunters and Prey, marcado para junho e que terá a regravação de Kashmir (Led Zeppelin), e do DVD prometido para o segundo semestre. Este sim será o fiel da balança, já que o Angra teve sua apresentação no Via Funchal, em São Paulo, gravada com equipamento de ponta, e os extras prometem ser saborosos para a fiel legião de fãs da banda.

Resenha publicada na edição 84 do International Magazine, em junho de 2002. Apesar de inserida aqui na seção DVD/Blu-ray, o título foi lançado apenas em VHS, em edição limitada e numerada. Não lembro exatamente quantas cópias foram colocadas à venda, mas a minha é a nº 419 (sim, eu ainda tenho a fita).